Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




O 'Verdevino' de Jonathan Nossiter

por Miguel Pires, em 19.04.13

Jonathan Nossiter, realizador do polémico documentário ‘Mondovino’, esteve em Portugal (em Novembro) para conhecer o trabalho de alguns produtores da Região dos Vinhos Verdes, num encontro que terminou à mesa, no Ferrugem, e que resultou num jantar vínico muito participado.

Desde que resolveu dedicar-se ao cinema, Jonathan Nossiter realizou 7 filmes. No entanto bastou um único, o documentário Mondovino, estreado em 2004, para se tornar mundialmente conhecido. Neste documentário, Nossiter procurou retratar os dois lados do mundo do vinho. O lado a globalização e da padronização, representado por Michel Rolland, Robert Parker, Wine Spectator ou os Mondavi, e o outro lado, o da autenticidade e da tradição simbolizado nas figuras de produtores independentes, como Hubert de Montille ou Aime Guibert.

 Nossiter afirma que procurou ouvir uns e outros de forma imparcial, o que não significa que não tenha tomado partido. O partido dos bons, dos que trabalham e respeitam a terra, dos que procuram a tipicidade, indiferentes ao mercado e à padronização do gosto. Não é necessário ver o filme para se ficar a saber a sua posição. Bastam cinco minutos na sua presença.

 As expectativas eram, então, elevadas para o jantar que reunia no restaurante Ferrugem, em Portela - uma aldeia entre Vila Nova de Famalicão e Braga -, Jonathan Nossiter, a nata dos produtores independentes da região dos Vinhos Verdes e a cozinha contemporânea de base tradicional, de Renato e Dalila Cunha, chefes e proprietários do restaurante.

 O casal anfitrião preparou para essa noite um menu de pratos da actual carta, com outros pensados para o momento. A ideia era que fosse um verdadeiro casamento entre vinhos e comida e não apenas sexo casual (como, convenhamos, muitos jantares vínicos se tornaram nos dias de hoje).

 

Nossiter abre as hostes, falando sempre em português (do Brasil, país onde viveu vários anos) entre o seu jeito radical e um certo espírito luso. Começa por revelar a sua admiração pelo que viu nos últimos dias, “uma cultura enraizada com o passado, mas não do jeito morto. Pelo contrario. Uma cultura para fazer coisas vivas, radicais, inovadoras e poéticas”.

O seu discurso denota uma certa candura e melancolia (“Estou em Portugal também tenho o direito de sentir um pouco a melancolia"), mas a mensagem é forte. Cita Aldous Huxley (do livro “Admirável Mundo Novo”, 1931) e fala da sua "profecia terrível que leva as pessoas a um inconformismo e a recusar o passado”. Porém, como num anúncio a tira nódoas, ao problema “deste mundo pavoroso de hoje”, aponta a solução. “Eu vejo agricultores, pessoas que trabalham a terra, fazendo o que nós todos, que moramos nas cidades, deveríamos fazer, que é encontrar as raízes da nossa cultura, em risco de desaparecer para sempre. Eles estão fazendo um trabalho heróico".

 Não é difícil simpatizar com as suas posições mesmo que não se concorde inteiramente com ele e, por isso, em ambiente descontraído, os presentes no jantar ouvem-no com atenção (mas sem reverência), riem-se com ele e provocam-no. A determinada altura alguém lhe pergunta se os cortes que tem na cara foram feitos por Michel Rolland (o enólogo consultor globetrotter que não gostou da maneira como foi retratado no filme). Nossiter responde, recorrendo ao humor e recebendo em troca uma gargalhada geral: “Ele teria gostado mas o prazer do Rolland seria fazer isso depois de me dar um beijo. Sabe, os franceses são meio pervertidos” – referia-se por certo, a uma frase famosa do filme brasileiro, Tropa de Elite  (“quer me f..., me beije”).   

 Antes deste momento já o chefe Renato Cunha interrompera para apresentar o primeiro prato, o “Caviar português v. 2012” , uma interessante e bem executada proposta, com ovas de sardinha, ‘caviares’ de vinagre (esferificações), tomate (gelificado), broa de milho e azeite (em espuma). Tudo numa lata acompanhado, ainda, de micro-legumes. No fundo, um prato com diversos elementos à volta da sardinha, apresentados em várias texturas e contrastes de sabores.

 Para acompanhar este prato foi escolhido o Dorado 2011 Edição especial sem sulfitos, um incrível e muito particular Alvarinho, que o produtor Marcial Dorado elabora habitualmente para si e para os amigos, mas que pela primeira vez, este ano, o irá lançar no mercado. 

 

“Caviar português v. 2012”


Este vinho foi um pretexto para Nossiter o elogiar, bem como ao grupo de produtores presentes, (alguns adeptos da prática biodinâmica, outros apenas da produção biológica). “Eu acho um privilégio conhecer uma pessoa como o Marcial que, como outros produtores, fazem parte de uma  revolução. São pessoas que estão repensando a nossa forma de lidar com a terra, com o planeta, que é um gesto ecológico mas também um gesto de saúde, um gesto de vinho natural”, afirmou. Por sua vez, o produtor galego, que tem a sua Quinta do Feital próximo  de Monção, referiu que faz um vinho natural e que para ele é importante que “não entre nada na adega que não comemos”.

 Contudo, bem ao seu estilo radical, Nossiter fez questão de lembrar que há diferenças entre um vinho natural e um biológico uma vez que neste, segundo ele, “são permitidos 360 aditivos químicos” o que ele critica, afirmando mesmo que “é uma loucura! viram vinhos de Frankenstein”. Não deixando de defender o seu método, Marcial preferiu, contudo, deitar água na fervura, pacificando as hostes. “Quando te ensinam enologia ensinam-te tudo o que podes adicionar a um vinho para corrigir este ou aquele problema. As adegas grandes não conhecem todas as parcelas de vinha, não conhecem todas as uvas que chegam. Eu admiro o seu trabalho, mas têm de usar químicos e técnicas para conseguirem um vinho, digamos, equilibrado, e que se pode beber. No meu caso sou eu quem decide. Decido o que entra. Eu faço todos os anos 100 a 200 litros deste vinho natural, mas para mim. Bebes isto, o teu corpo habitua-se e gosta mais do que de qualquer outra coisa”.

Depois destas afirmações mais fortes e polémicas o jantar prosseguiu a um ritmo descontraído com cada produtor a falar do seus vinhos que acompanham os pratos que vão saindo da cozinha a um ritmo tranquilo. António Cerdeira preferiu destacar as práticas de sustentabilidade e de biodiversidade enquanto era servido, de garrafas double magnum, o seu Soalheiro Primeiras Vinhas 2011, para muitos o melhor vinho branco português. Com este vinho o chefes da casa apresentaram o seu já conhecido, “pastel de (bacalhau com) nata ®”, uma homenagem ao tradicional pastel de nata que tem feito sucesso de tal forma que se encontra em processo de semi-industrialização para ser comercializado, nomeadamente no estrangeiro. Seguiu-se uma barriga de atum crua e laminada que apenas foi braseada em volta. O tempero com flor de sal fumado não foi pacifico e resultado dividiu as hostes. Todavia até neste aspecto, houve coerência com a filosofia do jantar, uma confraternização entre pessoas que recusam o óbvio e o lugar comum. O lugar comum que diz, por exemplo, que os Vinhos Verdes não envelhecem bem, à excepção de certos Alvarinhos. “Às vezes nem de um ano para o outro”, ironiza outro dos produtores presentes, Pedro Araújo, que ri com a cara de espanto de certos clientes quando lhes é dado a provar o seu Quinta do Ameal Escolha 2004 – que acompanhou o prato -, um vinho de grande personalidade, com algumas notas oxidativas mas ainda cheio de vida.

Mais apaziguador foi o salmonete com arroz de carabineiros, que serviu para acompanhar o Covela Escolha Regional Minho Branco 2008 e, também, para ficarmos a saber, da parte de um dos novos proprietários, Tony Smith (um inglês com muitos anos de Portugal e do Brasil - onde assumiu vários cargos em empresas de media, como a Associeted Press e a Cofina), que a requalificação da Quinta da Covela se encontra a bom ritmo, depois de um período de abandono, devido a problemas financeiros dos donos anteriores.

Ao passarmos para o prato de carne, “Subtilezas de porco bísaro da Quinta de Folga” - uma interessante proposta constituída por bochecha em rojão, língua (tenra por dentro, estaladiça por fora), crocante de orelha e flan de favas com chouriço - foi servido um dos vinhos que tem surpreendido a critica, o Afros Vinhão 2009. Com este Verde Tinto, o seu produtor, Vasco Croft, teve o mérito de colocar no mapa um vinho (e uma casta) cuja referencia, normalmente de fraca qualidade, raramente é consumida fora da região. “ O teu vinho tem vida”, confessava Nossiter, que é amigo do produtor.

Para acabar em beleza, o protagonismo foi para a doçaria tradicional do Baixo Minho, versão with a twist, claro: migas de toucinho do céu, gelado de pudim abade de priscos, caramelo de aguardente e laranja, torta de laranja e folhas secas de amêndoa. Com a sobremesa voltámos aos vinhos da Quinta do Ameal, desta vez ao Special Harvest 2011, um dos melhores colheitas tardia que temos por cá.

 

Renato e Dalila Cunha com Pedro Araújo da Quinta do Ameal

Duas ou três notas em jeito de conclusão. A primeira é que nao é necessário estar de acordo com a filosofia ou com estilo de Nossiter para lhe reconhecermos o mérito e a importância nos assuntos que defende. A segunda é que temos um grupo de produtores de Vinhos Verdes com um forma de pensar e de operar, com interesses comuns e que, paradoxalmente, é na diferença (entre eles e os seus vinhos) que reside aquilo que os une. À imagem do que existe no Douro, será que temos uns Green Boys em formação? A última nota vai para a Dalila e o Renato Cunha que provam recorrentemente que mesmo no meio de uma aldeia do Minho é possível fazer uma cozinha contemporânea com raízes fortes na tradição e na região. Brindemos. Com Verdevino!

 

Reportagem publicada originalmente na Wine 77 de Fevereiro 13

Leia ainda:

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 13:49


3 comentários

Imagem de perfil

De Artur Hermenegildo a 19.04.2013 às 14:53

Por acaso a citação não é original do tal filme bresileiro que nunca vi, mas tem 40 anos - é do "Dog Day Afternoon", com Al Pacino, que diz ao telefone ao negociador da polícia "When I get fucked I like to be kissed"
Imagem de perfil

De Miguel Pires a 19.04.2013 às 15:30

É sempre bom ter um leitor que além de gastrónomo é um cinéfilo :)
Sem imagem de perfil

De sheila a 22.04.2013 às 21:15

Penso que a referência de Nossiter é mais cultural que cinéfila. Aliás, pelo texto dá para ver que as preocupações dele são outras.

Comentar post



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

PUB


Os autores

Duarte Calvão (perfil)
Miguel Pires (perfil)

Porquê?

Três autores há vários anos ligados à gastronomia e vinhos criaram este espaço para partilhar com todos os interessados os seus pontos de vista sobre o tema (ver "carta de intenções").

Siga-nos no facebook


Mesa Marcada no Twitter


Confira os premiados e as listas...



Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Pub





Calendário

Abril 2013

D S T Q Q S S
123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
282930

Comentários recentes

  • Miguel Pires

    Oops, já corrigido. Agradeço o reparo.

  • Martinho Cruz

    Tudo bem. Vega “Cecília” é que me ultrapassa.....

  • Anónimo

    Esta é uma boa notícia para esta altura do Natal.....

  • Duarte Calvão

    Acho, João Faria, que coloca a questão nos termos ...

  • João Faria

    É verdade que, infelizmente, a mudança ocorrida na...