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Miguel Castro Silva e equipa_Lumni (1).jpg

 

Miguel Castro Silva é um dos chefes há mais anos no activo e um dos mais acarinhados no meio, o que fez com que não tivesse grande dificuldade  em se adaptar a Lisboa, quando deixou o seu Porto natal, onde se tornou conhecido pelo trabalho no seu restaurante Bull&Bear. Na capital, onde chegou em 2009, Castro Silva abriu ou foi chefe de vários espaços, a maior parte deles em parceria. Nos últimos tempos, destaca-se, sobretudo, a associação que fez com a Cerger (empresa especializada na gestão de concessões de restauração, catering e gestão de Eventos), na Cafetaria da Gulbenkian, no Less do terraço da Pollux  (no Príncipe Real a aliança é com a Gin Lovers) e mais recentemente no Mercado Café e Lumni, ambos no novo Hotel Lumiares,  junto ao Miradouro de São Pedro de Alcântara, às portas do Bairro Alto.

 

 

O Lumni, fica no último piso do hotel e possui, além de uma sala confortável para 43 pessoas, um terraço com outros tantos lugares e uma vista deslumbrante.  O espaço interior tem um toque refinado e actual com uma abertura rasgada (ao baixo) para a cozinha e uma parede ao fundo decorada com reproduções de pinturas de retratos antigos a que foram acrescentados óculos  de sol em cores garridas.

 

Aberto em Junho, é neste espaço que MCS pretende fazer uma cozinha mais experimental, com um twist irreverente, como se pode depreender no pormenor decorativo. Porém, quando olhamos para a carta de comidas reconhecemos o seu cunho autoral mas, pelo menos, por agora, a irreverência é bastante subtil.  Lá está o seu lado mais rústico actualizado, em pratos como o “bacalhau 80° com migas de poejo e hortelã da ribeira” ou a “costela mendinha da aba de vaca”; a sua vertente mais clássica francesa, em propostas como a “vichyssoise de amêndoa com pato fumado” ou o “magret de Canette, risotto de espargos e trufa” e uma  feição oriental no “tártaro de coração de boi” e no “atum à japonesa”.  

 

Além da carta normal, MCS apresenta um menu de degustação com sete pratos (55€) e um menu de almoço (com propostas da carta, mas em porções menores) com várias hipóteses: dois, três ou quatro pratos, por 20€, 24€ e 28€, respectivamente (com couvert e água incluídos).

 

MCS trouxe muito à cozinha lusa e embora, hoje, não seja propriamente um inovador é alguém a quem nos habituámos a não esperar mais do mesmo. De igual modo, ainda que as apresentações dos seus pratos não sejam o seu forte - porque MCS sempre se preocupou mais com o sabor do que com a estética - dificilmente se poderá dizer que não são ricos no palato, quando bem executados e elaborados com produtos de qualidade.  

 

De facto, foi isso que se passou num almoço recente no Lumni. Entre as quatro propostas cozinhadas que pedimos todas se distinguiam pelo sabor, pela confecção e por irem além do óbvio. Por exemplo, o bombom de rodovalho, espinafre e cogumelos shitake com creme de berbigão, não tinha um aspecto tão sugestivo como o nome indicava, mas quando se provavam os elementos, quer separados, quer em conjunto, via-se que havia ali carácter e orquestração. O peixe envolvia uma mistura de espinafres e cogumelos e vinha no meio envolvido com um creme de berbigões e algas alface do mar. O mesmo se passou com o risotto de rúcula, feito al dente com um caldo bem aromatizado, um mantecato rico (sem excessos de gordura) e a intensidade das folhas verdes domadas. Como se não bastasse, havia ainda uma meia dúzia de berbigões de bom calibre a lembrar-nos que quando são de qualidade superior podem suplantar qualquer outro marisco de concha. Ainda nas entradas, provámos o tártaro de coração de boi, uma proposta ousada que só o preconceito impedirá de ser apreciado. MCS agrega os pedaços desta carne, de textura tenra com uma ligeira resistência ao dente (mas menor do que se poderia imaginar), com um esfarelado de queijo ralado.

 

Dos pratos principais, pedimos uma pescada em pil pil de colorau e grelos. Venerado em Espanha e com boa aceitação no Norte, este peixe continua a ser pouco amado a Sul, pelo menos em termos de alta cozinha. É pena, porque quando tem a qualidade, o sabor e a textura, como o que Castro Silva nos apresentou, posiciona-se entre os melhores do seu meio. O pil pil, molho espanhol confeccionado a partir da emulsão de azeite com o caldo das peles e espinhas da pescada, é acrescido de colorau, o que lhe dá cor e uma maior complexidade sem no entanto se sobrepor ao peixe. Bem, os grelos de acompanhamento. Na verdade, melhores os soltos do que os do “pudim” salgado. Experimentámos ainda a costela mendinha da aba da vaca, peça menor, de carne entremeada, que MCS transforma em algo superior (leia-se, de textura tenra e sabor), graças a uma cocção demorada a baixa temperatura e a um molho de carne de categoria.  Já ao acompanhamento faltou-lhes alma: uns vegetais (entre eles uns espargos brancos fora de época) sem grande história e uma esmagada de batata (com pedacinhos de enchidos) enformada, com gosto mas algo ressequida.

 Risotto_MCS_Lumni.jpg

Risotto de rúcula

tartaro_Lumni MCS.jpg

Tártaro de coração de boi

Costela Mendinha.jpg

 Costela mendinha da aba da vaca

 

As sobremesas sobressaíram, igualmente, pela qualidade dos ingredientes. A mousse de chocolate 0° (ou seja, mais sólida e fria do que a habitual) era gulosa que se fartava e vinha em boa companhia (uma telha de amêndoa e uma espuma de avelã), o mesmo acontecendo com o rústico parfait de amêndoa com molho de moscatel, doce mas não em excesso, e com uns convincentes pedaços grosseiros de amêndoa pelo meio.

  

Em termos de vinhos, a carta do Lumni é modesta e algo conservadora, mas com opções de escolha, entre elas cerca de duas dezenas a copo (das quais metade são portos e um ou outro fortificado ou doce). Ao todo serão pouco mais de meia centena de referências (6 espumosos, 23 brancos, 27 tintos e 2 rosés) com o Douro e o Alentejo em larga maioria.

 

Quanto ao serviço... repetições ad nauseam tipo, “estava tudo bem? Gostaram?” e disparates relacionados com os pratos foram uma constante. Exemplos? peço o risotto e a empregada, “risotto de?” (quando só havia um na carta). Solicito a costela mendinha de cozedura lenta e vem a pergunta “como quer o ponto da carne?”. Estranho a pergunta mas não questiono. Limito-me a responder: “como o chefe achar melhor”. Claro, quando e empregada regressa à cozinha oiço o cozinheiro explicar que não dá para escolher o ponto da carne porque ela é cozinhada a baixa temperatura, durante várias horas. E o como nos chega a explicação? “Não dá para escolher o ponto porque a carne é cozinhada por muito tempo, a 12°”. A doze graus... quase perguntei se era mesmo cozinhada ou se vinha refrigerada. Houve ainda outro episódio, mas nem vale a pena continuar por este caminho.

 

Infelizmente o serviço de sala uma área que tem vindo a piorar a olhos vistos nos nossos restaurantes. A falta de profissionais com vocação e motivação é um problema que vem de trás. Todavia, é mais acentuado agora com a abertura desenfreada de novos espaços, o que leva a que a procura seja superior à oferta. Porém, cabe à gestão do restaurante ter alguém que acompanhe e forme os mais novos. Por isso, é importante que diga, que não há aqui apenas uma questão de falta de conhecimento (e de jeito), mas sim, também, de negligência, por parte de quem tem responsabilidades e deveria estar mais atento - o que no caso do Lumni será lamentável se não corrigirem esse aspecto. É que a comida de Miguel Castro Silva e o espaço merecem outro serviço.

 

Preço médio por pessoa: 24 euros ao almoço, 40/50 euros ao jantar(com bebidas). Pagou-se por esta refeição 94.50€, duas pessoas.

 

Contactos:

R. Diário de Notícias, 142 – 5º Piso, Lisboa. Tel: 211 160 210

Aberto de terça a sábado das 12.30h às 15.30h (almoço) e 19.30h às 23h jantares). Domingos: das 12.30h às 160h (brunch).

 

Classificação: Cozinha: 16.5 ; Sala: 13; vinhos: 15

 

Publicado originalmente na Revista de Vinhos de Novembro. Fotos retiradas do Facebook do restaurante e do Zomato

 

 

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publicado às 14:38



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