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Restaurante Midori - Hotel da Penha Longa

por Miguel Pires, em 05.11.12

O Japão renovou-se em Sintra

Em Portugal a existência de restaurantes de referência em grandes hotéis (ou em hotéis das grandes cadeias) continua a ser parca, pelo que um que conte com três espaços gastronómicos diferenciados é, por si só, um caso digno de registo. Refiro-me ao Hotel da Penha Longa, em Sintra, que debaixo do mesmo tecto alberga os restaurantes Arola, Il Mercato e Midori. O Arola, com um menu “estilo tapas”, tem a assinatura do conhecido chefe espanhol, Sergi Arola, e conta com um chefe executivo português, Bruno Neves (Ex-Eleven), com alguma rédea para criar pratos e introduzir sabores nacionais. O Il Mercato apresenta uma cozinha italiana tradicional de qualidade com uma ou outra proposta mais arrojada. Finalmente, o Midori, sobre o qual irei escrever, foi um dos primeiros restaurantes japoneses em Portugal e renasce agora (há uns meses) completamente renovado, depois de uma longo período de hibernação

 

Quando abriu em 1993 o Midori impôs-se rapidamente como uma referência em termos de cozinha japonesa de qualidade. Assim se manteve, durante anos, até cair em esquecimento. Um dos chefes que por lá passou foi Paulo Morais e com ele, Cláudio Cardoso, que regressou à casa no ano passado para preparar a abertura. As obras de renovação transformaram o local num espaço elegante, de linhas direitas, com mobiliário sóbrio a condizer - muito ao estilo urbano japonês. Embora ampla, a sala tem várias áreas, entre elas, um sushi bar, um balcão de teppan yaki e três salas privadas.

 

Nesta fase efectuei duas refeições no Midori: uma na abertura, a convite, inserido num grupo de jornalistas e, outra com reserva sob anonimato, como é a prática destas criticas da Wine. Sobre a primeira retive na memória alguns pratos muito interessantes como um belíssimo escabeche de perdiz com passas, pinhões e crocante de Laranja, um sashimi de toro (barriga de atum) com uma ligação menos comum, mas muito bem conseguida, com cebola torrada e parmesão. Ainda uma tenpura perfeita com um toque nacional, ao incluir morcela e um conjunto de sushi de fusão arrojado com umas peças mais bem conseguidas do que outras.

 

Embora uma boa parte das propostas do menu sejam clássicas, este lado de fusão tem uma presença considerável e parece-me concebido com cabeça tronco e membros, sem ligações disparatadas e desconexas, como é comum ver por cá no eixo japa-brasileiro de fusão. Ao almoço a oferta reúne cerca de duas dúzias de propostas, entre saladas, sushi, teriyaki, massas (udon e soba) e sobremesas. Há ainda as Bento Box (25€), muito populares ao almoço, no Japão (caixas com divisões que permitem degustar diversas comidas) e o menu Midori Experience de 4 pratos (36€)

À noite  a lista é significativamente mais extensa. Além dos indicados há sashimi, pratos de peixe e de carne e tenpuras, entre outras mais de 70 propostas. Quem se sentir perdido entre tanta hipótese de escolha pode sempre optar por um dos menus de degustação. Ao jantar não há Bento Box, mas há o Menu Toro, o Wagyu (ambos, 68€) e o Midori, “uma escolha do Chef de produtos do mercado” (75€).

 

gyozas de frango e legumes

A refeição iniciou-se com gyozas de frango e legumes. Recheio e massa bem marcada na chapa, como mandam as regras, e um toque de pó de Sésamo e Alho Francês Crocante a acrescentar valor. Seguiu-se uma tenpura de camarão: bom produto, técnica exemplar, com a polme estaladiça a proteger o camarão e a deixá-lo num ponto de cocção perfeito. Como no anúncio...what else?

Depois veio um daquelas ‘guilty pleasures’ excessivos (no bolso e na saúde) mas que na devida quantidade foi de puro deleite. Junte-se um bom foie gras, um ovo de codorniz e wagyu, a famosa carne vaca de raça japonesa, tenra e raiada de gordura, e o resultado é uma obscenidade. É como uma fartura na feira do livro em versão de luxo. Mais wagyu, desta vez braseado, em nigiri. – dava para perceber que a parte utilizada não era a melhor e mas para o efeito era suficiente. De seguida chegou à mesa, sashimi em seis variedades de peixe: atum (toro/barriga e lombo), pregado, encheréu, pargo e rocaz. Estes três últimos eram dos Açores, proveniência que Cláudio Cardoso privilegia e ainda bem porque têm vocação (textura e sabor, leia-se) para este tipo de prato. Óptima ideia ainda as tiras de algas wakame (creio) a comporem o conjunto e a fazerem a vez do tradicional rábano.

Como penúltimo prato veio ainda sushi (maki) de toro e cebolinho. Como a gordura do peixe amoleceu a alga nori, provavelmente devido ao tempo de espera, o resultado acabou por sair prejudicado. Quando julgava já não conseguir ingerir mais nada, muito menos, massa, eis que chega uma udon irrepreensível, De facto a capacidade desta massa em absorver os sabores do conjunto (vieiras, molho doce de chilli, cebolo, pimentos vermelhos e cogumelos), mantendo sempre uma boa consistência era perfeita – mérito, também, para quem a cozinhou, como é óbvio. Por cá não me recordo de ter comido outra assim. Destaco ainda as vieiras de qualidade que foram utilizadas – nada a ver com a miséria que abunda por aí.

Já a sobremesa, castela e chocolate branco, agradou mais à vista do que ao palato. Esta espécie de pão-de-ló que os portugueses levaram para o Japão é um bolo de sabores subtis sendo boa para acompanhar chá verde, por exemplo. A ideia de o compor numa sobremesa de colher parece-me interessante mas aqui resulta em excesso, devido ao sabor intenso de um chocolate branco, que nem o creme de lima que o acompanhou chegou para atenuar.

 

tenpura de camarão
ovo de codorniz, foie gras e wagyu
sashimi em seis variedades de peixe: atum (toro/barriga e lombo), pregado, encheréu, pargo e rocaz)
Udon com vieiras, molho doce de chilli, cebolo, pimentos vermelhos e cogumelos

castela e chocolate branco

No que diz respeito a vinhos a oferta é razoável: boa no campo dos champanhes (com duas dezenas), fraca nos espumantes nacionais, supostamente mais acessíveis (apenas 4). Nos brancos, roses e tintos nacionais a oferta parece adequada e bem distribuída por regiões. Existem ainda na carta colheitas tardias, generosos (madeiras e portos), brancos e tintos estrangeiros e alguns sakes  -poucos, para o que se podia esperar num restaurante deste nível.

Já quanto política de preços (elevados) parece-me desajustada, sobretudo, porque não segue a linha definida para a comida onde há um esforço por ter preços competitivos de forma a atrair clientes de fora do hotel. A escapatória pode ser o vinho a copo – se não se for de beber muito - onde entre as 15 propostas há algumas a 6€, como o Quinta da Alorna branco que acompanhou a refeição.

Outra situação que gostaria de ver alterada é no serviço. Em geral o staff é atencioso e profissional. No entanto há a tendência, principalmente no primeiro contacto,  para se nos dirigirem em inglês, sobretudo por empregados que se expressam mal (ou não se expressam) em português. Aconteceu-me desta vez e já antes noutra visita a outro restaurante do hotel.

 

Ainda assim não são estes “incidentes” que me impedirão  de voltar. Não só porque o sitio é muito agradável mas, sobretudo, porque a cozinha japonesa de Cláudio Cardoso é executada de forma exímia e com propostas para vários gostos, entre o tradicional e o contemporâneo – sem em deixar de ter uma certa coerência. 

 

Cozinha: 17.5 ; Sala: 17; vinhos: 16.5

 

Preço médio: 25/30€ (almoço); 50€ ao jantar, com bebidas. Pela refeição descrita pagou-se 77€/pessoa

 

Contactos:

 

Penha Longa Hotel Spa & Golf Resort,  Estrada da Lagoa Azul, Sintra-Linhó; Horário: das 12h ás 15h00 e 19h30 às 23h00 (Encerra aos Domingos e Segundas-Feiras); Tel: 21 924 90 94

 

Texto publicado originalmente na revista Wine nº72 - Agosto 2012

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publicado às 10:34



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