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É já amanhã à noite que, no Parador dos Reis Católicos, em Santiago de Compostela, a Michelin vai anunciar o seu Guia Espanha e Portugal 2016 e com ele as célebres estrelas que concede, ou retira, aos restaurantes dos dois países. Goste-se ou não, a verdade é que o “guia vermelho” continua a ser o mais influente entre a gente do sector e continuo a ver muitos chefes, donos de restaurantes, fornecedores, críticos, jornalistas, gastrónomos em geral a discutir o assunto, por vezes acaloradamente, a dar as suas opiniões e palpites. Parece até que quanto mais novos são estes profissionais, mais interessados estão no tema, o que mostra que o guia, cuja primeira edição para Portugal data de 1910, continua na moda.

 

Como procuro fazer todos os anos, também eu vou dar as minhas opiniões e palpites, sabendo de antemão que vou errar como de costume. No entanto, há sempre a vantagem de reflectirmos um pouco sobre as experiências que tivemos ao longo do ano e também do que fomos ouvindo.

 

Vamos lá então, começando pelo pior, a perda de estrelas, algo que não me dá qualquer prazer, já que gostaria que tivéssemos muitas mais. Posso simpatizar mais ou menos com alguns chefes ou restaurantes portugueses, mas não tenho nenhum desafecto, absolutamente nenhum, que me leve a desejar que alguém não ganhe uma estrela e muito menos que a perca.

 

Dito isto, parece-me lógico que a Fortaleza do Guincho perca a sua devido à saída de Vincent Farges antes do Verão. Miguel Rocha Vieira, que o substituiu no início de Setembro, não terá tido tempo de mostrar o seu trabalho aos inspectores Michelin, os quais geralmente encerram o seu período de visitas a Portugal em Julho. Não está em causa a qualidade de Rocha Vieira, que já demonstrou bem o que vale ao ter conquistado no Costes, em Budapeste, a primeira estrela Michelin da Hungria, mas sim uma questão de calendário. Tomara que eu esteja enganado e que tenha havido uma forma de superar esta questão. De qualquer modo, se se confirmar, tendo em conta o currículo do chefe e da casa onde agora trabalha, creio ser uma questão de tempo a estrela retornar ao Guincho.

 

Outro restaurante onde houve saída de chefe estrelado foi a Casa da Calçada, em Amarante. No entanto, como quem substituiu Vítor Matos foi o seu subchefe André Silva, esperemos que a Michelin não retire a estrela. Outro caso é o L’And, em Montemor-o-Novo. Neste caso, não houve saída do chefe, mas a verdade é que Miguel Laffan, que nunca o escondeu, andou bastante ocupado com outros restaurantes e actividades durante o último ano e (diz-se, não falo por experiência própria) e o restaurante ressentiu-se disso. Sei que ele agora quer voltar em força à casa que lhe deu fama e vamos ter esperança que a Michelin, neste ano, feche os olhos a estas ausências.

 

Vamos agora à parte melhor, às especulações sobre quem poderá ganhar estrelas. Começando pelos três restaurantes que em Portugal exibem duas estrelas, acho que o Vila Joya continua candidato à terceira, que muitos consideram que há muito merece, assim como o Ocean, embora este creio que com menos possibilidades por enquanto. Quanto ao Belcanto, seria quase um milagre conseguir a terceira estrela logo no ano a seguir a ter conquistado a segunda e, embora haja rumores, julgo que José Avillez e a sua equipa terão que aguardar mais uns anos até o conseguir. Mas, se continuarem neste caminho, parece-me que talvez não tenham que esperar muito.

 

E quem poderá ganhar a segunda estrela? Para mim, dos que conheço, há um grande candidato, o Yeatman, do chefe Ricardo Costa. Seria óptimo ver mais um chefe português atingir este nível e um grande feito para a cozinha que se faz a Norte de Portugal.

 

Vamos agora à parte mais difícil, que é alvitrar quem poderá ganhar a primeira estrela, tantos são os candidatos. Além disso, a Michelin costuma surpreender-nos quase todos os anos, descobrindo muitas vezes restaurantes que não constam da nossa bolsa de apostas. É isso que me dizem que poderá acontecer com uma casa algarvia, de que nunca tinha ouvido falar, e cujo nome não vou revelar porque pode ser apenas uma forma de promoção. O mesmo já não digo do Gusto, do hotel Conrad, na Quinta do Lago, cujo chefe consultor é o célebre Heinz Beck, três estrelas no La Pergola, no hotel Hilton de Roma. No ano passado, a atribuição da primeira estrela ao Gusto era dada como garantida por alguns profissionais experientes que se encontravam no lançamento do guia para 2015, em Marbella. Será que deixaram para este ano? Ainda passou pouco tempo, apenas oito meses, mas julgo que a ida de João Oliveira, durante muito anos subchefe do Yeatman para o Vista, no hotel Bela Vista, em Portimão, vai redundar, mais cedo ou mais tarde, em estrela. Mas acho que ainda é cedo, embora tenha gostado muito do que vi neste fim de semana, na iniciativa "Mar Adentro", de que falarei em futuro post. Outro candidato, este a Norte, será a Casa de Chá da Boa Nova, em Leça da Palmeira, uma aposta relativamente recente do chefe Rui Paula, que ainda não conheço, mas sobre a qual tenho ouvido boas opiniões.

 

Enfim, amanhã veremos, desejando que venham muitas estrelas. E que sejam rapidamente recuperadas as que eventualmente caiam.

 

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publicado às 16:53


14 comentários

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De Duartecalf a 24.11.2015 às 17:29

Infelizmente não frequentei um leque suficientemente alargado de restaurantes para ter as minhas próprias previsões, pelo que me limito a comentar as do Duarte.

Quanto à Fortaleza, onde almocei em Maio, não se tem reclamado nos últimos anos a 2ª estrela? A mera saída do chef terá esse impacto? Se bem que o consultor também saiu recentemente. Da minha parca experiência em restaurantes do Guia Michelin, tive um ótimo almoço e acho que está ao nível dos outros 1* em Portugal.

Quanto ao Largo do Paço, também lá almocei este ano e fiquei positivamente surpreendido. Numa sala vazia durante 4/5 da minha refeição, fui servido de "surpresas", entrada, prato e sobremesa a um excelente ritmo, e com bons conselhos de vinho a acompanhar. Espero que mantenha!

Já agora, ainda não será desta que a linha mais descontraída - mais ao gosto da Worlds 50 Best , bem sei - vai ter uma estrela em Portugal? Todos os candidatos referidos são formais e normalmente ligados a hotéis. Era importante começarmos a ter alguma restauração menos formal - e, já agora, mais em conta! Mesmo ao almoço são raros os menus a preço convidativo em Portugal!

Amanhã veremos!
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De João Faria a 24.11.2015 às 21:47

Viva Duarte.

Em relação aos restaurantes menos formais de que falas, o próprio Guia, desde há uns tempos, adoptou uma outra postura a esse respeito, galardoando com com estrelas vários espaços que apresentam esse informalismo que é visível na decoração/ambiente, nas propostas menos ornamentadas, e também no preço mais acessível (como o caso do Lyle's em Londres, Ralae em Copenhaga, etc).

Acontece que por cá não existem (ou melhor, não conheço) projectos gastronómicas ao nível das "estrelas", fora do fine dining. Um restaurante que se aproximou (o preço não era assim tão "informal") dessa ideia foi o Areias do Seixo neste último ano, mas já não entra em equação tendo em conta que o Leonardo Pereira já por lá não anda.
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De Duartecalf a 25.11.2015 às 11:35

Olá João,

Pois, se calhar a minha questão foi mal formulada: para quando termos restaurantes informais que apostam claramente numa cozinha ao nível de estrela?

Parece que há um espaço muito claro entre fine dining de hotéis (quantas estrelas temos desligadas dos hotéis?) e depois os petiscos, "cozinha tradicional com um twist" e etc. E esse espaço parece estar por ocupar.

Não há nenhum projeto que a médio prazo possa lá chegar?

Já agora, segundo sei os próprios restaurantes podem "candidatar-se" a aparecer no guia. há forma de saber que restaurantes fizeram essa aposta?
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De Filipe a 24.11.2015 às 17:39

É importante saber que o guia fecha anualmente em Junho, por tanto quando o Vincent Farges e o Vitor Matos sairam dos projectos em que estavam envolvidos o guia ja estava fechado. penso que o Rui Paula tem boas hipoteses assim como o Gusto...ja agora gostaria de saber qual é a misteriosa casa Algarvia...
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De Anónimo a 25.11.2015 às 12:50

Posso dar um palpite Bon Bon nas sesmarias Carvoeiro...
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De Anónimo a 25.11.2015 às 22:17

Na mosca!
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De Anónimo a 24.11.2015 às 18:47

Não vi nenhuma referência só chefe Pedro Lemos...
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De Artur Hermenegildo a 27.11.2015 às 12:02

Também prefiro o Ferrugem a alguns estrelados (portugueses e não só, note-se) mas o Mivhelin tem os seus critérios e nada a fazer.
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De João Faria a 24.11.2015 às 21:54

Sendo curto no comentário, concordo plenamente com a merecida segunda estrela para o The Yeatman do chef Ricardo Costa, não me surpreendia.

Por outro lado, ficaria muito surpreendido com a atribuição de uma estrela à Casa de Chá da Boa Nova do chef Rui Paula. Já lá não vou há vários meses, mas não fiquei impressionado. Quando por lá estive lembrei-me de ver o presidente da Câmara de Matosinhos falar nessa ambição, aquando da inauguração, e pensei para os meus botões que o restaurante ainda teria de subir mais uns quantos degraus para lá chegar.

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De Miguel Pires a 25.11.2015 às 13:06

1- Novas estrelas

Eu apostaria no Vista do Hotel Bela Vista, em Portimão, onde tive uma das melhores refeições do ano, em Portugal. Fiquei surpreendido com a maturidade (técnica e criativa) do João Oliveira, com o menu imaculado que comi e com a confiança do seu discurso com a devida confirmação no prato. Estando a trabalhar (muito) bem, inclusive na sala, tendo um chef com um passado recente num posto elevado em restaurantes com estrela e estando inserido num Relais & Chateaux... creio ter os ingredientes certos para receber o galardão. É cedo de mais? talvez, mas ainda assim arrisco: vai ganhar

2 - Quanto a perdas:

não vejo razão nenhuma para o Fortaleza do Guincho perder. A saída do Vincent Farges foi após a visita dos inspectores; o restaurante prosseguiu com a mesma cozinha e só agora é que o Miguel Vieira está a apresentar a sua carta (ou seja: não fez uma mudança à toa); e porque há vários casos de restaurantes que mudaram de chefe e não perderam a estrela - o São Gabriel fez isso duas vezes sem consequências (a perda só se deu quando a mudança de dono e chefe foi simultânea, o que aconteceu no inicio do reinado do Leonel Pereira): vai manter

Quanto ao L'And, sim, é público que o Miguel Laffan andou com vários projectos em Lisboa e mais ausente doAlentejo. Pela experiência que tive (comi lua duas vezes este ano) não vejo razões para perder. Portanto: vai manter

3 - novos 3 estrelas? não aposto nesse sentido. Nem em Portugal, nem em Espanha.

3 - A questão dos restaurantes informais: eu gostava de ver esta versão ibérica do guia a olhar para Portugal, como faz para Nova Iorque, ou até mesmo Londres, por exemplo. Ainda assim, tirando o Areias do Seixo (mais pela cozinha do que pelo serviço), não vejo que outro restaurante pudesse chegar lá. Ainda assim a cozinha do Leonardo Pereira - que vai ser um dos chefes portugueses de projecção mundial - é demasiado experimental para ganhar uma estrela logo à primeira. A questão de ter saído, nem se coloca porque quando foi anunciado já o guia estava impresso. Seria um embaraço - até para o próprio hotel.

O ano passado foi um do melhores anos de sempre para Portugal. Vamos lá ver este ano. Não vai bater o anterior mas não espero um cenário negro.
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De Anónimo a 25.11.2015 às 13:18

"É isso que me dizem que poderá acontecer com uma casa algarvia, de que nunca tinha ouvido falar, e cujo nome não vou revelar porque pode ser apenas uma forma de promoção." Juro que não entendi... É porque não faz parte do grupo de amigos, ou amigos dos amigos?
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De JGR a 26.11.2015 às 10:16

Foi um comentário muito infeliz do DC. Do género eu não conheço, logo não existe!
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De Duarte Calvão a 26.11.2015 às 13:27

Acho que verdadeira infelicidade é "ler" (ou, pior, querer "ler") aquilo que eu não escrevi.
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De Luis Rocha a 27.11.2015 às 02:00

Neste registo temos o Ferrugem do Renato Cunha que nao fica nada a dever a muitos da nossa praça. O trabalho que está a ser feito é fantastico. Vale apena visitar.

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