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Alguém escreveu esta semana que o passado Sábado tinha sido um dia terrível para todos os Sportinguistas e Portistas ateus que não gostam de música. Agora imaginem um Benfiquista ferrenho enfiado numa sala a provar vinhos e a roer-se a cada notificação de golo que surgia no ecrã do telemóvel.

 

 

Porém, o momento justificava-se. Tratava-se de uma prova especial da garrafeira do Esporão seguido de um jantar preparado por Pedro Pena Bastos, responsável pelo restaurante da herdade e Chefe Revelação do Ano nos últimos prémios do Mesa Marcada.

 

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A origem da Herdade do Esporão remete para tempos bem lá atrás, como é visível em todas as garrafas, onde aparece o logótipo com a torre  (na foto), que se vê à entrada da propriedade, e a referência 1267. Porém, enquanto vinícola e nas mãos dos actuais proprietários, a família Roquette, conta “apenas” com pouco mais de quatro décadas, um período que teve fases distintas: da nacionalização, pouco tempo depois do inicio da actividade, até ao mais recente virar de página, com a conversão total para agricultura biológica.  

 

Esta prova para a qual tinha sido convidado mostrava-se bastante interessante (e didáctica) porque permitia ver a evolução dos vinhos e da marca ao longo do tempo. Da fase inicial - a do sonho de Joaquim Bandeira em transpor para o Alentejo a ideia de um Chateau francês e em fazer vinhos como os do Vale do Reno, de que era adepto, aos ventos do novo mundo, com a chegada do australiano David Baverstock (actual director de enologia da casa), já para não falar das tendências que se foram impondo consoante as épocas.

 

(Nota: Bandeira fundou a empresa com José Roquette, mas viria a vender-lhe a sua participação, nos anos de 1990)

 

O evento, aberto ao público, com um número de lugares restrito, começou a realizar-se no ano passado e tem o atractivo de mostrar, então, a evolução dessas colheitas mais antigas, servindo ainda (em jeito de bónus) para revelar algumas das novidades, como um branco da talha de 2016, feito segundo o método ancestral na região, ou o topo de gama Torre do Esporão 2011. Como se não fosse suficiente havia ainda o desafio de saber como se daria a cozinha de Pena Bastos no meio de tudo isto.

 

Os vinhos velhos ainda são uma área de nicho mas contam cada vez com mais adeptos, como prova a expansão de lojas como a Estado de Alma, especializada no assunto. Sou cada vez mais partidário do género e tenho encontrado, nesta e em outras lojas, grandes preciosidades e a preços muito agradáveis, sobretudo da Bairrada, uma região conhecida pela longevidade dos seus vinhos. Contudo, em relação ao Alentejo, o panorama é diferente, dado haver uma ideia feita de que os vinhos desta região não envelhecem bem devido ao clima quente e a uma alegada falta de tradição.

 

Como em tudo, as generalizações são sempre perigosas. Até, porque a região apresenta micro-climas diferentes - dos vinhos “de altitude” de Portalegre, com maior frescura, aos mais concentrados, provenientes das zonas quentes de planície. Por outro lado, há ainda a evolução da enologia que, para o bem e para o mal, contribuíram para que algumas colheitas mais antigas mereçam ser apreciadas (nem que seja para se ficar a saber, com o olhar de hoje, o que não se devia ter feito).

 

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Foram 10 os vinhos em prova, 5 brancos e 5 tintos, apresentados pela enóloga de brancos da casa Sandra Alves. Todos eram de gama média-alta e alta e todos eles com a sua história. Por exemplo, o Reserva Branco 87, bem como o tinto, foram os primeiros a serem vinificados nas instalações - a herdade foi recuperada pelos proprietários, em 1982, após a nacionalização, porém, os vinhos, continuaram a ser feitos, até então, na cooperativa local, a actual CARMIM). Sobre o Reserva Branco 94 (de apenas 12°) ficámos a saber que foi um dos primeiros a estagiar parcialmente em carvalho americano, o que o aproxima mais do perfil actual, e que o concentrado e denso Private selection 2005 - um ano extremamente seco – foi dos primeiros a utilizar a casta estrangeira semillon, introduzida na herdade, em 1996.

 

Entre os tintos destacou-se o Reserva 1997, elegante, com notas de tabaco, couro e ainda alguma fruta, que evidenciou o bom ano de colheita e deu, por isso, uma prova muito boa. Houve ainda o Quatro Castas 1997, nascido de um erro do adegueiro da casa, que guardou quatro lotes diferentes em conjunto quando era suposto tê-lo feito em separado - algo que viria a mostrar as suas virtudes, dando origem uma nova marca. De 2007, quando o Esporão deixou de fazer o 4 castas para produzir apenas aquela que era a melhor, tivemos um Touriga Nacional, o TN, que provou que a casta se adapta muito bem à região.

 

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Depois da prova, passámos à sala ao lado, onde foi servido o jantar. E aqui entrou a mestria do chefe da casa. Pedro Pena Bastos tem vindo a fazer algo que nem sempre é fácil: dar azo à criatividade de uma forma sustentada e enquadrá-la com os vinhos da casa. Todavia, neste caso, o desafio era ainda maior: teria de trabalhar ainda mais especificamente para um conjunto de vinhos que que pela personalidade e evolução, fogem à norma. O resultado?

 

Bom, posso dizer que o jovem chefe do Porto, radicado no Alentejo, passou no teste com distinção: não só criou um conjunto de pratos interessantes, sempre com um twist diferente a cada garfada, como pensou na harmonização com os vinhos com sensibilidade e nível de detalhe que merece destaque. Vejam-se os exemplos abaixo:

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O Talha Branco 2016 (ainda não está disponível), elaborado com as castas rabo de ovelha e manteúdo, mostrava aromas diferentes e uma certa a exuberância, características comuns do tipo de vinificação e da falta de tempo em garrafa. Porém, Pena Bastos “amparou-o” com os seus snacks, mostrando a versatilidade do vinho que tanto pode ir bem com uma pança de porco curada (toucinho), como com lingueirão, topinambo, cabeça de xara ou um camarão do rio com molho das cabeças bem puxado. 

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Outro exemplo foi o a proposta criada para o Reserva Branco 94: ostras, couves e vinagrete de algas. O lado vegetal equilibrou o sabor marinho da ostra e ao domá-la fez com que as notas melosas deste branco velho integrassem muito bem o conjunto.

 

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Outro caso que destaco foi como Bastos lidou com a sobremesa que concebeu para acompanhar o Esporão Reserva 1987. Primeiro reduziu a doçura do gelado de flor de capuchinha, juntou-lhe um toque vegetal (molho/calda de azeitona), fruta com acidez (nêsperas) e, por último, um lado floral, vindo das mini-folhas de capuchinhas e das flores de sabugueiro, que remetia para as notas licorosas daquele branco com 30 anos. Se fosse um filme chamar-lhe-ia, Sensibilidade e Bom Senso.

 

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Tudo isto, como já referi, passou-se na tarde do #36 (que ainda por cima dizem ter sido o melhor jogo que o Benfica fez esta época) e que se prolongou pelo serão histórico de São Salvador da Eurovisão. Se me arrependo? nem um pouco! Para o ano há mais. E com o vídeo-árbitro, o penta chegará mais cedo.

 

Fotos: Miguel Pires (excepto foto da torre e de PEdro Pena Bastos com a equipa, que foram retiradas do site do Esporão)

 

 

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publicado às 16:37


2 comentários

Sem imagem de perfil

De Francisco Silveira a 20.05.2017 às 09:57

Um "crítico" devia de ser imparcial. Afinal há preferências, favoritos e borlas. É preciso denunciar casos destes.
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De Miguel Pires a 20.05.2017 às 10:54

Isso, força, denuncie. Até porque nem escrevo claramente no quarto parágrafo que fui convidado. Enfim...

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