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Restaurante Avenue (Lisboa)

por Miguel Pires, em 13.12.13
A cozinha rústica contemporânea de Marlene Vieira 
(Foto: Best Guide)
Quem passa pelo nº129 da Avenida da Liberdade, em Lisboa, não tem ideia de como é agradável a vista do primeiro andar desse edifício que, aos mais desatentos, se confunde com mais um prédio de escritórios como tantos outros da principal artéria da cidade. Aqui funciona o Avenue, o restaurante de fine dining inaugurado discretamente em Maio de 2012 e que ainda hoje, passado pouco mais de um ano, se mantém à margem dos grandes holofotes. À frente da cozinha está Marlene Vieira, que antes, como chefe residente do Manifesto, fora um garante e uma executante segura das criações de Luís Baena.
A jovem chefe de 32 anos, nascida na Maia, mas em Lisboa há 6 anos, já tinha estado à frente do restaurante do Hotel Westin Campo Real, em Torres Vedras, mas nunca tive a oportunidade de experimentar os seus pratos. Por isso, quando em Abril último assisti à sua prestação no Peixe em Lisboa e a vi, com segurança e determinação, apresentar uma cozinha com raízes e personalidade fiquei curioso e resolvi visitar o seu restaurante com o propósito de escrever esta critica.
Sem marcação dirigi-me ao Avenue para jantar, num dia de semana. A casa estava meio cheia e as mesas junto às janelas ocupadas. Percebia-se porquê. De fora não aparenta mas, de facto,  a vista para a Avenida da Liberdade é muito aprazível. Na segunda fila, onde me convidaram a sentar, ainda se vislumbra o panorama e, em volta, a configuração e a decoração discreta, mas requintada, transmite um ambiente harmonioso. Ao todo são 70 lugares já incluindo uma sala mais recatada que permite albergar um grupo pequeno.

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Couvert que inclui peixinhos da horta com maionese de coentros

 

A carta de comidas está dividida nas 4 partes habituais, que aqui ganham nomes sugestivos. Em “À descoberta” (entradas) temos 6 propostas, que vão do crumble de farinheira com ovo escalfado, à cavala de escabeche, dos pezinhos de porco, ao lavagante, passando pelo inevitável bacalhau. Depois, nos pratos de carne, ou melhor, “do campo”, temos 5 pratos (com leitão, borrego, vaca, alheira e pato como actores principais) e de peixes (“heróis do mar”), mais 6: do atum dos Açores ao bacalhau e broa, dos “carabineiros alourados” ao polvo à lagareiro, da “nossa versão da cataplana” ao lombo de cherne corado com “guisadinho de choco”. Para finalizar há sobremesas (5) com ovos em barda, ou não fosse o capítulo dar pelo nome, “dos nossos conventos”. Os preços andam entre os 4€ e os 9,5€ nas entradas (15€ para quem não resistir ao presunto Joselito de 55 meses de cura); entre 14€ e 21€ nos pratos principais (29€ para os carabineiros); e entre os 5€ e os 7€ nas sobremesas (15€ para o prato de queijos nacionais). Para quem quiser conhecer (como eu quis) um pouco de cada há um menu de degustação de 4 pratos por 36€.
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Terrina de polvo e croquete de amêijoa


Na verdade são 5, as propostas do menu, dado que a gulodice de uns peixinhos da horta, de polme e fritura exemplares, que se mergulham numa boa ideia chamada  “maionese de coentrada”, merece ser considerada como tal, ainda para mais as tostas, o bolo do caco e a manteiga estão acima da média do que abunda por aí em certos restaurantes finos. Há ainda o habitual entretém de boca. Nesse dia era uma interessante terrina de polvo e croquete de amêijoa, ainda que o recheio estivesse mais para rissol do que para croquete e mais para o sabor a bechamel do que ao bivalve. De entrada, de novo uma gulodice salgada: crumble de farinheira com um ovo escalfado na perfeição. Marlene acrescenta-lhe umas folhas verdes e puxa acertadamente do vinagre para transmitir alguma frescura e não deixar que se faça sentir tanto a gordura do enchido. É mais comfort food do que para cozinha de autor, mas não há como não gostar. O prato de peixe foi espadarte rosa com puré e chips de batata doce. No Avenue este tipo de espadarte - mais saboroso e menos comum do que o normal – leva uma ligeira cura, depois é braseado (trata-se da parte do lombo) e servido em fatias com o interior ligeiramente cru (ou curado, neste caso). A acompanhar vem um puré de batata doce com carácter. No entanto, ainda que haja uma cebola acídula no conjunto, a doçura do tubérculo impõe-se  em demasia ao sabor mais delicado do peixe.

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Crumble de farinheira com um ovo escalfado
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Espadarte rosa com puré e chips de batata doce
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Depois foi a vez do prato de carne: leitão assado, puré de maçã reineta e caril, molho de cabidela e chips de tubérculos (na foto de cima). Este prato esteve próximo do sublime, quer nos sabores - que sobressaem por sobreposição e por contraste -, quer nas texturas. Na verdade a pele estaladiça ofereceu mais resistência do que devia, mas o interior, senhores, estava de bradar aos céus, tal a qualidade do bicho e a mão certa de quem o temperou. Para rematar, no capítulo doceiro, veio um toucinho do céu perfeito, com tudo o que o seu adn contém: muitos ovos e açúcar. Marlene é fiel à tradição mas compensa o excesso acompanhando-o com um fresco sorbet de mangericão e frutas doce-ácidas, como o ananás e o kumquat. No entanto um toque a mais de doçura no sorbet retirou-lhe algum desse efeito de corte.

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Toucinho do céu, sorbet de mangericão e frutas doce-ácidas


Esta refeição foi acompanhada com vinho a copo de uma carta, apresentada em iPad, que conta com cerca de 300 referências. Com as entradas e o leitão bebeu-se um belíssimo e adequado branco da região de Lisboa, o Quinta Pinto Viognier e Chardonnay de 2007 (5.5€/copo) de notas meladas a revelar uma certa evolução, mas ainda com uma acidez invejável. Já com o leitão acolheu-se a sugestão de um Quinta do Serrado, Touriga Nacional 2008 (7€/copo), um Dão tinto com um aroma de fruta compotada e couro, taninos domados, mas com uma certa frescura na boca, que surpreendeu. Apetece dizer: afortunados aqueles que esperam alguns anos para servir e beber estes vinhos, que ainda para mais não doem na carteira.
Para finalizar esta apreciação refira-se que o serviço de sala, sem ser extraordinário, esteve em consonância com o nível do restaurante. Quem nos atendeu -lo de forma atenta, profissional e discreta.
 
Avenue é, sem dúvidas, um restaurante a ter em conta para a quem quer fazer uma refeição num ambiente requintado e confortável, com uma boa proposta gastronómica (e aqui incluo os vinhos) e preços razoáveis. Aqui, Marlene Vieira apresenta uma cozinha de autor, bem elaborada, rústica de raiz, mas com um toque contemporâneo. Ainda jovem,Marlene Vieira é um dos valores que vale a pena acompanhar para ver como vai evoluir o seu trabalho.  
 
Cozinha: 17 ; Sala: 17; vinhos: 17
 
Preço médio, refeição completa: 35/40€ (entrada, prato principal, sobremesa e bebidas). Pelo jantar descrito pagou-se 50€, por pessoa.
 
Contactos: Avenida da Liberdade nº129 B, Lisboa; Tel:21 343 21 15 ; Horário: 2F a 6f: 12.30h-15.30h ; Sab: 19.30h-23.00

Texto publicado originalmente na revista Wine nº81 de Setembro 2013

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publicado às 00:11


4 comentários

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De teixeira a 22.03.2014 às 23:29

Cozinha - 18 - Sala 17 - vinhos 15.
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De Miguel Pires a 24.03.2014 às 01:06

Pelos vistos a parte dos vinhos foi a que correu menos bem. O Avenue está neste momento a ser assessorado pelo o escanção Manuel Moreira e penso que ainda estarão numa fase de definição da carta de vinhos.
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De Teixeira a 24.03.2014 às 10:24

Miguel, tivemos o privilégio de um convívio - pós-refeição - com a enorme simpatia da Chef Marlene. Poderia ser competente, somente. Incrementa o talento com uma simplicidade que falta a assemelhadas no Rio de Janeiro, que se consideram verdadeiras "divas", inclusive com o apoio de "deslumbrados (as) "críticos de alimentação" (não de gastronomia). Prometeu-nos alertar para a nova ementa em Abril . Voltaremos. O espadarte-rosa foi além do que esperava. Fui justo em creditar ao blog a escolha do restaurante e do prato. Vinhos, de fato, a carta é fraca. Ou seja, a parte material vai bem obrigado. A espiritual em construção. Ouvi o escanção, e optei pelo Quinta do Cerrado Touriga Nacional 2008. Como diria um magistrado luso, companheiro de estudos, um "refresquinho ". O espumante a copo Bairrada que ditou o início dos trabalhos esteve correcto .
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De Só entre nós - he a 27.05.2014 às 09:41

Da primeira vez que fomos ao Avenue ficámos verdadeiramente encantados. Bom serviço, espaço agradável e, o mais importante, comida excecional. Bem servida, bem apresentada e deliciosa.

Apenas um defeito - erro na conta que, após pedido de correção, voltou a vir com novo erro. Primeiro, constava um prato diferente do pedido e, em segundo lugar, o preço do prato corrigido não correspondia ao preço em menu.

Infelizmente, na segunda visita, os pratos servidos apresentaram alguns erros, já não despertaram a mesma sensação de satisfação e o serviço deixou bastante a desejar. Imediatamente na receção, com o espanto do empregado ao ver-nos subir as escadas, quinze minutos depois da abertura do restaurante, comentando ainda que o restaurante ainda não estava aberto, apesar da porta estar aberta (e do horário). Para além disso, passou a refeição a fazer sugestões, em vez de se limitar a aceitar aquilo que tínhamos pedido.

Opinião mais detalhada, brevemente no nosso blog:
http://soentrenos.blogs.sapo.pt

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