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Voltemos a Paris, desta vez para falar de um dos restaurantes mais badalados da cidade, um neo-bistrot "de sensibilidades old-school", como é descrito no site do The World's 50 Best Restaurants, o Le Chateaubriand, do chef Iñaki Aizpitarte - há 5 anos na lista e actualmente na 18ª lugar do mundo.

 

Ao contrário de outros colegas meus, simpatizo com a famosa lista da revista Restaurant, o que não significa que a siga à risca ou a veja de forma dogmática. A verdade é que o ranking do World's 50 Best Restaurants veio dar notoriedade e valorizar experiências gastronómicas em latitudes a que, por exemplo, o Guia Michelin não chega, ou a restaurantes que fogem ao padrão mais formal e luxuoso do guia vermelho. Já experimentei pratos ou mesmo menus completos de 20 dos 50 chefes que constam na lista - uns nos seus restaurantes, outros em jantares especiais fora dos seus espaços. Uns foram melhores do que outros mas a única verdadeira decepção aconteceu há menos de um mês, precisamente no Le Chateaubriand.

 

Na verdade, pior que uma decepção, a experiência no Le Chateaubriand foi um tremendo equívoco, um insulto. Há ideias originais, sim. Porém, na maior parte das vezes ou mal desenvolvidas ou sem nexo. Tirando os snacks iniciais, o jantar foi uma sequência de disparates atrás de disparates. 
 
Um prato com gougères foi o primeiro dos snacks. Simpático, mas não mais do que isso.  

photo 1.JPG

Seguiu-se um shot de ceviche com flor de sabugueiro. Saboroso, simples e, até certo ponto, original. 

photo 2.JPG

Micro gambas fritas foi o snack seguinte. Lembrou-me os nossos joaquinzinhos, crocantes e intensos no sabor. Boa ideia a do pó de maracujá a espevitar o sabor. 

photo 3.JPG

Depois vieram umas amêijoas com concassé de tomate. A melhor proposta da noite, para não dizer, a única verdadeiramente interesante. Prato frio pleno de sabor, tanto da parte das amêijoas, como do tomate, que emanava umas interessantes notas fumadas. 

photo 4.JPGCaldo de porco com funcho. Lembrou-me uma sopa de miso ou o caldo de um ramen, mas sem massa. No fundo apenas umas favas de cacau, o que acrescentava notas amargas a um conjunto em que o umami se destacava. Até aqui as coisas corriam bem, tendo em conta que estávamos na fase dos preliminares. O pior veio a seguir.

 O primeiro dos pratos foi um bonito (meio cru) com couve chinesa, framboesas, cebola e alho francês, uma proposta sem alma tão (pouco) excitante quanto o empratamento. 

O rodovalho cozido com sementes de sésamo e beringela fumada oscilou entre a comida de hospital e o disparate. Pobre rodovalho carregado de azeite intenso e de uma paleta de sabores que andavam ali ao estalo sem se entenderem. A ideia de apresentar sementes de sésamo por torrar, como se fosse um cereal, até pode ser original, pena que não seja boa, nem no sabor, nem na textura.
 
E depois havia uma beringela insuportavelmente fumada - e eu que gosto bastante deste legume fumado como fazem em algumas cozinhas do mediterrâneo e Médio Oriente. Foi interessante olhar para as outras mesas e ver a cara das pessoas, de sorriso incrédulo e a legenda "isto não me está a acontecer". Nesse momento, e apesar de ter levado para a cozinha vários pratos meio consumidos, a empregada resolveu perguntar-me a opinião. Não costumo dá-la, até porque é das poucas coisas que tenho para vender :).  Acontece que estava assombrado com a refeição, tinha levado duas ou três vezes com as migalhas do pão (muito bom, por sinal) - cuja mesa de corte ficava mesmo ao lado da minha -,  e já não aguentava ver o rabo de cavalo da menina a roçar nos pratos. Por isso disse-lhe estar perplexo com a expêriencia, em geral, e com o mau que era aquele prato. A menina ficou também preplexa com a resposta, mas passou-lhe ao fim de dois segundos, pois lá seguiu para a cozinha com mais uns pratos meio comidos e o cabelo a dar a dar. 
 
Fiz figas para que a próxima etapa corresse melhor. Em vão. Vitela de leite, nabos (brancos e vermelhos), queijo mascarpone, limão confitado e endro. Com excepção do limão, que deu alguma alma ao conjunto, tudo tinha sabor, mas nada ligava com nada. Vitela com endro, a sério?!! 
Pre-dessert: gelado de cereja com alcaparras secas. Com o quê?! Wtf?! Simplesmente detestável! Nem as cerejas, sensaboronas, se safaram. Não era possível fazer pior. Achava eu...
 
Tocino do cielo. Para um português (e mesmo para um espanhol) o toucinho céu é uma daquelas sobremesas de ovos e açúcar quase impossíveis de não gostar. Pois. O prato chegou com a indicação para comer tudo de uma só vez. A esta altura do campeonato já estava por tudo e, ainda para mais, tinha bom aspecto. No entanto imaginem uma gema de ovo cozinhada a baixa temperatura (ou seja semi liquida por dentro). Em cima, vestígios de açúcar queimado e, na base, massa areada de tarte (ou algo do género) e amendoa ralada. Aparentava ser uma boa ideia... só que ainda em fase de desenvolvimento.  Agora sigam as instruções. Coloquem tudo na boca e imaginem o forte sabor a gema pura crua (ou quase). Ou seja: nem o açucar do topo, nem a base são suficientes doces para aquela gema, muito menos para quem imagina um tocinho do céu. Mais uma vez resultado foi de um desconforto atroz. 
 
 
No final, vieram ainda uns morangos com mukhwas, ou algo parecido com as pequenas sementes de funcho revestidas a açucar e aroma de menta que nos dão nos restaurantes indianos, no final da refeição, para auxiliar a digestão. Foi a parte com mais piada de um jantar que teve muito pouca graça. 
 
 
Até posso ter apanhado um dia mau, num restaurante recomendado por vários chefes que admiro (vejam a entrada sobre o Le Chateaubriand no livro "Where Chefs Eat"). Porém, foram demasiados disparates seguidos para acreditar que possa ter sido apenas um acidente de percurso. Gosto que me desafiem e até que me causem desconforto. No entanto, o desconforto tem de ser compensado, aqui e ali, com algo confortante. Algo que no final transmita uma sensação global de prazer, de equilibrio. Sementes de sésamo cruas?! gelado de cereja com alcaparras e gema crua como sobremesa?! A sério? Alguém devia dizer a Iñaki Aizpitarte que não é Andoni Aduriz quem quer, nem mesmo em versão blasé parisiense. 
 
P.S. Neste mesmo dia almocei incrivelmente bem no Septime, um restaurante com um conceito idêntico, com uma proposta desafiante, criativa e bem executada. O meu problema não é com a informalidade do formato, antes pelo contrário. Numa cidade como Paris, onde um jantar num dos restaurantes de topo alcança facilmente os 500€, os neo-bistrots vieram trazer uma lufada de ar fresco , com a sua informalidade e preços acessiveis. Tanto o almoço do Septime como este no Le Chateaubriand, ambos com menu de degustação, 2 copos de vinhos e café, custaram 75€/pessoa. 
 
Le Chateaubriand: Avenue Parmentier, Paris, França; Telefone:+33 1 43 57 45 95 (aberto apenas ao jantar)
 
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publicado às 13:13


8 comentários

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De Artur Hermenegildo a 12.07.2013 às 15:05

Do Séptime já falámos.

Lendo a tua crónica, dentro do mesmo formato, da próxima vez que fores a Paris recomendo-te vivamente o Agapé Substance, do chef David Toutain:

http://www.agapesubstance.com/#/en/home/

que teve "nota 9" e uma crítica entusiástica aqui:

http://www.lomejordelagastronomia.com/restaurantes/agape-substance

Eu achei extraordinário.
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De Antonio Lopo a 13.07.2013 às 14:52

Boas,

Sr. Hermenegildo deixe-me corrigi-lo com todo o respeito.

O Agapé Substance já não é do David nem da mulher dele, foi vendido!

O chef que la está não conheço, mas da antiga equipa não resta ninguém.

Tudo muda num apice.


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De Artur Hermenegildo a 15.07.2013 às 10:31

Obrigado plea correcção.

De facto não sabia. Creio que ainda era ele quando lá fui o ano passado.
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De Artur Hermenegildo a 15.07.2013 às 11:47

E aqui está a confirmação da informação disponibilizada pelo António Lopo.

É pena, porque era de facto um grande restaurante. Não sei como estará agora.

http://eater.com/archives/2012/11/13/david-toutain-leaving-paris-acclaimed-agape-substance.php
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De Artur Hermenegildo a 12.07.2013 às 15:12

Curiosamente, o ano passado hesitei entre o Le Chateaubriand e o Séptime.

Houve alguma coisa na descrição do Chateaubriand que me levou a escolher o Séptime, talvez um certo ar a cois para "épater le bourgeois".

A experiência no Séptime (que era nº80 e tal na lista o ano passado e subiu este ano a 49º) e esta tua crónica leva-me a ter a certeza de que o meu "gut feeling" estava certo e que escolhi bem.
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De Andre Lamelas a 13.07.2013 às 10:30

Miguel, partilho inteiramente da sua opinião. O menu que comi no Chateaubriand foi ligeiramente diferente do seu mas a desilusão foi a mesma...
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De Antonio Lopo a 13.07.2013 às 14:41

Boas,

Tenho de concordar com maior parte do que escreveu, já lá fui comer algumas vezes e não achei nada de outro mundo e o menu em sim não varia assim com tanta frequência, agora tem um restaurante de tapas 10 metros ao lado...mas que é um grande negocio é, a que ser esperto!

Espero que tenha falado com o "sommelier" porque ele é brasileiro e é sempre amigável falar com alguém da nossa língua.

Boa continuação
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De samanta stewart a 18.08.2015 às 10:46

Concordo plenamente com o seu review. Eu tinha altas expectativas do Chateabriand e meu jantar foi mediocre. Estou escrevendo o review agora e vou colocar no blog essa semana.

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