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L'And and... Tasquinha do Oliveira

por Miguel Pires, em 11.12.14

Land Vineyards exterior.jpg

Sou um apaixonado pelo Alentejo. Seja num dia tórrido de Verão ou numa noite fria de Inverno; junto à costa ou no interior; no Alto ou no Baixo ; no montado ou na seara, em tons dourados ou verdejantes, como acontece por estes dias. Como se não bastassem a paisagem e as gentes, esta é igualmente uma das regiões predilectas para praticar o meu desporto favorito: levar o garfo, a colher ou a mão à boca, recheadas de coisas boas - e entremeadas por um bom branco ou tinto da região

A escapadinha tinha um destino: L'And Vineyards, o óptimo (mini) resort, em Montemor-o-Novo, a menos de uma hora de Lisboa. Tão perto e tão longe (leia-se: diferente), vantagens de um país pequeno. "Isso não é Alentejo!", dirão os mais conservadores.  'Azarinho'. Para mim é, digo-lhes eu. 

 

 Land sala restaurante.jpg

O L'And (1* Michelin), o restaurante do resort , conduzido por Miguel Laffan teria de ser visita obrigatória. E quantas pessoas estariam, de propósito, naquela sala bem preenchida, numa segunda feira à noite (feriado), sob influência do guia vermelho (que muitos adoram odiar),  pela cozinha do chef de Cascais? A maior parte, arrisco dizer. Ah! e todos portugueses. 

 

Na carta de Laffan encontramos um naipe de propostas contemporâneas (de técnica de base clássica), com uma paleta de sabores bem conjugados e, aqui e ali, um toque 'comfort' sem cair no mais óbvio. Não há sobressaltos ou momentos de grande excitação, é verdade. Mas também não tem de haver. Afinal, estamos no Alentejo.

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A Sopa de peixe com lagostim numa fina tosta (na foto de cima) é um amuse bouche rico e elegante, com o lagostim num ponto impecável (pouco cozinhado).  A vieira à Brás, um clássico impossível de não gostar (mesmo para quem já não tem muita paciências para vieiras). 

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Já o salmão da Escócia curado, é um dos exemplos de como dar a volta a uma ligação óbvia. Ao tradicional funcho, acrescentam-se outros sabores, como a amêndoa (na gelatina que envolve o peixe) ou a tinta de choco.

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Esta é uma paisagem alentejana segundo o chef. Está lá o presunto ibérico ("pata negra"), o queijo, os espargos (ainda que não fossem selvagens), os cogumelos e o pão (na tosta). Pelo meio, há um flan que dá consistência ao conjunto. O resultado é um prato profuso de sabores, bem pensado e, ao mesmo tempo, simples (bom, aparentemente). Menos bem conseguido, do menu de degustação, apenas o prato de peixe, um pregado ligeiramente para lá do ponto. Para compensar, o borrego merino, muito bem acompanhado de puré de batata doce e legumes, estava de se lhe tirar o chapéu (belíssimo, o jus, que deu outra vida ao conjunto). 

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Mas o ponto alto da refeição seria mesmo o pombo com risoto de foie gras. Comecei por recusar. Não sou o maior adepto da ave - a mais trendy dos últimos anos entre os chefes de topo - e embora goste de foie gras, não era bem o que me estava a apetecer. Ainda bem que alguém na mesa não pensou da mesma forma e permitiu-me que lhe roubasse uma, duas, três garfadas. Ou melhor: metade do prato. Primeiro há que referir a quantidade certa (mais seria menos). Depois, o conjunto perfeito: na boca, o risoto amenizou a intensidade de sabor do pombo, não lhe cortando as asas (ao sabor), mas sim, trazendo-o para outra dimensão. E, quando  para lá de Bagdad, um 'kick' vegetal com um subtil toque ácido (tiras de rábano e de beterraba avinagradas) traz-nos de volta a terra. Para finalizar, esteve bem, igualmente, as sobremesas do chef pasteleiro Nuno Sousa, co-responsável pelo capítulo. A pre-dessert era um derivado da minha sobremesa preferida aqui, o tiramisu de pistáchio, e a principal uma composição tendo como base cenoura. 

 

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No dia seguinte dei um salto a Évora para almoçar na Tasquinha do Oliveira, um clássico da cidade e uma falha no meu portfolio. Embirrei com o restaurante por causa de um relato menos feliz que li, em tempos, em relação às entradinhas colocadas na mesa sem serem pedidas. Parvoíce minha, claro. Restaurante de anfitrião, a sala faz jus ao diminutivo no nome e não se sentam mais do que 15 clientes. Óptimo, digo eu, de forma egoísta, porque o proprietário Manuel Oliveira, dá conta do recado com eficácia, simpatia e discrição (três qualidades que nem sempre se conjugam numa mesma frase). Não confirmei, mas rezam as crónicas que na cozinha continua a mandar a sua esposa Carolina. Bendita seja ela. 

photo 3.JPG

Comecemos pelas entradinhas, todas escolhidas por nós, sem empurrões. Bom, excepção para as pataniscas (na foto de cima), o que é mais do que compreensível dado que ignorá-las seria criminoso. Incríveis é o que me apraz dizer: fininhas, muito bem fritas,  secas e com a quantidade certa de bacalhau. Também muito bem esteve a empada de perdiz, com a massa e o recheio de boa pinta. E o que dizer sobre os ovinhos de codorniz estrelados com paio? Acho que não é preciso falar, a foto abaixo diz tudo. Estes três pratos, juntamente com o arroz de pato no forno - saboroso, húmido e nada gorduroso - são da melhor cozinha tradicional que se pode comer em Portugal. Estando a fasquia tão alta apenas a salada de grão com bacalhau e o polvo (ambas frias e já feitas) destoaram um pouco do conjunto. Também achei as farófias demasiado doces, comparando com outras que prefiro. Já a encharcada... bom, culpe-se as freiras, não a cozinheira.   

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Arroz de pato no forno 

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ovos de codorniz estrelados com paio 

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farófias e encharcada

 

 

Contactos:

 

L'And - L'And Vineyards, Montemor-o-Novo; Tel: 266 242 400 

Tasquinha do Oliveira, Rua Cândido dos Reis 45, Évora; Tel: 266 744 841 

 

 

 

 

 

 

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publicado às 19:44


6 comentários

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De Artur Hermenegildo a 12.12.2014 às 12:38

O L'And é muito bom em termos de comida. Jantei lá duas vezes este ano.

Já o serviço de sala está um pouco abaixo do que seria expectável. A carta de vinhos também podia ser melhorada, e especialmente as existências reais de vinho na cave deveriam corresponder à carta, o que na minha experiência não aconteceu.

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De Luísa Neto a 12.12.2014 às 15:38

Essa visita à Tasquinha peca mesmo por muito tardia....sou "fã de carteirinha", como diriam os nossos amigos brasileiros.
As farófias ganham com a romã, mas não me perco por doces. Mas quanto a tudo o resto, o melhor é mesmo deixar que tragam o que quiserem e lhes parecer e nem ter trabalho a escolher. E porque as tentações são muitas e para minimizar perigo coronário...., convém mesmo ir-se ao almoço e não ao jantar.
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De fgoncalves a 12.12.2014 às 17:00

A Tasquinha do Oliveira é um clássico incontornável.
As pataniscas e a empada de perdiz valem, por si só, a viagem.
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De Luísa Neto a 12.12.2014 às 21:14

E ainda sobre o Alentejo....o gin Sharish faz jus à excelência de tudo o que é alentejano.
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De Isabel a 17.12.2014 às 16:09

Adoro ler este blog... e há muito que esperava um comentário sobre a "tasquinha". Ora, finalmente cá está ele ( e faço meu este relato, afinal só quem prova as pataniscas pode falar delas!).
Obrigada
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De José Manuel Jorge a 06.01.2015 às 19:53

Também adoro o Alentejo. Só fui uma vez ao L' And e gostei muito da experiência. Já o resort foi, para mim, uma desilusão. quanto a Évora e à Tasquinha do Oliveira, já tive o prazer de lá estar meia dúzia de vezes e só tenho a dizer maravilhas dos petiscos. Já a presunção era escusada. Ainda em Évora, não posso deixar de destacar a barra do Sr. Domingos. Vão ao Botequim da Mouraria e deixem-no brilhar.
Saudações Comensais

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