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O Solar Bragançano veio até Lisboa

por Paulina Mata, em 01.02.15

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Fui há dias ao jantar de apresentação da semana de Trás-os-Montes na mostra gastronómica Portugal de Norte a Sul que decorre no restaurante Terraço do hotel Tivoli. À saída passei por um grupo que discutia se os pratos eram exactamente iguais aos que são servidos no Solar Bragançano, o restaurante de Ana Maria Baptista e Desidério Rodrigues que representa a região. Achei a conversa interessante e fez-me reflectir nos dias que se seguiram sobre um aspecto em que já tenho pensado: "A cozinha viaja bem?". Ou, trocando por miúdos, a experiência é idêntica no restaurante de origem e em apresentações fora do restaurante?

 

Não acredito que possa ser. E há muitas razões para que isso aconteça, por vezes os ingredientes vêm de outros fornecedores e regiões, a água é diferente... Mas, mais importante, a cozinha e as condições de trabalho são diferentes, frequentemente as características do serviço não são as mesmas e, sobretudo, a comida não vale por si só, a nossa percepção é influenciada pelo ambiente em que é servida. No caso do Solar Bragançano, todos os outros factores influenciam certamente o resultado final, mas este último é determinante. Estive já duas vezes a jantar no Solar Bragançano, no centro histórico de Bragança, e a impressão que me causou o espaço e o ambiente é algo que não esqueço. Não tenho dúvidas de que determinou as minhas expectativas, a interpretação do que comi e a percepção geral da refeição. Uma experiência global que recomendo.

 

Posto isto, que do meu ponto de vista se aplica a qualquer situação idêntica, e nomeadamente às três refeições anteriores desta mostra gastronómica (Inês Aleixo, da Casa Inês no Porto; José Júlio Vintém, do Tomba Lobos no Alentejo; Noélia que veio representar o Algarve), pode pôr-se a questão sobre se valerá a pena ir a estes e outros eventos com as mesmas características. Não tenho dúvidas, a resposta é: Sim!

 

Apesar de não ser exactamente o mesmo, a cozinha apresentada reflecte bem as características da cozinha de  origem. Estive nos quatro jantares desta mostra gastronómica e é extremamente interessante testemunhar a diversidade da cozinha das várias regiões. É muito bom poder contactar com o trabalho dos responsáveis pelas semanas gastronómicas. É que nem sempre se pode viajar por este país como desejaríamos.

 

No jantar em que participei foi servida uma excelente e saborosa sopa de castanhas, umas óptimas trutas com presunto de porco Bísaro e a perdiz com esparregado de nabiças e ninhos de batata palha da foto acima. Mas, além dos pratos do Solar Bragançano, ainda tivemos a oportunidade de desfrutar de enchidos e presunto de porco Bísaro da zona de Vinhais, dos queijo Terrincho e de cabra e dos azeites da Origem Transmontana. Tudo isto acompanhado de vinhos Valle Pradinhos e da Quinta do Escairo e ainda do Duriense MAPA.

17967655_YHg3Y.jpegNo final esteve bem representada a doçaria local, pela Casa Lapão, de Vila Real. As mesas de doces destas refeições dão-me sempre a oportunidade de me deslumbrar com o engenho, arte e criatividade de quem ao longo dos séculos criou aquelas maravilhas tão diversificadas a partir de um limitado conjunto de ingredientes. Felizmente há quem os mantenha vivos e de boa saúde. Também tivemos a oportunidade de provar alguns doces da carta do Solar Transmontano, e aqui não posso deixar de referir um que não sendo um doce tradicional me impressionou, e que considero um bom exemplo da dinâmica indissociável de uma boa cozinha tradicional. Refiro-me às repolgas (uma espécie de cogumelos) cobertas de chocolate.

 

O Solar Bragançano estará no restaurante Terraço do Tivoli até 8 de Fevereiro.

 

Fotos de Mário Cerdeira.

(Peço deculpa à Fátima Moura pois retirei a das sobremesas do seu óptimo post sobre este evento)

 

Contactos:

Restaurante Terraço- Hotel Tivoli - Av. da Liberdade, 185 - 1269-050 Lisboa  -  Tel: 213 198 934

Portugal de Norte a Sul : Trás-os-Montes

28 de Janeiro a 8 de Fevereiro

 

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publicado às 22:49


2 comentários

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De Jorge Guitián a 02.02.2015 às 13:08

(como sempre, escribo en galego. As miñas desculpas por non escribir en portugués).

Coñecín O Solar Bragançano o ano pasado,por indicación de Duarte Calvao, e foi unha das sorpresas do ano, un restaurante único. O pasado mes de xaneiro, por indicación de Fátima Moura, probei os produtos de Casa Lapao, en Vila Real. Non sei se as dúas experiencias viaxarán ben, máis penso que son un auténtico tesouro gastronómico que vale a pena descubrir tambén en Lisboa si non se ten a posibilidade de coñecelos no seu local orixinario.
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De Vasco Eiriz a 02.02.2015 às 18:10

Apreciei o seu texto.

Escrevo este comentário também porque coincidentemente neste fim-de-semana coloquei na seguinte ligação um álbum de fotos do Solar Bragançano que visitei há pouco tempo pela primeira vez:

https://www.flickr.com/photos/veiriz/sets/72157650159865667/

Revejo-me plenamente no seu comentário quando afirma: «[...] a experiência é idêntica no restaurante de origem e em apresentações fora do restaurante? Não acredito que possa ser. E há muitas razões para que isso aconteça, por vezes os ingredientes vêm de outros fornecedores e regiões, a água é diferente... Mas, mais importante, a cozinha e as condições de trabalho são diferentes, frequentemente as características do serviço não são as mesmas e, sobretudo, a comida não vale por si só, a nossa percepção é influenciada pelo ambiente em que é servida. No caso do Solar Bragançano, todos os outros factores influenciam certamente o resultado final, mas este último é determinante. [...]»

Sem dúvida que a experiência do espaço deste restaurante é determinante. Arriscaria a dizer que o é tanto ou mais do que a própria comida.

E, já agora, outra informação que me foi fornecida na visita ao restaurante a propósito de se comentar se a carne de javali não seria dura, e que corrobora a sua tese: na cozinha do Solar Bragançano usam-se potes como os de antigamente de tal forma que receio de difícil replicação no Hotel Tivoli.

Ainda assim, sem conhecer, eventos como este parecem uma experiência interessante.

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