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Há cocktails e há o Negroni

por Miguel Pires, em 06.08.13

 Nestes últimos anos a moda dos cocktails alastrou-se a Portugal. Em Lisboa, David Palethorpe foi um dos responsáveis pela expansão do fenómeno, primeiro no seu Cinco Lounge (ainda a moda não era moda), e depois, nas receitas que desenvolveu para restaurantes como o Bistro 100 Maneiras, Pharmacia, Cantinho do Avillez, etc. Com os cocktails chegou uma série de bebidas: umas novas, outras conhecidas pelos profissionais da área, mas nem tanto pelo comum dos mortais. Por seu lado o mercado de vodkas, gins e afins sofisticou-se, do mesmo modo que um vermute deixou de ser apenas sinónimo de Martini ou Cinzano, para passar a ser também de Noilly Prat ou Punt e Mes. 

 Mais ou menos em simultâneo com toda uma panóplia de novos cocktail's regressaram os clássicos. O Cosmopolitan deixou de ser bebido apenas por fãs de Carrie Bradshaw (da série Sexo e a cidade), ou o Dry Martini por aspirantes a gentleman a la 'my name is Bond'. Ao mesmo tempo que se banalizaram as caipirinhas e mojitos de má qualidade, o gin tónico subiu de categoria. Muito devido aos ingleses, mas talvez mais ainda devido aos espanhóis, verdadeiros viciados na causa. Graças a uns e a outros (e certamente mais alguém pelo caminho), chegou-se ao ponto de se escolher, não apenas o gin, mas também, a água tónica que se quer para este cocktail, que é provavelmente o mais celebrado e bebido entre gastrónomos.

 Sou um adepto de ambos: clássicos e modernos. Porém, a minha preferência - e actualmente um vicio quase diário - vai para um cocktail bem 'old school', o Negroni.

 A receita é simples, mas é nos detalhes (como quase sempre) que reside a diferença entre um bom Negroni e um Negroni excepcional. Detalhes que vão além do tipo de vermute 'rosso' ou do gin que fazem companhia ao Campari (em proporções iguais) e que podem incluir, também, preciosismos como a água com que se faz o gelo ou o tipo (e a época) da laranja  que dá o toque final - e que não é apenas decoração. De inicio fazia-o com o que tinha à mão. Uma garrafa de Bombay Saphire, uma de Campari (abertas sabe-se lá há quanto tempo) e outra de Martini Dry, que de tão velho tinha virado doce e escuro.

Com o tempo e à medida que fui o fui pedindo de bar em bar (no Brasil tem direito mesmo a um movimento nas redes sociais, o #squadranegroni) fui refinando a preparação. Não sou tão nerd ao ponto de mandar vir água pura da Escócia para fazer gelo, mas uso água filtrada. Também despachei o Martini fora de prazo e passei a utilizar Punt e Mes, um vermute doce com um toque mais bitter (amargo) e botânico (devido à variedade de ervas presentes na sua composição). O gin que uso actualmente é o Hendrick's, o que realça ainda mais o bouquet aromático, mas a razão de ser deste cocktail é o Campari, bebida italiana, vermelha, amarga, herbácea, doce e única (ufa!) de que sou devoto. Para ser perfeito o Negroni precisa, para o meu gosto, de uma laranja mais ácida. Contudo, a doce do Algarve, desta época, tem a vantagem de se comer melhor no final, quando ainda embebida na mistura. O Negroni é um aperitivo e como tal tem a função de abrir o apetite. É verdade, um Negroni abre-me sempre o apetite. Para outro Negroni. 

 

Negroni:

1 parte (30 ml) de Campari

1 parte de vermute (Punt e Mes, o eleito; ou outro 'rosso', como o Martini)

1 parte de gin 

1 rodela de laranja 

 

Deitar as bebidas sobre gelo num copo 'old fashioned' (mais ou menos como o da foto). Mexer e colocar uma rodela de laranja cortada ao meio.

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publicado às 16:43


10 comentários

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De João a 06.08.2013 às 17:26

Cheers... partilhamos o gosto.
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De Nuno a 06.08.2013 às 18:36

O Negroni é uma paixão antiga que conheci enquanto vivi em milao. A maioria eram servidos em copos altos e largos. Bons tempos.
Obrigado pela partilha :)
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De Miguel Pires a 06.08.2013 às 19:45

Caros João e Nuno

eu sabia que não estava só! Juntem-se na luta. Primeiro protestem sempre que pedirem um Negroni e vos respondam que não há. Segundo, protestem sempre que vier mal feito. Terceiro, ergam uma estátua ou, pelo menos, dêem os parabéns sempre que vos derem um Negroni como deve ser. :). Por falar nisso, está na hora.
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De Pedro Aragão Freitas a 07.08.2013 às 09:04

A respeito do Brasil e do Negroni, aconselho a visualização do filme \"Estômago\". Vale a pena!
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De Miguel Pires a 08.08.2013 às 11:39

Vi esse filme há já algum tempo e gostei bastante. Pelos vistos vou ter de o rever :)
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De Anónimo a 07.08.2013 às 22:41

O Cinco, até há bem pouco tempo, tinha disponível na carta um 'aged Negroni' (o qual o nome próprio não me recordo!), envelhecido em madeira, que o tornava um pouco mais 'redondo', afinando a bitterness do Campari, um must para quem é viciado em Negronis!

Ps: Pessoal/ nunca uma rodela, apenas uma grande zesta de laranja, espremida e torcida!
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De Miguel Pires a 08.08.2013 às 12:26

Fiquei curioso em provar o aged negroni. Na semana passada o Vítor Claro falou-me na 'colheita especial' que ele próprio vez, mas não me deu a provar (bastard!). Na net existem várias receitas e até não parece muito complicado de fazer, tirando a parte 'onde encontrar um barril de madeira e a que preço'.

Quanto à questão de utilizar-se uma rodela ou uma zest (casca sem a parte branca) de laranja, não é assim tão linear, dado que tanto aparece de uma forma ou de outra. até mesmo na história de como foi criado o Negroni* *, assim acontece. Em alguns sítios fala-se na rodela de laranja, em outros, numa orange garnish '. De facto não é indiferente um caso em relação ao outro. No meu caso gosto de ambos. A zest quando torcida liberta o óleo da casca de laranja, transmitindo um sabor e um aroma mais denso e profundo; já a rodela transmite um sabor mais fresco e vivo, dada a presença da polpa de fruta



*A receita original foi criada 1919, no Caffè Casoni, em Florença, quando um cliente de nome Camillo Negroni* , cansado do seu Americano - Campari, vermute e club soda (água gaseificada) - sugeriu que substituisse este último por gin. O barman deu ainda um último toque e em vez de limão utilizou laranja.

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De José Diogo Moreira a 16.08.2013 às 14:44

Não sabia a história original, já aprendi, obrigado!

Sim, a guarnição é tudo, menos linear. Um pouco a caminhar para os martinis, com zesta de limão ou azeitona? Nunca espero chegar a um consenso, é bom assim, personalizável!
Lembrei-me agora que outra experiência imperdível para os #squadranegroni é fazê-lo com 'Dubonnet', o vermute que não é vermute porque é um vinho fortificado francês!

Ainda nesta onda de voltar aos "old-school, straight-up cocktails" gostava de ver o regresso do 'Old-fashioned', principalmente agora que bartender que se preze cozinha o seu próprio Bitters!

Ps:Além do imenso tempo em ler e responder ao seu comentário, também não me 'identifiquei'! Está resolvido agora, as minhas desculpas por isso.

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De Anónimo a 30.09.2013 às 23:54

apenas um pequeno(grande) erro
pondo os pontos nos iiii
1 parte de gin (gin. nao uma destas novas variantes de gin aromatico)
1 parte de campari
1 parte de vermute DOCE (comecando por martini podemos passar por noilly prat, punt e mes,etc
1 gomo ou rodela de laranja (e semi espremida , para cortar 1 pouco o alcool , testem uma variaçao com um gomo de tangerina ou na loucura uma bola de sorvete de laranja ou tangerina )
e disfrutem dste aperitivo italiano que dificilmente é do agrado da maioria dos portugueses
alberto pires
mojito bar catering
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De Thomaz a 13.01.2014 às 15:15

Saudações daqui do outro lado do atlântico. Saúde!

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