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As datas que enchem os restaurantes

por Duarte Calvão, em 25.12.14

 Artigo publicado originalmente na edição de Novembro/Dezembro de 2012 da revista "Comer".

 

Há uns anos, quase ninguém ia a restaurantes celebrar o Dia dos Namorados, nem se sabia bem o que era nem quando era. Mesmo o Dia do Pai e o Dia da Mãe não levavam muita gente a sair de casa. E se o dia de Ano Novo e o Domingo de Páscoa já tinham significado, o Dia de Natal era mais passado no conforto do lar e quase sempre os donos de restaurantes preferiam dar também descanso ao seu pessoal. Na última década, tudo isso mudou e hoje esses dias “especiais” são dos que geram mais procura por parte de clientes, que ainda por cima estão mais dispostos em gastar em menus e bebidas apropriadas às datas que comemoram.

 

 

“No final dos anos 70, a Justa e eu trabalhávamos no 33 [Rua Alexandre Herculano, em Lisboa] e no dia de Ano Novo o restaurante fechava. Nesse dia, como ela estava farta de cozinhar, decidimos ir almoçar fora e encontrámos tudo também fechado”, conta José Nobre, nome histórico da restauração portuguesa, casado com a chefe Justa Nobre, ambos actualmente no Spazo Buondi/O Nobre, em Lisboa.”Só encontrámos um restaurante aberto, o Telheiro, que tinha fila à porta”, prossegue este experiente chefe de sala. “Como não havia opções e estávamos cansados de andar de um lado para o outro, esperámos e lá conseguimos mesa, já passava das três da tarde. No dia seguinte, contei a história ao meu patrão, que ficou muito espantado com esses novos hábitos das pessoas, mas a partir daí abrimos sempre a 1 de Janeiro e sempre com casa cheia”.

 

Nos restaurantes em que esteve nos 30 anos seguintes à época em que esta história se passou, o casal Nobre passou a dar importância a estes dias especiais, que, entre outras coisas, “servem para equilibrar a facturação”, segundo afirma José Nobre. Viram também o Dia da Mãe ganhar relevo, sendo o almoço desse dia o que preferem. Ainda mais recente foi o jantar de Dia dos Namorados, hoje dos mais procurados, mas que traz alguns problemas. “A maior parte das nossas mesas é para quatro ou seis clientes e nessa noite é tudo para dois, para casais. Ainda por cima, chegam todos ao mesmo tempo…Dá um bocado de trabalho, mas compensa”, considera José Nobre.

 

Também para Miguel Júdice, presidente do Grupo Lágrimas, o Dia dos Namorados, a par do de Ano Novo, é o mais significativo nos diversos restaurantes (instalados principalmente em hotéis) que explora de norte a sul do País. “Todos os outros dias são de grande movimento, mas esses são os mais importantes”, afirma, acrescentando que estas datas especiais não só fidelizam os "habituais", como servem também para atrair novos clientes. Fora menus especiais para o dia, o Grupo Lágrimas costuma oferecer extras, como animação musical no Ano Novo, perfumes no Dia dos Namorados ou ovos de chocolate para as crianças no Domingo de Páscoa.

 

Além de comemorar os dias “estabelecidos”, o Grupo Lágrimas tem-se destacado por criar ocasiões especiais nos seus restaurantes, geralmente ligados à cultura, como, por exemplo, fez recentemente com pratos relacionados com Fernando Pessoa na Cantina da Estrela, em Lisboa, ou da cozinha de diversos países, no Eleven, também em Lisboa, já para não falar do extenso festival artístico da casa-mãe do grupo, o hotel Quinta das Lágrimas, em Coimbra. Miguel Júdice explica porquê: “essas iniciativas são uma forma de cumprir uma certa responsabilidade social que assumimos, além de serem uma forma de relembrar ao público que existimos. Preferimos muitas vezes levar a cabo iniciativas culturais do que outras puramente comerciais, uma vez que isso é uma forma de nos diferenciarmos”.

 

Mas o movimento gerado pelos “dias especiais” não é igual em todo o País. Que o diga José Júlio Vintém, chefe de cozinha e proprietário do Tomba Lobos, em Portalegre. “Preferimos fechar no Natal e no Ano Novo, embora entre as duas datas sejamos muito procurados, principalmente por grupos, para quem temos menus especiais alusivos à quadra”, explica José Júlio Vintém. Por ali, o Dia dos Namorados é o mais forte, juntamente com a Páscoa. Mas a grande surpresa, é outra data, o Dia da Mulher, celebrado a 8 de Março. “Temos sempre muitos grupos de senhoras, que vêm com uma grande vontade de festejar”, diz o chefe do Tomba Lobos, que lhes prepara pratos especiais para esses dias, como bacalhau com espargos ou magret de pato com cerejas. Ou ainda, o Dia de Todos os Santos, 1 de Novembro, com o qual este cozinheiro alentejano “combate” o “estrangeirismo” do Halloween, com pratos como castanhas e broa de mel, típicos na região.

 

Mais a Norte, para Pedro Nunes, responsável pelo S. Gião (Moreira de Cónegos) e Quarenta e 4  (Matosinhos), o Dia da Mãe bate os outros todos. “Nesta região, as mães ainda são muito quem cozinha em casa e nesse dia as famílias costumam dar-lhes descanso”, explica. Tendo aberto o S. Gião há 28 anos, numa época em que estas datas de “homenagem” ainda não estavam muito divulgadas, Pedro Nunes garante que em relação ao Dia da Mãe sempre foi assim no seu restaurante. Já o êxito do Dia dos Namorados é mais recente, mas não há dúvida que também para aqueles lados se afirmou, atraindo casais de todas as idades.

 

Fechando em Moreira de Cónegos no Natal e Ano Novo, mas abrindo em Matosinhos para a passagem do ano, este chefe nortenho procura corresponder ao que os clientes pedem e salienta a importância destes dias na facturação. “Quanto mais dias como estes houver, melhor para nós”, conclui, sublinhando que, apesar do ambiente de crise no País, tem sentido que há muitos dos seus clientes mais abonados, que durante os últimos tempos andavam algo reservados nos gastos um pouco por “solidariedade” com a situação geral da nossa sociedade, agora parecem fartos de “crises” e com vontade de usufruir daquilo que a sua situação financeira permite. Ou seja, tudo indica que nos restaurantes de Pedro Nunes não faltará champagne nas Festas de fim de ano…

 

 

 

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publicado às 14:56


1 comentário

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De paulo beli a 26.12.2014 às 19:07

E ainda não chegou cá o Dia do Amigo. na Argentina é uma verdadeira loucura, com as marcas a fazerem campanhas publicitárias específicas para o dia, promoções, etc. Nos restaurantes é dia de casa cheia, com salas cheias de grupos de amigos que assim fazem a sua reunião anual. Os restaurantes fazem menus para o grupo e geralmente oferecem a refeição ao amigo que marca a mesa.

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