Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




BairrodoAvillezJoseAvillez40.jpg

Abriu ontem oficialmente um dos projectos mais esperados do momento, o Bairro do Avillez, em Lisboa. Digo oficialmente porque já há uns dias que o mega espaço de José Avillez abriu discretamente ao público depois de semanas de testes com convidados - entre eles a imprensa.

 

 

Era suposto ser um soft opening, ou seja, uma abertura sem divulgação para não causar enchentes num período ainda considerado de afinação. Porém, pelo que vi ontem, de soft não houve nada, pelo menos à noite, quando o espaço esteve a abarrotar, com direito, inclusive, às primeiras filas de espera.

 

Mas comecemos pelo projecto. O Bairro do Avillez é o 7º projecto de restauração do conhecido chefe português e de longe o mais ambicioso em termos de dimensão. O espaço ocupa parte de um antigo edifício do Convento da Trindade e está dividido em duas áreas principais: de um lado temos a Taberna, a Charcutaria (numa parceria com a Manteigaria Silva) e a Mercearia (com gourmandises e merchandising) e do outro o Páteo, que além do piso térreo tem um primeiro andar que terá uma vertente para pequenos grupos. Desse lado há ainda uma outra área mais pequena, que será mais tarde um espaço de cozinha de autor com um posicionamento entre o Minibar e o Belcanto.

 

Até agora tem-se falado sobretudo da transformação do lugar, sob orientação de Avillez, num bairro lisboeta contemporâneo com memória, onde se destaca a arquitectura desenvolvida pelo atelier Anahory Almeida, as intervenções artísticas de Joana Astolfi e Caulino Ceramics, e o painel de azulejos da fábrica Viúva Lamego. Porém, e o que se come por lá?

 

BairrodoAvillezManteigariaSilva10.jpg

José Avillez com os seus parceiros da Manteigaria Silva 

BairrodoAvillezTaberna10.jpg

Vista geral da Taberna, com a cozinha e o painel da fábrica Viúva Lamego ao fundo 

 

A experiência à mesa

 

BairrodoAvillezTaberna30.jpg

A cozinha principal do Bairro do Avillez 

BairrodoAvillezPateo20.jpg

 O Páteo, visto do andar de cima

Attachment-1-2.jpegAlgumas das propostas da carta do Páteo

 

O Bairro do Avillez dispõe de cerca de 300 lugares, e aqui trabalham 78 empregados, entre sala, cozinha e pontos de venda. No Páteo, onde é possível reservar mesa, o menu varia entre a vertente de cervejaria/marisqueira – com mariscos, bifes –, carta de saladas e peixes. As confecção pareceram-me mais ou menos clássicas com um twist de autor aqui e ali (não servem peixes inteiros, por exemplo).

 

Já a Taberna (por onde se entra), funciona por ordem de chegada, ou seja: sem marcação. Deste lado, reinam os petiscos e doses pequenas, que convidam à partilha - há que pedir várias, porque como é hábito com Avillez, as suas doses nunca são fartas. Foi deste lado que tive oportunidade de experimentar uma boa parte das propostas da duas vezes em que lá estive. A primeira, há duas semanas, a convite e, ontem, como um cliente normal. Houve algumas diferenças na experiência, como é natural. Ontem, fui com mais 6 pessoas e a casa estava cheia. Já na primeira vez, éramos apenas dois e o ambiente estava bem mais calmo. Ainda assim, ontem, tirando um ou outro desacerto “a máquina” respondeu muito bem à enchente – o que não surpreende, sobretudo, para quem conhece a gestão e organização de outros cantinhos.

 

Como acontece nos restaurantes de Avillez, todos as propostas foram criadas especialmente para este lugar e a sua marca na Taberna reconhece-se em cada prato. Abundam as novidades, ainda que existam variações já conhecidas de receitas de outros dos seus espaços. Entre as primeiras alguma constituem  uma visão particular de tendências actuais (de cá ou lá de fora), outras, de petiscos lisboetas e portugueses, e outras ainda, uma mistura dos dois.

 

Achei muito bem conseguidas criações como o ceviche de tremoços (em dose mini), a saladinha de "orelha de morcego" (uma recriação da salada de orelha de porco com as populares algas chinesas a fazer a vez da cartilagem do suíno) e a “alfacinha de bacalhau”, uma espécie de hot dog do fiel amigo (versão nuggets do Minibar) com alface crocante em vez de pão.

 

Gostei muito, ainda, das pipocas de coiratos picantes (que serão do agrado mesmo de quem não gosta de coiratos, nem de pipocas), da sanduíche de leitão em bolo do caco com pickles de algas e salicórnia e dos pezinhos de porco de coentrada e hortelã.

 

Bom, também, o vitelão em duas cozeduras com creme de batata e mostarda e o polvo (tipo à galega) com alho e molho de kimchi, as plumas de porco alentejano (com farofa) e os espargos e cogumelos na brasa com beringela fumada.

 

Dos acompanhamentos, além das batatas fritas, achei piada (sem serem fantásticos) aos milhos fritos com queijo de São Jorge. Já a salada de coração de alface grelhada com pêra e vinagreta estava um pouco desenxabida. Também esperava mais do “efeito Josper”, ainda que na verdade, a moda destes fornos a carvão leva a que por vezes se cometam excessos no fumado. Porém, neste caso, quase nem dei pela sua existência.

 

Attachment-1.jpegOs talheres e alguns dos petiscos da Taberna: ceviche de tremoços, pipocas de coiratos e cornetto de carapau picante (foto: Miguel Pires)

 

FullSizeRender-5.jpgpezinhos de porco de coentrada (foto: Miguel Pires)

 

FullSizeRender-4.jpg saladinha de "orelha de morcego" já meio comida (foto: Miguel Pires)

FullSizeRender-3.jpgsanduíche de leitão com pickles e salicórnia em bolo do caco (foto: Miguel Pires)

FullSizeRender-2.jpg

alfacinha de bacalhau crocante (foto: Miguel Pires)

TabernaPolvoalhokimchi0.jpg

polvo (tipo à galega) com alho e molho de kimchi

  FullSizeRender-6.jpg

pastel de nata com bica de gelado de café (foto: Miguel Pires)

 

Na parte doceira, que em geral sempre considerei uns furos abaixo da vertente salgada de Avillez, achei feliz o óptimo pastel de nata servido com uma bica de gelado de café e elegante o pudim de azeite e mel (ideal para quem quer um doce tradicional português sem ser excessivamente doce). Já o salame de chocolate, o sorvete de amarguinha e o caramelo salgado (uma variação do conhecido avelã ao cubo - um best seller do Cantinho) cumprem, mas não deslumbram.

 

Em relação às bebidas, confesso que não prestei atenção a este capítulo. Quando cheguei já alguém na mesa bebia um JA Rosé - da linha de vinhos agradáveis e frescos que a Quinta do Monte d’Oiro produz para a casa – e eu acabei por optar pela Czech Golden Lagger e Bengal Amber IPA, as duas cervejas especiais da Super Bock, com quem fizemos recentemente uma acção (como devem estar recordados) e que aqui estão disponíveis à pressão.

 IMG_0299.JPG

A intervenção da Caulino Ceramics no tecto da Taberna (foto: Miguel Pires)

 

Em suma, o Bairro do Avillez tem todos os argumentos para ser um sucesso. Resta saber que repercussão terá na concorrência. Nos primeiros meses, creio que os outros estabelecimentos da Rua da Trindade sairão beneficiados, pois serão uma alternativa a quem não quiser ficar na fila. Já uma centena de metros abaixo, o Palácio do Chiado poderá ser um dos afectados (muito mais do que o Mercado da Ribeira), tal como os restaurantes do próprio Avillez, (sobretudo o Café Lisboa, a pizzaria e o Cantinho). Porém, como dizem os especialistas de marketing, mais vale canibalizar-se do que ser engolido pelos outros. O mais provável, é que, posteriormente, os fluxos voltem ao normal. Até porque o período de alta no turismo em Lisboa, parece estar para ficar.

 

Contactos: Rua Nova da Trindade, 18 (Chiado), Lisboa. Telefone: 21 583 0290. Horário: diariamente das 12h às 00h; Preço Médio: 30€ (Taberna - não aceitam reservas), 40€ (Páteo - aceitam reservas)

 

Fotos: Paulo Barata (excepto as assinaladas)

 

Leia ainda:

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:09


19 comentários

Sem imagem de perfil

De Anónimo a 19.08.2016 às 19:51

Como o blog comenta, notícia do Sapo de hoje, a respeito de que o "O chefe do melhor restaurante do mundo está no Rio a servir comida aos sem abrigo". Ou prefere não se manifestar a respeito de assuntos mundanos. Acham que esse pessoal de periferia tem chance no Bairro do Avilez?? Ou os ilustres jornalistas não estão preocupados com o assunto. São imunes as desigualdades?
Imagem de perfil

De Miguel Pires a 19.08.2016 às 20:27

Lamento mas não respondo a anónimos sobre um assunto que ainda por cima não tem nada a ver com o tema deste post.

Sem imagem de perfil

De Anónimo a 20.08.2016 às 01:35

Concordo que não responda a anónimo. Porém, dizer que nada tem a ver com o post é miopia. Enquanto o maior chefe se preocupa com os sem abrigo o chefe português investe no luxo, o Bairro do Avilez. É apenas um registo. O chefe italiano é um excêntrico!
Sem imagem de perfil

De Artur Hermenegildo a 22.08.2016 às 11:30

Sinceramente, acho que devia ser política do blogue nem sequer publicar comentários anónimos.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 19.08.2016 às 21:10

Outro "Déjà vu" de José Avillez ...
Sem imagem de perfil

De Cozinheiro a 23.08.2016 às 14:26

Uma coisa é certa, é o melhor Português de sempre a replicar conceitos. :)
Sem imagem de perfil

De Ze Pedro a 24.08.2016 às 13:32

É Impressionante... São cópias atrás de cópias...
Sem imagem de perfil

De Carlos Alexandre a 24.08.2016 às 14:52

Também temos muitos artistas plásticos que encontraram receitas-carimbos.
Sem imagem de perfil

De José Tomaz de Mello Breyner a 20.08.2016 às 13:33

Meu Caro Miguel

Muito obrigado pela excelente reportagem, escreves tão bem que me fizeste sentir lá no local. Imagino que seja fantástico pois com as tuas descrições fiquei também cheio de fome. Miguel, apenas uma pequena correcção, o JOSPER é um forno a carvão e não a lenha.

Aceita um abraço amigo do

Zé Tomaz
Imagem de perfil

De Miguel Pires a 20.08.2016 às 20:37

José Tomáz, obrigado pelo reparo. Referência já corrigida
Sem imagem de perfil

De Carlos Alexandre a 22.08.2016 às 20:04

Fui ao espaço que classificam de taberna.
Não gostei.
Comida simplória, básica, sem qualquer sabor relevante. Confeção ao nível de principiantes. Nada de criativo ou com fator de distinção, mesmo por menor que fosse a espetativa.
A única coisa que não foi má foram os croquetes, embora no país aqui ao lado façam melhores, o dobro deles, ao mesmo preço.

Todas as doses são muito reduzidas em relação ao que se paga.

Serviço, e timing de depósito na mesa, que nem merecem comentário, de tão maus.

A máquina e marca JA acertaram em cheio.
Deslumbrados do nome, da marca e da imagem; donas de casa desesperadas; turistas; curiosos com o Belcanto fora do alcance- todos estarão incluídos no pacote que enche a casa.
E também tenho de incluir o tolinho, que fui eu, ao querer experimentar. Podia ter-me poupado a uma desilusão (tendo à partida colocado a fasquia muito baixo) e a dinheiro deitado fora. E a tempo perdido.
Sem imagem de perfil

De teixeira a 23.08.2016 às 13:19

Passar o mês de agosto em Lisboa nunca está nos meus planos. Por isto, já estamos a fechar as malas para retornar na primeira semana de setembro. Fui salvo duplamente. Primeiramente, pelo Artur Hermenegildo de ir ao Gambrinus, desacompanhado de clientes habituais. Agora, pelo sempre atento Carlos Alexandre, da Taberna. Como ao restaurante de peixe não iria mesmo, vou só conhecer e não comer no Bairro do Avillez. Economizei uns bons Euros por conta dos dois comentários articulados. Agradeço a ambos.
Sem imagem de perfil

De Carlos Alexandre a 24.08.2016 às 11:52

Teixeira.
Muito me sinto lisonjeado pela relevância que deu à minha opinião sobre o Bairro do Avillez.

Mas a minha intenção é sempre escrever sobre o que sinto.
Não se trata de querer influenciar outras pessoas, sugerindo que uma má experiência para mim também o seja para outra pessoa.

Uma opinião é apenas uma opinião.
Muito refletida, mas vale o que vale.

Bom regresso.
Imagem de perfil

De Paulina Mata a 24.08.2016 às 01:16

Carlos, eu também lá fui. Passei lá há dias, só para ver. Soube que na véspera tinham ido lá comer 600 pessoas. No dia em que fui disseram-me que estava perto disso também.

Um restaurante que nos primeiros dias consegue lidar com estes números, é fantástico! E não se pode esperar o melhor serviço. Porque as coisas não estão afinadas, porque são equipas novas e ainda não completas...

Também fui à Taberna. É um espaço bonito. É de facto uma comida simples, mas o prego estava fantástico. O melhor que comi. O gaspacho de cerejas delicioso. O ceviche de tremoços divertido e resulta muito bem (podia ser um pouco maior, e algumas das outras doses também, nisso concordo). Já tinha visto o menu, sabia ao que ia e qual era o conceito do restaurante. E gostei.

Podia ser mais criativo, elaborado...? Podia. Se calhar não quando de repente se têm que servir 600 pessoas por dia. Estamos no princípio...

Acho que nestas coisas é preciso dar tempo, é preciso analisar no contexto em que as coisas estão a funcionar.

No contexto actual, acho difícil conseguir fazer melhor.

Sem imagem de perfil

De Carlos Alexandre a 24.08.2016 às 11:31

Fui a segunda mesa a sentar na taberna e só meia hora depois esta encheu.
Quero lá saber se sabem lidar com 600 pessoas, se não sabem lidar com a minha mesa. Pago o mesmo.
Paguei o que tinha de pagar, ninguém me fez um desconto pela má refeição.
Tenho de me preocupar comigo e meu bem estar e não com os problemas do estabelecimento.
Comi batata frita tépida-fria, bifana de atum com tempero irrelevante e muito pequena
(para comer o que comi, não é preciso sair de casa), migas insípidas. Outras coisas- banais.

Paulina, há que não perder a noção da realidade.
Paga-se aqui por uma refeição de petiscos "gadget" sem graça, mais que o que se paga numa ótima refeição de comida
a sério- matéria prima e confeção -na maioria dos restaurantes de Portugal.
Por isso, quanto à condescendência que a imprensa e blogs manifestam em relação a este projeto em concreto,
para mim é tolerância zero.
Esta condescendência manifesta-se nos casos em que um indivíduo não encontra nenhum fator favorável relevante,
e contenta-se com algum fator favorável irrelevante. Como nos saldos, em que o menor dos fatores positivos
é motivo para a compra de um bem escusado. Perspetiva otimista.

Quem bate palminhas porque o cozinheiro faz um ou outro petisco interessante, sendo todo o resto pobre,
muito pobre, está a perder a noção do valor do mérito. E também do dinheiro.

Mas estas palavras refletem apenas uma opinião que fiz questão de dar.
E tudo isto não me impede de desejar a melhor das sortes para este projeto.
Faça este restaurante muito dinheirinho e pague muitos impostos, que a economia bem precisa!

E termino com Nietzsche- "Por vezes as pessoas não querem ouvir a verdade, porque não desejam que as suas ilusões sejam destruídas."
Sem imagem de perfil

De teixeira a 24.08.2016 às 16:32

Carlos Alexandre, quem me dera endossar os teus aguerridos, e sólidos, comentários com a citação de um filósofo de nomeada. Mas, a mais doce criatura que conheci até hoje foi a minha avó. Ela, era sábia e apregoava: " quem não tem competência, não se estabeleça. De minha parte, só lembraria que o corporativismo, da Idade Média, vive entre nós, sólido!
Imagem de perfil

De Paulina Mata a 24.08.2016 às 16:32

É sempre bom ler os seus comentários. Também o compreendo. Embora a minha opinião seja um pouco diferente.

E sim, também acho um pouco caro para o tamanho das doses.
Sem imagem de perfil

De Carlos Alexandre a 24.08.2016 às 18:26

A divergência de opiniões tempera as nossas vidas, e bons momentos podem advir das suas exposições.

Só espero que o entusiasmo, que extravasa nos momentos mais emotivos do ato da minha escrita, não se confunda com alguma outra intenção que não seja a que vem objetivamente explanada no texto.
Sem imagem de perfil

De Leunsm a 18.09.2016 às 13:59

Por ser quem é, Senhor Carlos Avillez, tem uma publicidade que os outros não conseguem.
Quanto ao Bairro é uma desilusão. Há tascas que o superam em qualidade e a preços adquados ao bolso dos portugueses.
Ou muda ou não dura muito.

Comentar post



Pub


Siga-nos no facebook


Mesa Marcada no Twitter


Os autores

Duarte Calvão (perfil)
Miguel Pires (perfil)

Porquê?

Três autores há vários anos ligados à gastronomia e vinhos criaram este espaço para partilhar com todos os interessados os seus pontos de vista sobre o tema (ver "carta de intenções").

Pub




Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Comentários recentes

  • Artur Hermenegildo

    Estive no Mesa de Lemos na 4ª feira passada, grand...

  • Adriano

    #offtopicEntão é um artigo, sobre a notícia que es...

  • Duartecalf

    Excelente notícia o regresso de Vincent Farges a P...

  • Anónimo

    Em fez de "amuse bouche", porque nao "entretem de ...

  • João Faria

    Quando o anúncio do guia chegar a Portugal - e acr...





Calendário

Agosto 2016

D S T Q Q S S
123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
28293031