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Solar dos Presuntos, um clássico em Lisboa

por Miguel Pires, em 20.05.13
 

Em Lisboa, tal como noutras cidades que contam com muitos visitantes, existem “templos gastronómicos” que são verdadeiras armadilhas para turistas. São lugares bem localizados que vivem do passado - da sua história ou de uma personagem - e beneficiam do auxílio dos principais guias turísticos, que os destacam e recomendam recorrendo aos mesmos clichés, anos a fio. O cliente conhecedor e informado evita-os, mas o turista menos exigente acha ‘very tipical’ e como não tem grande ponto de comparação mostra-se satisfeito ou, no máximo, em caso de embuste mais descarado, encolhe os ombros e segue. No dia seguinte, novas fornadas de clientes preencherão os mesmos lugares e assim prossegue uma pescadinha de rabo na boca insípida, que nem as redes sociais (que vivem da suposta opinião do utilizador) acautelam por aí além - até porque, não raras vezes, ajudam a amplificar o equívoco.

 Porém, há locais que provam que se pode ser bem sucedido junto de clientes habituais e turistas ocasionais, realizando um bom trabalho - mesmo que nem tudo seja a perfeição das parangonas dos 'trip advisors'. O Solar dos Presuntos, próximo da Praça dos Restauradores, em Lisboa, é um destes bons exemplos.

 O local impressiona: são 180 lugares divididos por 3 andares, sempre à cunha. No rés do chão, onde se destaca uma parte da cozinha à vista e o viveiro de marisco, fica normalmente quem não efectuou reserva (é aqui que encontramos mais estrangeiros). Nos dois pisos superiores, com um ou outro pormenor diferente, a distinção faz-se, principalmente, por se destinarem fumadores (o 3º andar), ou não fumadores (o 2º andar). Se a gastronomia é o grande atractivo do local, o ambiente e a decoração não ficam atrás. As obras dos últimos anos deram-lhe um ar mais elegante e contemporâneo, mantendo, como não poderia deixar de ser, a galeria de fotografias e ilustrações de figuras públicas -  entre clientes habituais e ilustres de passagem - que forram as paredes das salas. Não sou adepto do género (normalmente não revela um bom prenúncio) mas confesso que, no caso do Solar dos Presuntos, acho piada, de tão assumido e exagerado que é.  A alma do restaurante é o seu proprietário, Evaristo Cardoso, antigo chef da selecção nacional de futebol (está explicado o porquê de tanto cliente jogador da bola nas paredes) e que abriu a casa poucos meses após a revolução de Abril de 74. Hoje o chef Evaristo ainda marca presença regular, mas já não gere a cozinha no dia a dia, ficando essa função a cargo de José Silva.

 Quando chegamos, pelas 20.30h, há um aglomerado de pessoas à porta. Uns com reserva, outros sem, mas ninguém parece importar-se por ter de esperar. Quem está próximo da entrada a receber é Pedro Cardoso, filho de Evaristo, a quem cabe hoje em dia a gestão do restaurante (em conjunto com o pai e a sua mãe, Graça). É ele que nos acompanha ao piso superior e nos apresenta o chefe de sala, Agostinho Ferreira. Com a ementa na mão começa a parte difícil: escolher. A lista é extensa e as opções infindáveis, para peixes, mariscos e carnes, entre grelhados, fritos, assados no forno e guisados – a maioria de cozinha regional (com incidência para a minhota) com um ou outro prato internacional, normalmente à moda da casa. Reparo que existem várias propostas com a mesma guarnição, provavelmente para facilitar a gestão da cozinha com inúmeros pedidos em simultâneo. O caso não constitui uma falta grave. Contudo, também não é a maior das virtudes.

 Enquanto decidíamos o que pedir fomos petiscando algumas entradas colocadas na mesa. Foi o caso do combinado especial composto por fatias de queijo de S. Jorge, presunto ibérico e paio, três produtos de boa qualidade e a preço justo (10.90€), o que acompanhado de uma imperial bem tirada marcou pontos logo no inicio da refeição. Também sem ordenarmos (mas íamos fazê-lo) chegaram-nos uns peixinhos da horta de boa polme e fritura irrepreensível - sem dúvidas, dos melhores que já comi (e nem sequer estamos na época natural do feijão verde!). O Solar dos Presuntos é famoso pelas especialidades de época, como é o caso da lampreia e do sável (entre Janeiro e Abril). Já tinha comprovado o bom tratamento dado à lampreia numa anterior visita, em que apreciei, especialmente, a versão em escabeche. Por isso, desta vez escolhi o sável. Compunham o prato, quarto postas de bom porte, espessura fina, como manda a regra, tempero suave (com um toque de limão a sobressair) e tratamento a preceito. Pena que a açorda que acompanhou fosse demasiado infantil e não se sentisse a textura do pão como prefiro. Tratou-se de uma versão com lavagante a fazer vez à normal, apenas com ovas - uma gentil oferta, presumimos, pois não constou na conta no final. Um outro reparo que não é exclusivo, nem deste prato, nem do restaurante: talvez fosse altura de acabar com a triste cenoura ripada acompanhada de um ramo de salsa sem graça, como decoração. Estou em crer que, na larga maioria das vezes, essa parte volta para cozinha como veio, intacta. Ora se não está lá a fazer nada, para que serve?

O prato seguinte foi um polvo à galega de boa linhagem, tempero (com o colorau bem doseado) e corte certo. Já o folhado de perdiz falhou na massa que envolvia o generoso recheio da ave. Por fora até prometia, pelo aspecto dourado e luzidio. Porém, no interior, as folhas mal cozidas aglomeraram-se e tiveram de ser descartadas. O último prato, antes da sobremesa, foi a feijoada de lebre, uma especialidade que recomendo e que constitui um bom exemplo no domínio do fogão. Agradou-me muito o feijão no ponto e, novamente, a mão para o tempero certo. Nem de mais, nem de menos. Para rematar a refeição veio um pão de ló de Monção com doce de ovos. Uma delicia, sobretudo, para os adeptos de doces com muitos ovos.

No capitulo dos vinhos diga-se que o Solar dos Presuntos tem uma carta bem recheada (apresentada em ipad), com um pouco de tudo: marcas clássicas a par de outras mais recentes, boa distribuição de referências por regiões e colheitas de vários anos, algumas a preços óptimos - como foi o caso do tinto, Poeira Douro 2009, com que combinámos uma boa parte refeição e que custou 29.50€, um valor praticamente idêntico ao de loja. Registe-se ainda um honesto e fresco Bons Ares branco (16€), com que acompanhámos o sável. Ambos os vinhos foram servidos a uma temperatura correcta e em copos que cumpriam as regras mínimas.

Por último uma nota em relação ao serviço de sala para referir que o atendimento foi prestado com profissionalismo, cortesia e timing certo, disfarçando relativamente bem o rodopio e a azáfama próprios de casa grande e cheia.

O Solar dos Presuntos é um daqueles restaurantes que apetece voltar e recomendar. No entanto, o merecido sucesso, que atrai ilustres e anónimos, nacionais e estrangeiros, habitués e turistas, não deveria isentar os responsáveis de procurar melhorar certos detalhes.

 

photo 1.JPG
peixinhos da horta
photo 2.JPG
sável frito
photo 3.JPG
feijoada de lebre
photo 4.JPG

pão de ló de Monção 

 

Cozinha: 17 ; Sala: 17; vinhos: 17.5

 

Preço médio: 40€. Por esta refeição pagou-se 50€ por pessoa

 

Contactos: Rua das Portas de Santo Antão, 150. Tel: 21 342 42 53; Horários:2F a Sab:12:00h/23:00h (encera aos Domingos e feriados)

 

Texto publicado originalmente na revista Wine - A Essência do Vinho, nº 78, de Março 2013 (Foto de entrada retirada da página do Facebook do restaurante)

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publicado às 23:53


3 comentários

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De Ricardo a 21.05.2013 às 11:22

Gostei muito desta crítica. Muito útil.
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De Artur Hermenegildo a 21.05.2013 às 12:15

O cozido, julgo que às 4ªs, é excelente e de merecida fama (para fazer uma frase no estilo tradicional do próprio restaurante)
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De Jo Souto a 27.05.2013 às 10:40

Excelente restaurante, atendimento e localização! :) dos melhores em Lisboa!

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