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O Guia Michelin vale a pena?

por Miguel Pires, em 14.06.12
Aproveito o post de Carlos Maribona sobre os restaurantes com estrelas Michelin em Portugal, bem como  a noticia que ele mesmo deu (e que o Duarte Calvão replicou no penúltimo post) sobre a mudança de director no guia para deixar um artigo meu publicado no Fugas, do jornal Público, em Dezembro passado. Entremeado entre o Natal e o fim de ano, este texto acabou por passar despercebido. Contudo parece-me oportuno publicá-lo aqui - até porque fala-se muito das estrelas do guia mas parece que ninguém (que eu tenha notado) deu a devida atenção ao seu conteúdo.
Para quem se interessa restaurantes sabe a importância e prestigio das estrelas Michelin. No entanto muito se fala destas distinções, mas pouco ou nada sobre o conteúdo do guia que as atribui - cujos restaurantes ‘estrelados’ são uma ínfima minoria, sobretudo no nosso país. Proponho então uma visita ao Guia Michelin referente a Portugal, um guia que se publica há mais de 100 anos e cuja edição 2012 foi recentemente lançada.

O guia vermelho, como também é conhecido, traz uma selecção de hotéis e de restaurantes, com indicações úteis e uma breve descrição de cada um. Os estabelecimentos estão divididos por localidades (de A a Z) e são-lhe atribuídas categorias (de “simples mas confortável” a “grande luxo”) e distinções: Bib Gourmand (“boa comida a preços moderados” – até 30€, sem vinhos), Bib Hotel (o equivalente, para hotéis) e as famosas estrelas (uma estrela significa “muito boa cozinha na sua categoria”; duas estrelas, “excelente cozinha, vale a pena fazer um desvio”; e três estrelas, “cozinha excepcional; esta mesa justifica a viagem”). 

Centremo-nos e nas escolhas para Portugal e em particular nos restaurantes – aquilo que deu fama ao guia e a verdadeira razão de compra do mesmo. Desta vez deixemos de lado também as estrelas (alvo de destaque no/na Fugas de 3 de Dezembro) para nos focarmos nas outras preferências dos inspectores, que embora menos polémicas, por não serem mediáticas, não são menos discutíveis.
 
A Michelin garante que todos os inspectores “são do país no qual trabalham”. Sendo a sede do grupo em Madrid quer dizer que estes são, pelo menos, do país vizinho. Ter alguém com uma visão de fora, mais distanciada, a avaliar os nossos restaurantes, até pode ser positivo, desde que essas pessoas conheçam o país, e as suas regiões, bem como a sua gastronomia, quer tradicional, quer actual. Ora no guia existem casos que levantam algumas dúvidas. Por exemplo: não deixa de ser estranho que dos 43 Bib Gourmand atribuídos nenhum seja do Porto; que Lisboa possua apenas 2 (Solar dos Nunes e D’Avis), quando há pelo menos uma dezena de concorrentes, tão bons ou melhores, dentro do género, como o Solar dos Presuntos, Tia Matilde, Salsa e Coentros, ou O Galito. Estes dois últimos não fazem sequer parte do guia, como não fazem, também, alguns locais de referência mais antigos como a Casa Aleixo (Porto); Pap’Açorda e Ramiro (Lisboa); São Rosas e Adega do Isaías (Estremoz). Ou mais recentes, como, o  Ferrugem (Famalicão), Shis e Sessenta Setenta (Porto), Spazio Buondi/O Nobre, Largo, Panorama, Alma e Tasca da Esquina (todos em Lisboa). O Panorama é ainda uma ausência mais inexplicável porque é claramente um restaurante de estrela, mas adiante.

Quanto às descrições, em geral são feitas de forma concisa e clara, embora alguns casos pareçam ter sido despejados no tradutor do Google. Exemplos:
“Restaurante assentado e bem consolidado” (Três Palmeiras, Albufeira); “Aconchegante ambiente e dependências de ar típico, com uma adequada montagem e um esplêndido chão empedrado” (Solar dos Nunes, Lisboa). Também há referências poéticas, como a do restaurante S. Gião, em Moreira de Cónegos: “o seu diáfano refeitório possui grandes vidrais com vistas sobre as montanhas” - mesmo que das janelas da agradável sala do restaurante de Pedro Nunes se vislumbre, acima de tudo, uma vinha e o campo de futebol do Moreirense.
.
Em suma com mais ou menos polémica o Guia Michelin vale mais pelas estrelas que atribui do que pelo conteúdo global. Nesse sentido é preferível optar pela edição Espanha & Portugal (23.90€), do que pela versão apenas de Portugal (15€). Sempre são 152 restaurantes ‘estrelados’ para descobrir contra 12 da edição portuguesa. 

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publicado às 08:36


4 comentários

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De Raul Lufinha a 15.06.2012 às 19:40

Outro aspecto curioso dos guias Michelin é a diversidade da mancha gráfica (em contraste com a pretendida uniformização global dos critérios de classificação). Com efeito, enquanto que os guias dos países (como España & Portugal ou Portugal) parecem uma mera lista telefónica, os das cidades (Nova York, Londres ou Paris, por exemplo) já são mais evoluídos, com melhor papel, meia página por restaurante e uma página inteira (com fotografia da sala) por restaurante estrelado. Aliás, o guia de Hong Kong & Macau até tem duas fotografias por restaurante, uma da sala e outra de um prato!
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De Miguel Pires a 15.06.2012 às 22:54

Bem visto, Raul. Já nem me lembrava dessas diferenças!
p.s. este vem com atraso: parabéns pelo seu blogue http :/ mesa-do-chef.blogs.sapo.pt /). Já consta da nossa barra lateral
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De Raul Lufinha a 16.06.2012 às 12:46

Muito obrigado, Miguel. Desde os tempos do Chez Pires que tenho tido o gosto (e o proveito) de o acompanhar!
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De António Moura a 16.06.2012 às 22:52

O guia, no que se refere a Portugal, só serve para enunciar quais são os restaurantes com estrela Michelin. Tudo o resto é uma nulidade.
Esperemos mudanças !

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