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Em comunicados separados, o Esporão e o seu chefe de cozinha Pedro Pena Bastos, bem como a directora de f&b e sua mulher Teresa Chaves, anunciaram neste final de tarde o fim do projecto de alta cozinha do enoturismo da empresa, em Reguengos de Monsaraz. A noticia deixou-nos surpreendidos dada a projecção e sucesso que o restaurante parecia ter alcançado nos últimos dois anos. 

 

 

Nenhuma das partes avança com justificações claras. A empresa vinícola, uma das maiores e mais inovadoras do país,  refere apenas que que o "Restaurante da Herdade do Esporão encerra temporariamente para remodelação" e que abrirá no dia 1 de Janeiro "com um novo conceito de restauração". 

 

Já Pedro Pena Bastos confirma a noticia mas também não avança com as razões. "Este projecto, que teve inicio há 3 anos atrás, com a remodelação de antigo restaurante, irá encerrar no final de Outubro deixando para trás excelentes memórias, aprendizagem, amigos, parceiros, e um conjunto de outros factores que contribuíram para o sucesso deste projecto".

 

Num tom emotivo, chefe portuense prossegue ainda: "aqui, fez-se crescer aquilo que achávamos impossível: lutou-se pela harmonia e sustentabilidade, pela procura da essência do local, da região e do país, estimulando pequenos produtores e projectos parceiros, desde a horta aos animais, inseridos numa herdade com um ecossistema tão vasto e tão rico, entendendo os ciclos de cada produto e das estações. Na tentativa de ir ao encontro do que fez sentido, explorou-se então o conceito que o espaço pedia. Desenvolveu se e viveu-se o Tempo da Terra."

 

Em relação ao futuro o casal, não é referido se fica ou se parte, apenas re-confirmam que "o restaurante do Enoturismo assentará num novo modelo", que  "o Esporão dará mais novidades em breve" e quanto ao destino deles estão "a tratar dele…"

 

Esta é uma daquelas notícias que me deixam descontente, como é óbvio. Este é um dos projectos mais interessantes que vi aparecer nos últimos tempos e parecia-me com solidez suficiente para continuar no tempo. Creio mesmo que, mais ano menos ano, a estrela Michelin chegaria e que era possível e viável a uma empresa de vinhos poder ter um projecto com esta especificidade, tal como acontece noutros países, nomeadamente na vizinha Espanha, com quem tanto gostamos de nos comparar (e reclamar). 

 

Quanto a Pedro Pena Bastos - que considero um dos chefes mais interessantes e com maior potencial de progressão (opinião que é partilhada por uma boa parte do júri dos prémios deste blogue que contribuíram na última edição para que ganhasse o galardão de Chefe Revelação do Ano) -, não creio que vá ficar muito tempo caso a opção seja a de avançar com um restaurante com uma cozinha mais simples e petisqueira. Mas, enfim, o tempo o dirá. 

 

Mais uma vez, esta noticia, a par da saída de Leonardo Pereira do Areias do Seixo, em finais de 2015, mostram como é difícil a um projecto de cozinha de autor  substituir fora do eixo das grandes urbes, Lisboa e Porto, ou de centros turísticos como o Algarve ou o Funchal. A excepção é praticamente o L'And Vineyards e a Casa da Calçada, em Amarante, e mesmo neste caso tem havido alguma turbulência, com várias mudanças de chefes ocorridas nos últimos anos - esperamos que a entrada recente de Tiago Bonito seja para valer e para ficar por muito tempo.  

 

Posts Relacionados: 

Momentos únicos no Esporão (em dia de #36 e de São Salvador)

Uma das refeições do ano no Esporão. Fixem este nome, ele vai dar que falar: Pedro Pena Bastos

 

 

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publicado às 21:34


12 comentários

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De Bruno Esteves a 20.09.2017 às 09:14

Agora a dúvida é:
Abre uma hamburgaria primeiro ou vai directo para o restaurante de 20 lugares com cozinha aberta e menu de degustação?
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De Miguel Pires a 20.09.2017 às 11:57

Espero que seja o segundo caso. Seria um desperdício de talento se fosse uma hamburgueria, mas se isso o fizer feliz... é a sua vida.
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De Duartecalf a 20.09.2017 às 09:58

Apesar de todas as pontas soltas que os comunicados deixam (não li o do Esporão, na verdade) parece evidente que alguém entendeu que este não era o caminho - o que, como cliente, me parece difícil de entender.

Fica também a sensação de, uma vez mais, haver por cá dificuldade em manter um restaurante deste nível por muitos e bons anos se as famosas estrelas não chegam... de putativos candidatos a estrela no Guia de 2017, Esporão e Kanazawa já inverteram caminho. É pena.



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De Miguel Pires a 20.09.2017 às 11:36

Não foram os primeiros, nem serão os últimos. Faz parte deste meio. Outros surgirão. Se compararmos o actual momento da cozinha de autor, face ao cenário de há 10 ou mesmo 5 anos, não há dúvida nenhuma que o avanço foi tremendo.
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De Duartecalf a 20.09.2017 às 15:36

Concordo Miguel, e os novos restaurantes do Diogo Noronha e do Vincent Farges aí estão para comprovar esse cenário.

Mas não deixo de ter pena quando se trata de alterações com jovens com talento e boas ideias como é o caso, por exemplo, do Pedro Pena Bastos e, a fazer fé no que sempre li, da Ana Moura.
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De Paulo a 20.09.2017 às 10:28

Podemos, e devemos, lamentar, mas um restaurante é (também, ou antes do mais, dependendo do ponto de vista), um projecto económico.

O restaurante era um sucesso de crítica e junto de especialistas. Mas era um sucesso económico? A sala estava sempre bem composta? Cumpria a sua função dentro da Herdade? Não sei responder. Estava na minha lista de visitas para este Outono...
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De Miguel Pires a 20.09.2017 às 11:44

Pois, também não sei. Sempre que fui lá (e fui várias vezes) estava à pinha e a informações que fui tendo é que era um projecto viável. Porém, mesmo que não fosse, e desse algum prejuízo, ou pouco lucro, havia o capital de imagem que trazia ao enoturismo e ajudava a uma certa imagem de inovação do Esporão. Pelo menos é essa a perspectiva que eu tinha.

Adivinho que em Janeiro abra como um restaurante com uma cozinha mais simples, petisqueira e eventualmente mais rentável. Mas distinguir-se-á assim tanto dos outros enoturismos? É esperar para ver.
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De Paulo a 20.09.2017 às 16:32

Não conhecendo os motivos do encerramento, se calhar nem teve nada que ver com questões financeiras.

De qualquer modo quem investe o seu dinheiro é que sabe os numeros. Uma estrutura destas tem de estar a laborar perto da capacidade máxima para ser rentável. E ser rentável é a melhor forma de garantir que um negócio não fecha, por mais que haja outros, e importantes, objectivos de imagem e inovação.

Toda a gente me diz que era bom e que tinha muita procura. Não sei se seria assim ou não. Mas recorda-me uma conversa que tive recentemente:

Outra pessoa: Tenho muito pena que fechem a mercearia XXX aqui do bairro.
Eu: Ias lá muitas vezes fazer compras?
Outra pessoa: Não, costumo ir ao Pingo Doce que é mais barato.

Pois...
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De PR a 20.09.2017 às 10:36

Tal como o Kanazawa, assim que souberam que nao iam receber a estrela Michelin, decidiram mudar o rumo.

A omissão do Mesa de Lemos (bem mais interessante que este que agora fecha diga-se em abono da verdade) é negligente ou intencional?

Se Casa da Calçada mantiver a estrela em novembro será mais uma machadada na cada vez menor credibilidade do guia.
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De Ana Dias a 20.09.2017 às 10:59

Porque nao mencionou o Ferrugem?

O Miguel consegue ter uma visão ainda mais centralista que a dos próprios centralistas.

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De Miguel Pires a 20.09.2017 às 11:54

Sim, podia ter mencionado o Ferrugem, o Mesa de Lemos e eventualmente mais uma dúzia de restaurantes. Mas quando digo "praticamente" não estou a dizer que são só aqueles.

Centralista? cada um vê aquilo que quiser ver. No post anterior (a crónica) mencionei os portos de Matosinhos e de Peniche e fui acusado de me ter esquecido dos de Olhão e Setúbal. Enfim...


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De Paulo a 20.09.2017 às 16:50

Não se aborreça Miguel. As redes sociais são implacáveis. Há gente que fica ofendida com tudo e depois faz questão de exprimir essa "indignação". Vá lá não terem solicitado o seu despedimento imediato e compulsivo por tal ofensa...(o que ia ser dificil, visto que este blog é seu...).

O que o Miguel disse é um facto. Podemos gostar ou não, mas não matem o mensageiro...

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