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The Deprimente

por Duarte Calvão, em 03.08.12

Ele há coincidências curiosas. Ainda não tinha secado a tinta das linhas deste post, em que eu garantia que não voltaria ao The Decadente, quando um amigo que vive no estrangeiro e está de férias em Lisboa me convidou para ir jantar, com outro amigo, ao The Decadente, escolhido por sugestão deste último. Ainda hesitei, mas acabei por aceder, pensando que o destino queria que eu conhecesse a cozinha deste restaurante que tanto tem dado que falar. Avisei que era melhor reservar, mas quando tentaram disseram que apenas reservavam metade das mesas e as restantes eram para quem chegasse primeiro. Por isso, era melhor ir cedo.
Ainda mais um amigo juntou-se a nós e por isso éramos quatro à mesa. Fui o primeiro a chegar, às 20h, mas, escaldado pela experiência anterior que aqui relatei, esperei que chegasse mais alguém para tentar obter mesa, embora tivesse verificado que ainda havia várias vazias. Assim foi e desta vez correu bem, com um chefe de sala a indicar-nos prontamente as mesas disponíveis e dando-nos a escolher.
Até aqui estava tudo a correr bem, atendimento atencioso e rápido, mesas bem aparelhadas, ambiente animado, estava satisfeito por o acolhimento ter sido desta feita correcto e profissional e decidi não contar o que se tinha passado da vez anterior para não influenciar os amigos que me acompanharam e que felizmente são apenas leitores esporádicos do Mesa Marcada.
Pedimos duas entradas para partilhar, pica-pau e morcela com chutney de cebola. Nos pratos principais, dois pedidos de raia com citrinos e um de bife. Para mim, bochechas de porco com batata-doce e redução de vinho tinto. Teria optado por peixe, mas os pratos que me interessavam tinham como acompanhamento arrozes malandrinhos diversos, que não aprecio.
E foi aqui que as coisas começaram a correr mal. O pica-pau constava de umas tiras rijas de carne, com um molho insosso onde vagueavam umas lâminas de alho que tinham o condão de não transmitir nenhum sabor ao conjunto. A morcela estava melhor, mas nada de especial.
Provei dos pratos principais. Embora bem temperada, a raia estava “castigada” e seca, tratada sem a delicadeza que exige. Faço melhor em casa. O bife era de uma banalidade atroz. As bochechas, que se anunciavam como tendo estado 12 horas a cozinhar lentamente, igualmente secas (que saudades que eu tive nessa altura de Miguel Castro e Silva e de Luís Baena, que tão bem as sabem tratar…), mas o desastre era o molho adocicado, que, para mais com o acompanhamento das batatas-doces, destruía o conjunto. Ainda verifiquei se tinha visto bem o nome do prato, se além do vinho tinto, havia algum xarope incluído, mas não, era assim mesmo. Creio que nem redução de vinho do Porto daria resultado tão enjoativo. A única qualidade do molho era ser relativamente escasso, dando para safar alguns pedaços de carne da sua presença.
A minha sobremesa, uma trilogia de gelados de chocolates caseiros, estava boa e bem apresentada, mas os meus amigos que pediram umas variações de arroz doce, disseram-me que, fora a canela, não tinham sentido mais nada.
No fim, bebendo duas imperiais e uma garrafa de vinho tinto (18 euros), ficou perto de 30 euros por pessoa. Não me queixaria do preço, dada a qualidade do espaço do restaurante, se a cozinha não fosse tão banal e mal executada. Os meus amigos, todos habituados a boas mesas, também estavam decepcionados.
Ninguém pense que tenho algo contra este restaurante. Pelo contrário, parece que a unidade hoteleira em que está instalada é de grande valia, situada num ponto magnífico de Lisboa, e acredito que os proprietários tenham apostado na qualidade não só da decoração como da cozinha. Mas sai de lá deprimido, apesar da boa companhia à mesa e do ambiente animado. Como é possível que um restaurante novo, que deveria ter ambição e imaginação, surge com uma cozinha destas? E como é possível que haja tanta gente que lá vai e cujo grau de exigência seja tão baixo que não perceba o mal que está a comer, em pratos embrulhados em falsa modernidade? Creio que desta é que não volto mesmo lá, nem que os meus melhores amigos me convidem. A não ser que, um dia, a cozinha mude. Mas não creio que o faça. Porque haveria de mudar se agrada a tanta gente?

 

Foto: Best Tables

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publicado às 18:03


21 comentários

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De José Tomaz de Mello Breyner a 03.08.2012 às 20:45

Porque haveria de mudar se agrada a tanta gente?

Esse é o problema meu Caro Duarte, com o sucesso que eles têm, os donos estão certamente convencidos que estão a trabalhar bem.
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De Duarte Calvão a 04.08.2012 às 10:15

É isso mesmo, José Tomaz. Creio que só o mercado, ou seja, os clientes, é que pode ajudar este género de espaços a evoluir. Aliás, isso já aconteceu com a decoração. Desde de que começámos a viajar mais, começámos também a exigir maior qualidade, comparável à que víamos noutros países.
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De Catarina Trindade a 28.03.2013 às 16:50

As modas tem muitas vezes o efeito de diminuir a capacidade de discernimento e acho que é o que se aplica aqui.
E é também isso que acontece com o que se encontra na outra ponta do espectro, onde as cadeias de junk e fast food proliferam a olhos vistos. Por mais voltas e "limpezas" que deem ao que vendem, no meio dos seus clientes não há massa crítica que os possa parar, ou sequer melhorar - coisa que seria impossível porque para melhorar simplesmente teriam de deixar de ser o que são.
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De Artur Hermenegildo a 28.03.2013 às 18:18

Não necessariamente. O H3 e o Wok to Walk são dois exemplos de fast food com alguma qualidade. E acho que os clientes distinguem - é ver as filas em todos os H3 à hora do almoço, muitas vezes com balcões ao lado vazios ou quase.

A Loja das Sopas também é interessante.

Mas é claro que a maioria de facto não tem qualidade. Mas o mesmo se pode dizer da maioria dos cafés que se transformam em restaurantes à hora de almoço, etc.
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De Paulina Mata a 01.04.2013 às 14:08

Algumas são más, outras nem tanto. Tendo em conta o preço, o tempo e a consistência, direi mesmo que a relação qualidade/preço é muito boa em muitas delas. E a imaginação, variedade, qualidade, higiene, valor nutricional é em muitos casos melhor do que muitos outros restaurantes de que é politicamente correcto dizer que se gosta.

É altura de começar a olhar para as coisas sem preconceitos e tendo em conta objectivos, custo, qualidade, consistência, ambiente...
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De Catarina Trindade a 01.04.2013 às 14:43

Quando mencionei junk food queria apenas restringir o meu comentário precisamente às que se encaixam no termo. Subscrevo por inteiro o que a Paulina disse...
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De Louise Kamber a 03.08.2012 às 23:16

Boa tarde,

Como sempre Parabéns pelas fantásticas crónicas que deliciam quem gosta tanto como a MESA MARCADA de degustações gastronómicas!
Porque trabalho diariamente para ter mesas atractivas mas funcionais para serviços de hotelaria e restauração , tomo a liberdade de perguntar o que entende por "mesas bem aparelhadas"!
Agradeço desde já a sua resposta e a sua atenção,

Cordiais Cumprimentos,

Louise Kamber
Louise.Kamber@cloche.pt
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De Duarte Calvão a 04.08.2012 às 10:17

Não ligue, é mau português, mas saiu-me assim. Queria referir-me aos talheres, copos, pratos, guardanapos, enfim, a uma mesa bem posta. Acho que foi a primeira vez que usei a expressão e provavelmente será a última. Obrigado pelo comentário.
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De Alexandra Malo a 04.08.2012 às 12:54

Eu gostei da expressão "bem aparelhada"...mostra espontaneidade na linguagem bem como uma forma "ilustrativa" de escrever. Isto demonstra que é um excelente contador de histórias, e essa característica é rara e muito apreciada pelos marketeers...Continue o excelente trabalho e continue a ser espontâneo e honesto na forma de ser, falar e escrever. Obrigada.
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De Louise Kamber a 15.08.2012 às 12:32

Bom dia,

Não me referia ao português utilizado (que não é a minha língua de origem) mas antes á sua opinião sobre o seu conceito na apreciação de uma mesa posta. Mas percebi o que entende por uma mesa bem posta que inclui talheres, copos, pratos e guardanapos. No fundo, o que questiono é se o o esforço que tenho feito para colocar apenas 2 copos, os talheres de entrada e um guardanapo (colocando tudo o resto necessário durante a refeição) em detrimento de ver os meus clientes a quererem "encher" a mesa com tudo o que é preciso para uma refeição.
Claro que não estamos a falar de uma mesa de restaurante o que também é importante distinguir (em termos de mesa) mas quando o consumidor final a colocar "mais de tudo" finalizando com marcadores - considero que a beleza da mesa se perde e perde por vezes até conforto.
Espero um dia poder ler um artigo (talvez num Best Tables ) sobre esta questão envolvendo as formas como as escolas de hotelaria portuguesas ensinam os futuros profissionais e se estamos no caminho mais correcto,
Grata por ter recebido a sua resposta,
Louise Kamber
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De Duarte Calvão a 15.08.2012 às 13:47

Não sou de facto especialista nesta matéria, mas, ao elogiar as mesas "bem aparelhadas" do The Decadente, quis apenas sublinhar que me pareceram adequadas ao estilo do restaurante, sem erros que por vezes comprometem a refeição, como é o caso de copos que não permitem apreciar os vinhos, talheres pouco funcionais, pratos que implicam má apresentação da comida, etc. Quanto a um artigo mais geral sobre o assunto, não serei certamente eu a escrevê-lo, já que, repito, não sou especialista nisso.
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De Louise Kamber a 15.08.2012 às 14:29

Fantástico! Muito obrigada pela sua resposta.
Hoje vou de férias e como todos os anos para encontrar mais Mesas Postas, falar com especialistas desta área e fazer algumas degustações - vou com o seu comentário a olhar com uma perspectiva diferente - entre o gosto mas sobretudo a observar mais o funcional!

Até breve,

Louise Kamber
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De Duarte Calvão a 15.08.2012 às 14:59

Boas férias. Espero que encontre o que procura. Saber procurar nos lugares certos, em vez de perder tempo (e fazer perder tempo aos outros) nos errados, é uma arte que nem todos dominam...
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De mpedro a 04.08.2012 às 19:44

E como é possível que haja tanta gente que lá vai e cujo grau de exigência seja tão baixo que não perceba o mal que está a comer, em pratos embrulhados em falsa modernidade?

Compreendo perfeitamente este comentário. Tive esta mesma impressão quando fui ao restaurante MESA no Porto e um pouco melhor mas também decepcionante no DOP na mesma cidade. Basta ir ao Pedro Lemos ou ao Yeatman ou até ao desconhecido Loureiro (antigo Poleiro) para ver a diferença de qualidade na cozinha.
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E como é possível que haja tanta gente que lá vai e cujo grau de exigência seja tão baixo que não perceba o mal que está a comer, em pratos embrulhados em falsa modernidade? <BR><BR>Compreendo perfeitamente este comentário. Tive esta mesma impressão quando fui ao restaurante MESA no Porto e um pouco melhor mas também decepcionante no DOP na mesma cidade. Basta ir ao Pedro Lemos ou ao Yeatman ou até ao desconhecido Loureiro (antigo Poleiro) para ver a diferença de qualidade na cozinha. <BR><BR class=incorrect name="incorrect" <a>parabens</A> pelo blog.
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De maria josé macedo a 05.08.2012 às 11:43

O marketing funciona sempre... ou quase. E não são assim tantas as pessoas com gostos próprios... felizmente há quem consiga pôr os pontos nos iiii!
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De Anónimo a 06.08.2012 às 11:18

Não percebo porque é que afinal voltou ao Decadente, não tinha dito no post anterior que não o apanhavam lá mais?
E já agora, isto é uma questão pessoal sua? É que parece, dado à forma como escreve....
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De Anónimo a 06.08.2012 às 17:28

Quanto a mim foi justo.

O autor tentou dar uma segunda oportunidade ao restaurante.

Correu mal novamente, ou seja o espaço mostra um padrão.
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De João Claro a 06.08.2012 às 19:54

Adorei a subtil ironia "E como é possível que haja tanta gente que lá vai e cujo grau de exigência seja tão baixo que não perceba o mal que está a comer, em pratos embrulhados em falsa modernidade?"

Infelizmente muitos dos clientes de alguns restaurantes não moda não sabem nada de culinária nem de gastronomia, ficou moda marcar presença nestes locais ( não todos!) e renderam-se ao marketing e à fantasia de armarem-se em gourmets , que nos dias de hoje proliferam como cogumelos, de igual maneira que os dj´s e os fotógrafos.
Muitos restaurante converteram-se assim numa sorte de HolmesPlace , onde é preciso estar para dizer que se está, e não ser menos do que o resto dos cromos conhecidos que vivem para ser vistos.

Caso contrario, o marketing referido, não teria nenhum efeito.
Mas... somos de pancada colectiva e "comemos" todo o fumo quanto a vaidade cria e ainda agradecemos a dita!
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De JVC a 07.08.2012 às 13:49

Parece haver um conúbio de críticos, restauradores, promotores turisticos, todos a moldar uma opinião acrítica do consumidor. Diga-se que muitos desses consumidores, nova geração yuppie, inculta e de mau gosto, não merece melhor.

A meu ver, a crítica de restaurantes anda muito por baixo. Há uns bonzos desatualizados, há uns recém-chegados que bebem todas as modas. É preciso dizer-se que o rei vai nu. É o que os meus amigos fazem. Bem hajam.
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De The Skinny Eater a 07.08.2012 às 16:54

Fui até ao The Decadente levada pelas modas dos brunches. Fui apanhada na moda de juntar o pequeno-almoço ao almoço e ao lanche (até porque já o fazia em casa desde pequena, só nunca lhe demos nome!).
Fiquei imensamente desiludida. Sim até foi em conta mas era só isso...só o preço foi bom. Pode-se dizer que comemos o que pagámos. Sumos concentrados onde basta juntar água (o sumo de morango não era mais do que umas sementes manhosas a boiar numa água rosa sem sabor algum), bolos em que basta juntar leite e levar ao forno (ou microondas), saladas de pacote, panquecas de pacote (eu conheço-lhes o sabor...)...enfim, fraquinho, fraquinho.
Ainda bem que me avisaram sobre as refeições a sério! Gostei tanto do espaço que ia cair no erro crasso de lá voltar para um jantar!

Merci! Thank you! Gracias! Obrigada! =D
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De PR a 07.08.2012 às 17:09

A propósito do anterior comentário, é merecedor de reflexão o artigo publicado anteontem no El País (http://cultura.elpais.com/cultura/2012/08/05/actualidad/1344185088_820913.html), relativo a sites da Internet como o Tripadvisor.com onde os utilizadores deixam "reviews" sobre os locais que frequentaram. Pelos vistos, parece que a critica feita por "anónimos" em alguns casos estará bem longe de não ser motivada...

Relativamente ao The Decadente, dificilmente poderia estar mais de acordo com o Duarte Calvão.

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