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Vigo dá-se a mostrar a bloggers de gastronomia

por Miguel Pires, em 24.12.12
Centro de Vigo - estátua de Manuel Castro, um conhecido vendedor de jornais. Apontará em direcção à nuvem 2.0.? 
.
Interessante e actual a forma utilizada pela Concellaria de Cultura e Turismo da Xunta de Galicia e o Concello de Vigo para promoverem esta região espanhola. Ao invés do habitual convite a jornalistas de media tradicionais para as habituais ‘press trip’,  as autoridades locais têm vindo a organizar uma série de viagens  dirigidas a bloggers a que deram o nome, #Vigo Alive – Bloggers trip 2.0.

A última decorreu entre 17 e 19 de Dezembro e foi centrada na gastronomia. Além deste 'escriba', em representação do Mesa Marcada, foram convidados outros 5 bloggers da área: Suzana Parreira do Gourmets Amadores (Lisboa), Txaber Allue, do Cocinero Fiel (Barcelona), Euwen Teh , do Rather Unusual Chinamen e Luiz Hara, do London Foodie (ambos de Londres).

Contudo os organizadores não se limitaram a um programa com as habituais visitas guiadas, mostras e degustações. Aproveitaram a presença deste grupo que conquistou uma audiência através das ‘novas’ ferramentas digitais, e acolheram uma conferência intitulada, “Blogs Gastronómicos: do receituário aos gurus do 2.0”.

Este colóquio, que decorreu no auditório Museu de Arte Contemporânea de Vigo, surpreendeu-me pela quantidade de pessoas presentes (que praticamente enchiam o auditório) e pelo interesse demonstrado pelo que fazemos e pelo conhecimento na matéria. Quiseram saber o que achámos da gastronomia local, qual a melhor forma de um restaurante estar online, de como deve comunicar com os clientes/leitores, ou lidar com os diversos canais digitais – dos blogs ao twitter, do Instagram ao inevitável Facebook - ou, ainda, a regularidade com que ‘postávamos’, ou o tempo que dedicamos aos nossos blogs. Como a organização referiu tratou-se de um “espaço de reflexão sobre o turismo gastronómico e sobre como a internet é um canal fundamental para a busca de destinos, restaurantes, receitas de cozinha, etc”.  Houve direito a fotos, entrevistas e noticias na imprensa local (o que não deixou de causar alguma estranheza a quem está mais habituado a relatar acontecimentos do que a ser motivo deles).  No final o apresentador pediu-nos, assim à queima roupa, que recomendássemos um restaurante. Achei graça que Luiz Hara, brasileiro de origem japonesa, há 20 anos radicado em Londres, tivesse escolhido o Viajante, tecendo rasgados elogios a trabalho do português, Nuno Mendes. Já agora,  antes de mim a Suzana Parreira escolheu o Belcanto (Lisboa) e eu, um espaço que muito gosto, recente, popular e acessível: a Taberna da Rua das Flores (Lisboa).

 

 Maruja Limón, em Vigo: 1 estrela Michelin 

 

Em termos gastronómicos a Galiza pode não ser o País Basco (ou Vigo, San Sebastian), mas tem, como esperava, vários pontos de de grande interesse. Esta região a norte de Portugal tem de facto produtos de excelência - nomeadamente, peixes, mariscos e vinhos -, uma cozinha popular forte e, também, uma série de restaurantes de autor de méritos confirmados, nomeadamente pelo Guia Michelin que reconhece, com 1 estrela, 11 restaurantes da região.

Entre eles está o Maruja Limón, onde jantámos. Neste restaurante o Chef Rafael Centeno Moyer aposentou-nos a sua cozinha “cuidada e contemporânea”. Pela amostra fiquei com a ideia de ser uma cozinha muito centrada no produto local, com uma certa criatividade, mas algo afastada da vanguarda de muitos dos seus pares espanhóis – o que não é, de todo, negativo, antes pelo contrário. Mostra que na alta cozinha espanhola, continua a haver espaço para diversas sensibilidades.

Desse jantar apreciei particularmente um tártaro de vaca com mostarda e um parmesão feito e curado localmente; o salmonete – de grande qualidade, embora mais claro e de sabor menos intenso do que o da nossa costa, devido, segundo o chef, ao facto deste peixe, na Galiza, não se alimentar  tanto de camarão. Destacou-se ainda uma moleja (bem marcada na chapa) com creme de couve flor e o gelado de aipo bola com pedaços de ananás.

 

O salmonete do chef Rafael Centeno Moyer, no Maruja Limón

molejas no Maruja Limón


O jantar serviu ainda para o escanção Ignacio Costoya apresentar uma série de vinhos da região e fazer uma prova didáctica - interessante mas um pouco chatinha pois quebrou em demasia o ritmo do jantar. Entre os líquidos apresentados fiquei surpreendido com a frescura (e a relação preço/qualidade) dos tintos da Ribeira Sacra, do produtor Regina Viarum, sobretudo, o de produção biológica. Os brancos surpreenderam-me menos, não por lhe faltarem qualidade, mas por se aproximarem dos nossos da região vizinha dos Vinhos Verdes, nomeadamente os Albariño, que correspondem ao nosso Alvarinho.

 Contudo foi desta casta que veio a maior surpresa da noite: um gin de Albariño, da Nordés (que se vende por cá, aqui), produtor galego que lançou, também, recentemente, um outro feito com um tipo de batata local. O aroma deste gin é fenomenal. É praticamente um perfume a que às habituais notas florais do gin acrescem outras de frutos tropicais, característicos da casta. Agradou-me de tal forma que dispensei a água tónica e bebi-o puro. Este será, certamente, mais um símbolo da dedicação devota (ou febre) que em Espanha se tem vindo a dedicar a esta bebida de origem holandesa e popularizada pelos ingleses.

 

Gin da Nordés da Galiza, um feito a partir da destilação de uvas da casta Albariño

 

No dia seguinte – sob uma temperatura amena, para Dezembro, e chuva intermitente - fizemos uma visita a Mercado do Berbés e a uns viveiros de marisco, na companhia do simpático chef Robert Pardo. O mau tempo que fez nessa semana impediu muitos barcos de irem ao mar pelo que a oferta no mercado não era muito variada. Ainda assim viu-se bons exemplares do que a costa da Galiza dá (nomeadamente as Rias Baixas), mas, também, do que os barcos de de diversas proveniências (entre elas de Portugal) deixam no Porto de Vigo. Santolas de tamanho incrível, lagostas, navalhas, caranguejos, berbigão, tamboril, pregado, pescada, etc.

 

 Vendedora pousa com Alien 3, perdão, um a santola de proporções simpáticas, no Mercado do Berbés, em Vigo

viveiro em Vigo


Depois demos um passeio num barco antigo restaurado. A ideia era pescar congro, mas na verdade só demos banho ao isco, embora desconfie que a ideia era mostrar-nos a beleza da costa . E a costa é bela, apesar de alguns mamarrachos típicos da febre que o 'pato-bravismo' da construção civil desenfreada semeou lá como cá.

Após a pescaria frustrada o Chef Pardo fez uma demonstração de cozinha com o que comprámos no mercado e preparou-nos um belo repasto, onde mais uma vez o produto foi rei. No final da tarde houve a conferência de bloggers, que referi acima e à noite andámos em degustação por várias casas da zona histórica do Casco Viejo. A jornada concluiu-se, no dia seguinte, bem pela madrugada, com a visita ao porto de Vigo. Sobre esta visita ao maior porto de pesca da Europa (e um dos maiores do mundo) contarei mais tarde, num outro post. 

 

Na taberna do senhor Eligio, um local histórico onde se come umas boas sardinillas (petingas) panadas
nas ruas estreitas do Casco Viejo, a zona histórica de Vigo

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publicado às 16:37


4 comentários

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De Jorge Guitián a 25.12.2012 às 17:45

Interesante crónica de esa visita á miña cidade natal. Espero con interese a segunda parte.
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De Miguel Pires a 26.12.2012 às 16:51

Obrigado, Jorge. A visita ao porto de Vigo merece de facto um post. Mas vai ter de ficar para a próxima semana

um abraço
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De Noelia a 09.01.2013 às 08:30

Bo día, Miguel! Que ben que teñas gostado da nosa cidade. Volvede cando queirades, que 2 días non chegan a nada... Só unha cousiña: o mercado ao que fumos é o do Berbés, non o do Calvario ;) Muito obrigada pola experiencia, unha aperta
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De Miguel Pires a 09.01.2013 às 12:18

Obrigado, Noelia , eu é que agradeço a oportunidade. Entretanto já corrigi o nome do mercado

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