Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Captura de ecrã 2015-01-14, às 15.00.39.png

O finedininglovers.com, o óptimo site de gastronomia de repercussão mundial (ligado à San Pelegrino), publica hoje um artigo sobre o Sangue na Guelra e o trabalho que os seus mentores (nossos amigos e parceiros) Ana Músico e Paulo Barata têm feito em prol dos novos valores da cozinha contemporânea portuguesa (e não só). 

 

O trabalho assinado pela jornalista Giorgia Cannarella começa por referir o facto de, em Portugal, apenas 7 dos 14 chefes com estrelas Michelin serem portugueses. "Exactamente metade. Uma das muitas contradições deste país: por um lado, óptimos produtos (e vinhos), por outro lado os melhores restaurantes estão sobre a orientação de chefes estrangeiros, enquanto os talentos locais se vão".

 

É interessante ver esta perspectiva de fora, ainda para mais vindo de alguém de um país muito fechado e dado a conflitos no que toca às suas tradições - curiosamente a autora ignora a cozinha tradicional portuguesa, mas creio que seja para não fugir ao foco do tema que quer abordar.

 

O que Cannarella refere nesta frase é um facto que continua a ter uma expressão muito superior ao que acontece em outros países com gastronomias fortes (quer no campo tradicional, quer no lado contemporâneo), como França, Itália ou Espanha. Contudo, podia ter referido que por cá as coisas têm vindo a alterar-se, como se viu nas últimas duas edições do Guia Michelin - sobretudo nesta última que acaba de colocar o Belcanto ao nível do Vila Joya e do Ocean (ou até mesmo do Mugaritz ou do Noma, que também "só" têm 2 estrelas Michelin) ou até mesmo na repercussão de acções como o Sangue na Guelra - que directa ou indirectamente, terá tido influência na escolha e vinda para o nosso país de um chefe como o ex-Noma Leonardo Pereira - que se tiver algum músculo financeiro a sustentar irá dar muito que falar no Hotel Areias do Seixo.

 

Por outro lado, é importante não entrar em preconceitos contra os estrangeiros - e a Ana e o Paulo têm o cuidado, no artigo, de mencionar a importância do seu trabalho no nosso país. Até porque a actual tendência tem muito a ver com o que certos chefes emergentes estão a fazer actualmente em países para onde foram trabalhar. Este cenário é evidente em Paris (uma boa parte do movimento bistronomic é dominado por jovens estrangeiros) e em Londres (veja-se o caso de Nuno Mendes ou do próprio Leandro Carreira, mencionado no artigo), mas também em Milão, ou Madrid (em Espanha, uma boa parte dos sub-chefes dos melhores restaurantes são latino-americanos). 

 

Tradição vs. Contemporâneo; Novas cozinhas vs. "velhas" cozinhas; Ocidente vs. Oriente - Terá mesmo de ser assim?! 

 

Já agora uma última nota que gostava de deixar, a propósito deste artigo ou de posições que tenho lido de outros intervenientes no nosso meio (nomeadamente na famosa entrevista de José Quitério, este sábado, ao Expresso): pode-se gostar mais de um tipo de cozinha do que de outra; pode-se preferir o leitão da Bairrada na  Mealhada, em vez da sua revisitação no Belcanto. Agora, por favor (e esta é a minha posição), uma coisa não impede a outra, nem tem de estar contra ela, quando o trabalho é feito com seriedade. Não compreendo que pessoas cultas e informadas digam que os japoneses não têm cozinha (como faz J. Quitério na entrevista), ou que a nova cozinha nórdica não existe, porque foi fabricada à base de subsídios estatais quando não passa de uma mera derivação dos princípios da nouvelle cuisine (como refere Fortunato da Câmara na incompreensível e arrasadora critica ao Leopold - num dos seus últimos textos na Fugas). Só posso crer que deva ser para marcarem uma posição, porque não acredito que não percebam mesmo nada do assunto. 

 

Posts Relacionados: 

 

Sangue Guelra 2014 : a guelra bombeou e o Sangue cresceu

Jantar Origens com Leonardo Pereira: entre o Noma e o mar de Santa Cruz

San Sebastian Gastronomika: a tradição já não é o que era. Ou é?

Desabafos...

 

Leia ainda:

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:45


3 comentários

Sem imagem de perfil

De Pedro Cruz Gomes a 15.01.2015 às 01:02

Boa, Miguel, gostei de ler, especialmente o último parágrafo, com o qual, obviamente, concordo.
Sem imagem de perfil

De João Faria a 15.01.2015 às 13:56

Por esta altura vivem-se tempos conturbados, parece que a própria gastronomia vive uma crise de liberdade de expressão. Felizmente creio que é apenas uma minoria (dentro da comunidade) que se recusa a aceitar certas mudanças de paradigma, correntes alternativas ao instituído. Parece-me que é apenas disso que se trata, pelo menos não vislumbro outra justificação.

Não tinha ainda lido a crítica ao Leopold e fiquei estarrecido, que injustiça! Esse restaurante foi, para mim, a surpresa de 2014!
Sem imagem de perfil

De LA a 19.01.2015 às 13:16

Miguel, convém ser preciso nas referências.

Independentemente de concordar com uns ou com outros, é preciso ser justo, em particular quando se mencionam citações ou reportam afirmações explícitas.

Deduzo que te sentiste atacado pelo ataque aos foodies? É uma pergunta.

O Quitério não diz que "os japoneses não têm cozinha" em lado nenhum na entrevista. Diz sim que os que a Nouvelle Cuisine foi buscar a apresentação dos pratos com um toque artístico à cozinha japonesa. E acrescenta: "Os japoneses nem têm uma cozinha muito especial. As maiores iguarias são cruas, nem passam pelo fogo..."

Quanto ao Fortunato, não diz que "a nova cozinha nórdica não existe, porque foi fabricada à base de subsídios estatais quando não passa de uma mera derivação dos princípios da nouvelle cuisine" Diz sim isto:

<<"nova cozinha nórdica”. Nome vago para o conceito de cozinha que os dinamarqueses fabricaram nos últimos anos com a ajuda de subsídios estatais, e que em parte se inspira em alguns princípios da nouvelle cuisine.>>

abraço e keep on the good work.

Comentar post



PUB


Os autores

Duarte Calvão (perfil)
Miguel Pires (perfil)

Porquê?

Três autores há vários anos ligados à gastronomia e vinhos criaram este espaço para partilhar com todos os interessados os seus pontos de vista sobre o tema (ver "carta de intenções").

PUB


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Siga-nos no facebook


Mesa Marcada no Twitter


Confira os premiados e as listas...



Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Pub





Calendário

Janeiro 2015

D S T Q Q S S
123
45678910
11121314151617
18192021222324
25262728293031

Comentários recentes

  • Paulina Mata

    Tenho pena mas não vou poder ir. O ano passado val...

  • Duarte Calvão

    Julgo que sim. No final do post há um link que rem...

  • João Almeida

    Duarte,E quem pode participar? Porque é que é só p...

  • João Gonçalves

    Muito interessante. Reconheço que me sinto ignoran...

  • Anónimo

    Só para esclarecer que este comentário é meu. Artu...