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photo 1.JPGFoi apresentado esta quarta-feira, na Cervejaria da Esquina, o novo livro de Vítor Sobral "Petiscos da Esquina", que reune um conjunto de receitas de pratos e fotos da sua veia petisqueira cuidada e dos seus restaurantes - 5 neste momento (com um sexto a caminho) em 3 países e em 3 continentes diferentes: Portugal, Brasil e Angola. 

 

Como refere Edgardo Pacheco no prefácio, "há cinco anos, Sobral foi o primeiro cozinheiro de renome a criar uma tasca moderna de petiscos. (...) Hoje qual é o bairro de Lisboa ou do Porto que não tem tascas, tabernas ou casas de pasto finas?". Tudo começou, portanto, em 2009 com a Tasca da Esquina, em Campo de Ourique a que se seguiu, no mesmo bairro lisboeta, a Cervejaria da Esquina. Depois foi a vez de levar a Tasca para São Paulo (Brasil) e, mais recentemente, para João Pessoa (Paraíba, Brasil) e Luanda (Angola), aqui com o nome Kitanda da Esquina. Para breve está a abertura em São Paulo da Taberna da Esquina um conceito ainda mais petisqueiro e informal.

 

Quem conhece o chefe português sabe que defende a gastronomia e a portugalidade com unhas e dentes. Por vezes até é demasiado faccioso mas, tal como quando se fala do clube do coração, ninguém leva a mal. Contudo Sobral não se fecha num facciosismo bacoco e desde que começou a viajar pelo Brasil (foi o primeiro cozinheiro português a fazê-lo com regularidade) que alguns produtos e sabores tropicais passaram a fazer parte do seu leque de ingredientes, tal como acontece agora com sabores angolanos, ainda que em menor escala. A este propósito, Edgardo Pacheco refere, no mesmo texto, que Vítor Sobral tem um dom que herdou de família "e com esse dom, anda a desenvolver a sua cozinha da lusofonia, que o mesmo é dizer anda a dar aos clientes de Lisboa pratos com notas de sabores brasileiros e africanos; aos clientes de São Paulo e João Pessoa toda a nossa riqueza e a de Angola e ao de Luanda coisas de cá e do Brasil". Não se trata de prosa romântica do Edgardo, pois eu mesmo já vi apreenderem a Sobral, no aeroporto de São Paulo, uma mala cheia de enchidos e queijos portugueses. Mas vamos ao livro...

 

"Petiscos da Esquina" reúne 63 receitas divididas por cinco capítulos, cujos títulos dispensam explicação: Frio, Natural, Quente e a Ferver. São "Petiscos para todos os contextos", lê-se no final do texto de introdução. Além das receitas, o livro, de capa mole e formato prático (17 x 24cm), destaca-se pelo seu visual: da  paginação ao design sóbrio mas actual (de Maria Manuel Lacerda da 386 design), passando pela qualidade de impressão e, sobretudo, pelo óptimo trabalho fotográfico da Lemmonier Foto (de Nicholas Lemmonier) e de food stylist dos cúmplices e sócios de Sobral (e que ele muito bem elogia no livro) Hugo Nascimento e Luís Espadana. 

 

Contudo, este livro não se livra de um mal comum na edição deste tipo de obras em Portugal. As receitas são simples e descomplicadas, o que permite que o livro chegue a um público mais abrangente. Contudo, falta precisão a algumas receitas (um assunto que a Paulina Mata abordou em tempos aqui). A sensação que fica é que há falta de editores especializados que saibam olhar para uma receita e para as necessidades de um público entusiasta, por certo, mas não profissional.

 

Por exemplo, logo na primeira receita, "Alhada de Camarão" diz-se para salgar o camarão "sem casca e só com a cauda, durante 6 horas", mas não se diz se depois o mesmo deve ser lavado ou não. Se não diz, parte-se do principio que não, é certo. Contudo, como há produtos que são lavados depois da salga, não ficava mal ser mais preciso. Outro exemplo: na segunda receita, "Anchovas, queijo de Minas grelhado e orégãos", é legítimo partir do princípio que se a mesma envolve um queijo brasileiro, então a anchova seria fresca (embora menos comum por cá, existe muito no Brasil), até porque a receita só refere "120 gramas de anchova em filete". Claro, quer pela quantidade, quer pela foto da página seguinte, rapidamente cheguei à conclusão de que se trata de anchova de conserva (ou semi-conserva). Contudo, mais uma vez, não custava nada ser preciso.

 

Estes pormenores não retiram brilho a este livro (até porque podem facilmente retocados numa segunda edição), nem a minha recomendação como  obrigatório para fãs e não fãs de Sobral que passam a ter à mão uma série de petiscos com uma apresentação cuidada e combinações a preceito e sem resíduos de banalidades ou seguidismos. É que se há pouco tempo "O Livro das Sanduíches", de Hugo Nascimento, vinha com uma sobrecapa branca apenas com a inscrição #chegadehambúrgueres, este livro de Vítor Sobral deveria trazer uma, também,  com a menção: #jáchegadetapas

 


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"Petiscos da Esquina", de Vítor Sobral; Casa das Letras, 212 páginas. Preço: 18,90€

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publicado às 10:19



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