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Dénia, com os seus 40 mil habitantes, é uma pequena cidade costeira da comunidade Valenciana, que tal como em algumas localidades do Algarve é invadida de veraneantes em Julho e Agosto - e onde pouco se passa entre Outubro e Maio.

 

Para contrariar a sazonalidade, os responsáveis por cidades destas regiões tentam promover toda uma série de eventos para atrair pessoas de fora. Os festivais gastronómicos estão entre os eventos mais escolhidos e, no país vizinho, o mais recente foi o Dna – Festival Gastronòmic Dénia, que aproveitou o evento para celebrar e criar maior impacto para a distinção atribuída a Dénia, em finais de 2015, quando passou a fazer parte da Rede de Cidades Criativas Gastronómicas da UNESCO - como reconhecimento do seu modelo de ecossistema alimentar local, baseado na preservação do território e respeito do meio ambiente.

 

Ter uma série de produtos locais de extrema qualidade e restaurantes que os sabem trabalhar ajuda muito, mas ter um restaurante com 3 estrelas Michelin e um dínamo chamado Quique Dacosta ajuda ainda muito mais. E a ideia e concretização deste festival saiu em boa parte da sua cabeça e de toda uma equipa - sua e de parceiros locais -, que contou com o apoio (forte apoio) das autoridades locais e regionais: Município, organismo de Turismo, Comunidade Valenciana. E estas não se ficaram pelo apoio político e palmadinhas nas costas. Investiram e, pelo que pude ver, muito bem.

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De facto, há muito que não via um evento tão bem montado que integrasse de forma harmoniosa e festiva uma vertente mais popular com outra, a das apresentações dos chefes, com conteúdos para um público mais especifico.

 

No primeiro caso, tínhamos postos de restauração, food-trucks, stands de produtos regionais, aulas para crianças e, num segundo cenário, demonstrações de cozinha. Para o palco principal, ficavam as apresentações dos chefes e um ou outro debate. Isto numa uma estrutura de madeira com um ecrã LED gigante de grande qualidade, que permitia que se visse bem ao longe, em plena luz do dia.

A entrada era gratuita, porque havia o receio de não se conseguir atrair público suficiente e quando chegámos ao espaço, ainda vazio, pela manhã, ficámos impressionados com a beleza do local e com a estrutura montada ao longo dos 400 metros do Paseo de La Marineta, na zona de Marge Roig.

 

O evento foi bem divulgado, o sol brilhava, e a adesão da comunidade local e dos veraneantes em fim de época (internos e estrangeiros) foi total. Segundo a organização, durante os dois dias, passaram pelo evento cerca de 20 mil pessoas. Houve momentos críticos de excesso de afluência em que se tornava difícil a movimentação ao longo de todo o espaço - o que levou, inclusive, num determinado momento, as autoridades a restringirem o acesso ao local. Porém, rapidamente os presentes encontraram formas de contrariar o incómodo e ninguém parecia muito importunado – de facto os espanhóis gostam e sabem mesmo de viver a rua.

 

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Entre paellas, arrozes à banda, polvo seco, biqueirões, mariscos locais, enchidos, vinhos e cervejas artesanais lá andava o “comissário local” Quique Dacosta (na foto de cima), animando os talleres populares, entre mil e umas paragens para uma selfie (põe-te a pau, Marcelo), ou cumprimentando os cozinheiros dos postos de restauração, ou os chefes, antes de entrarem no palco principal (uma curiosidade de registar: Dacosta apenas fez uma apresentação de cozinha e no pequeno palco secundário, deixando o principal para os seus colegas convidados).

 

É claro que quando se tem uma personalidade catalisadora como Quique fica mais fácil ter um painel de Chefes de destaque. E, pelo palco lá passaram nomes como Joan Roca (foto de abertura deste post) , Andoni Luis Aduriz, Ricard Camarena, Ángel León e Jordi Cruz, além de uma série de chefes locais.

 

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E que podemos, em Portugal, aprender com o que se passou em Dénia?

 

Gostamos sempre de fazer comparações com o que se passa no quintal do vizinho pelo que ao longo destes dois dias, várias vezes me questionei:

 

Porque não conseguimos fazer algo assim, por cá, que misture estas duas vertentes, com estes meios, com esta adesão e com este fervor?

 

Porque é que nunca há condições ideais (sala/auditório, ecrãs) para os chefes poderem fazer apresentações como deve ser? (e porque é que muitos não se preparam devidamente, também é uma boa questão)

 

E porque é que o nosso público não adere, a não ser que seja um mega estrela o protagonista?

 

E porque é que (com uma ou outra rara excepção) nos eventos promovidos por entidades públicas tudo tem de estar carregado de mil e um logótipos e toalhas de papel com dois mil e um logótipos?

 

E porque é que (novamente com algumas excepções) o chefes não assistem às apresentações uns dos outros, como vejo em Espanha? (chama-se a isso “apoio” ou sentido de comunidade)

 

E onde estão os alunos das escolas de hotelaria e afins?

 

Não, os nossos eventos promovidos por entidades públicas ou privadas com dinheiros públicos não têm que se comparar aos Madrid Fusión, ao San Sebastian Gastronomika, ou até a muitos eventos periféricos a que não chegam nem de perto em meios (como o Forum Coruña ou o Forum Girona). Porém, uma cidade como Lisboa ou o Porto – só para nomear as principais – tão alavancadas no turismo e em que, segundo os seus dirigentes, a gastronomia é uma prioridade, deveriam de conseguir, no mínimo, ter meios como os que vi nesta cidade de 40 000 (quarenta mil) habitantes do Sul de Espanha. Não?

 

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publicado às 14:07


4 comentários

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De Anónimo a 11.10.2017 às 09:27

Percebo as tuas preocupações, Miguel. Mas descansa que em 2018 vai haver um grande evento e melhor em Portugal. Logo saberás.

Abraço,
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De João Costa a 12.10.2017 às 10:30

Não precisamos de nos estar sempre a comparar com os vizinhos espanhóis. Isso já irrita.

Mas já comecei a ouvir falar sobre um grande festival em Portugal em 2018. Cá esperamos para ver.
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De Miguel Pires a 12.10.2017 às 11:32

Pois, eu gosto de comparar e de tirar ilações, sobretudo quando alguém faz melhor do que eu.

Mas fico a aguardar com expectativa esse grande festival em Portugal, anunciado por um anónimo (a sério?) no comentário acima.

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