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Porque Lima, no Peru, impressiona?

por Alexandra Forbes, em 27.02.14

 

 A grande festa de inaguração da Casa Moreyra, do chef Gastón Acurio

 

 

 

Voltei a pouco de Lima - e impressionada.

Em primeiro lugar, impressionada com o tamanho da caravana internacional que surgiu lá para ver e prestigiar a inauguração do novo projeto gastronômico do Gastón Acurio, a Casa Moreyra. Sabem quem é o Gaston, né? Como explico a brasileiros, mal comparando, é como um Alex Atala do Peru: o chef mais conhecido e respeitado - embora os dois tenham enormes diferenças de estilo e filosofia.

Pois o Gaston investiu 6 milhões de dólares (!!) restaurando e transformando uma antiga fazenda no que chama de Casa Moreyra - um ambicioso complexo gastrômico que engloba o restaurante principal (Astrid y Gastón), um segundo restaurante, informal, salões para jantares privados, horta, jardins, pátio para aulas de cozinha e mais.

 


O chef Gastón Acurio na Casa Moreyra, quando ainda estava em obras

 

A Telefonica deu - digamos assim - uma ajudinha providencial... Como disse ao discursar o catalão Ferran Adrià - outro chef que beneficia-se da benesse da empresa e estava lá para a inauguração - "queremos mais Telefonicas!". ;)

 

 


Em primeiro plano, de roupas escuras, os super chefs Joan Roca (El Celler de Can Roca) e Ferran Adrià na plateia da cerimônia de inauguração da Casa Moreyra

 

 


 “Quero quebrar essa ideia meio francesa do restaurante como uma ilha inalcançável ou exclusiva, que implica em excluir pessoas”, diz Gaston ao explicar o porquê de ter transplantado seu restaurante do endereço onde existiu por 20 anos para dentro desse novo complexo, aberto a visitação pública. “Vamos fazer algo de que todos possam aproximarem-se, que genere luz”. Na verdade poucos peruanos terão o privilégio de provarem o ambiciosíssimo menu-degustação do Astrid y Gastón, que será servido a partir de março. Ao menos o chef pretende servir versões simplificadas dos pratos no resto-bar do casarão a preços bem mais em conta, e o centro – inclusive o jardim botânico que conterá espécies dos diferentes microclimas peruanos - não cobra entrada.

A inauguração da Casa Moreyra desdobrou-se em dois dias de eventos, de discursos de autoridades locais a mesas-redondas com jornalistas internacionais; de visitas de crianças de colégios próximos a um festão para quase mil pessoas com pista de dança e show de luzes (neste link, para os curiosos, um relato completo da festa, com muitas fotos).

Em minha coluna de ontem no jornal Folha de São Paulo eu tentei explicar melhor esse fenômeno: um chef que aparece mais pelo que constroi e pelo que diz à imprensa do que pelo que cozinha (a essa altura, é mais empresário do que cozinheiro).

E o que mais impressionou-me nesta viagem? Foram quatro dias de muita comilança na cidade, e quatro dias de excelência quase constante nos pratos provados. Não é só fama, não: em Lima come-se bem de verdade.

 

 


Osso: o talho que também é um restaurante-de-uma-mesa-só

Claro que gostei mais de uns do que de outros. Refeição favoritíssima? Meu almoço no Osso, um talho que esconde, nos fundos, uma bela mesa comunitária de frente a uma churrasqueira. Lá, três vezes por semana e mediante reserva, o talentosíssimo Renzo Garibaldi deixa a todos embasbacados com a orgia carnívora mais deliciosa que provei nos últimos anos. E para se comer com as mãos! E como comi, meu Deus! Os outros olhavam-me espantados.

 


Um dos belíssimos pratos do menu degustação do Central: paixe (peixe amazônico)


Outro ponto alto foi o menu degustação do Central, do mais-que-talentoso chef Virgilio Martínez, restaurante que tive a sorte de visitar pouco depois de abrir e que vem melhorando sem parar. Está, hoje, entre meus dez favoritos no mundo. Moderno, sim, pero sin perder el sabor. Os conceitos que guiam o menu, complexos e profundos, não falam mais alto do que os ingredientes: quase tudo é muito gostoso. Em certos casos, dava até vontade de lamber o prato!

Também comi bem no descontraído La Picanteria - que exagero de comida! - e no Maido, um restaurante nikkei (nipo-peruano) bastante ambicioso.

Resumindo - e temendo mais uma reação violenta da parte de alguns peruanos - atrevo-me a dizer que quanto mais vou a Lima, mais tenho a certeza de que a beleza da cidade está à mesa, e não nas ruas. Não recomendo a ninguém que vá até lá para fazer turismo convencional, esperando encher um álbum com fotos bonitas. A não ser que sejam fotos de comida... ;)

 

E mais sobre o Peru:

1. Astrid y Gastón é o "melhor restaurante da América Latina"

2. A ascensão do chef Virgilio Martínez, nova estrela peruana

3. “O Melhor Ceviche do Mundo” – a cena gastronômica de Lima

4. Instantâneos do Peixe em Lisboa 2013: Apresentação de Virgilio Martinez

 

Leia ainda:

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publicado às 02:39



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