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foto roubada daqui

- Então, gostou?

- Nem por isso.

- E o que é que gostou menos?

- A falta de bacalhau

- Ah pois... o nosso forte é o bacalhau à lagareiro. Mas obrigado que é para eu avisar a cozinheira. Ah! ofereço-lhe a sobremesa

- Deixe estar, fico bem assim

 

Ontem o oficio levou-me a um dos muitos restaurantes do Bairro Alto, uma casa simpática, acolhedora, tradicional, decorada sobriamente. Por ser cedo, 20.30h, não me surpreendeu que a língua predominante fosse o inglês. A ementa chegou-me à mão e, ao som de "estranha forma de vida", de Amália, fiz a minha escolha. De entrada, cogumelos com queijo de Niza gratinado; de prato principal, o do dia: bacalhau espiritual. Vinhos... "meias garrafas, só da casa. Se quiser posso-lhe trazer para provar, se não gostar, não paga nada", disse-me a empregada, como quem tenta introduzir alguma confiança no processo, para evitar a indecisão. 

 

A fome apertava e por isso os cogumelos marcharam que nem ginjas. Lembravam os populares 'bifinhos ao champinhôns', só que sem bifinhos. Cogumelos paris normalíssimos e uma molhanga de natas. Queijo de Niza? lá no fuuuuundo havia um aroma que lembrava queijo. Talvez até de Niza.

Entretanto, ao meu lado, um casal de estrangeiros mostrava-se indeciso na escolha e, ao cruzarmos o olhar, percebi que uma ajuda seria bem vinda. Investido no papel de representante momentâneo do Turismo de Portugal lá ajudei os senhores a escolher. Ou melhor, a senhora. Comecei por lhe dizer que se queria experimentar um bacalhau tipo 'comfort food', o espiritual – que eu próprio tinha pedido - seria uma boa opção, por se tratar de um daqueles pratos que se come em casa, que toda a família gosta e que qualquer cozinheira minimamente apta o faz razoavelmente bem. "Acabámos de chegar a Portugal e a ideia parece-nos óptima, obrigado!", respondeu-me com um sorriso de alivio na cara.

 

Chegou o prato. Dei um trago no quase potável vinho da casa e inspeccionei-o à la Anton Ego. Assim, à partida, lembrava mais uma açorda com fiapos de cenoura do que propriamente bacalhau espiritual. Pedi sal e pimenta, misturei os fiapos crus e a salsa - com a rama inteira e tudo – na tentativa (falhada) de tornar aquilo mais comestível, coisa que só foi possível com o vinho branco empurrar.

 

Apesar de tudo o ambiente estava engraçado: casa cheia, gente bem disposta e rostos rosados do sol, ou dos jarros de vinho, já não me recordo bem. Ambiente espiritual, ao contrário do bacalhau, portanto.

 

Este episódio passou-se há três anos num restaurante “moderate typical”, na Travessa da Queimada, Bairro Alto, em Lisboa. Ao encontrá-lo hoje reparei que nunca o tinha publicado – talvez porque nunca cheguei a acabá-lo. Apeteceu-me fazê-lo agora, mesmo sem revelar o nome, até porque já não me lembro bem qual era e, também, porque não é relevante, dado que o episódio podia passar-se no Bairro Alto, em Torremolinos, ou Albufeira. Então boa continuação! 

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publicado às 09:23


1 comentário

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De Filipe a 30.06.2014 às 14:22

Bacalhau espiritual sem bacalhau, arroz de pato sem pato, pastéis de bacalhau só com batata... Enfim, muitos são os pratos servidos nalguns restaurantes onde lhes falta o ingrediente principal.

No entanto, e só entre nós, o problema não é da cozinheira. É de quem escreve a ementa. Se escrevessem: Bacalhau espiritual com aroma de bacalhau, arroz com ar de pato ou pastéis de essência de bacalhau, não havia desilusões!

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