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A pergunta é frequente: “Onde se come um bom peixe grelhado, em Lisboa?”. A resposta é sempre um tanto embaraçosa porque nunca sei muito bem o que responder. Para mim, peixe grelhado é coisa de se comer à beira-mar (na Praia da Adraga, ou no Meco, por exemplo) e, por isso, é raro optar por tipo de preparação na capital.
 
 
Vem isto a propósito do convite de uns amigos para jantar no Aqui Há Peixe, próximo do Largo do Chiado, restaurante de que não ouvia falar há bastante tempo. Era uma sexta-feira à noite, final de um dia quente de Abril. O percurso entre o Príncipe Real e o Largo do Carmo fazia-se a custo, devido aos alfacinhas que festejavam na rua a antecipação do Verão, a que se juntavam os turistas que não param de afluir à cidade. Ainda não eram 20 horas e o restaurante já se encontrava cheio. Os tons de pele clara corada pelo sol e o som de idiomas centro-europeus, misturados com português tropical, levaram-me de imediato a constatar que seria o único português ali, naquela noite. Torci o nariz e procurei baixar as  expectativas. Teria-se transformado numa armadilha para turistas este “chiringuito de cidade”, “despretensioso e bem disposto”, como um dia o saudoso David Lopes Ramos o caracterizou? 
Na sala, o som de agrado que se faz sentir quando as pessoas estão a passar um bom momento parecia contradizer o mau presságio...
 
Miguel Reino (irmão de Bernardo Reino do famoso GiGi, no Algarve) formou-se como cozinheiro no Brasil nos anos de 1980 e por lá estagiou e abriu o seu primeiro restaurante. Ainda nessa década regressou a terras lusas onde foi dono de vários restaurantes, entre eles o Picanha, que fez sucesso, em Lisboa. Porém, o Aqui Há Peixe viria a ser o seu projecto mais bem sucedido e duradouro. Primeiro, durante 12 anos, na Comporta (ou mais precisamente na Praia do Pego) e desde 2010, em Lisboa, junto ao Largo do Carmo. 
 
O percurso do chefe anfitrião reflecte-se naturalmente no conceito do restaurante. Das influências brasileiras, aos petiscos e pratos de restaurante de praia, com destaque para os peixes grelhados, há de tudo um pouco. Nada muito original, mas quase sempre com um toque pessoal, aqui e ali, a dar-lhe uma certa personalidade.
 
De entrada provou-se três pratos de cariz petisqueiro. Fantásticas, as amêijoas à Bulhão Pato (talvez as melhores que comi este ano) com os bivalves a exibirem  um óptimo porte e qualidade superior, ainda para mais cozinhados no ponto e de acordo com a receita. O segundo petisco foi um pratinho de anchovas, algo raro, por cá, num restaurante.  Confesso que ao ler “da Cantábria” sonhei com as artesanais de Santoña, gordas e de sabor sem fim. Mas quem me manda a mim vislumbrar além do enunciado? Pronto, eram anchovas decentes (por 7€, não poderia esperar mais) em cima de uma rodela de tomate fora de época, logo, sem grande sabor. Dígamos que deu para enganar o desejo. Já as lulinhas com alho e coentros precisavam de maior competência - porventura menos pressa - na cozinha. Pareciam mais cozidas do que salteadas e isso prejudicou o sabor e a textura. Mas afinal estávamos ali pelo peixe grelhado (lembram-se?). Escolhemos um robalo e um pregado, ambos para duas pessoas (mas que deu bem para 5). E o que dizer? Muito bons, qualquer um deles. Carne suculenta e saborosa, a revelar o bom domínio da grelha e a qualidade do produto. Os mais puristas dizem que é um crime escalar um peixe de 1 kg (aprox) como era o caso do robalo, mas a verdade é que a mestria que faltou na confecção das lulas foi injectada em sobra em quem cuida da grelha. Clap, clap, clap! De acompanhamento: legumes ao vapor (feijão verde e cenoura) e batata assada. Tudo para salpicar com umas gotas de bom azeite e vinagre ou molho de manteiga, limão e alho. 
 

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Amêijoas à Bulhão Pato (com as lulas ao fundo)

 

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 Robalo grelhado escalado (sem ser assassinado)
 
 
A experiência com o peixe foi tão positiva que, passadas umas semanas, voltámos ao para a molharmos os pés outra vez. Agora, num dia de semana, com menos afluência, mas com mais clientes lusos. Além reincidirmos no robalo (antes que chegue o Verão e a sua gordura natural se perca), repetimos também as amêijoas. E os elogios. Nota máxima para a cozinha e para quem escolhe o produto. Experimentámos ainda as gambas al ajillo, correctas, mas sem ficarem na memória, e um arroz negro de choco, como se faz na região de Valencia. Embora pouco puxado nos sabores, o arroz estava agradável e a maionese de açafrão que acompanhava dava  twist  necessário ao prato. 
 
No campo doceiro, das “sobremesas da Mafalda”, a esposa de Miguel Reino, sobressaiu a encharcada de ovos,  molhada, saborosa e obviamente doce, mas sem exageros.  Interessante, ainda (e menos usual), os figos em calda com hortelã com gelado de baunilha, enquanto o bolo de chocolate com chantilly era agradável mas há melhor por aí. 
 
Em termos de vinhos, a carta do Aqui Há Peixe, com as suas cerca de sessenta referências (com larga tendência para o Douro e Alentejo) enquadra-se no espírito descontraído do restaurante, mas falta-lhe, incompreensivelmente, a mais básica das informações: os anos de colheita. A acompanhar a refeição bebeu-se um Soalheiro 2016, que vai sempre muito bem com peixes e mariscos, e um Quinta de Saes Reserva 2011, com elegância e complexidade quanto baste para se bater a preceito com o arroz negro, por exemplo. 
 
Por último, o serviço. A um sábado, com lotação esgotada (65 lugares) e muitos estrangeiros para tirar dúvidas a probabilidade do atendimento descambar parecia-me certa. Mas não. Em geral, houve eficiência e simpatia, quer nesse dia, quer na segunda visita, em ambiente mais calmo. 
 
Para terminar peço emprestada de novo uma afirmação de David Lopes Ramos (que desapareceu fez 6 anos no dia 29 de Abril), quando escreveu no Público sobre o restaurante: “ (O Aqui Há Peixe) tem tudo o necessário para uma refeição bem disposta e despretensiosa. Não lhe peçam mais”. Desculpa, querido David, mas peço sim: era mais um peixe grelhado para a mesa do canto, por favor!
 
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 figos em calda com hortelã

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encharcada de ovos

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O chefe da casa, Miguel Reino 
 
 
Preço médio: 35/40€ (por pessoa, com vinho). 
 
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R. Trindade 18A, Lisboa | Tel: 21 343 2154 | Horário: 12:00–16:00, 19:00–23:00 (encerra à segunda todo o dia e sábados e domingos ao almoço). 
 
 
Classificação:
 
Cozinha: 16.5 ; Sala:16.5; Vinhos:14
 
 
Texto publicado originalmente na Revista de Vinhos Nº330 (Maio 2017) | Fotos: retiradas do site do restaurante, excepto a das ameijoas, de Miguel Pires
 
 
 

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publicado às 13:46



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