Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Senhor Baga ou Senhor Marketing?

por Miguel Pires, em 16.09.13

"Tenho uma casta, amada e desamada, que conforme o rendimento pode parecer um pinot noir ou um nebbiolo, ou de forma menos evidente, um sangiovese de Brunello. Se posso ter uma casta que tem o melhor que há do mundo, porque plantar castas estrangeira?"

O marketing é uma arma essencial para vender um produto, um serviço, uma imagem e pisso é necessário adquirir conhecimentos de forma a dominar as técnicas que permitam definir uma estratégia ou executar um plano de acções. No entanto existem algumas pessoas com uma intuição e um dom especial para o assunto que fazem a diferença. Luís Pato é um deles. É alguém que utiliza o carisma e a imagem - de especialista, mas também de irreverente - para passar uma mensagem. E nem precisa de o fazer de uma forma directa (embora por vezes o faça) porque, como bom sedutor, Luís Pato sabe que quando se é uma referência fica bem, em lucra-se em puxar pelo bem comum. Trocado por miúdos, ele sabe que ao puxar pela Bairrada, pela baga - a casta emblemática da região (a tal que é amada e odiada) - ou quando defende que a região deve fazer dos espumantes e dos brancos a sua grande aposta, ele está a puxar também pelos seus vinhos. Claro que tudo isso é mais fácil quando se é uma figura emblemática, não só na região, mas também no país (e até mesmo fora dele).
E ser-se uma referência e uma autoridade na matéria não vem do discurso (ok também vem um bocadinho), mas sim dos belíssimos vinhos que tem vindo a fazer ao longo de mais de duas décadas. Luís Pato gosta de ser conhecido pelo "Sr Baga". Porém, "Sr Marketing" é um cognome que não lhe assenta nada mal.

Leia ainda:

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:30


5 comentários

Sem imagem de perfil

De Pedro Cruz Gomes a 16.09.2013 às 17:23

Gosto de ler estas declarações e de as comparar com a posição completamente oposta de José Bento dos Santos quando justifica as suas opções de produtor vinícola com base no argumento de ser muito menos difícil comercializar externamente um vinho feito com castas já conhecidas (leia-se, com castas francesas).

Respeito o Eng.º e o trabalho desenvolvido, mas sou mais "patista" (... ainda que aquele recorra igualmente às castas "externas" para realçar a "sua" Baga)...
Sem imagem de perfil

De FBS a 21.09.2013 às 12:59

Caro Pedro Cruz Gomes,

Em primeiro lugar, deixe-me dizer-lhe que o Engº Luís Pato e o meu pai foram colegas de curso no I.S.Técnico (Engª Químico-Industrial) e, desde então, são grandes amigos e decidiram até, recentemente, fazer um vinho em conjunto (o Pato d'Oiro). Curiosamente (porque não havia nenhuma ideia pré-definida), esse vinho foi elaborado a partir de castas nacionais (a Baga da Vinha Barrosa e a nossa Tinta Roriz), apenas com um toque de Syrah.

Dito isto, permita-me apenas rectificar o seu comentário quando afirma que a nossa decisão de plantar na QMdO castas estrangeiras (maioritariamente Syrah e Viognier, mas também Cinsault, Petit Verdot e Marsanne) se prendeu com a suposta facilidade posterior de comercialização/promoção no mercado externo. Pelo contrário, a escolha das castas foi feita com base exclusivamente nos estudos de solo e clima de que dispúnhamos e que apontavam claramente para essas castas francesas, mas também para a Touriga Nacional, Touriga Franca (que entretanto abandonámos) e Tinta Roriz.

Agora, relativamente à promoção externa do país como um todo, o que o meu pai defende é que, para Portugal se afirmar internacionalmente, deve concentrar esforços e (os parcos) recursos para dar a conhecer as suas "estrelas". Ou seja, mostrar os seus grandes vinhos lá fora, provando que têm um nível de qualidade que pode perfeitamente competir com o que de melhor se faz em todo o mundo. E isso sem "preconceitos ideológicos" associados nem ostracizar ninguém, isto é, não deixando de fora à partida vinhos que não sejam elaborados a partir de castas nacionais.

Além disso, também é da opinião que, para "desbravar" caminho na exportação, é importante que apresentemos "marcas" com as quais os consumidores se identifiquem, que reconheçam. Ora, depois do boom dos vinhos do Novo Mundo, as principais "marcas" passaram a ser o preço (em 1º lugar) e... a casta, naturalmente com destaque para as de origem francesa. Isto porque, para um consumidor que não conhece os vinhos portugueses nem tem grande interesse em saber demasiado sobre os vinhos que consome (apenas querendo beber bons vinhos), é indiferente (ou até confuso/penalizador) deparar-se com as nossas 1001 castas autóctones e todas as suas estórias. Claro que isto não significa que não haja curiosos e aficionados que não queiram precisamente conhecer ao mais ínfimo detalhe todas as particularidades das castas portuguesas, mas certamente essa não será a vontade do consumidor comum que bebe regularmente vinhos franceses, italianos, espanhóis, autralianos, chilenos, sul-africanos, etc.

No fundo, o que o meu pai não acredita é que a grande afirmação do nosso país se consiga centrando a mensagem na grande variedade de castas e regiões portuguesas. Mas, acima de tudo, defende - e tem-no dito diversas vezes e publicamente - que deve ser definida uma estratégia (com a qual é impossível que toda a gente esteja de acordo), implementada/executada e, no final, avaliam-se os resultados. Se forem francamente positivos, ele será o primeiro a reconhecer que, ao contrário do que imaginava, o caminho desenhado estava correcto.

Por último, o Engº Luís Pato e o meu pai têm filosofias e também escalas de produção diferentes, mas ambas com opções perfeitamente justificadas, comprovadas e (felizmente) bem sucedidas. O que não significa que não se respeitem e admirem mutuamente e que estes mesmo caminhos não possam ser até complementares (veja-se o Pato d'Oiro...). Já no que concerne à estratégia para melhorar internacionalização dos vinhos portugueses, têm visões aparentemente distintas - mas, acredite (conheço-os bem e já discutimos isto todos em conjunto), não são assim tão opostas quanto isso... ;)

Saudações enófilas,

Francisco Bento dos Santos
www.quintadomontedoiro.com
www.facebook.com/QuintadoMontedOiro

Imagem de perfil

De Miguel Pires a 21.09.2013 às 16:50

Francisco, se a Quinta do Monte d'Oiro quiser patrocinar o melhor comentário do mês, podes ficar já com uma garrafa :). Um abraço
Sem imagem de perfil

De FBS a 22.09.2013 às 16:16

Ena Michael (aka Chez Pirez), a mais de 1 semana do fim do mês fico lisonjeado com a distinção! Apenas quis contribuir para a discussão (que acho muito interessante) esclarecendo alguns pontos. Sai então 1 caixa de Syrah24 mas não te preocupes com a logística que eu combino directamente com o sponsor ;)
Imagem de perfil

De Artur Hermenegildo a 24.09.2013 às 12:26

O que provavelmente falta é associar a "Marca Portugal" a "Vinho de Qualidade", dentro das gamas e junto dos públicos alvo que nos podem interessar.

A Espanha há muito que o conseguiu, o Novo Mundo também.

Uma vez feito isso, tornar-se-á irrelevante se o vinho é feito com catsa autóctones ou internacionais/francesas.

Pessoalmente, penso que será mias provável conseguirmos essa associação por uma aposta na diferença e originalidade do que procurarmos competir com o Novo Mundo, por exemplo, a fazer Cabernets e Chardonnays "standard" que eles fazem melhor e com uma escala que lhes permite colocá-los no mercado a preços imbatíveis.

Comentar post



Pub


Os autores

Duarte Calvão (perfil)
Miguel Pires (perfil)

Porquê?

Três autores há vários anos ligados à gastronomia e vinhos criaram este espaço para partilhar com todos os interessados os seus pontos de vista sobre o tema (ver "carta de intenções").

PUB


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Mesa Marcada - Os 12 Pratos do Trimestre


Siga-nos no facebook


Mesa Marcada no Twitter


Confira os premiados e as listas...



Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Pub





Calendário

Setembro 2013

D S T Q Q S S
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
2930

Comentários recentes

  • Jorge Guitian

    Uno más para la agenda de la próxima visita a Lisb...

  • Joao Fernandes

    Eu trabalho com mangalitza na Hungria, neste caso ...

  • João Faria

    Há uns tempos deparei-me com uma imagem do marmore...

  • Bruno

    Interessante - moro em Londres e não conhecia o Ta...

  • Duartecalf

    Mais uma boa notícia. É sinal de que a nossa gastr...