Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Merecia Melhor Sorte

por Paulina Mata, em 13.06.14

Em Outubro de 2004 estive no Salone del Gusto do Slow Food em Turim. Lá encontrei stands de dois produtos portugueses, a Flor de Sal, que  se tinha tornado famosa, e que já conhecia, e um outro produto que desconhecia, o Chouriço Mirandês. Aliás esta representação de Portugal foi referida no DN (talvez pelo Duarte Calvão, não me lembro e não está assinado).

Nela o Chouriço Mirandês é assim referido:

“Os 40 ou 50 produtores da cooperativa Carne Mirandesa que ainda o fazem foram «descobertos» pelo Slow Food, que custeou todas as despesas de deslocação a Turim. Ficaram no espaço Presidia. E foi um êxito entre os visitantes, apesar de, devido à escassez da produção e da época do ano, só o terem para prova e não para venda. Servido grelhado, despacharam 15 quilos numa só hora de degustação...”

Este chouriço foi incluído na Arca dos Sabores do Slow Food que tem como objectivo chamar a atenção e contribuir para a preservar produtos que considera, pelas suas características, pertencerem às culturas, história e tradições deste planeta em que vivemos.

Provei o Chouriço Mirandês na altura em Turim, e ficou-me na memória. Pela raridade e pelo sabor diferente. Por isso quando, há uns anos, vi numa grande superfície uma embalagem de chouriço com uma foto de uma vaca imediatamente compreendi do que se tratava.

Foram sentimentos mistos que me invadiram, nessa altura e nas várias vezes em que o tenho comprado depois disso. De facto é bom poder disfrutar do Chouriço Mirandês sempre que me apetece, até porque é um chouriço com características diferentes das de todos os outros. Mas é com alguma tristeza que vejo um produto como este “perdido”, entre inúmeros outros, num balcão de uma grande superfície, sem qualquer destaque ou referência às suas características especiais e ao facto de ser um dos poucos produtos incluídos na Arca dos Sabores do Slow Food. Tenho pena que não lhe tenha sido dado o devido e merecido destaque por outros intervenientes do panorama gastronómico nacional. Por vezes parece-me que estão sempre a redescobrir o que já está descoberto. E o resto?

 

O Chouriço Mirandês merecia melhor sorte.  Não acham?

Leia ainda:

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:56


10 comentários

Imagem de perfil

De Duarte Calvão a 14.06.2014 às 07:58

Deve ter sido escrito por mim, porque nesse ano estive no Salão e lembro-me perfeitamente desse produto. Também fico satisfeito em ver que continua a existir, mas é como a Paulina diz, os seus pontos de venda ideais dificilmente serão os supermercados ou lojas sem pessoas que o saibam explicar aos potenciais compradores. É um erro muito comum em Portugal ver produtores que se deixam encantar pela possibilidade de estar em supermercados onde passam milhares e milhares de pessoas, sem perceber que o que produzem não está destinado ao consumo das massas. Depois, vêm, inevitavelmente, dizer que "os portugueses" não estão preparados para consumir produtos diferentes.
Imagem de perfil

De Paulina Mata a 15.06.2014 às 12:23

Duarte, também concordo consigo que os pontos de venda ideais não são os supermercados, sobretudo grandes superfícies. Essa foi uma das razões que me levou a escrever este post.
Mas não sei se os pontos de venda alternativos, e mais adaptados, terão dinamismo, volume de vendas, capacidade de procurar novos produtos...
Seria a alternativa entre vender o supermercado, não vender? Não sei... Não sei se podemos atribir toda a culpa aos produtores.
De facto há muito, muito que fazer ainda, a nível de todos os intervenientes da área da gastronomia e a nível de consumidores.
Imagem de perfil

De Paulina Mata a 15.06.2014 às 14:49

E não podemos esquecer que estamos a falar de há 10 anos atrás... Tudo era mesmo diferente do que é hoje...
Imagem de perfil

De Artur Hermenegildo a 16.06.2014 às 10:23

Paulina,

Pessoalmente vejo com bons olhos a disponibilização destes produtos em qualquer canal de distribuição que seja eficaz - e este é-o sem dúvida, e que permite a disponibilização do mesmo a um público mais alargado do que as lojas gourmet, que além do mais são uma realidade quase exclusiva de Lisboa, tanto quanto me apercebo.

O que é fundamental é que a qualidade e a autenticidade do produto sejam mantidas - e pelo que percebo do post neste caso isso aconteceu.

Já agora, pelo que vejo da foto, este produto tem o selo "Selecção Continente", um selo que a cadeia reserva a produtos de "marca branca" de qualidade acima da média. Sou consumidor habitual dos produtos com este selo, e até agora nunca me desiludiram.

Vou procurar este chouriço a próxima vez que lá for.
Imagem de perfil

De Paulina Mata a 01.07.2014 às 00:26

Artur

Eu entendo o que dizes. Mas acho que há produtos que pela sua raridade, ou especificidade, deviam ser comercializados noutros canais que não as grandes superfícies. Mas, como dizes, não sei se isso é eficiente em Portugal. Não sei de facto que esses canais existem e têm uma representatividade suficiente. Lojas especializadas... há poucas...
Neste caso o que mais me choca é o produto ser vendido de forma quase anónima. Poucas pessoas se aperceberam da diferença. Menos ainda sabem da sua história, do facto de pertencer à Arca dos Sabores e o que isso significa. Acho que saber tudo isto valoriza mais o produto e a forma como o produto é vendido (apesar de com um rótulo que garante alguma qualidade) tira-lhe esse valor, não realça nem informa relativamente às especificidades do produto.

Numa situação ideal o produto era vendido em lojas especializadas e valorizado pelas suas características.
Sem imagem de perfil

De teixeira a 05.07.2014 às 21:15

Paulina que tal vender em museus?
Sem imagem de perfil

De claudia c a 17.06.2014 às 04:57

eu desconhecia por completo este chouriço até aqui há uns meses atrás quando, na tal da grande superfície, enquanto procurava diferentes enchidos para uma tabuazinha, dou de caras com este 'híbrido' intrigante. e tal foi o entusiasmo que fui comentado com toda a gente a coisa e, com menos espanto, percebi que realmente ninguém o conhecia.

lá em casa teve reacções diferentes, entre os que acharam piada mas sem grande entusiasmo e outros (eu) que acharam muita piada de forma mt entusiástica.

Mas só se encontra isto neste formato já fatiada, não é?

Imagem de perfil

De Paulina Mata a 01.07.2014 às 00:19

Cláudia

Inicialmente só havia inteiros. Depois passou a haver fatiado, mas também vendiam o inteiro. Actualmente não sei bem. Pensando bem acho que tenho visto principalmente (só???) o fatiado. Mas deveria haver nas duas formas...
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 02.07.2014 às 16:47

Boa tarde,

o que se questiona aqui é, até onde e principalmente como, é que produtos tão genuínos e de grande qualidade se conseguem impor no mercado internacional.
Mas não é só neste produtos.
O vinho é lamentavelmente um desses.
Mesmo com a abertura de várias garrafeiras online, como a wivini (http://www.wivini.com), as dificuldades ainda são enormes.

Cumprimentos
João Silva
Imagem de perfil

De Paulina Mata a 02.07.2014 às 23:53

Não era isto que abordava neste post. Referia-me mais ao mercado interno. Não sei se a produção é suficiente para exportar, nem se seria um produto que se poderia impôr fora por si só.

Contudo, o assunto que refere é muito interessante e importante. De certa (muita) forma o que tentei abordar neste post mais recente:
http://mesamarcada.blogs.sapo.pt/um-sucesso-que-nos-passa-ao-lado-mas-568625

Mas respondendo à sua questão, na minha opinião, produtos genuínos e de grande qualidade dificilmente se impõem por si só. Todos os países têm produtos genuínos e de grande qualidade. Introduzir os de outra cultura pode ser complicado. Da análise que faço do que vejo, produtos, cozinhas... não vendem por sim só. É preciso mais, é preciso que lhe estejam associados aspectos culturais e estilos de vida atraentes. É isso que acontece com os produtos franceses, italianos, espanhóis, japoneses... É isso que atrai os consumidores. Enquanto não conseguirmos "embrulhar" os nossos produtos com isso, do meu ponto de vista, dificilmente conseguiremos. A questão que se põe é se temos os ditos aspectos culturais e de estilo de vida atraentes. Não sei... primeiro temos nós que os descobrir e valorizar.

Comentar post



PUB


Os autores

Duarte Calvão (perfil)
Miguel Pires (perfil)

Porquê?

Três autores há vários anos ligados à gastronomia e vinhos criaram este espaço para partilhar com todos os interessados os seus pontos de vista sobre o tema (ver "carta de intenções").

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Siga-nos no facebook


Mesa Marcada no Twitter


Confira os premiados e as listas...



Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Pub





Calendário

Junho 2014

D S T Q Q S S
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
2930

Comentários recentes

  • PR

    "Porém, e ao contrário do que muitas vezes se escr...

  • PR

    Tão grande foi o choque da perda da terceira estre...

  • Paulo

    Não se aborreça Miguel. As redes sociais são impla...

  • Paulo

    Não conhecendo os motivos do encerramento, se calh...

  • joana

    sardinhanalfabeto!