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Deve ser uma seca ser-se aluno de dezoitos e ter-se um irmão de vintes. Digo isto a propósito do novo Casa Ferreirinha Reserva Especial 2007, lançado esta semana no incrível Palácio Marqueses de Fronteira (na foto de baixo), em Lisboa.  "Tenho pena que não seja Barca Velha", lamentava Luís Sottomayor, enólogo chefe da Sogrape, responsável pelos vinhos do Douro da casa. E a razão tinha, em parte, uma razão particular: "é o primeiro da minha inteira responsabilidade. Durante muito tempo achei que podia ser Barca Velha, mas quando há alguma hesitação é porque não pode ser". 

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É uma constante. Sempre que se fala do Reserva Especial, lá vem a comparação com o Barca Velha. A verdade é que se houve algumas dúvidas em colheitas passadas, como na de 1980, em que muitos afirmam que deveria ter sido elevada à categoria máxima, outras houve que levantaram dúvidas, mas em que o tempo se encarregou de confirmar a opção acertada. 

Se a classificação entre ser Reserva Especial e Barca Velha acarreta uma diferença considerável no volume de receitas da empresa - que, por alto, poderá andar na casa de um milhão de euros, segundo o jornalista Edgardo Pacheco, num artigo recente no Jornal de Negócios -, a decisão, essa, não parece tirar o sono a Sottomayor, dado que resulta de um processo continuo de avaliação, feito e decidido com o acompanhamento da administração da casa. A verdade, é  esta afinação na escolha, que muito tem contribuído para a preservação do mito Barca Velha, e, por extensão, para a imagem da casa. 

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Curiosamente em 62 anos houve 17 Barca Velha e apenas 16 Reserva ou Reserva Especial. Mas a explicação é simples: o primeiro nasceu na década de 1950, enquanto o segundo, apenas na de 1980. Foi precisamente com dois Reserva Especial desta década, o 1980 e o 1989, que teve inicio a prova vertical com que a Sogrape quis assinalar o lançamento da mais recente colheita. E não é necessário ser ultra especialista na matéria para perceber que, em ambos os casos, estivémos perante vinhos excepcionais e de grande longevidade (uma coisa deveria estar implícita na outra, mas a verdade é que nem sempre isso acontece). Se o elegante 1980 poderá estar já numa fase descendente, mas ainda com muito prazer para dar num futuro próximo, o 1989 mostrou complexidade, elegância e vida para dar e vender. Contudo, foi de uma colheita mais recente, o Reserva Especial que mais me impressionou: o 1997, o primeiro em que foi utilizado carvalho francês. O estágio em barricas de madeira de maior qualidade fez-se notar no toque aromático suave a tabaco que se realça e que se integra com elegância neste vinho que, além de carácter, mostrou ter ainda muitos anos de vida. Já o 2003 está uma bomba: pesado e enjoativo (evidente, sobretudo, quando em comparação com os outros), revelando 'na pele' um ano de temperaturas escaldantes e, também, um perfil de vinho mais madurão e pesado que se privilegiava na altura. 

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Quanto ao 2007 é bom que o valorizemos por si mesmo, sem ter de vir à baila o irmão de notas vinte. Trata-se de facto de um belíssimo vinho - fino, elegante - que revela uma boa estrutura, como seria de esperar, com notas especiadas muito bem integradas (com um toque vegetal pelo meio) e frutos vermelhos de grande qualidade. E, pese embora o nervo que revela - um bom pronúncio para uma boa longevidade -,  dará um grande prazer a quem o quiser beber desde já. O preço andará na casa dos cento e poucos euros, metade do preço do último Barca Velha (2004) - ooops, lá vem a comparação.

 

Será aluno "apenas" de dezoitos ou dezanoves? Quem dera, a muitos enólogos, debaterem-se com um problema assim. 

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publicado às 12:05


3 comentários

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De Duarte F a 04.11.2014 às 12:59

Os anos de 2005 e 2006 não foram dignos sequer de Reserva Especial?

Tenho ideia que 2006 foi em geral um ano mau (pelo menos no Douro) mas não tinha essa ideia de 2005.

De qualquer maneira, o preço subiu, lembro-me de ver os últimos Reservas na casa dos 60€. Admito que tenha mais procura...
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De Miguel Pires a 04.11.2014 às 16:43

O 2006 dúvido porque foi de facto um ano mau no Douro Já o 2005... aguarda-se. Como sabe esse é sempre um segredo muito bem guardado pela Sogrape. Em relação ao preço, também me pareceu que o valor era muito superior ao de edições anteriores. Contudo, fonte da empresa, referiu-nos que não.
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De Carlos a 24.06.2015 às 02:49

O que ocorre em safras que não são nem Barca Velha, nem reserva especial, como 2002, por exemplo?

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