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Encontro em Bicesse, no Conceito Food Store

por Miguel Pires, em 31.03.17

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Daniel Estriga tinha 23 anos quando resolveu abrir o seu restaurante próximo da casa dos seus pais, numa zona residencial de Bicesse, Cascais, depois de meia dúzia de anos de experiência a trabalhar com chefes como Bertilio Gomes, no Vírgula, Joachim Koerper, no Eleven, ou Paulo Morais.

 

 

Os primeiros tempos foram difíceis, a localização meio recôndita, fora de um eixo central, e o nome desconhecido não ajudaram. O Daniel conta que houve uma altura em que chegou a estar sozinho: “abria a porta, cozinhava, servia e lavava a loiça. Alguns clientes até achavam piada mas quando havia três mesas ocupadas ao mesmo tempo e se esperava meia hora por um prato já não tinha assim tanta piada”. Quando se chega a este ponto não é difícil adivinhar o destino a curto prazo: o encerramento. Porém, Estriga é perseverante, ou teimoso, como refere, e apesar da crise que se atravessava na altura, insistiu. Morava em casa dos pais (quase ao lado do restaurante) e ainda que não conseguisse tirar ordenado, o que facturava dava para ir pagando as contas

 

A insistência acabaria por trazê-lo à tona da água e a pouco e pouco foi estabilizando a braçada. Os clientes começaram a vir com mais frequência, a passar a palavra e a deixar o testemunho positivo nas redes sociais, o que associado a uma boa critica no Expresso deu para entrar nos eixos e aumentar a estrutura. Hoje, são quatro na cozinha (contando com ele) e duas na sala, entre elas, a comandar, Vanessa, a namorada que tirou um período sabático como médica dentista (e não é que, como diria o Tiago Pais, tem jeito para a poda?)

 

Quanto à clientela, que hoje lhe preenche os 27 lugares com frequência, continua a ter portugueses mas uma boa parte não fala a língua de Camões. São turistas que chegam de táxi e estrangeiros que moram parte do ano na região.

 

Desde o inicio do restaurante, que de tempos em tempos, recebo uma mensagem do Daniel, via Facebook, a divulgar o restaurante. Nunca lhe liguei muito (como raramente ligo a quem usa esse canal para me contactar). Porém, fixei o nome e fui acompanhando os movimentos ao largo. Até que há uns meses aceitei um convite feito à imprensa para conhecer o seu trabalho no Gioia, na Praça da Alegria. Fui sem grandes expectativas e sai bem impressionado. O Daniel entretanto desligou-se do projecto e quando me comunicou esse facto convidou-me para conhecer finalmente o Conceito Food Store. Resolvi aceitar sem qualquer compromisso, obviamente, até porque é sabido que não faço criticas estruturadas (como as da Wine, por exemplo) de lugares onde vou a convite, ou se por acaso o faço, digo-o às claras, que é a forma que me parece correcta, nestas circunstâncias.

 

É claro que não me tinha dado ao trabalho de gastar todo este latim se achasse que não valeria a pena prestar atenção ao trabalho deste Chefe da Linha e sugerir que se dê um salto a Bicesse para comprovar (ou não) todo este blah blah.

 

Começo logo por avisar que não estamos a falar de um restaurante esquecido injustamente pelos inspectores do Guia Michelin. O Conceito (desculpem, não escrever “Food Store”, mas é só para não irritar o Duarte que embirra com o inglês e que, por estes dias, anda numa azáfama com o seu Fish in Lisbon, perdão, Peixe em Lisboa). Dizia eu que o Conceito não entra nesse campeonato, nem tem esse propósito. Porém, o Daniel faz uma cozinha contemporânea com um nível técnico correcto, utilizando criatividade e arrojo qb e produtos de qualidade (peixe dos Açores, vegetais do Poial, por exemplo). A localização não é fantástica mas o restaurante é confortável, tem uma decoração cuidada, um serviço afável e competente. Para compor as coisas – e talvez seja isso que atrai muita da clientela – os preços são bastante sensatos, quer os da comida, com menus a partir dos 25/30€ ao jantar (menos de metade ao almoço), quer os da carta de vinhos criada em colaboração com o escanção João Chambel, da garrafeira Estado d’Alma, cada vez mais uma das melhores lojas de vinhos de Lisboa.

 

Como disse, não vou fazer uma critica estruturada, mas deixo umas imagem de alguns pratos e alguns comentários para que quem queira marcar encontro em Bicesse fique com uma ideia do que lhe espera.

 

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Gema de ovo a baixa temperatura com puré de couve flor, puré de alho negro e amêndoas desidratadas. Um pouco de conforto para quem vinha com fome, numa combinação que não tinha nada para não resultar. O puré de alho negro poderia ser mais expressivo, mas está bem.

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Cenoura com um molho de caldo de frango reduzido e avelã ralada. Tão simples, tão bom. Este molho deveria vender-se em churrascarias (depois era só juntar piri-piri)

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Espadarte (quase como um sashimi) ligeiramente cozido (é-lhe deitado água quente por cima), algas e molho ponzu. Prato bem pensado, espadarte de qualidade irrepreensível. A combinação com as algas funciona bem, mas o tempero deste último elemento precisa de ser aligeirado.
 

 Conceito4.jpg

Outro prato interessante que me pareceu também precisar de alguma afinação. Boa a ideia de cozer o pregado ao vapor sobre caldo à bulhão pato. Porém, menos boa a redução do caldo, demasiado ácida (provavelmente por ter sumo de limão quando foi reduzido).
 

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Lombo bacalhau de meia cura, com ervilhas descascadas, toucinho de porco preto laminado e pó de azeitona. Sabores mais ou menos clássicos que se conjugaram muito bem, nomeadamente com o Ninfa Pinot Noir que acompanhou.  
 
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Cavala com molho Thai e puré de beterraba. A cada garfada algo se ia revelando. Impressionante, a qualidade do peixe e o ponto de cozedura. Não me lembro de ter comido uma cavala tão boa sem ser curada. Como vinha com ovas o Daniel grelhou-as e colocou-as no prato. O toque picante do molho levou o prato para outra dimensão e o merengue de carvão trouxe textura ao conjunto. Top!  

 

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Beterrabas do Poial e citrinos para limpar o palato. Sou adepto de ambas as coisas por isso não foi difícil agradarem-me :). 

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Rabo de boi cozinhado a preceito, logo cheio de sabor. Fica bem com qualquer puré de raízes ou tubérculos, como aconteceu neste caso, com puré de pastinaca. Os mini vegetais e a as ervilhas deram-lhe um sabor extra, refinamento e texturas.  

Conceito9.jpg

De pré sobremesa foi servido um brulée de café com citrinos. Tudo bem feito 

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Falta o gelado de maçã assada nesta foto, mas dá para o imaginar na boca envolvido com cada um destes elementos, não? merengue, biscoito (ou crumble de maçã), toques cítricos (puré, gel) e caramelizados. Uma óptima forma de acabar uma refeição de nível num restaurante que vale a pena conhecer. 

 

Fotos de entrada: Nuno Antunes | Fotos pratos: Miguel Pires 

 

 

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publicado às 11:37



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