Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]





Foto: João Ferraz

 

Teria muito a recomendar de Lima, onde estive há pouco e comi tão bem. Já elogiei nesse post aqui no Mesa Marcada o Central e o Osso, mas fiquei devendo detalhes.... que eventualmente virão, prometo.

 

Também poderia listar para vocês os lugares que mais me impressionaram em Nova York, onde esteve agorinha nosso valoroso Miguel Pires, pulando de mesa em mesa.

 

Que dizer então de São Paulo, minha cidade, onde vivo testando restaurantes? Outas mil dicas para dar.

 

Mas prefiro falar, hoje, de um lugar onde ainda não fui. Quase fui uma vez, quase fui outra vez, levada por amigos que são habitués, mas.... acabou não dando certo.

 

Que erro.

 

O Minato Izakaya é dos lugares mais interessantes a surgirem em cena em São Paulo em muitos anos. Um izakaya – o que significa um bar onde bebe-se saquê e cerveja mas se pode também comer pratos descomplicados e reconfortantes como espetinhos de frango, tofu empanado em caldo, barriga de porco, etc.

 

Antes que vejam jogar pedras – como pode ela elogiar um lugar que não conhece?! – esclareço que quero elogiar o dono mais do que o lugar.

 


O co-proprietário Sergio Kubo no Minato Izakaya.....    Foto: João Ferraz

 

 

Passei uma hora falando com Fábio Koyama pelo telefone e aconteceu o que acontece a cada vez que entrevisto alguém muito, muuuuuito dedicado ao seu ofício: fiquei impressionada, senti-me pequena perto dos grandes sacrifícios que ele fez para chegar aonde chegou.

 

Tive essa sensação ao passar dois dias no indescritível Fäviken, na Suécia, para onde quero voltar assim que a agenda e o orçamento permitirem. Minha longa conversa com o chef-proprietário Magnus Nilsson – jovem, porém mais focado e dedicado e sábio do que a maioria de seus contemporâneos – me fez sentir-me grata por ter a profissão que tenho. Arriscando soar piegas, foi emocionante, muito inspirador.

 

Tenho também essa sensação em certas conversas com os chefs brasileiros Alberto Landgraf (Epice) e Alex Atala (D.O.M.), outros obcecados, no melhor sentido da palavra. Ou Ferran Adrià, o obcecado dos obcecados, com quem posso passar uma madrugada debatendo história da gastronomia (como aconteceu há pouco, em Lima - ele deixou de ser restaurateur mas nem por isso ficou menos intenso).

 

A ver se me explico: para se criar um lugar que se diferencia dos outros, e ser reconhecido por isso, não dá para ser um cara normal. O jornalista que investiga, entrevista, pesquisa, aprende que o chef em questão não chegou ali por acaso. Tem um quê de louco obcecado. Deu o sangue, fez muito nos bastidores e sacrificou muito de seu tempo pessoal para fazer o restaurante ser o que é. E sua cabeça não pára.

 

Às vezes, no meu trabalho, descubro mais um desses. Fábio Koyama, que já passou por inúmeros restaurantes paulistanos, a maioria japoneses, morou cinco anos no Japão para aprender onde mais se aprende. Sem dinheiro, teve que trabalhar meio período em uma fábrica para pagar o aluguel. No outro meio período aprendia mais sobre seu ofício, em restaurantes relativamente simples de Tóquio. Mal sobrava tempo para dormir ou ver sua filha.

 

De volta ao Brasil, investiu o pouco que tinha em um imóvel em quarteirão desprestigiado da rua Pinheiros, perto do perigoso Largo da Batata (assaltos frequentes). Ele mesmo desenhou o lugar, e com o sócio Sergio Kubo fez boa parte do trabalho com suas próprias mãos. Arquiteto ou decorador, nem pensar.

 

 


Do canto esq., em sentido horário: Fábio Koyama, Júlio Raw, Paulo Yoller, Sergio Kubo e Meguru Baba, no Minato. Foto: João Ferraz

 

 

 

 

Abriram em maio. Desde então, ganharam prestigioso prêmio do jornal Estado de São Paulo (Prêmio Paladar) além de muitos outros.

 

O prêmio maior, no entanto, é a casa cheia. E tem estado casa vez mais cheia, a ponto de resolverem abrir uma filial nos Jardins, outro bairro paulistano.

 

A comida não é unanimidade. Tenho dois amigos que acham ótima e um outro amigo, muito exigente e entendido de Japão, que insiste que é muito fraca. Mas francamente, acho que ninguém vai lá querendo uma experiência gourmet, mas sim uma noite muito divertida.

 

Recomendo sem titubear, mas por outro lado... é o tipo do lugar de que falo com medo de estragar....

 

Para ler mais sobre restaurantes japoneses de São Paulo, um post na Folha de São Paulo sobre meus favoritos.

 

 

 

Leia ainda:

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 13:03


8 comentários

Imagem de perfil

De Miguel Pires a 19.03.2014 às 17:44

Óptimo post, Alexandra. Sobretudo como ponto de reflexão. Sempre me interessou o lado intelectual das diversas áreas que me interessei e em que trabalhei. Um discurso elaborado não salva um mau prato, mas explica muito da proposta de quem o faz. Conhecer o pensamento de Niemeyer, Siza Vieira ou Koolhaas, faz-nos gostar muito mais das suas obras.

E o mesmo passa em relação a um Chef, um produtor ou um enólogo, para voltarmos à nossa área. E de facto há pessoas inspiradoras. Ao seu lote, juntava ainda Andoni Aduriz. Depois de um jantar no Mugaritz necessitamos de duas voltas na praia da Concha para desmoer tudo o que está no prato e por detrás deles. Se ao jantar acrescentarmos depois uma hora de conversa com Andoni, então necessitamos de 10 voltas nessa praia até virarmos pérola, tal é a informação que temos para processar (poderia dizer o mesmo de Redzepi, não fosse o seu tom de voz meio 'evil', tipo filme 'dogma' dinamarquês).
E nem é necessário ser um brilhante comunicador para transmitir um pensamento. Esse ponto não é o forte de chefs como o Joan Roca, o Eneko Atxa, ou o Nuno Mendes (que muito estimo), mas basta olhar para eles, sobretudo para o Eneko e o Nuno, para perceber que a sua paixão é contagiante.
Dentro destes dois estilos, cá em Portugal, acrescentaria o José Avillez no primeiro grupo e o Vitor Claro e o Tomoaki Kanazawa (Tomo) no segundo. Até pode ser um lugar comum, por ambos serem japoneses (de descendência ou nascimento) mas, pela sua descrição, encontro pontos em comum entre o "seu" Fábio e o "nosso" Tomo.

Xiii, este comentário já vai longo e, confesso, foi escrito sob alguma influência de um belíssimo Madeira Terrantez 1976. Saravá!
Imagem de perfil

De Alexandra Forbes a 19.03.2014 às 18:02

Miguel, pensamos o mesmo. O discurso do chef, o jeito do chef acaba influenciando nossa impresão de um prato. Não deveria, mas influencia. Geralmente, os restaurantes que me movem são tocados por chefs carismáticos que se dedicam de corpo e alma ao que fazem. Citei poucos, no post, mas outros que transformam - para melhor - a experiência em um restaurante pela paixão com que falam de suas ideias são Albert Adrià e, sim, René Redzepi. E não acho que tenha tom de voz "evil", pelo contrário! :)
Eu deixo ao Michelin a tarefa de tentar ser 100% objetivo. À mesa, como em tudo, sou humana, e um prato de um chef que admiro imensamente, um louco apaixonado, será provado através de um filtro cor-de-rosa, assim como o oposto também é verdade.
Saúde, sorte a sua com seu Madeira, eu só no chá em preparação para a maratona gastronômica que se inicia no sábado. bjo
Sem imagem de perfil

De Rodrigo a 19.03.2014 às 22:20

Caros,

concordo em muito do que foi escrito nesta matéria e também acho que a comida do Minato Izakaya é muito saborosa.
Acho que é dos poucos lugares em São Paulo em que realmente há um clima de izakaya típico de Tóquio.
Esse clima se dá, claro, pelos divertidos Fabinho e Jorge e sua comida com alma, porém, a arquitetura do lugar também tem papel fundamental.
É aí que me chateia ler que o chefe diz nem ter pensado em arquiteto. Eu sei que um escritório de arquitetura foi contratado, assim como vi o projeto muito antes de ser executado e sei que foi executado quase que igualmente como ao planejado.
O que não foi planejado foi o calote que os arquitetos tiveram e também a falta de consideração por parte dos sócios.

Eu acho que um estabelecimento pode sobreviver com boa comida, mas um excelente estabelecimento acontece somente quando o profissionalismo encontra a ética.
Imagem de perfil

De Alexandra Forbes a 21.03.2014 às 17:45

Caro, eu procuro nunca dizer aquilo que não chequei. A informação veio da boca do Fabinho. Entrevistei-o para uma reportagem que será publicada no Brasil. Se o que ele diz é verdade ou mentira, não sei, mas acho que, como jornalista, devo acreditar no que diz um entrevistado até que me provem o contrário. Certamente, a acusação é tão seria e pesada que os próprios sócios se manifestarão e darão alguma explicação. Por outro lado, acho que o mínimo seria não deixar um comentário desses anonimamente. Identifique-se, se tiver coragem. Abs, Alexandra
Sem imagem de perfil

De Rodrigo Ohtake a 21.03.2014 às 17:56

Meu nome é Rodrigo Ohtake. Sou arquiteto. Não sou o autor do projeto, que é de autoria de amigos meus, que são tão talentosos quanto os sócios Fábio e Sergio, e conseguiram conceber magistralmente o clima íntimo e descontraído de um izakaya.
Imagem de perfil

De Alexandra Forbes a 21.03.2014 às 23:46

Oi Rodrigo, se não é arquiteto, tem parente arquiteto. :)
Brincadeiras à parte, sinto ouvir essa história. Não irei investigar, mas espero que os sócios se pronunciem. E agradeço ter se identificado, a conversa fica muito mais transparente. Abs, Alexandra
Sem imagem de perfil

De fabio koyama a 21.03.2014 às 23:11

Caro Rodrigo , todos que acompanharam a obra amigos familiares , cozinheiros enfim sabem que fizemos a casa sozinhos com muito esforço dedicação e sem verba devido a ilusão de valores que foi passada pelos seus amigos. Devido sermos completamente leigos fomos perguntar qual seria o valor do meu projeto , foi passado um valor depois já era outro e depois outro , então resolvemos encarar desesperadamente esse sonho . Saiba que minha mãe é madrinha de casamento dos pais de um desses meninos , assim como se você perguntar pro seu pai de Irineu Koyama desde a época do seu Fabio ex ministro que foi padrinho de casamento dos meus , saberá o quanto somos sérios e não comentamos ou fazemos algo se ter o total certeza dos 2 lados . Agora chamar de caloteiro um pai de família é muito pesado companheiro, e isso se fala na cara com provas concretas . Sabe onde estou todos os dias e estarei sempre metendo a cara a tapa e não de outra forma para esclarecer qualquer revolta sua. Atencisamente Fabio Koyama
Sem imagem de perfil

De fabio koyama a 22.03.2014 às 00:17

Caro Rodrigo , sua atitude muito me assusta tendo em vista que não acompanhou nenhuma das poucas conversas que tive com seus amigos ou seja vc não estava presente. Quando conversei com eles sobre MEU PROJETO , perguntei quanto ficaria já que meus pais são padrinhos de casamento dos pais deles , foi me passado um valor depois outro depois outro , enfim meu sonho começava ir por água abaixo
Porém não desisti pela falta de verba e arrisquei .
Amigos, parentes, cozinheiros em geral acompanharam a obra até sua finalização e são testemunhas do mesmo. Foi uma luta intensa e sozinha com meu sócio assim como seu pai conhece o meu (Irineu Koyama) e sabe do caráter da minha família até os dias de hj desde a época do Tio Fabio ex ministro foi padrinho de casamento dos meus pais . Procure saber mais antes de falar em calote , tenho família filha e ficaria muito chateado se uma mentira dessa chegasse aos seus ouvidos. Sei que a arquitetura tem seu valor como está valorizando eu agradeço mas quem fomenta o sucesso contínuo e a luta árdua de qualquer negócio e a dedicação diária e não abrimos ontem .Gostaria muito se possível que viesse ao Minato e falasse na minha cara que não pagamos algum servido prestado . Sei que é homem e maduro o suficiente para terminar o que começou.Atenciosamente FABIO KOYAMA

Comentar post



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

PUB


Os autores

Duarte Calvão (perfil)
Miguel Pires (perfil)

Porquê?

Três autores há vários anos ligados à gastronomia e vinhos criaram este espaço para partilhar com todos os interessados os seus pontos de vista sobre o tema (ver "carta de intenções").

Siga-nos no facebook


Mesa Marcada no Twitter


Confira os premiados e as listas...



Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Pub





Calendário

Março 2014

D S T Q Q S S
1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
3031

Comentários recentes

  • Miguel Pires

    Oops, já corrigido. Agradeço o reparo.

  • Martinho Cruz

    Tudo bem. Vega “Cecília” é que me ultrapassa.....

  • Anónimo

    Esta é uma boa notícia para esta altura do Natal.....

  • Duarte Calvão

    Acho, João Faria, que coloca a questão nos termos ...

  • João Faria

    É verdade que, infelizmente, a mudança ocorrida na...