Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Tal como o Duarte Calvão (ver post abaixo) partilho o mesmo "deslumbre vegetal" e do trabalho que certos produtores bio, como a Maria José Macedo da Quinta do Poial ou de comerciantes como Ângelo Rocha da Miosótis  - mas já lá vamos. A minha relação com certos vegetais, na infância e adolescência, não era muito diferente da Duarte. Tendo eu nascido próximo do campo, numa vivenda com uma pequena horta, até sabia (e o Duarte também) que as ervilhas não nasciam numa lata ou no congelador. Mas se querem que vos diga a verdade, nessa altura até preferiria que assim fosse porque calhava-me muitas vezes a seca de ter que regar a horta ou de ir apanhar as ervilhas (na verdade era mais o feijão verde, mas para o efeito tanto faz). Já para não falar em ter de cortar a relva e tirar as ervas dos canteiros das roseiras que picavam que se fartavam. Na altura sentia uma grande inveja porque tinha amigos que viviam em apartamentos e não tinham que gramar com estas tarefas. Claro, hoje tudo mudou. Moro num terceiro andar e todos os dias cobiço o pedaço de terra da vizinha do rés de chão. Ah! e já cultivei curgetes na varanda - sem sucesso nenhum, óbvio. 

 

Felizmente tenho a sorte (embora como diz o outro, "ter sorte dá muito trabalho") de morar próximo da Miosótis ou de ter algum acesso privilegiado aos produtos da Maria José Macedo (ambos bio) - se querem dar mais valor ao que eles fazem, passem uma semana em Londres e comprem vegetais nos Tescos e Sainsbury's desta vida ou até mesmo no sobreavaliado e caro Borough Market e percebem o que quero dizer. Mas acima de tudo tenho a sorte de morar num país onde ainda se conseguem arranjar alguns produtos de época de agricultura convencional de qualidade. Por exemplo quando vou comprar peixe à Açucena Veloso, no Mercado 31 de Janeiro (ao Saldanha - Lisboa), costumo passar pela banca de frutas e legumes de Maria de Fátima de Sousa, onde encontro quase sempre algo de época óptimo (além dos seus preciosos conselhos, de como conservar ou aproveitar certas partes de um vegetal que muitas vezes descartamos, por exemplo).

 

Na semana passada olhei para os mólhos de grelos de nabiça e fiquei fascinado com o seu bom aspecto. Em parte, talvez, porque fiquei a pensar nuns seus familiares, uns rebentos de brócolos (antes deste se tornarem um arvoredo) que o Vítor Claro me serviu, em tempos, a acompanhar uma carne. Bom, resumindo, depois de trocar umas impressões com o senhor da banca, que me chamou a atenção para a sua frescura, mostrando-me os pés das nabiças como se tivesse acabado de o cortar, lá trouxe metade de um mólho - esse é outro pormenor ue gosto nesta banca: trago a quantidade que preciso e ainda perguntam se quero um salsa, coentros ou hortelã). 

 

Chegado a casa seleccionei uma pequena quantidade de grelos e cozinhei-os a vapor, por quatro ou cinco minutos. Depois coloquei-os ligeiramente entrelaçados num prato temperei-os com um pouco de azeite, umas gotas de vinagre e flor de sal. Estes três elementos foram fundamentais, igualmente, para aquilo que foi um dos melhores pratos que comi nos últimos tempos - desculpem lá a imodéstia. O sabor característico dos grelos - com um (muito) ligeiro amargor - a untuosidade e vida dada por um azeite mais verde (o Principal, dos meus favoritos portugueses), o espevitar do conjunto com umas gotas de vinagre de vinho tinto (neste caso da Quinta das Bágeiras - top top top!) e, a ajudar a realçar os sabores, umas escamas de flor de sal (um tipo de flor de sal premium que o Jorge Raiado da Salmarim faz de vez em quando), caramba... Alain Passarddesafio-te para um duelo! 

Leia ainda:

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:05



Pub


Os autores

Duarte Calvão (perfil)
Miguel Pires (perfil)

Porquê?

Três autores há vários anos ligados à gastronomia e vinhos criaram este espaço para partilhar com todos os interessados os seus pontos de vista sobre o tema (ver "carta de intenções").

PUB


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Mesa Marcada - Os 12 Pratos do Trimestre


Siga-nos no facebook


Mesa Marcada no Twitter


Confira os premiados e as listas...



Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Pub





Calendário

Maio 2014

D S T Q Q S S
123
45678910
11121314151617
18192021222324
25262728293031

Comentários recentes

  • Joao Fernandes

    Eu trabalho com mangalitza na Hungria, neste caso ...

  • João Faria

    Há uns tempos deparei-me com uma imagem do marmore...

  • Bruno

    Interessante - moro em Londres e não conhecia o Ta...

  • Duartecalf

    Mais uma boa notícia. É sinal de que a nossa gastr...

  • André

    Já para não falar no efeito pernicioso que esta "g...