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Restaurante Uva (Hotel The Vine - Funchal)

por Miguel Pires, em 09.07.12

Cozinha francesa no anfiteatro do Funchal

 

 

 

Como destino turístico que é, a Madeira é pródiga em hotéis de luxo. No entanto no que diz respeito a restaurantes de fine dining o panorama é modesto. Ou porque os turistas preferem jantar no hotel, ou porque quando saem privilegiam a gastronomia e os restaurantes locais. Se falarmos então em locais de cozinha de autor, há o Il Gallo d’Oro (no Hotel Cliff Bay), com uma estrela michelin, o Uva, e...pouco mais.

Foi precisamente neste último, inserido no Hotel The Vine, que tive oportunidade de jantar numa visita recente à ilha. Este hotel não fica no Lido, ou em cima do mar, como a generalidade dos seus pares do Funchal, mas sim no centro da cidade. Como particularidade tem o facto de partilhar um enorme de hall de entrada com um centro comercial (Dolce Vita), algo comum no Oriente, por exemplo, mas inédito por cá (que eu saiba).

 

O hotel começa no primeiro piso. Contudo, o restaurante fica no sexto andar, no terraço que alberga uma esplanada e a piscina. Aqui a paisagem é deslumbrante e diferente do habitual. Como o edifício se situa numa zona baixa do centro da cidade, a vista do terraço faz-nos sentir como se estivéssemos no palco de um anfiteatro, com o pontilhado das luzes das casas na encosta a marcar presença. O restaurante está aberto apenas ao jantar e se no verão se pode cear no exterior, próximo da piscina, nesta época (Abril) ainda é aconselhável fazê-lo no interior. Na sala, de decoração contemporânea, elegante, ampla e com janelas vastas que permitem aos olhos alcançar o mar, sentam-se 34 pessoas, com o conforto necessário, havendo ainda um segundo espaço mais reduzido com uma mesa para 8 pessoas.

 

A atmosfera é agradável e a faixa etária parece mais jovem do que é habitual na Madeira. No dia em que jantei, a meio da semana, os clientes eram quase todos estrangeiros. Havia um grupo de 16 pessoas, o que me fez temer o pior, mas tirando o atraso no serviço, em nada perturbou a refeição.

Como não havia escolha à carta fiquei sem saber se, noutra altura, tal como na Fortaleza do Guincho, seria possível encontrar alguns dos pratos clássicos de Antoine Westermann, o Chef consultor de ambos os restaurantes.

Optei pelo Menu de Degustação de cinco pratos (80€) proposto pelo Chef executivo, Thomas Faudry . A outra alternativa era o menu ‘gourmet experience’, com duas hipóteses de entrada e de prato principal e uma de sobremesa (35€).

 

 

Já devidamente instalado chegou-me o pão. Bom por sinal: quatro tipos diferentes, de várias misturas de cereais e sementes e aquela ligeira nota azeda que marca a presença de um bom fermento. Depois de algum tempo de espera chegou o ‘amouse bouche’: gaspacho, 'royal de foie gras' e gelatina de Madeira e queijo em massa folhada. Correctos e saborosos estes dois últimos, discutível, o gaspacho, por não ser a época ideal. Fiquei a pensar na lógica da ligação entre três propostas de origens diferentes mas não cheguei a conclusão nenhuma (talvez porque não tinha mesmo lógica).

Antes de continuar faço um interlúdio para falar dos talheres. Nestes anos que levo de critica gastronómica é a primeira vez que o faço mas foi também a primeira vez que apanhei um conjunto, de apreciável design, é certo, mas acentuadamente desequilibrado, sobretudo, o garfo, que teimava em escorregar e em virar-se sempre que o pretendia espetar. Será que ninguém do restaurante os testou, antes dos comprar?

Voltando à refeição. Como primeiro prato fui presenteado com uma ‘nage’ de legumes com vieiras escalfadas. Achei que esta técnica iria exaltar o sabor adocicado das vieiras, mas um suave caldo de tomate trouxe a acidez suficiente. Foi um prato dócil, como o nome do Vinho Verde da Niepoort que o acompanhou.

De seguida veio um ovo biológico em ‘cocotte’ com cogumelos salteados e sua espuma, coulis de salsa e ‘mouilletes’ (palitos) de pão. Prato simples, sabores delicados e envolventes. Depois fez a vez um robalo assado, endívias estufadas com sumo de laranja, coulis de salsa (novamente), nozes e avelãs. Gostei muito desta proposta. O ligeiro amargor da endívia, com um toque doce ácido da laranja, as notas torradas dos frutos secos e o sabor característico da salsa a ligaram a preceito com sabor delicado de um robalo cozinhado no ponto.

Mas o melhor viria a seguir com um pombo recheado de foie gras de pato, couve estufada com toucinho. Começo por referir que não sou grande adepto do sabor assertivo da carne desta ave. No entanto, a sua combinação com a gordura e o sabor prolongado do foie gras deu uma maior envolvência e complexidade ao par (ajudou, também, a opção por um ‘jus’ mais ligeiro do que o habitual). E ainda houve o fumado e o salgado do toucinho a espevitar e a dar uma textura contrastante, e uns pedaços de maçã, bem como a couve lombarda a refrescar e a amenizar o conjunto.

Com a refeição em crescendo já só pedia que a sobremesa não destoasse. Embora a nota técnica - como diria Jorge Jesus - não tenha sido a mais elevada, a proposta reuniu, com bons resultados, gelado de castanha, gelado de Madeira ‘Alvada’ e ainda um sorbet da agradável e ligeiramente amarga tangerina local. 

 

‘nage’ de legumes com vieiras escalfadas

 

robalo assado, endívias estufadas com sumo de laranja, coulis de salsa, nozes e avelãs

 pombo recheado de foie gras de pato, couve estufada com toucinho

 

gelado de castanha, gelado de madeira ‘Alvada’ e sorbet de tangerina 

 

No capítulo dos vinhos, tendo em conta o nome do restaurante e do hotel, esperava uma carta mais completa (são cerca de 200 as referências disponíveis). Ainda assim é uma carta bem pensada, com escolhas menos óbvias, bem organizada e com a informação essencial sobre cada vinho. É dado destaque à região da Madeira, quer nos vinhos de mesa (que constam logo no inicio) quer, como seria de esperar, nos fortificados. De resto temos o domínio habitual do Douro e do Alentejo que representam mais de 60% dos vinhos de mesa, numa lista onde os tintos estão em larga maioria (70% contra 30% de brancos). Há ainda uma selecção de espumantes (4 nacionais, 17 de Champanhe), colheitas tardias (8) e fortificados (40, dos quais 26 Madeiras). Vinhos estrangeiros apenas nestas últimas categorias. Em termos de preços predomina, infelizmente, a tendência altista que se verifica em certos hotéis, o que é mais grave porque, na Madeira, o preço do transporte agrava ainda mais a situação – foi-me dito que, dada a conjuntura, e apesar do aumento do Iva, alguns preços iriam ser corrigidos para baixo (bem como o número de referências). O jantar foi acompanhado por uma selecção de vinhos a copo recomendado para o menu, uma escolha adequada (em geral), quer em termos de ‘pairing’, quer em termos de preço (27€), tendo em conta o que referi atrás. Dócil 2010, Campolargo Bruto 2009 , Quinta do Carmo branco 2010, Stanley Reserva 2008 (tinto) e Blandy’s 5 anos foram os eleitos.

Em relação ao serviço destaco o atendimento que foi de bom nível, tanto no trato como no profissionalismo demonstrado. Só foi pena que tenha sido demorado – o que penso dever-se mais à cozinha do que à sala.

 

A cozinha de Thomas Faudry não foge ao padrão de um certo classicismo de uma cozinha francesa que muito aprecio, mas que por vezes se repete, independentemente do local do mundo onde se encontra. Aqui, no Funchal, Faudry consegue incutir uma certa personalidade e mostra-se permeável à envolvente onde está inserido.

Melhore-se a rapidez no serviço, evite-se a repetição de certos elementos no menu (o coulis de salsa e o tomate – este, no caldo de legumes e no gaspacho – surgiram, ambos, em pratos seguidos); proceda-se à substituição dos talheres e baixe-se o preço excessivo dos vinhos e terão aqui um prescritor convicto.

 

 

Cozinha: 17.5 ; Sala: 17.5; vinhos: 17

 

Preço médio: 55€ (entrada, prato e sobremesa). Pela refeição descrita pagou-se 75€/pessoa, sem vinhos

 

Contactos:

 

Rua dos Aranhas 27- A, Funchal - Madeira;  Tel:(351) 291 009 000; www.hotelthevine.com

 

Texto publicado originalmente na revista Wine de Abril 2012

 


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publicado às 11:58


1 comentário

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De Charles Duailibi a 09.04.2015 às 17:13

Recentemente o Restaurante Uva, agora Uva Restaurant & Wine Bar, sofreu remodelação, tanto no conceito como no layout do Restaurante. O espaço é ainda mais convidativo, acolhedor e os preços mais acessíveis, com uma média entre 30€ a 45€ por pessoa para refeição À la carte com 3 pratos.
Agora sob a alçada do Chef Executivo Thomas Faudry, oriundo da região de Cognac, o qual mantendo-se sempre fiel a fusão que vem sendo feitas entre os "Savoir faire" das cozinhas francesas e madeirense, vem nos apresentar um Menu harmonizado com as estações do ano e naturalmente com o Terroir da ilha.

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