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O Lugar das Mulheres é na Cozinha

por Paulina Mata, em 16.11.12

Não é o que ouvimos muitas vezes, em geral com uma conotação negativa? Mas é mesmo, seja na cozinha familiar, nos restaurantes de cozinha tradicional e na alta cozinha. Se elas quiserem, lhes apetecer e tiverem talento para isso.

Quanto ao lugar dos homens, é também na cozinha, seja na cozinha familiar, nos restaurantes de cozinha tradicional e na alta cozinha. Se eles quiserem, lhes apetecer e tiverem talento para isso.

Somos todos pessoas diferentes e todos temos direito a fazer aquilo de que gostamos e onde nos sentimos bem. A levar a nossa vida como bem entendemos.

Mas a realidade não é esta, está longe de ser, e tal é bem óbvio neste post do Duarte Calvão e em muitos dos comentários feitos. Se calhar era suposto eu responder ao Duarte num comentário, mas dado que o Duarte comentou o que eu escrevi num post, decidi fazer o mesmo. Até porque considero o assunto muito sério e importante.

 

É verdade que eu sugeri às Edições do Gosto que era bom dar visibilidade às mulheres que cozinham. Se muitos dos homens que cozinham não saem dos media e são chamados a fazer comunicações nos mais variados eventos, é justo que algumas delas tenham as mesmas oportunidades. Não falei em quotas, nem tenho que falar, a decisão é das Edições do Gosto. Mas já que aqui foram referidas as quotas, falemos também disso.

Vivemos num mundo que em números redondos tem 50% de homens, 50% de mulheres, um mundo que será bem mais interessante e rico se puder contar com as competências de todos, sem preconceitos (nem destes, nem de outros). Mas de facto não pode. Estamos longe de uma situação de igualdade. Em muitos casos são as mulheres que são discriminadas, noutros são os homens os discriminados. As duas situações são más, pois uma sociedade saudável é necessariamente uma sociedade em que a diversidade é respeitada e está representada, diversidade de formas de pensar, competências e experiência.

Mas não é isto que acontece, quase nunca, e existem muitas ilhas, fechadas, onde é difícil quem é de fora entrar. Pior ainda singrar, porque se vive num circuito mais ou menos fechado, porque se criou um ambiente para o qual a diversidade é uma ameaça. Pode-se deixar tudo na mesma, pode-se tentar alterar, e para tal o que se tem revelado mais eficiente são sistemas de quotas. E não só quotas de género, mas também quotas raciais, religiosas, demográficas ou económicas. Está provado, que têm dado bons resultados, a Noruega é um exemplo disso no que diz respeito às quotas de género. A Comissão Europeia até apresentou ontem uma proposta de quotas para lugares não executivos de topo das empresas cotadas em bolsa, segundo a qual 40% dos lugares terão que ser ocupados por mulheres até 2020 (2018 no caso de empresas públicas).  É que está provado que as empresas que têm mais mulheres em lugares de topo têm um desempenho muito superior àquelas que têm menos mulheres. Aumentar o número de mulheres nas empresas tem vantagens não só do ponto de vista económico, mas também na sociedade como um todo.

Num mundo ideal, não seriam necessárias quotas (todos preferíamos que não existissem, era bom sinal), cada pessoa ocuparia um dado posto apenas com base no seu mérito. Mas na maior parte das situações não são os homens promovidos porque têm mais visibilidade, e é mais fácil integrá-los num ambiente de monocultura caracterizada por um excesso de testosterona? Quando se tem que pensar em alguém, não são as competências só que contam, é a forma como se integram no “clube” e se mantém a continuidade.

As quotas são necessárias para alterar esta situação, para tornar a sociedade mais igual e mais justa, são uma ferramenta temporária para combater preconceitos e ideias pré-concebidas, para combater a discriminação e o nepotismo, para estabelecer o equilíbrio onde ele não existe. As quotas não devem sobrepor-se à competência, mérito e trabalho, não devem ser uma discriminação positiva. Devem sim combater a discriminação negativa actual, devem promover a justiça e a igualdade de oportunidades. Quando as mentalidades se alterarem, então não precisaremos mais delas.

 

Voltando às cozinhas, são precisas mais mulheres nas cozinhas, é fundamental para alterar o ambiente, para se poder trabalhar de outra forma. Mas cada um faz o que entender.

A presença masculina e a apetência pela profissão de cozinheiro aumentou quando alguns dos cozinheiro mais mediáticos começaram a funcionar como role models, as mulheres jovens não têm role models na área. Se for dada mais visibilidade às mulheres elas poderão ter também role models e o interesse pela profissão aumentar.

Agora Duarte, não me venha dizer que são menos criativas que os homens.  Porquê? Onde é que isso foi provado? Onde é que acontece? Há umas criativas e outras não, e outras com uma “criatividade” que é copiada de gente mais criativa. Nos homens há uns criativos e outros não, e outros com uma “criatividade” que é copiada de gente mais criativa.

As características de trabalho das brigadas? Pois que mudem, porque se não permitem igualdade de oportunidades, não são boas formas de trabalho, como já foi provado nas empresas.

As exigências domésticas e da maternidade????? E para os homens as exigências domésticas e da paternidade????? É que se não existem é mau sinal…

Vê porque é que é preciso quotas? É preciso mudar mentalidades. Estamos no século XXI!

Não vou discutir quais as mulheres que que se destacam como chefes, já aqui foi referido e há-as, já foi dito nos comentários que não há igualdade de oportunidades nas cozinhas, já sabemos que não têm visibilidade. Alterar a realidade é difícil e exige esforço, pois requer mudanças estruturais e na cultura das cozinhas. Resistir e continuar tudo na mesma é uma opção, mas terá custos elevados. E eventualmente um dia a mudança será imposta, como o é agora nas empresas cotadas na bolsa e em muitas outras áreas.

 

Quanto ao Top-Chef, darei a minha opinião nos comentários do respectivo post. Houve de facto concorrentes muito melhores que foram excluídos, em detrimento de outros menos bons tecnicamente – uns destes foram mulheres, outros forma homens. Havia lá homens muito fraquinhos, bem mais fraquinhos que outros concorrentes que conheço e ficaram de fora, porquê referir as mulheres? Elas até se portaram à altura, tendo em conta a idade e falta de experiência.

Quanto à Susana Felicidade, não me parece que faça um papel pior que os outros elementos do júri. Também não me parece que seja necessário saber fazer melhor para avaliar. Significa que os críticos não podem criticar? Será a generalidade dos críticos tecnicamente superior aos cozinheiros que criticam? É absurdo o trabalho deles? Não me parece, portanto eu não iria por aí. E o Duarte não disse que aceitava n-cedências  (bem mais graves do meu ponto de vista,  e que deram cabo do programa) porque é para o público em geral? Porquê excluir  do júri alguém com uma aproximação diferente dos outros dois, mais perto do que o público em geral gosta e entende?

 

Quanto a se há mais mulheres nas cozinhas que aquelas que referiu, há certamente. Permita-me que lhe sugira um livro sobre esta temática, que me inspirou para o título deste post,  já com cerca de 15 anos, mas que certamente se mantém actual em muitos aspectos:

Pois é, há mesmo injustiças históricas contra as mulheres, mas também noutras situações contra os homens, que caso fossem reparadas teriam como consequência um mundo mais justo. No mundo das cozinhas e não só.  A discriminação sexista é uma realidade e uma realidade preocupante por diversas razões, em todos os países.

 

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publicado às 01:30


38 comentários

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De Miguel Pires a 16.11.2012 às 10:24

Paulina

o problema das quotas é quando não há massa critica e se promove por causa da quota e não da competência.

Trabalhei quase 20 anos na área de publicidade, que é uma das actividade com mais mulheres em lugares de topo, e nenhuma mulher necessitou de quotas para atingir o posto. Porquê? porque havia número de pessoas, de ambos os sexos, suficientes para seleccionar pela competência.

Quanto há história dos homens poderem eventualmente serem mais criativos também acho um disparate e mais uma vez esta área da publicidade comprova que não é verdade
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De Paulina Mata a 16.11.2012 às 10:46

Miguel, o problema das quotas é quando não há massa crítica e ainda noutra situação - no caso do tecto de vidro ( http://en.wikipedia.org/wiki/Glass_ceiling ). Porque por vezes há massa crítica, mas há muitos tectos de vidro. A proposta da CE de há 2 dias terá mais a ver com tectos de vidro do que propriamente com o número de mulheres a trabalhar nas empresas cotadas na bolsa.

Nalgumas áreas não serão essenciais, noutras serão. Sendo as quotas uma ferramenta para estabelecer o equílibrio, a igualdade de oportunidades e a justiça, poderão ou não ser usadas consoante seja necessário e seja decidido dessa forma.
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De Artur Hermenegildo a 16.11.2012 às 10:48

Desculpem lá o "desvio ideológico" mas a questão que não se pode escamotear é que vivemos num mundo em que cada vez há mais desigualdades. E não só desigualdades "à chegada", ou seja, nos lugares que cada um ocupa hoje na sociedade, mas sobretudo de desigualdades "à partida", ou seja, nas oportunidades que cada um tem de poder fazer o que gosta e chegar onde quer e onde tem competência e potencial para estar.

A desigualdade entre homens e mulheres é apenas um dos aspectos da desigualdade geral em que vivemos. Se forem analisar por outros critérios, por exemplo origem social, raça, religião, etc, encontrarão muitos outros casos de desigualdades. E não se pode criar quotas para tudo.

Quantas mullheres há em lugares de destaque em Portugal, na gastronomia e noutras áreas? Poucas, menos do que os 50% que representam na sociedade. Mas também: E quantos negros? E quantas pessoas oriundas das classes trabalhadoras, ou de famílias pobres? Quantas pessoas com deficiências físicas? Enfim...

E este panorama, segundo estudos publicados, está a piorar em todo o mundo ocidental.

Estamos muito, muito longe, mais longe do que há vinte anos, de uma sociedade que promova realmente a igualdade de oportunidades e a meritocracia como critério para a evolução pessoal e o sucesso.
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De Paulina Mata a 16.11.2012 às 11:41

É verdade tudo o que dizes Artur. E em muitos casos há quotas para algumas das igualdades que referes, não é só para as mulheres. A massa crítica que o Miguel referia quando as pessoas têm oportunidades.
As coisas nunca foram justas, e a tendência neste momento é para piorarem. E a percepção que se quer passar muitas vezes de que tudo está bem e funciona de uma forma justa (muitas vezes com uns raríssimos casos de sucesso) é um perigo e contribui para o retrocesso.
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De JVC a 16.11.2012 às 11:24

Justa Nobre. "I rest my case". Já agora, cá em casa, a morena, que faz da "alegre casinha" o m,elhor restaurante de cozinha angolana em Lisboa e arredores.
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De Paulina Mata a 16.11.2012 às 11:36

Uma árvore não faz a floresta.
Estes assuntos não podem ser analisados dando isoladíssimos exemplos.
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De JVC a 16.11.2012 às 11:46

Não me fiz entender. Pelo contrário, estava a concordar e a dar um exemplo de grande qualidade profissional que seria quase desconhecida para além do seu círculo de clientes fiéis, como eu, se não tivesse sido pelas piores razões (o programa televisivo Masterchef)
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De Paulina Mata a 16.11.2012 às 11:59

Peço desculpa, não entendi. Agora está claro, obrigada!
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De JVC a 16.11.2012 às 12:25

Também para não haver confusões, claro que não aprecio a cozinha excelente de Justa (cozinha, aliás, que é de excelente cozinheira mas sem "estilo de chefe") só desde o Masterchef. Desde há mais de 30 anos que ia regularmente à ajuda e lá levava, para seu grande deleite, os meus colegas visitantes. E refiro também que Justa e José, para além de profissionais a sério, são pessoas simpatiquíssimas com quem cavaqueio sempre com grande prazer, embora não sejamos amigos próximos.
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De Ana Vale a 16.11.2012 às 11:36

Obrigada Paulina. Concordo em absoluto. Mais não tenho a acrescentar!
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De Carlos Antunes a 16.11.2012 às 14:54

O corporativismo, especialmente quanto associado ao feminismo, é uma coisa tramada...e claramente ultrapassada.
Este post só demonstra pobreza de espírito. É uma pena, as mulheres são mais do que capazes de "stand their own ground" sem precisarem de favores.
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De Paulina Mata a 16.11.2012 às 15:07

Qual corporativismo? Não me deve ter entendido bem.

Não se assuste, não há razão para isso.
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De Carlos Antunes a 16.11.2012 às 17:57

Expressei-me mal, mea culpa. O corporativismo feminista, numa analogia em que o feminismo será uma classe, uma categoria profissional, o que quer que seja. Se se preferir, o corporafeminismo, termo bem bonito acabado de inventar.
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De LN a 16.11.2012 às 19:11

As quotas são, em qualquer âmbito, uma terrífica e péssima ideia.

LN
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De Miguel Azevedo Peres a 16.11.2012 às 20:36

Concordo com a Paulina acredito que devemos dar destaque às mulheres! Não por quotas mas aquelas que tenham trabalho relevante!!

Ao Longo destes dias tenho procurado quem seriam as chefs mulheres com trabalho relevante e que mereca ser divulgado... Mas só encontrei a Justa Nobre, Anna Lins e Marlene Vieira.. será que não há mais chefs mulheres à frente de uma cozinha em portugal???
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De Paulina Mata a 17.11.2012 às 15:50

Pois... se não têm visibilidade, nunca saberemos...
E já viu o que deu eu sugerir que era importante dar visibilidade ao trabalho das mulheres?
Está tudo dito!
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De paixãodasilva a 18.11.2012 às 17:01

À também a Chefe Mimi do Kais e a Chefe Adelaide do Tivoli Lisboa (que esteve muitos anos com Fausto Airoldi), ambas tenho como excelentes profissionais, mas como já referi no outro post, à uma percentagem baixa de mulheres nesta profissão (excluindo claro as vertentes mais tradicionais), talvez 10% para 90% de homens.. por isso é normal que haja menos Chefes mulheres, porque também em 100% de cozinheiros só 5% é que são Chefes.

Cumprimentos
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De Miguel Azevedo Peres a 18.11.2012 às 21:09

Obrigado Paixão da Silva!

Descobri ontem entre os meus livros um sobre o cafeína no Porto, onde aparece também a Chef Joana Resende!

Não sei se haverá menos mulheres à frente das cozinhas portuguesas, aliás no geral tenho quase a certeza que não. Temos é menos mulheres à frente de cozinhas criativas e de autor isso sim...
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De Duarte Calvão a 16.11.2012 às 23:20

Ora aqui está uma bela discussão, vamos a ela. Sou contra quotas e discriminações positivas seja no que for e penso sempre como se sentirá alguém que dedicou estudo, trabalho e sacrifícios para obter determinado cargo ao ver-se ultrapassado por outra pessoa (seja mulher ou homem) só porque é do sexo "certo" segundo aqueles que se julgam iluminados e com o direito de decretar uma certa ideia de "igualdade", arrasando com o mérito de cada um. Ao longo da minha vida, tive mais "chefes" mulheres do que homens (aliás, mesmo hoje o meu superior hierárquico imediato é uma mulher) e nunca tive nenhum problema com isso. Pelo contrário, acho que tive muito mais problemas com chefes masculinos. Nenhuma dessas mulheres precisou de quotas para ascender aos cargos que ocupava e não as respeitaria da mesma maneira se o tivessem feito. Como não respeitaria um homem que tivesse um cargo de chefia por ser amigo do patrão, por favor político ou por qualquer outra razão que não fosse o seu mérito. Acrescento que em quase 35 anos de variadas experiências profissionais nunca vi grupos de homens a "conspirarem" para impedirem o acesso de mulheres, só por serem mulheres, a cargos de chefia
Dito isto, não ignoro que as mulheres foram vítimas durante milénios de preconceitos e mesmo de opressão em quase em todo o mundo, incluindo o ocidental, e que mesmo hoje isso subsiste em alguns segmentos das nossas sociedades e continua muito fortes noutros pontos do mundo, principalmente em países árabes, africanos e asiáticos. É algo de inaceitável e que deve ser combatido.Mas, felizmente, vivo num país ocidental e sou de uma geração onde essas discriminações impostas às mulheres são hoje uma excepção.
Passando para o caso da cozinha e das razões porque as mulheres não ocupam cargos de chefia em restaurantes criativos, a Paulina Mata indigna-se com o facto de as considerar menos "criativas" e pergunta porquê? Como ficou claro no post que escrevi, não tenho resposta segura e apenas aventei algumas hipóteses. Pergunta também como isso foi provado e aí já sei responder. Está provado empiricamente, como mostra o facto de nos países ocidentais, no século XXI, sendo a percentagem de mulheres e homens de 50% para cada lado, haver talvez menos de 5% de chefes do sexo feminino à frente de restaurantes de cozinha criativa. Pergunta ainda onde isso acontece. Acontece por todo o lado: em Portugal, em Espanha, em França, em Itália, no Reino Unido, na Escandinávia, nos EUA, etc, etc, etc.
A minha observação sobre a menor criatividade das mulheres em relação aos homens cingia-se à cozinha. Se isso foi entendido de outra maneira, peço desculpa a quem ofendi por não ter sido suficientemente claro. Acho mesmo que as mulheres podem ser tão ou mais criativas do que homens numa série de aspectos. O mundo empresarial, comercial, político são só alguns exemplos que agora me ocorrem. Já não é assim (e dou estes exemplos não para provocar mas apenas porque, tal como no mundo da cozinha, não encontro razões para tal acontecer) na música, nas artes plásticas, em menor grau na literatura, na filosofia e provavelmente noutras áreas.
Finalmente, quanto ao Top Chef e aos "role models", quando os "models" apresentados são fracos, como foi o caso, em vez de estimularem os jovens a segui-los funcionam ao contrário, desestimulam. Foi constrangedor ver aquelas jovens a tentarem fazer o seu melhor tendo perfeita consciência da sua inferioridade técnica perante os concorrentes masculinos, quase pedindo desculpa por estarem lá. Quanto a Susana Felicidade, devo lembrar que ela não está a avaliar amadores (como acontecia no Masterchef), mas sim profissionais, alguns com provas dadas. A questão dos críticos não se põe, porque os críticos não devem fazer avaliações técnicas dos pratos, mas sim de gosto. Qualquer bom cozinheiro em início de carreira sabe mais sobre técnica do que quase todos os críticos (salvo os que já foram cozinheiros), a começar por mim, e já por diversas vezes o expliquei. Os críticos devem estar bem informados e saber descrever o que provam. E já não é nada mau quando o fazem. Havia mais para dizer, mas o espaço está a acabar. Só peço à Paulina que nos diga quais as chefes verdadeiramente importantes e criativas que encontrou no livro que cita.
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De Lopes a 17.11.2012 às 11:49

Pimba!
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De Paulina Mata a 18.11.2012 às 13:43

Continuemos então a discussão. Diz que é contra ”quotas e discriminações positivas seja no que for […] , arrasando com o mérito de cada um”. Eu tb, como já disse de forma clara, o papel das quotas não é o de promover a incompetência, mas sim a igualdade de oportunidades. Esta não existe, numas profissões para mulheres, noutras para homens. Na hora da escolha, entre méritos idênticos há sempre o factor continuidade a pesar, é isso que se pretende evitar. Assumir que as quotas para mulheres promovem a incompetência é assumir que elas não são igualmente capazes, e isso é inaceitável.
“Ao longo da minha vida, tive mais "chefes" mulheres do que homens […] e nunca tive nenhum problema com isso.” E ao dizer isto não está já a assumir alguma desigualdade? Porque é que haveria de ter? E casos particulares, são apenas casos particulares e sem significado, estes assuntos só se podem discutir com uma visão ampla das situações. De outra forma perde-se o rigor.
“… nunca vi grupos de homens a "conspirarem" para impedirem o acesso de mulheres, só por serem mulheres, a cargos de chefia.” Não se trata de conspiração contra as mulheres, o problema é outro, é a visibilidade, é escolher quem “faz parte do clube”, quem mantém o status quo.
“Dito isto, não ignoro que as mulheres foram vítimas durante milénios de preconceitos e mesmo de opressão em quase em todo o mundo, […]. É algo de inaceitável e que deve ser combatido. Mas, felizmente, vivo num país ocidental e sou de uma geração onde essas discriminações impostas às mulheres são hoje uma excepção.” Infelizmente não é excepção e em muitos casos não é melhor, apenas uma opressão mais sofisticada. A sensação de que tudo está bem (de homens e mulheres) dificulta o estabelecimento do equilíbrio e da igualdade. Basta ler coisas que aqui foram escritas. Eu apenas defendi a igualdade. Nunca referi que os homens eram piores, fosse no que fosse (nem o posso dizer porque tal não me passa pela cabeça). Pois, relativamente a isto, já foi dito que o que eu escrevi só demonstra pobreza de espírito, que é corporativismo – do pior: do feminista (como esta palavra assusta tento! @s feministas só defende a igualdade, tudo o resto é uma interpretação errada. Pois sou feminista mesmo, não o ser é defender um mundo desigual e injusto, ou desconhecer o que é o feminismo).
“Passando para o caso da cozinha [… ] Está provado empiricamente, como mostra o facto de nos países ocidentais, no século XXI, sendo a percentagem de mulheres e homens de 50% para cada lado, haver talvez menos de 5% de chefes do sexo feminino à frente de restaurantes de cozinha criativa.” Dois comentários, a cozinha criativa não é o único tipo de cozinha, nem sequer está num patamar de superioridade. Não se pode avaliar por aí. Quanto ao facto de estarem menos, se a massa crítica é menor, menos mulheres chegarão ao grupo dos pouquíssimos conhecidos em todo o mundo. Isso não significa que sejam menos criativas. Tirar a conclusão: há menos mulheres em frente das cozinhas criativas, porque são menos criativas. É de uma extrema falta de rigor. Então e os outros (muitos) factores, considerados muito mais determinantes em todas as áreas e tb nesta por quem se dedica a estudar este assunto? Não contam?
“Finalmente, quanto ao Top Chef e aos "role models", quando os "models" apresentados são fracos, como foi o caso, em vez de estimularem os jovens a segui-los funcionam ao contrário, desestimulam.” Um programa como o Top Chef não apresenta “models”. É apenas um concurso, em que se escolhe entre quem concorre, com o objectivo de ter audiências. Os critérios de selecção são apenas esses e o objectivo é entreter e captar audiências. Podia ser mais, neste caso não foi. Já dei a minha opinião (sobre este e outros aspectos do TC nos comentários ao seu post que desencadeou esta discussão).
“Quanto a Susana Felicidade, devo lembrar que ela não está a avaliar amadores (como acontecia no Masterchef), mas sim profissionais, alguns com provas dadas. A questão dos críticos não se põe, porque os críticos não devem fazer avaliações técnicas dos pratos, mas sim de gosto.” Dois pesos e duas medidas? E porque não pode ela estar a avaliar o gosto, já que os outros dois avaliam técnicas? Também as críticas à SF já comentei no que escrevi sobre o TC.

Continua...
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De Paulina Mata a 18.11.2012 às 15:46

Continuação…
“Só peço à Paulina que nos diga quais as chefes verdadeiramente importantes e criativas que encontrou no livro que cita.” Pois, o livro tem mais de 100 mulheres chefes, ou que de alguma forma tiveram influência na cozinha, algumas actualmente com estrelas Michelin nos USA. Além disso tem 15 anos, muita gente nova apareceu. Não interessa apresentar exemplos, interessa discutir as coisas sem nos centrarmos no particular. Até porque seríamos injustos, por várias razões.
Acho mesmo importante discutir estes assuntos a sério. E já agora mais alguns pontos que considero importantes.
Num evento denominado “Gender Confusion: Unraveling rhe Myths of Gender in the Restaurant Kitchen” no Astor Center em Nova Iorque, numa refeição de 6 momentos, cada um deles representado por 2 pratos, um preparado por uma chefe mulher e outro por um chefe homem, em que os convidados tinham que adivinhar quem tinha feito qual dos pratos apenas com base nas características dos pratos verificou-se ser impossível fazer esta associação apenas com base na informação de que um prato era de um homem e outro de uma mulher. No entanto, quando lhes deram dados sobre a história pessoal e a carreira profissional das pessoas que cozinharam, sem lhes dizer se eram homens ou mulheres, a atribuição dos pratos aos autores foi bem melhor.
Não é a criatividade, é o peso de séculos, o papel que se espera de cada um que vai determinar muita coisa. O Duarte Calvão referiu a inadaptação das mulheres ao sistema de brigadas, uma terminologia militar, assim como a inspiração original que levou Escoffier no século XIV a propor este sistema de organização para as cozinhas. Um sistema sistema extremamente hierárquico, com uma cultura masculina, por vezes misógina, que coloca (muitos) entraves e dificuldades extra a uma mulher que queira fazer carreira na cozinha, para além das já impostas pela forma (desigual) como a sociedade está organizada. Já agora Clare Smyth, chefe de um restaurante com 3 estrelas Michelin (que tem o nome de um homem – Gordon Ramsays), diz “Restaurant kitchens are testosterone-driven. It's a tough world; the hours are bad and the conditions are harsh. But the atmosphere changes when there's a girl in the kitchen - it's nicer. The guys talk more softly, snap less and speak with a bit more respect. Having a woman in the kitchen makes the men think about how to behave. And they should think about it - they should be gentleman all the time, and I've told them that.”. Dá para pensar se são as mulheres que têm que se adapatar a este ambiente, ou se ele é que tem que mudar de forma a ser mais inclusivo.
Já agora associar “bons cozinheiros” a sucesso no negócio, celebridade, número de clientes parece-me errado e abusivo. É o que se faz normalmente, mas o que de facto importa é o que sai dos fogões. E o critério de avaliação do que é um bom chefe, não é este, ou pelo menos não é o principal. E já agora o sucesso comercial e a presença nos media não são proporcionais ao que sai das cozinhas, por vezes parece-me mais inversamente proporcional. Na minha opinião têm até “matado” muitos talentos, cá e não só. Também com estes par^wmetros de avaliação as mulheres ficam para trás…
As mulheres na cozinha têm lutado para singrar no meio, em condições desiguais, para provar que o podem fazer. Mas permanecem isolados e de certa forma colocadas numa categoria à parte, caracterizadas de uma forma simplista pelos media, pelos colegas e em geral pela público (como ficou aqui claro) e consequentemente não têm a influência, massa crítica, ou respeito para mudar a realidade de cozinhas de restaurantes. As mulheres que mais podiam contribuir para alterar a situação, por terem poder e estatuto, centram-se nos exemplos dos seus casos particulares, esquecem situações de discriminação, porque agora fazem parte da situação e se chegaram lá… e chegam mesmo a usar o seu exemplo particular para justificar que tudo está bem.
A situação é inaceitável e, não sejamos ingénuos, há uma uma grande variedade de forças estruturais, pessoais, culturais e institucionais que trabalham para manter o status quo e até reforçar a situação. A resistência (e até ridicularização de tudo), que o que aqui foi escrito apenas sugere, mas que na realidade é bem menos leve, é um bom exemplo.
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De Paulina Mata a 18.11.2012 às 17:04

Escoffier no século XIX (e não XIV). Escorregou-me o dedo para outra tecla.
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De Duarte Calvão a 18.11.2012 às 20:37

Paulina, quando as mulheres têm igual mérito ao dos homens para aceder a determinado cargo devem procurar conquistá-lo com as mesmas armas e não recorrendo à ajuda "suplementar" das quotas.
Todos os casos são particulares, o seu também, assim como a sua visão desta questão. Se relatei o meu é porque acho que é semelhante ao de muita gente da minha geração. Repito: nunca vi, nem nunca soube de mulheres que tenham sido discriminadas no acesso a um cargo de chefia pelo simples facto de o serem. Depreender que eu, por ter pensado nisso a propósito desta discussão, ao falar das mulheres com quem trabalhei, sinto algum tipo de simpatias por "desigualdades" parece-me abusivo.
A questão da "visibilidade", que aliás aborda noutros comentários, parece-me completamente falsa. Garanto-lhe que há muito mais possibilidades de uma chefe feminina, até pela raridade do caso, ser objecto de atenção mediática do que um chefe masculino.
Não percebo onde foi buscar que eu acho que a cozinha "criativa" é superior às outras. Basta ler o meu post (já não vou falar do que escrevi profissionalmente ao longo dos anos) para saber que nunca defendi esta posição. Não sei se as mulheres são menos criativas na cozinha do que os homens, mas, tal como já escrevi, não encontro explicação lógica para haver tão poucas.
A Susana Felicidade é apresentada no Top Chef como uma chefe de cozinha, trajada como tal, desempenhando no júri os mesmos papéis que José Cordeiro e Ricardo Costa. Nunca vi que lhe estivessem reservadas as questões de "gosto", deixando as técnicas para os chefes masculinos.
Passando para a "continuação".
Pode dar as voltas que quiser, mas a verdade é que o número de mulheres que marcaram a cozinha criativa é ínfimo. Era há 15 anos e continua a ser agora, embora, espero, tenha aumentado e continue a aumentar nos próximos anos. A mim, interessa-me apresentar exemplos, "role models ", como diz, e foi o que fiz no meu post . Gostava que a Paulina me ajudasse nessa tarefa, tanto mais que tem livros volumosos sobre o assunto e conhece casos como esse da prova de pratos em Nova Iorque.
A divisão de tarefas numa cozinha e a pressão durante o momento de servir as refeições é uma realidade, fosse no tempo de Escoffier seja agora no de Ramsay . Acho extremamente sexista atribuir aos homens o "ambiente" das cozinhas, os palavrões e os atropelos inevitáveis, e às mulheres o de "flores delicadas", incapazes de aguentar tantas grosserias...
Nunca associei "bons cozinheiros" a sucesso nos negócios ou a celebridade. Já fui até bastantes vezes acusado de defender restaurantes com poucos clientes e de não gostar de casas sempre cheias, capitaneadas por chefes mediáticos. A Paulina sabe perfeitamente disso e não compreendo porque foi buscar esta questão.
Finalmente, não creio que ajude as mulheres, seja na cozinha seja noutras áreas de actividade, verem os homens como "inimigos", pondo-se no papel de vítimas, pedindo "quotas" e outras ajudas para ter "visibilidade". Onde houver, de facto, discriminação, ela deve ser combatida sem hesitações, mas vamos ser rigorosos na identificação desses casos.
Aproveito para sublinhar que a pessoa que considero mais importante ao longo do século XX (e neste início do século XXI) para a cozinha portuguesa, seja criativa ou tradicional, seja profissional ou familiar, é uma mulher e chama-se Maria de Lourdes Modesto.
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De Paulina Mata a 18.11.2012 às 23:50

Duarte, obrigada pela oportunidade para esta discussão e por ter argumentado comigo. Há poucas coisas de que eu goste mais do que de uma boa argumentação e consigo é sempre bom discutir. Estarmos de acordo ou não, pouco importa. Não temos que ter a mesma visão das coisas. O importante é argumentar e eu sei que também gosta. Há muito que não tinha uma destas oportunidades. Ainda mais num tema, que me diz bastante.
Acho que sobre as quotas está tudo dito, não falei nelas nem disse que deveriam ser aplicadas na cozinha, porque isso nem me diz respeito. Mas dado que surgiram à cena, e que a minha visão era diferente, argumentei. Mas sobre quotas em geral, não no caso particular da cozinha.
Quando falava dos casos particulares, não falava de opiniões, falava de em situações como estas os exemplos concretos não serem por vezes representativos da situação global. E não penso, de todo, que o Duarte tenha simpatia por desigualdades.
“Garanto-lhe que há muito mais possibilidades de uma chefe feminina, até pela raridade do caso, ser objecto de atenção mediática do que um chefe masculino.” Quanto a isto temos opiniões diferentes. Já quanto ao facto de não achar que a cozinha criativa é superior às outras, aí já temos a mesma opinião. Eu sei que não acha, li-o durante muitos anos (continuo a ler e até tenho pena que não escreva mais) e isso sempre foi claro, e para além disso conheço-o e já me sentei à mesa consigo muitas vezes. Mas podia ser pouco claro, pelo facto de ter referido apenas a cozinha criativa. Também sei que não avalia a qualidade pelo número de clientes ou presença nos media. Mas é um factor de avaliação usado em geral por muitos, e sendo relevante no contexto do que estava a dizer referi-o.
“Pode dar as voltas que quiser, mas a verdade é que o número de mulheres que marcaram a cozinha criativa é ínfimo.” Eu não dou voltas, eu sei que é. E sei que o assunto é muito complexo, e que vai ser difícil mudar. Daí esta discussão. Senão soubesse não perdia tempo, e gastei muitas horas nisto, a escrever e a ler. Tal como o Duarte também espero que as coisas mudem. E não sou eu que atribuo o ambiente nas cozinhas, eu nunca trabalhei em nenhuma, refiro apenas o que está escrito nos livros, artigos, entrevista e estudos que li e as histórias que se vão contando. Mas também nisto as coisas estão a mudar, havendo mulheres ou não, vai-se sabendo que isso acontece aqui e ali.
Relativamente à prova dos pratos em Nova Iorque, não foi aqui que li quando escrevi, e o que vi até era mais resumido, mas tem aqui uma descrição:
http://www.eatmedaily.com/2009/06/gender-bending-with-grant-achatz-and-dana-cowin-at-astor-center-events/
Nas minhas leituras (e há várias publicações sobre o assunto em revistas científicas) descobri que saiu há pouco mais de um mês um livro de uma jornalista sobre este tema: Skirt Steak de Charlotte Druckman.
http://www.amazon.co.uk/gp/product/1452107092/ref=gno_cart_title_1
Sobre nomes, não quero mesmo referir o caso de Portugal, não quero ser injusta e não sei o suficiente sobre o que se passa. Nas minhas “fontes de informação” elas pouco aparecem, e portanto pouco conheço, por isso sugeri que era importante que participassem no CNC, para as conhecermos melhor. Porque as há! Já agora, há uns anos no Pavilhão do Conhecimento organizaram um ciclo de debates sobre profissões onde os homens ou as mulheres tinham dificuldades em entrar. Um era sobre cozinhas e quem foi falar foi o Fausto Airoldi e a Nini (pastelaria). O Mariano Gago, na altura ministro da Ciência, estava lá e ficou bastante impressionado com a qualidade do debate e o percurso profissional dos dois. Foi muito interessante.
Se quer nomes lá fora, aqui ficam alguns:
http://www.telegraph.co.uk/foodanddrink/restaurants/8267065/Michelin-Guide-2011-women-chefs-recognised.html
http://www.huffingtonpost.com/beverly-wettenstein/michelin-star_b_1745511.html
“Finalmente, não creio que ajude as mulheres, seja na cozinha seja noutras áreas de actividade, verem os homens como "inimigos", pondo-se no papel de vítimas.” Eu também não, e não concordo com tais posições. Mas também não ajuda fingir que está tudo bem. Não está. E os problemas só se resolvem se forem encarados de frente.
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De Duarte Calvão a 19.11.2012 às 12:30

Realmente, foi uma boa discussão, Paulina, dura e civilizada, como eu gosto. E o que interessa e é essencial é que ambos gostaríamos de ver mais mulheres a assumir cargos de chefia nos restaurantes de cozinha criativa. Vamos acompanhando o assunto, esperando que, sobretudo em Portugal, haja cada vez mais nomes a citar.
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De Jorge Pinto a 17.11.2012 às 12:09

A Pavla do Topchef, posou para a Playboy numa revista que sai para a semana.. devido a um pedido de igualdade para o próximo mês é o Gordon Ramsey :)

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