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Gosto muito de ler o Jay Rayner. Frequentemente concordo com as suas posições, outras nem tanto… mas o estilo de escrita, o sentido de humor e a forma provocatória com que escreve fazem com que seja sempre uma boa leitura. Gosto da enorme paixão pela comida do Jay Rayner, associada a um profundo conhecimento. Gosto da seriedade com que, de forma bem irreverente, aborda cada tema.

Há uns meses a minha filha mais velha telefonou e disse-me “Vim ao teatro e vai haver aqui uma sessão com o Jay Rayner daqui a uns dias. Quando chegas a Londres?”. Por (feliz) coincidência tinha uma viagem programada e chegava a Londres no dia do evento, que era anunciado da seguinte forma:"A doutrina da comida local está morta. Os mercados de produtores são simplesmente um escolha de estilo de vida para uma classe média abastada. E "orgânico" tornou-se pouco mais do que uma etiqueta de marketing que há muito passou o prazo de validade."

Mais polémico era difícil! Jay Rayner, sozinho em palco, falou durante cerca de 1 hora. Assuntos complexos, mas um discurso bem estruturado e fundamentado. O tema era aliás o do seu último livro “A Greedy Man in a Hungry World – Why almost everything you thought you knew about food is wrong”. Um título também polémico para 289 páginas que nos prendem. Comprei logo ali o livro, que li nas semanas seguintes.

Apesar da capa, este é um livro profundamente sério e (o que nem sempre acontece com assuntos desta natureza) de leitura muito leve e fácil. Contudo (o que nem sempre aparece associado a livros de leitura fácil), pode ser bem difícil digerir a informação. Talvez por isso, ainda não tinha acabado de o ler, e já tinha a certeza que muito em breve o irei ler de novo. Com atenção redobrada.

O conteúdo é parte livro de memórias, em que Jay Rayner fala das suas experiências e da sua família, de um forma bem intimista, que quase nos dá a sensação de espreitar pela janela da sua vida. Parte é investigação jornalística. Investigação profunda e muito séria. Também estes dois aspectos raramente aparecem associados no mesmo livro. Não há uma polarização de posições, há argumentos, lógica, bases sólidas, que permitirão a cada um decidir mais conscientemente o que comer e onde comprar, assuntos que cada vez mais têm um carácter político e de cidadania.

Resultado… um livro que é divertido, desconfortável por vezes, que dá que pensar e que pode alterar completamente a visão que temos do que comemos. De facto, alguns comentários que encontrei de pessoas que leram o livro diziam coisas como: “Este livro desafiou quase todas as minhas crenças de foodie e forneceu evidência suficiente para me convencer de que tenho que pensar sobre as coisas mais profundamente.” ou  “Até ler este livro, eu também pertencia à "brigada não-às-milhas-alimentares/orgânico/sustentável/criado-ao-ar-livre”, mas de facto nunca pensei  muito sobre isso. Leia este livro e acorde para a realidade de um mundo cada vez mais demasiado populoso para se sustentar.”

O que se aprende ao ler este livro? Não o conseguiria dizer melhor do que o que próprio Jay Rayner disse nas conclusões, por isso “roubo-lhe” as palavras:

1 . Os supermercados NÃO são perversos.
2 . Contudo, claro, eles SÃO MESMO MUITO PERVERSOS.
3 . Importar-se com o sabor das coisas, ser obsessivo relativamente à sazonalidade, viver obcecado por ingredientes de alta qualidade, esfregar -se contra as páginas brilhantes de um livro de receitas de Nigella Lawson : tudo isso é completamente correcto . Mas ...
4 . ... não é o mesmo que apoiar a agricultura sustentável.
5 . A comida local não é o máximo. Excepto ...
6 . ... quando acontece ser.
7 . E se o localismo é bem menos importante e as milhas alimentares uma medida demasiado simplista, então comer ingredientes importados fora de época já não é necessariamente uma grande questão moral. Na verdade ...
8 . ... nem todos os alimentos importados são obras do diabo. Alguns deles são a solução.
9 . Mercados de produtores são locais magníficos. Como o são os showrooms  da Ferrari, e as lojas que vendem brilhantes carteiras Chanel. Se tiver dinheiro, vá em frente. Divirta-se. ( Eu sei que o faço. )
10 . Alimentos orgânicos constituem um argumento muito fraco por si só.
11 . A grande agricultura não é completamente sórdida, má e perigosa e terrível e indizível. Na verdade ...
12 . ... alguma grande agricultura é necessária.
13 . Virar as costas à biotecnologia porque é, sabe, estranha e envolve ciência e pessoas com bata branca, e nada de bom pode alguma vez vir de qualquer uma destas coisas, é muito, muito burro. Porque muita gente no mundo não tem acesso a comida suficiente.
14 . Precisamos comer menos carne.
15 . Natural ou artificial não querem dizer muito, por isso precisamos de encontrar novas palavras.
16 . Os biocombustíveis são uma verdadeira treta.
17 . Todos estes assuntos são terrivelmente complicados.

 

Eu, como já várias vezes tive oportunidade de dizer, não vivo particularmente entusiasmada com as tendências actuais da cultura gastronómica. Estou cansada das posições de alguns chefes e outros activistas na área da alimentação em que opções estéticas e de estilo de vida são apresentadas como as únicas opções éticas moralmente inquestionáveis. Considero profundamente utópicas, pouco fundamentadas e repostas fáceis e simplistas, muitas das propostas relativamente ao que comemos, à sua proveniência e ao seu impacto na saúde e no ambiente. O que não quer dizer que não concorde com algumas das posições (tal como o Jay Rayner diz várias vezes durante o livro “eu não sou idiota”). Mas, até a mim, determinadas partes deste livro me deixaram bem angustiada com a complexidade dos problemas. Mais do que isso, algumas deixaram-me mesmo assustada.

É importante valorizar o conhecimento, profundo, que dá trabalho a adquirir. É importante ir além do óbvio, do intuitivo, do que é moda. É importante questionar aquilo que tomamos por garantido. Todas as opções são válidas, os argumentos é que nem sempre são, e mais conhecimento permite optar de forma mais consciente. Este livro pode ser uma boa contribuição para isso.

 

O “A Greedy Man in a Hungry World” de  Jay Rayner foi seguramente um dos melhores e mais importantes livros que li nos últimos anos (e gostava tanto de o ter escrito... que inveja!).

 

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publicado às 18:35


4 comentários

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De joao isidro a 09.05.2014 às 20:23

Não sou das áreas das ciências ditas exactas, nem tão pouco um fndamentalista disto ou aquilo e muito menos li o livro e sequer conhecia o seu autor confesso. Mas saberá o autor que o E250 que povoa praticamente todos os alimentos existentes numa grande superfície é causadora directa do cancro?
Não sei que argumentos argumenta -passe a redundância- o autor para dizer o que diz no ponto 10 e 11, mas eu que sou filho de um homem que sustentou a família com uma empresa de produtos alimentares resultantes de pessoas de bata branca, e com uma avó que cozinhava a carvão em tachos de ferro co ingredientes retirados, na hora, da terra, rejeito de olhos fechados os pontos.
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De Paulina Mata a 09.05.2014 às 23:00

Leia o livro e conhecerá os argumentos. E não rejeite nada sem uma análise mais profunda.

Para seu esclarecimento o Jay Rayner não fala de aditivos alimentares no livro. Contudo, quanto ao E250, é verdade que estudos feitos nos anos 1970, em ratos e usando doses elevadíssimas, levantaram a suspeita de que poderia ser cancerígeno. No entanto tal nunca foi comprovado no caso do homem. Posteriormente foram feitos estudos que indicam que os nitratos alimentares podem inclusivamente ter efeitos benéfico pois permitem ao organismo fabricar monóxido de azoto que é um potente vasodilatador que reduz a tensão arterial e melhora a resistência das paredes vasculares. Note que o E250 sempre foi usado por quem faz carnes curadas - o salitre, que é uma mistura de sal com nitrato de potássio, é um excelente conservante que impede a propagação da bactéria causadora de botulismo. Pratos da cozinha portuguesa - a língua escarlate - usa salitre. Também uma fonte muito importante de nitratos na alimentação são os vegetais. Quase todos têm nitratos.

Também, por estranho que pareça a cozinha em carvão está longe de ser saudável, mesmo sem referir os hidrocarbonetos aromáticos policíclicos que se formam quando se fazem grelhados em carvão e que são cancerígenos, sabia que dados da OMS referem que em 2012 no mundo morreram 4,3 milhões de pessoas (principalmente mulheres e crianças que estão mais em casa) em lares com fogões a carvão, lenha ou biomassa em resultado da poluição do ar interior em consequência da fuligem que se liberta?
Acredite que tudo isto está longe de ser simples, e as conclusões e opções rápidas e intuitivas normalmente estão erradas.

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De joao isidro a 11.05.2014 às 14:29

CAra Paulina Mata obrigado pela resposta.

O meu pai, como lhe disse, foi sócio gerente, muitos anos, de uma empresa de produtos alimentares, foi com isso que sustentou uma família e muito sucesso, felizmente. Posso pô-la a conversar com ele sobre os E's e, note, o meu pai nem sequer estudos superiores tem e acredite que provavelmente vai ter muitas supresas.
Como digo a brincar, o meu pai era um dealer, porque vendia diversos pós brancos e sustentava a família com isso mas não queria que ninguém da família consumisse aquilo que vendia.

A minha avó cozinhava na lenha -correcção minha- uma vez que vivia no alentejo, numa casa sem esgotos, luz e tv ou gaz. Cozinhava nos tachos de ferro. começava de manhã a fazer uma sopa para estar pronta ao jantar, com produtos colhidos na hora e isso como sabe tão bem como eu, dava origem a comida de sabor avassalador.

Há um estudo de uma médica portuguesa, muito interessante e importante -acho eu- sobre a alimentação nos nossos dias e as consequências nos nossos organismos. SAiu uma entrevista na revista do diário de notícias, ha já uns anos largos, infelzimente não lhe consigo dizer em que edição do jornal nem do nome da médica.

Cumprimentos
João Isidro
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De Paulina Mata a 13.05.2014 às 22:55

Caro João Isidro

Obrigada pela sua resposta. Apesar de em casa da minha Avó haver gaz, grande parte da comida, sobretudo no Inverno, era cozinhada no lume no chão. Também me lembro disso. Algo parecido com as cozeduras a baixas temperaturas de agora.
Também vivi numa casa em que se iam apanhar as coisas ali na horta. Se matavam as galinhas...
Mas isso não é possível e nem tudo tem que ser necessariamente pior por isso.

Relativamente aos aditivos alimentares... Nunca houve tanto controle e segurança alimentar como agora. Engraçado que a nossa precepção de insegurança é maior. E dantes não era necessariamente melhor. Tal como agora, cada caso é um caso e não se pode generalizar. Note que nunca as pessoas viveram tanto tempo e com tanta saúde como agora.

Tenho vários livros sobre aditivos alimentares que consulto regularmente. Nestas coisas, talvez devido à minha formação, acho que isto não pode ser nunca uma questão de opinião. O que se diz tem que ser baseado em dados reconhecidos como credíveis. Assim, consumo sem peso na consciência, de forma relativamente informada, e com bom senso o que é aprovado. À luz do conhecimento actual considera-se que são seguros se forem consumidos nas doses recomendadas. Acredito que não causarão muitos danos. E não tenho provas credíveis para dizerem que causam problemas. Agora tem que haver algum bom senso e equílibrio no que se come. Já diz o ditado "Nem sempre galinha, nem sempre sardinha" e este é o segredo.
Fraudes haverá, como sempre houve, mas também agora há mais possibilidades de serem detectadas.

Viver permanentemente na desconfiança, na ansiedade de um fantasma que não sabemos sequer se existe é que não faz bem à saúde. Eu não quero isso na minha vida.

Quanto ao seu Pai, obrigada pela disponibilidade. Quem sabe um dia...

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