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Esquiar e degustar em Itália

por Miguel Pires, em 24.03.16

Rifugio Jimmy Hutte (2).jpg

Percorrer horas e quilómetros de pistas com esquis nos pés, requer uma pausa a meio do dia para recuperar forças num dos restaurantes de montanha. Normalmente não se exige muito. Entra-se e pede-se o básico: uma sanduíche, um hamburguer ou uma massa. No fundo, procura-se o mais conveniente e não se dá demasiada importância se é bom ou ruim. A ideia é absorver combustível para repor energias e regressar rapidamente à viciante rotina de prosseguir montanha abaixo. Mas terá de ser sempre assim? E se o fã do fast ski for um adepto do slow food e quiser usufruir de um momento mais calmo e gastronómico à mesa, sem que a alternativa envolva uma soma avultada num dos exclusivos restaurantes de Courchevel 1850, Zermatt ou St. Moritz?

 

 

Norbert Niederkofler_sopa de vinho e truta no Rifugio Col Alto.jpg

sopa de vinho com bruschetta de batata e truta alpina marinada de Norbert Niederkofler

 

Deve ter sido o que pensaram os responsáveis da região italiana da Alta Badia, no coração dos montes Dolomitas (Património Natural da UNESCO), província de Bozano-Alto Adige, ao criarem o programa “A Taste of Ski”. O plano é simples: convida-se um conjunto de chefs de topo de Itália e pede-se-lhes que desenvolvam um prato que conste em cada um dos refúgios de montanha da estância. O programa tem início em Dezembro, na abertura da época de neve, com a presença dos chefs. Nesse dia há mesmo um ski safari com os clientes a percorrerem os restaurantes aderentes. Porém, os pratos de cada cozinheiro mantêm-se nos dias e meses seguintes, até ao fecho da temporada (3 de Abril), para que possam ser apreciados pelos milhares de turistas que esquiam nas estâncias da Alta Badia.

 

Este ano foram convidados os chefs do sul do país, da Câmpania à Sicília.  Por exemplo, Gennaro Esposito, do restaurante Torre del Saracino (Vico Equense) oferece a sua versão de ravioli alla genovese, enquanto Ernesto Lacarinno, do mítico Don Alfonso 1890, (Sant’Agata Sui Due Golfi), propõe uma mousse de atum fresco com geleia de limão e salsa. Aos homens do sul juntam-se igualmente algumas das estrelas locais, como Norbert Niederkofler, do restaurante St. Hubertus (Hotel Rosa Alpina, São Cassiano), ou Nicola Laera, do La Stüa de Michil (Hotel La Perla, Corvara). No total são 14, tantos como os restaurantes dos refúgios de montanha que alinham na ideia.

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O envolvimento de cozinheiros com estrelas Michelin neste programa tem outro mérito: o de dar visibilidade à gastronomia local (tradicional ou mais contemporânea) e a uma cozinha de padrão bastante acima à do comum fast food de montanha habitual. Por exemplo, no refúgio Col Alt, que visitámos, no cimo da montanha (a 1980m), em Corvara, é possível experimentar, por 11 euros, a proposta de Niederkofler, uma reconfortante e requintada sopa de vinho com bruschetta de batata e truta alpina marinada. Depois podemos optar pela a interessante oferta da casa (foto acima) e desfrutar de um tártaro de vitela, uma barriga de porco com puré de limão, ossobuco de gamo, ou uns canederli, ou knödel, um género de almôndegas feitas com pão embebido em leite e misturado com ovo, queijo, speck e um pouco de farinha (foto abaixo). E há ainda os turtres, uma espécie de pastéis de massa tenra que se comem com sopa de cevadinha, já para não falar da doçaria, do strudel de maçã ao krapfen (o equivalente à nossa bola-de-berlim).

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Dá para perceber, pelo tipo de pratos e pelos nomes, que, além de o receituário ser muito influenciado por uma série de ingredientes e de receitas típicas de montanha, existe, igualmente, uma grande influência da cozinha germânica. É que, durante muito tempo, até à Primeira Guerra Mundial, a região do Alto Adige, também conhecida por Südtirol (Tirol do Sul), pertenceu à Áustria e ainda hoje a língua falada por quase dois terços da população local é o Alemão.

Rifugio Lagazuoi.jpg

 Rifugio Lagazuoi  (2752m)

Rifugio Lagazuoi3.jpg

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Informações

 

A região dos Dolomitas fica situada a sul da cordilheira dos Alpes e estende-se por três províncias do Norte de Itália. Entre elas, fica Bolzano-Alto Ádige (ou Tirol do Sul ), que inclui a zona de Alta Badia e as localidades de Corvara, Colfosco, La Villa, San Cassiano, Badia e La Val. A Alta Badia faz parte da maior cadeia coberta por um único passe de esqui, o Dolomiti Superski, que inclui 450 meios mecânicos e serve 1220km de pistas, dos quais 500km na Alta Badia.

 

Guia prático

Como ir


A TAP voa directamente para Veneza (três horas de voo) e a partir daí é possível apanhar um transfer de autocarro partilhado para uma das estâncias da Alta Badia.

 

Onde ficar


Há cerca de 18 mil camas na zona da Alta Badia, entre apartamentos e hotéis de uma a cinco estrelas, pelo que há muito por onde escolher. Por exemplo, pode optar por um quarto numa camarata a 2752m de altura, no Rifugio Lagazuoi, por umas dezenas de euros, ou no Relais & Châteaux Rosa Alpina, por umas centenas.

 

Primeira parte do artigo publicado originalmente na revista Fugas do Público de 12 de Março (Fotos: Paulo Barata) 

 

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publicado às 12:13



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