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Com o pretexto de celebrar os 10 anos como colunista da revista Wine (agora Revista de Vinhos), a Essência do Vinho trouxe a Portugal Jancis Robinson, uma das maiores referências mundiais da escrita sobre o tema. Jancis dispensa grandes apresentações. Foi a primeira pessoa fora do sector a tornar-se Master Wine (MW), é autora de vários livros (entre eles o indispensável Oxford Companion to Wine), do site JancisRobinson.com - onde publica diariamente - e cronista em diversas revistas do sector e, também, do Financial Times, onde escreve todas as semanas.

 

 

Numa sector a atravessar uma mudança significativa ao nível do consumidor, Jancis - apresentada no seu site como uma pessoa que “ama e vive para o vinho em toda a sua gloriosa diversidade, favorecendo, habitualmente, o equilíbrio e a subtileza em detrimento do volume” - é a líder de opinião mais equilibrada, menos dogmática e mais atenta à actualidade que conheço e, por isso, quis muito ouvi-la, até porque costuma ser uma óptima comunicadora.

 

Estamos no inicio da sua apresentação, no Hotel Sheraton, em Lisboa, perante uma sala cheia. Antes de começar, a autora inglesa tem o cuidado de dizer que não é especialista em vinhos lusos, dado que é a sua colaboradora Julia Harding (também MW), quem escreve mais sobre eles nas suas páginas online. Ela conta, inclusive, com alguma ironia, que fez a sua primeira viagem a Portugal, em 1978, logo após ter completado uma graduação importante na área e, nessa altura, “a única em que achava que sabia tudo sobre vinhos”, ao abrir a lista do restaurante do hotel, no Porto, onde estava hospedada, não reconheceu uma única referência. Porém, a partir de 1984 Jancis passou a olhar melhor para o nosso país, no seguimento de uma encomenda de um guia que lhe fizeram sobre vinhos lusos. “Era a altura das reverência as castas internacionais e aos excessos de madeira” e vários produtores portugueses começavam a ir na onda. Felizmente, nem todos foram na conversa e, desde aí, a inglesa reconhece que as coisas mudaram muito.

 

Melhorou-se o conhecimento sobre como fazer vinho, começou-se a valorizar as vinhas velhas e as castas autóctones e a utilizar a madeira de forma mais contida. Houve também a valorização da cortiça, a redescoberta dos vinhos generosos – para além do porto – e de vinhos de outras latitudes (Algarve, Açores..). “O progresso foi enorme, Portugal não esta mais isolado. Definitivamente faz parte do pequeno grupo dos grandes produtores”, resume.

 

Mas era a altura de falar dos 10 vinhos que escolheu para ilustrar o igual número de anos de colaboração com a Essência e, ainda que dissesse que não gostava muito de eleições do género, não foge com o rabo à seringa. Quer dizer, a coisa só sai depois de mais alguns avisos:

 

“Quero que entendam que estes 10 vinhos não são necessariamente os 10 melhores. Há mais. Porém, estes são os que por uma ou outra razão me surpreenderam”. E quais são mesmo esses 10?

 

Calma, porque Jancis ainda tinha de pedir desculpa por não ter escolhido mais referências alentejanas, nomeadamente de Portalegre, ou até mesmo de Lisboa, “como o Casal Figueira 06 vital que bebemos no sábado, no Belcanto e que estava extraordinário”.

 

Pronto, já chega de avisos e desculpas. Vá, chuta lá a lista, Jancis. Não vês que a plateia está repleta de produtores à espera de saber se ganharam ou não o teu óscar?

 

Então, aqui vai ela e algumas das suas justificações em tradução livre...

 

  1. Soalheiro Primeiras Vinhas 2016

 

“Há uma paixão em Inglaterra por albariños (os Alvarinhos da Galiza). Os portugueses são menos conhecidos”. Escolhe o Soalheiro porque considera ser um produtor que não tem medo de correr riscos e fazer experiências, como os novos Granit e Terramater. O Nuno (Pires, director da Essência e da Revista de Vinhos), sugeriu-me o Primeiras Vinhas 2007, mas achei o vinho pouco fresco e com falta de acidez. Mas pode ter sido apenas daquela garrafa, pelo que escolhemos antes o 2016”. A inglesa aprecia nele a frescura, a mineralidade, as “notas florais e de fruta de caroço” e refere que é um branco (tal como muitos outros de qualidade) que melhora com a subida da temperatura. Ah! e diz igualmente que é fã de decantar este tipo de vinhos, “sobretudo os novos”.

  

  1. Quinta dos Roques Encruzado 2007

 

Expressão, tensão, solo. Solo não, “rocks”. A autora pede desculpas pela comparação que vai fazer, mas não resiste: “por fora, o rótulo lembra um muito um bom Borgonha; por dentro, é mais confiável do que muitos bons Borgonhas. E envelhece tão bem como um deles”, anota.

 

  1. Luís Pato Vinha Barrosa 2005

 

“Eu não o beberia antes de 2020. Alguns talvez esperassem que trouxesse o Post Quercus, da Filipa Pato (sua filha)”, um vinho moderno à antiga, “feito em ânfora”. “Digamos que esses são o futuro” - tirando este escriba acho que ninguém esperava isso, amiga.

 

... E os restantes sete?

 

Lá vem mais um pedido de desculpas pelo facto de haver quatro do Douro entre os seguintes.

 

“Vou começar por aquele q mostra a história dos vinhos do Douro e dos vinhos portugueses. Foi o primeiro a sério que bebi desta região”. A marca já todos adivinhavam. Faltava o ano...

 

  1. Barca Velha 1999

 

“Lembro-me de experimentar o 1985 junto com o 1966 e achei-o muito bruto porque era feito para envelhecer. Mas agora... é como um old fashioned Bordéus, mas não no mau sentido”.

 

  1. Quinta do Crasto Vinha Maria Teresa 2005

 

“Um contraste completo. O inicio da revolução. Numa altura em que os modelos ainda não estavam bem definidos. Um vinho como muita madeira, mais do que devem ter agora os novos. Aqui temos um vinho feito para expressar esta parcela, um novidade na altura. Encorpado, cheio... acho a madeira americana um pouco dominadora, mas é um grande fine wine. Especiarias, doce no final...”.

 

  1. Batuta Niepoort 2007

 

“A novidade num novo caminho. Fresco, leve, mineral. Escolhi-o para

celebrar um alternative thinker como Dirk Niepoort. Alguém para quem a comida é muito importante. É um vinho com um perfil muito diferente em relação aos anteriores. Mais fresco... é bom que hajam estilos diferentes.”

 

  1. Poeira 2011

 

“Este e para celebrar independência, tenacidade e um grande ano. É mais no estilo do Batuta do que dos outros”.

 

  1. Bojador Vinho de Talha 2015 (Espaço Rural , tinto Alentejo).

 

Burburinho na sala. “Boja quê?”, “Que vinho é este??”

 

“Seria idiota ignorar as tendências. Há muitos novos consumidores neste mundo e muita gente que se está a borrifar para o facto de nunca conseguirem vir a beber um Bordéus”, refere Jancis em relação ao paradigma de épocas anteriores, em que o sonho de um enófilo era meter os beiços num grand cru francês. “Eles querem coisas novas, frescas e novas formas de fazer vinhos. Abram os olhos e os palato para estes novos vinhos”, aconselha. “Este é muito atraente, peppery, fresco. Dá água na boca. Vai muito bem com muitos pratos vossos de marisco. É mais do que sabido que há tintos leves que vão muito bem com marisco”, adianta. “Celebrate future and experimentation!” Yeah, clap, clap, clap. Hip hip, hurra! - exclama alguém na audiência, para dentro (e que apenas autoriza ser identificado pelas iniciais, MP)

 

  1. Barbeito Ribeiro Real Tinta Negra Lote1 20 anos

 

Neste meio não há como ficar indiferente aos fortificados portugueses. “Escolho este Barbeito para celebrar a ousadia de fazer um vinho e de colocar no rótulo a casta de maior produção” (e considerada menor na Madeira). “Riqueza e frescura”.

 

  1. Graham’s Single Harvest Tawny Port 1972

 

“Estando sentada aqui ao lado do Andrew Bridge, o mais natural seria ter escolhido um Taylor’s, mas não”. Que maldade Jancis... só falta dizeres que a existência deste vinho é a prova que Deus existe, mas já se sabe que vivemos uma época em que temos de ter cuidado com as piadas que dizemos.

 

Está finalizada a escolha dos 10 vinhos mais emblemáticos e, tirando o “Boja quê?”, não houve propriamente graaaaandes surpresas. Já agora, o Bojador, que tive oportunidade de provar no final, é um tinto de talha que escorrega fácil (e por isso apetece beber e beber). Ouvi falar dele, pela primeira vez, através de um importador inglês e desconheço se fica algum para venda em solo nacional. Mas vale a pena procurar, até porque o preço parece-me ser agradável. 

 

IMG_3077.jpg

 

Tendências

 

Depois do top 10, e antes de se despedir, Jancis Robinson revelou aos presentes na sala as principais tendências que tem compilado a partir do que vai vendo e do que os colaboradores do seu Oxford Companion to Wine lhe têm feito chegar:

 

. Mudança para biológico e biodinâmico. 

 

. Vinhos com leveduras indígenas.

 

. Uma grande mudança em direcção aos vinhos naturais - “o que é bom e mau”, adiantou. “Porque há mais vinhos com problemas do que nos não naturais. Mas há uma grande evolução e é um movimento que não se pode ignorar”.

 

. Vinhos de maceração pelicular (skin contact) e Orange wines.

 

. Acidez, menos álcool e algum amargor.

 

. Vinhos feitos e estagiados em cimento em detrimento de madeira. “Lots of concrete, eggs...” (“eggs”, ou “ovos” são depósitos em forma de ânfora, cuja forma ajuda a que haja uma constante circulação das massas, o que alegadamente traz ao vinho uma maior profundidade, volume e textura.

 

. Mudanças climatéricas que levam à procura de variedades e zonas mais resistentes ao clima.

 

. Técnicas de dry farming (vinha sem irrigação, a não ser a natural).

 

. “Ideias diferentes sobre o que é um vinho perfeito. Mais consumidores que que num dia querem beber um vinho natural num dia, um convencional depois, e um de uma região longínqua no dia seguinte”.

 

. “Os wine experts têm de correr mais para estarem actualizados”.

 

. Preços elevados dos vinhos troféu. “Os preços dos vinhos mais elevados atingiram ao ridículo. Tenho pena que os produtores destes vinhos, comprados por oligarcas russos e chineses, provavelmente, nunca venham a ser provados pelos mais apaixonados”.

 

. Mercado Asiático. “Os portugueses têm de acelerar. Bordéus, já não detém o monopólio. China e não apenas Macau”.

 

Antes e depois do show Jancis: Encontro com Vinhos... e Sabores e outras apresentações

 

Antes de Jancis fora apresentado o Encontro com Vinhos e Encontro com Sabores (uma parceria agora entre a Massemba e a Essência do Vinho), que decorre na Centro de Congressos da Junqueira, em Lisboa, de 10 a 12 de Novembro – e que este ano. debaixo do seu chapéu. inclui ainda o Congresso Nacional dos Cozinheiros e o Lisbon Food Week (este de dia 3 a 13), em colaboração com as Edições do Gosto, de Paulo Amado.

 

Porém, depois de Jancis ainda houve 3 outras apresentações: uma de Andrew Bridge, do grupo The Fladgate Partnership (Taylor’s, Yeatman, etc...) sobre o World of Wine, o mega projecto desta empresa que ocupará 30 mil metros quadrados no centro histórico de Gaia e que incluirá museu, centro de exposições, lojas, escola de vinhos, etc; outra do especialista em viticultura António Graça, que falou sobre a biodiversidade da videira, e, por último, uma apresentação bastante interessante e eloquente sobre vinhos naturais, pelo jornalista e critico de vinhos brasileiro, Alexandre Lalas.

 

 

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Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:55


2 comentários

Sem imagem de perfil

De Artur Hermenegildo a 31.10.2017 às 14:23

O Bojador, nem desconfio o que seja. No Google, encontrei-o na carta de um restaurante em Charleston, USA...
Sem imagem de perfil

De Artur Hermenegildo a 02.11.2017 às 12:08

Neste restaurante afro-americano de Charleston, há Bojador Vinho da Talha na carta... (e o Vale da Capuvha branco...)

https://pt.foursquare.com/v/husk/4cbd2e0886dd952120b6ade6/menu

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