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Viajar sentad@ a uma mesa

por Paulina Mata, em 29.04.13

Quantas vezes no apetece fazer uma pausa na rotina do quotidiano, viajar um pouco? Tantas! Nem sempre dá para fazê-lo literalmente, mas uma boa alternativa é viajar à mesa. Procurar outros sabores, outras interpretações dos mesmos alimentos e da organização de uma refeição. Felizmente vamos tendo por cá cada vez mais oportunidades de o fazer. Há dias, uma refeição no Arola, na Penha Longa, fez-me reflectir sobre isto e fez-me viajar…

Sentados à mesa, logo nos puseram, pão, alho, tomate, sal e azeite. Sem mais dicas, diríamos que estávamos na presença de uma série de produtos característicos da cozinha portuguesa. Contudo, não é nossa tradição colocá-los num couvert ou usá-los da forma proposta.

Passar o dente de alho pelo pão torrado, depois o tomate, umas pedras de sal e um fio de azeite. Simples, delicioso, e um sabor que nos transporta imediatamente para outras paragens, que evoca outros locais, outras experiênciase até algum exotismo quando cá dentro vão ressoando as palavras Pa amb tomàquet.

O conceito da refeição é descrito pelo próprio Arola como pica-pica, ou seja pequenas tapas, o picotear tão característico da Barcelona. Um menu sem pratos principais, em vez deles uma sequência de pequenos pratos, simples, para partilhar. No entanto o restaurante tem o nome do chefe, e Arola diz que usa a cozinha como uma forma de expressão, portanto eram de esperar que essas tapas reflectissem a sua origem, as suas vivências e experiências, mas com um toque pessoal.  Assim foi…

Vieira com cítricos e pimenta de Espelette
Robalo do mar em ceviche tradicional peruano, servido com "leite de tigre"
Lagostins servidos em carpaccio com puré de amêndoa e tiras de presunto ibérico crocante
Bacalhau fresco em carpaccio com tiras de tomate e azeitona (atrás)
Gamba branca biológica à guilho - salteada com alho, pimentão de la Vera e vinho "jerez" seco
Lulas fritas servidas com mini sanduiches com pão torrado, maonese e confit de limão
Espargos verdes servidos com emulsão de ovos mexidos com cebola e cogumelos da época

Uma série de bons pratos, frescos, divertidos, surpreendentes por vezes, como no caso das lulas em que a forma de comer, o complemento de texturas e sabores o transformavam num prato muito bom e divertido. Mas não podiam faltar as famosas batatas bravas do Arola.

Nem a tortilha espanhola. Esta também numa interpretação própria: cubos de batata, a cebola frita numa cavidade no interior da batata e por cima a gema de ovo crua.

Mas era mesmo uma gema?  Por questões de segurança alimentar não é permitido servir gemas de ovo… Aqui as novas técnicas ajudam: gema de ovo esferificada, que parece mesmo de verdade! A técnica da esferificação tinha já sido usada noutro prato, com o objectivo de surpreender. No prato de bacalhau as azeitonas escuras eram verdadeiras, as verdes esferificações de sumo de azeitona que rebentavam na boca. Neste prato, o objectivo era apresentar, sem riscos, o que sempre se fez, mas que agora não se pode fazer.

Chega a vez do leitão. As nossas referências, memórias, e por conseguinte expectativas, são sempre as de um leitão com a pele estaladiça. Pois aqui não era. Cozinhado lentamente, macio, com uma pele gelatinosa, com pimento e uvas. Tão diferente do que nós faríamos. Se viajarmos, sem  preconceitos e de espírito aberto, há uma descoberta constante. Esta foi uma delas. Tão diferente e tão bom.

O mesmo aconteceu com a língua de vitela de escabeche, bem longe do nosso conceito de escabeche.
E finalmente um momento doce para terminar a viagem.
Arroz com leite - num pudim, com gelado de arroz, emulsão de canela e arroz crocante
e
Morangos com natas, merengue, compota de ruibarbo e gelado de wasabi
Uma boa viagem, à volta da mesa, com muito para desfrutar e descobrir.

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publicado às 08:50


8 comentários

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De Carolina Torres a 30.04.2013 às 13:15

E qual o preço desta apetitosa viagem? :)
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De Carlos a 30.04.2013 às 21:28

Não se iluda muito. Era bom esclarecerem se foi um menu preparado especialmente. Quando lá fui à hora de almoço, só podia escolher entre pizzas, massas e pouco mais. Terá sido jantar? Pelas fotos, vejo muitas luz lá fora.
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De Carolina Torres a 02.05.2013 às 16:53

Infelizmente já li tarde o seu comentário...
Reservei mesa para almoço ontem e fui com as papilas gustativas expectantes pelos deliciosos pratos que adivinhavam. A opção de ir ao almoço foi precisamente para evitar ir de estômago cheio para a cama após o manjar de deuses que se perspectivava.
Tive pois a decepção de receber a ementa que referiu - pizzas, saladas, massas, (poucas) tapas e um único prato do dia.
Ao ver uma evidente decepção no meu rosto, o (muito simpático e prestável) empregado esclareceu-me que apenas ao jantar têm um menu constituído pelas famosas tapas. Prestaram-se a fazer algumas por pedido mas infelizmente a cozinha não tinha disponibilidade.
Pude experimentar algumas das (muito poucas) tapas disponíveis ao almoço e eram realmente boas. Mas pela saladas e pizzas não voltaria lá.

Excelente atendimento, boa comida de autor mas... falta de clareza no menu. Fui agora ao site (http://www.penhalonga.com/pt/Gastronomia/Arola) e continuei confusa, pelo que sugiro que o actualizem.

Mantenho a vontade de voltar para jantar as prometedoras tapas, mas muito triste por ter desperdiçado uma ida ao famoso Arola com salada e pizza... Gostava muito de ter sido informada desta diferença de menus no acto da reserva e farei essa sugestão ao site que utilizei (BestTables).

Espero que este post ajude futuros incautos como eu a disfrutar ao máximo a sua ida ao Arola, pois, para o menu de jantar, parece valer a pena.
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De Paulina Mata a 02.05.2013 às 19:11

Pois é verdade que ao almoço o menu é diferente, é o que descreve. Que pena não ter tido a refeiçao que desejava.

Certamente já viu os preços. Variam de tapa para tapa e andam entre os 5 e os 18 euros. O preço final dependerá das escolhidas e do número de pessoas a partilhá-las. Dizem-me que em média com 40 euros, sem vinho, se faz uma refeição confortável.
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De Carlos a 02.05.2013 às 21:11

Mesmo à noite, tenha consciência que este restaurante está feito para produzir muitos algarismos na conta final, sem o devido retorno em termos de satisfação. Já lá foi o tempo em que se comia por uma relação qualidade preço aceitável, com a mais valia da vista.

Ainda há pouco tempo recebi os tomatinhos de entrada engelhados, meio dente de alho para cada pessoa e vinho a copo em que certamente não havia mais de 50 ml. Mesmo as tapas, encontra em muitos sítios coisas tão boas (para não dizer melhores) e sem assinatura.
Claro que também há os jantares especiais, mas a esses nunca fui.

Se gostar de japonês, vá ao Midori, também da Penha longa. Pelo menos da última vez estava muito bom.
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De Ricardo Ferreira a 28.05.2013 às 12:19

Gostei muito do que se mostra neste post, e fiquei com vontade de experimentar (apenas ao jantar, pelo que leio nos outros comentários!).
Posso fazer apenas um comentário preciosista? Aquela gamba "à guilho" ficou-me entalada... Esta invenção portuguesa do "à guilho" não faz sentido, por muito que seja erradamente usada em muitos restaurantes. O termo é "al ajillo", em bom castelhano. Em português o mais correcto seria "ao alhinho", ou simplesmente "ao alho".
Obrigado!
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De Paulina Mata a 29.05.2013 às 01:37

Relativamente ao seu comentário, concordo consigo a 100%. Para a legenda, copiei o que estava no menu.
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De Ricardo Ferreira a 29.05.2013 às 18:51

Obrigado pela resposta, Paulina - peço desde já desculpa, e transfiro a crítica todinha para os responsáveis da ementa do Arola!! :)

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