Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Critica Gastronómica: Estela (Nova Iorque)

por Miguel Pires, em 16.04.17

64539Exterior_of_Estela_Credit_Tuukka_Koski (2).jpg

Quando, em 2014, o Presidente Obama e a primeira dama estiveram em Nova Iorque, para um conferência nas Nações Unidas, jantaram no Estela, um pequeno e conceituado restaurante informal de cozinha de autor, em Nolita (próximo do Soho). 

 

Os relatos evocam o grande alvoroço que provocou no local o facto de Obama ter querido passar uma noite com a sua mulher como um casal comum.  Acontece que a dupla presidencial não é uma parelha qualquer e obrigou quem tinha reserva nesse dia a passar uma segurança apertada no interior  - com seis guardas a rodear a mesa presidencial - e um apertado controlo cá fora. Consta que Obama e Michelle terão apreciado os pratos do chefe Ignacio Mattos - que lhes preparou um carpaccio de pregado, salada de endívias com nozes, croquetes de bacalhau e burrata – e que, no final, atravessaram a sala distribuindo sorrisos e cumprimentos. Se até esse momento o Estela, aberto um ano antes, já era um dos lugares mais cool e concorridos da região, a partir daí ficou ainda mais complicado conseguir-se reservar – isto numa cidade que vive a um ritmo frenético e onde novos restaurantes abrem todos os dias. 

 

Quis a sorte, ou o facto de ser Agosto e muitos nova-iorquinos estarem de férias para obtermos uma mesa com relativa facilidade - algo que se passou com outros endereços locais concorridos, com excepção do Eleven Madison Park.

 

Custa a crer que o homem mais bem protegido do mundo tenha podido jantar, tranquilamente, num lugar como o Estela. O restaurante é relativamente pequeno e apertado, mais parecendo um bar em hora de ponta. Contudo, é nesse caos aparente, com som alto, gente bem disposta, cocktails de primeira, uma carta de vinhos interessante e comida saborosa, que parece residir a chave do sucesso. Ao ponto de ser um dos restaurantes mais informais a constar no ranking do 50 Melhores Restaurantes do Mundo (em 44º), mesmo que ainda não tenha convencido os inspectores do Guia Michelin, que em Nova Iorque, ao contrário do que acontece na Europa, distribuem estrelas com bastante facilidade. 

 

A carta do Estela é relativamente curta e descomplicada. Não há propriamente uma distinção entre entradas e principais, mas apenas entre snacks frios e os restantes. Nestes últimos, a ver pela carta de época que nos deram, existem 15 propostas, com as porções a crescerem (no tamanho e no preço) à medida que o olhar vai descendo pela lista. 

 

Como aconteceu em quase todos os restaurantes do género que visitámos na cidade (e foram mais de uma dezena), ao chegarmos somos convidados a tomar uma bebida no bar antes de nos encaminharem à mesa. Não há aquela pressão americana, meio descarada, para se consumir. Porém, os cocktails que circulam em volta são tão atrativos que se torna difícil resistir-lhes. Uma vez na mesa explicam-nos como funciona o menu e juntam a carta de vinhos à lista de bebidas do bar, que além de cocktails, inclui uma dúzia de vinhos a copo. Não são baratas as bebidas alcoólicas nos restaurantes da big apple – independentemente de factores externos, como o facto do dólar, depois de contabilizadas as taxas, estar quase em paridade com o euro. No Estela, como em outros lugares, os cocktails andam pelos 15 dólares, as cervejas artesanais variam entre os 7 (35cl) e os 16 (44 cl) e um copo de vinho entre 12 e 26 dólares. Valha-nos que, neste último caso, não haja objecção a que se experimente mais do que um deles antes de se tomar a decisão. 

 6527Beef tartare with sunchoke Courtesy of Estela.jpeg

O bife tártaro com topinambo (na foto de cima) é o prato de assinatura do Estela. E percebe-se porquê. Ignacio Mattos concebeu-o como um prato guloso impossível de se lhe resistir. A carne é cortada à faca em pedaços bem finos e temperada com sal, malagueta, molho de peixe, azeite, sumo de limão, vinagre, pickles de baga de sabugueiro (em vez de alcaparras), raspas de casca de limão e um pouco de gema de ovo, antes de ser misturada com chips de topinambo esmagados. O resultado é de uma complexidade de sabores (ora com notas graves, ora com notas agudas) e um agradável contraste de texturas. Mas o chefe uruguaio tem, também, um talento especial para outros pratos frios, como as saladas. Sim, saladas. Numa cidade que aquece bastante no Verão elas são imprescindíveis na carta de qualquer restaurante que se preze. Por exemplo, a de endívias, nozes, anchovas e queijo ubriaco rosso, ou a de couve rábano com menta, avelãs e formaggio di fossa revelam-se, de facto, como propostas a ter em conta. São originais, frescas,  e complexas, e, tal como no caso do tártaro, com os cinco sabores bem presentes - doce, salgado, amargo, ácido e umami. 

 

Mas nem só de pratos frios vive o Estela.  As propostas quentes que experimentámos, igualmente de matriz mediterrânea, podem não atingir o olimpo, mas estão longe de desiludir. O arroz negro com lulas e molho romesco, revela toda a riqueza dos seus ingredientes, num registo de cozinha confortável, enquanto o ravioli de ricotta com queijo pecorino e lâminas de cogumelos, num caldo de alho francês, afinam numa direcção mais elegante e subtil.

 

O Estela ocupa o lugar onde foi antes um clube de música alternativa, a Knitting Factory, e do sistema de som saem temas dos Talking Heads, Lou Reed, Smiths ou Joy Division.  Por mera (e feliz) casualidade, a sobremesa chegou-nos ao som de “Lips like sugar”, dos Echo & the Bunnymen.  Era um creme de batata doce com gelado de baunilha e rum. Simpático, mas sem deixar doçura suficiente, nem nos lábios, nem na alma. 

 

O mesmo não aconteceu com os vinhos, onde um agradável Matías i Torres “Las Machuqueras” 2014, Canárias, com notas de pêssego em calda e um toque salino,   acompanhou muito bem as diferentes propostas. Fazia parte da carta resumida do bar, não tendo sido necessário, por isso, entrar na bem recheada lista de vinhos, uma boa parte na onda  “naturais” e/ou de pequenos produtores. França, como é habitual, é o país com maior presença com os vinhos italianos e espanhóis também bem representados. Além destes, também encontramos rótulos alemães, austríacos e até da República Checa. Quanto a portugueses... nem um porto. 

 

Quanto ao serviço prevalece a mesma informalidade do local. Os pratos são entregues ao ritmo da música, com simpatia mas sem salamaqueques, bem ao estilo downtown - até nem custa imaginar uma troca de high fives entre os Obama e a equipa de sala.  

 

Se não tem aversão a lugares animados e algo barulhentos o Estela é um restaurante a considerar quando estiver na cidade. 

 

50705Endive Salad (Credit Marcus Nilsson).jpgSalada de endívias, nozes, anchovas e queijo ubriaco rosso 

14629Ricotta dumplings with mushrooms and pecorino sardo Credit Tuukka Koski.jpg

ravioli de ricotta com queijo pecorino e lâminas de cogumelos, num caldo de alho francês

 

48508Salted cod and potato croquettes with aïoli Credit Tuukka Koski.jpg

Croquetes de bacalhau

22326Ignacio Mattos Headshot (3).jpg

Chefe Ignacio Mattos

 

Preço médio: 70 dólares. Por esta refeição pagou-se 168 dólares (2 pessoas) com vinho a copo. Este valor inclui taxa de serviço, que varia entre 15% e 20%. 

 

Morada: 47 E Houston St, Nova Iorque, NY 10012; Horário: 17:30–23:30. Telefone: +1 212-219-7693

 

Classificação: Cozinha: 17.5 ; Sala:16; Vinhos:17.5

 

Texto publicado originalmente na revista Wine 99 (Novembro 2016). Nota: na mais recente edição do W50Best (publicada recentemente) o Estela surge na 66º posição.

 

 

Leia ainda:

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:34


2 comentários

Sem imagem de perfil

De Daniel S. a 16.04.2017 às 14:34

Foi um dos restaurantes por onde passei na minha última visita a Nova Iorque este ano, gostei muito! O meu preferido talvez tenha sido o Olmsted, não só pela comida, o serviço foi fantástico, tanto que acabei por repetir a visita, algo que não é comum em viagem!

Comentar post



PUB


Os autores

Duarte Calvão (perfil)
Miguel Pires (perfil)

Porquê?

Três autores há vários anos ligados à gastronomia e vinhos criaram este espaço para partilhar com todos os interessados os seus pontos de vista sobre o tema (ver "carta de intenções").

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Siga-nos no facebook


Mesa Marcada no Twitter


Confira os premiados e as listas...



Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Pub





Calendário

Abril 2017

D S T Q Q S S
1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
30

Comentários recentes

  • Paulo

    Não se aborreça Miguel. As redes sociais são impla...

  • Paulo

    Não conhecendo os motivos do encerramento, se calh...

  • joana

    sardinhanalfabeto!

  • Duartecalf

    Concordo Miguel, e os novos restaurantes do Diogo ...

  • Miguel Pires

    Espero que seja o segundo caso. Seria um desperdíc...