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Gambrinus, uma instituição de Lisboa

por Mesa Marcada, em 18.07.16


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Espaço emblemático de Lisboa, o Gambrinus é um dos restaurantes “de luxo” há mais tempo a funcionar sem interrupções na cidade. Em Julho faz 80 anos. (Na foto, o famoso vitral do Sá Nogueira). 

 

FullSizeRender.jpgO Sr. Dário Afonso, hoje um dos sócios do Gambrinus (entrou em 1964) mostra as fichas dos empregados mais antigos do restaurante

 

Durante décadas foram vários os restaurantes de Lisboa dominados por galegos. Dário Afonso, recorda alguns: “a Berlenga, o Solmar, o Brilhante, o Paris, o Vera Cruz” e, claro, “o Gambrinus”, onde entrou em 1964. Hoje, co-proprietário, o Sr. Dário é a pessoa há mais tempo neste restaurante, que comemora 80 anos de vida em Julho.

 

O Gambrinus ainda mantém o eisbein (à 5ª feira), uma reminiscência dos primeiros tempos da casa como cervejaria, fundada pelo alemão Hans Schwitalla e pelo genro galego Claudino Sobral Portela, figura de maior relevância na história do lugar. Porém, é apenas após as obras de 1964, e já com novos sócios (todos galegos), que o espaço é transformado no restaurante de luxo que hoje conhecemos.

 

No essencial, o lugar, bem como a sua filosofia ou a cozinha, pouco mudaram. A traça definida pelo arquitecto Mauricio de Vasconcelos, bem como a tapeçaria e os vitrais de Sá Nogueira continuam a impressionar, tal como o serviço de sala que se mantém como uma referência. De igual modo, a imutável ementa continua a atrair às Portas de Santo Antão, várias gerações das mesmas famílias, políticos (tanto de esquerda como de direita), empresários e artistas, entre outros.

 

Este sempre foi um lugar tranquilo onde todos se respeitam. Por exemplo, “à 5ªfeira, após a tourada no Campo Pequeno, juntavam-se aqui os forcados de Santarém e da Moita. Sabendo da rivalidade entre os grupos, tínhamos o cuidado de colocar uns numa ponta do bar e os outros na outra, mas, na verdade, nunca houve problemas”, recorda José de Brito, o responsável pelo balcão, na casa desde 1965. O mesmo acontecia (e ainda acontece) entre políticos de tendências diferentes, mesmo após o período quente da revolução de 1974, ainda que de vez em quando uma boca ou outra soasse no ar.

 

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 É a partir de 1964, quando após obras passa de cervejaria a restaurante de luxo que o Gambrinus começou a ser famoso pelos seus mariscos 

 

E quais os pratos da casa mais pedidos actualmente? Mais ou menos os de sempre. Na sala, “o empadão de perdiz, a sopa rica de peixe, o eisbein” e, na barra, “croquetes, pregos, sandes de rosbife ou os nossos mariscos”, aponta o Sr. Brito sublinhando, também, que fazem “qualquer coisa que o cliente queira”. Por exemplo, o já falecido realizador de cinema Fernando Lopes, gostava de pedir a comida do dia dos funcionários, algo que ainda hoje é oferecido a alguns clientes, como ouvi o Sr. Brito recomendar a um habitué: "hoje temos o ensopado de borrego do pessoal. Está um espectáculo". E estava mesmo.


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O Sr. Brito, chefe do bar e o mais antigo empregado da casa (entrou em 1965, com 17 anos), prepara um café de balão. Só há pouco mais de um ano é que passaram a ter uma máquina de café expresso. Porém, como faz questão de dizer: "o café do Gambrinus é de balão".


Texto (e fotos) de Miguel Pires publicado originalmente na revista Up da TAP de Junho 2016

 

 

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publicado às 23:18


6 comentários

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De Paulo a 19.07.2016 às 06:28

Um clássico. Nunca me defraudou, na sala ou ao balcão. Pode parecer misógino, mas para mim é a típica comida de gajo: um prato de percebes, um prego e uma imperial. É do ...
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De Anónimo a 19.07.2016 às 12:18

De facto, o Gambrinus continua a ser um porto seguro que nos acolhe e reconforta.
No dia em que acabar, arrancam-nos uma parte do coração. E Lisboa perde boa parte da sua identidade.
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De Teixeira a 19.07.2016 às 19:44

Com muitos anos de idas e vindas Brasil-Portugal ,e nos últimos com residência em Lisboa, sempre resisti em ir jantar no Gambrinus . Uma implicação abstracta , admito. Com a idade a avançar, penso que é hora de vencer esse aparente preconceito de que ali não se coma bem. Pena que o post, escrito para uma revista, seja descritivo e pouco analítico. Poderia fortalecer minha convicção de ir. Porém, a decisão já está tomada. Irei. Afinal, a história não fala dos covardes.
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De teixeira a 20.07.2016 às 03:09

Complemento esclareço. O covarde sou eu!
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De Artur Hermenegildo a 20.07.2016 às 15:49

Gostei muito, muito, sempre que fui acompanhado de clientes habituais (que eu não sou)

Quando não, nem tanto.
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De teixeira a 20.07.2016 às 20:43

Como não conheço clientes habituais, Artur, e pela perspectiva de três dígitos da factura , para um casal, talvez seja melhor chegar em frente ao espelho e fazer uma pergunta capital: " Sou um homem ou um rato?". Resposta do espelho: " Um rato". Obrigado pelo depoimento.

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