Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Um enólogo único

por Duarte Calvão, em 15.12.12

Manuel Vieira dizia-me da liberdade do enólogos e de como tinha sentido isso nos mais de 25 anos em que trabalhou com a Sogrape –Ferreirinha. Uma maneira de trabalhar em que o enólogo é quem manda. Uma característica que ele atribui ao lendário Fernando Nicolau de Almeida, o criador do Barca Velha, que passou a vigorar na empresa que também produz o Mateus Rosé.

Manuel Vieira reformou-se e eu tenho pena, mas ele não. Para além do lado romântico-mediático, o mundo do vinho terá também um lado bastante chato e rotineiro, em que se vive o ano todo a pensar no que será a vindima. Eu tenho pena porque, independentemente de um serem mais velhos ou (um pouco) mais novos, fazem parte de um grupo de autores de vinhos do meu tempo e que aprendi a respeitar, apesar de não conhecer bem, pessoalmente, alguns deles. Anselmo Mendes, Carlos Lucas, Domingos Soares Franco, João Nicolau de Almeida, João Portugal Ramos, José Neiva Correia, José Maria Soares Franco, Luís Pato, Nuno Cancela de Abreu, e vários outros que agora não me vêm à memória, são gente do vinho (aliás, vários descendem de famílias ligadas ao vinho, caso do próprio Manuel Vieira, já que o seu pai, de mesmo nome, foi também um reputado enólogo, tendo trabalhado sobretudo na José Maria da Fonseca), com as suas idiossincracias, feitios e vaidades, mas todos bem educados e cultos, com personalidades capazes de serem respeitadas pelas empresas para as quais criam os seus vinhos.
Não sei o que virá a seguir, mas há evidentemente gente mais nova que tem essa mesma capacidade e muitas provas dadas. Porém, receio que não tenham a mesma memória, que julguem, embalados por um discurso que vigora desde os anos 90, que os vinhos antigos portugueses eram “piores” do que os actuais, que só havia zurrapas e mistelas, tragadas por consumidores desinformados, que nem tinham copos adequados para os beber…Para esse discurso, até parece que Portugal não é um país onde o vinho está presente desde sempre, onde sempre houve apreciadores, muitos deles bem mais cosmopolitas e conhecedores do que muito excitado enófilo que anda por aí deslumbrado com tintos chilenos ou brancos neozelandeses. E tenho também receio de que, ao desprezarem a nossa antiguidade, os enólogos de gerações mais recentes se deixem cair em tentações novomundistas, aliados a produtores que julgam que é assim que vamos triunfar nos mercados internacionais.
No entanto, devo dizer que me ando a reconciliar com os tintos portugueses (generalizo de propósito). A vários níveis de preço, embora, como é evidente, de forma mais nítida nas gamas altas, sinto crescentemente a busca da elegância e da complexidade, do reconhecimento de que não há procedimento artificial que substitua as vantagens do envelhecimento natural, apesar de, por compreensíveis razões comerciais, muitas garrafas ainda sejam lançadas cedo de mais no mercado. Felizmente, quando pego num copo de um tinto português, sinto cada vez menos aquele choque xaroposo e alcoólico, aquela terrível obviedade que marca os tintos do Novo Mundo, mesmo nos melhores exemplos que conheço. Sendo certo que, dado o meu eurocentrismo vínico, nunca me dei ao trabalho de investigar garrafas de além-mar. Já me bastam os chilenos e argentinos que, por razões económicas, sou obrigado a beber quando vou ao Brasil.
Mas isto começou com Manuel Vieira e é com ele que deve continuar, porque, na despedida, ele lançou um tinto espectacular, o Quinta dos Carvalhais Único 2009. O lançamento decorreu num óptimo almoço no Cantinho do Avillez, em Lisboa, que mostrou dois outros vinhos sensacionais (e também “únicos” ao seu jeito) desta quinta do Dão pertencente à Sogrape desde 1989, o espumante Reserva Rosé 2007 e o branco Encruzado 2011. Ainda me lembro da surpresa que tive quando provei aquela que julgo ser a primeira edição deste espumante de cor lindíssima, datada, segundo recordo, de 2002. Nunca tinha provado nada assim em Portugal e até hoje tenho não só por ele grande carinho, como penso que conseguiria beber sem dificuldade (nunca consegui, mas já andei perto) pelo menos uma garrafa numa refeição, porque ele, além de se beber bem sozinho, acompanha todo o tipo de pratos, de aperitivos a doces, com tudo o que vier pelo meio. Este 2007, que já terá sido lançado há algum tempo, está notável como sempre. Quanto ao Encruzado, será provavelmente o melhor exemplo desta excelente casta branca do Dão. Ou talvez haja outros, não sei, pode ser o entusiasmo a falar. Dois vinhos que brilharam ao lado de pratos simples e muitíssimo agradáveis, respectivamente peixinhos da horta com molho de alho e risotto de cogumelos Portobello, toucinho fumado e parmesão. Houve ainda uma Colheita Tardia 2007 para a sobremesa (leite-creme de laranja e baunilha), mas aí devo confessar que não me agradou.
O Único 2009 enfrentava desafio gastronómico mais arriscado, uma “vitela de comer à colher, molho caril e legumes Thai”, onde os coentros acentuavam o lado oriental. Pois correu muito bem. Aliás, dificilmente este vinho ficaria mal em qualquer companhia, mas se tal sucedesse, podia-se sempre recorrer ao pão com manteiga. É feito exclusivamente de Touriga Nacional da Vinha da Anta, nome que se deve a um monumento megalítico ali existente, onde há solos de argila, estagia 12 meses em barricas de carvalho novo francês. Foram produzidas 6.680 garrafas, com o preço a rondar os 60 euros. É caro, mas vale bem o sacrifício pecuniário. Diz o comunicado da Sogrape que chegará facilmente aos 10/15 anos e eu, que percebo pouco disto, adivinho que chegará ainda melhor. O vinho já tinha tido uma primeira edição em 2005, mas não me deixou lembrança tão impressiva, muito provavelmente por defeito meu ou porque na altura andava tão irritado com os tintos portugueses que fazia o justo pagar pelo pecador.
Como já disse, Manuel Vieira já está em gozo de merecida aposentação, mas sabiamente a Sogrape vai mantê-lo como consultor, ficando Beatriz Cabral de Almeida como enóloga responsável pelos Carvalhais. Boa sorte para todos é o meu interesseiro desejo.

 

Leia ainda:

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:29


3 comentários

Sem imagem de perfil

De Pedro Diniz a 15.12.2012 às 18:06

Não podia concordar mais com este ponto de vista sobre o nosso futuro vinícola "...
Sem imagem de perfil

De Hugo Mendes a 15.12.2012 às 18:51

Não conheço Manuel Vieira pessoalmente, mas já me cruzei com eles várias vezes pelos caminhos da profissão.
Tenho dele a ideia de um enólogo com muito talento e competência, mas com uma dimensão humana e de caracter que superam a dimensão técnica. Sou inspirado por este tipo de postura, por esta forma de estar e de sentir o vinho.
Acho que só temos a agradecer o seu contributo ao mundo do vinho Português e esperar que o seu exemplo não passe despercebido nem caia no esquecimento neste mundo cada vez mais competitivo, imediatista, fútil e flexível nos valores.
O vinho Português merece mais, muitos mais Manueis Vieiras.
Imagem de perfil

De Artur Hermenegildo a 17.12.2012 às 11:55

Pois mas, lá está, 6 mil garrafas?

Temo que a insistência em produções mínimas de alguns dos nossos vinos "topo de gama" não ajude ao reconhecimento internacional dos nossos melhores vinhos.

E a produção mínima inflacciona o preço, o que também não ajuda ao seu reconhecimento nacional, nos tempos que correm.

Mais um "vinho de boutique" que vai chegar a poucos consumidores. Na prática, mais um vinho que, em termos do mercado real, "não existe" (com aspas, claro, mas não muitas...)

Comentar post



Pub


Os autores

Duarte Calvão (perfil)
Miguel Pires (perfil)

Porquê?

Três autores há vários anos ligados à gastronomia e vinhos criaram este espaço para partilhar com todos os interessados os seus pontos de vista sobre o tema (ver "carta de intenções").

PUB


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Mesa Marcada - Os 12 Pratos do Trimestre


Siga-nos no facebook


Mesa Marcada no Twitter


Confira os premiados e as listas...



Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Pub





Calendário

Dezembro 2012

D S T Q Q S S
1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
3031

Comentários recentes

  • Joao Fernandes

    Eu trabalho com mangalitza na Hungria, neste caso ...

  • João Faria

    Há uns tempos deparei-me com uma imagem do marmore...

  • Bruno

    Interessante - moro em Londres e não conhecia o Ta...

  • Duartecalf

    Mais uma boa notícia. É sinal de que a nossa gastr...

  • André

    Já para não falar no efeito pernicioso que esta "g...