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Pratos aborrecidos

por Duarte Calvão, em 16.08.15

Fotografia (usada por mim, para este post): Life on Edge

 

Artigo publicado originalmente na edição de Maio/Junho de 2014 da revista "Comer"

 

São aqueles pratos que já não se aguentam de tanto se repetirem de restaurante em restaurante. Podem ser bons, não é isso que está em causa, mas já aborrecem por mostrarem a falta de imaginação de quem os cozinha, por vezes num “seguidismo” cego daquilo que se julga estar na moda. Fomos falar com três críticos gastronómicos, Edgardo Pacheco, do "Correio da Manhã", Luís Antunes, que colabora em várias publicações, e Fortunato da Câmara, do "Público", e ainda um fotógrafo-gastrónomo, Hugo Campos, que além de ser autor de uma secção de receitas também no "Público", é responsável pelo atelier de cozinha Feed Me, e quisemos saber o que eles acham do assunto. Aqui vão as suas opiniões, abrangendo todo o tipo de restaurantes, mais tradicionais ou mais modernos.

 

Antes de ir a pratos concretos, há tendências que desagradam a todos e a mais nítida é a dos chamados “petiscos”, que invadiram a restauração portuguesa nos últimos anos, sobretudo nas grandes cidades. “É verdadeiramente enjoativo, são sempre as mesmas coisas”, resume Edgardo Pacheco. “E o pior é que vários têm a mania de que a sua receita é especial, é como a avozinha deles fazia, e por vezes nem sequer respeitam a receita original”, acrescenta. Já Fortunato da Câmara alerta para outra característica deste tipo de cozinha, dando o exemplo da alheira. “Hoje, há a mania de fazer croquetes de alheira, recheios de alheira, ovos com alheiras desfeitas…Mas se eu quiser comer uma alheira bem feita, simples, inteira, com batatas cozidas e grelos, como é tradição, tenho dificuldade em encontrar”.


Aliás, a profusão de “tábuas” de enchidos também aborrece o crítico do "Público", assim como os pratos com cavala. “Passámos do oito para o oitenta, e agora não há ninguém que não tenha cavalas marinadas ou braseadas. E atum por todos os lados, embora pelo menos tenha a vantagem de o servirem mal passado, ao contrário do que era habitual. Sempre é uma evolução”, considera. Também Luís Antunes sublinha que por vezes os excessos da moda podem trazer benefícios: “há de facto demasiados risotos [vamos escrever assim, aportuguesando o plural da palavra, já que o correcto em italiano seria “risotti”, algo que quase ninguém em Portugal diz…], mas isso chamou a atenção para a qualidade do arroz que se cozinha, inclusive de variedades portuguesas, o que é positivo”.


O que parece ser uma unanimidade entre os especialistas que consultámos é a rejeição da “praga” de hambúrgueres que se espalhou pelo país. “Isto dos hambúrgueres gourmet é um exagero, a ponto de levar a desequilíbrios no mercado, com as carnes que se usam para os fazer, que antes eram baratas, a subirem imenso de preço”, afirma Hugo Campos. Para Edgardo Pacheco, um açoriano habituado a boas carnes de vaca, verifica-se também outro erro. Para este crítico do "Correio da Manhã", “quem gosta de bons hambúrgueres sabe que eles resultam de uma mistura de carnes e estes gourmet  têm o hábito de só usar um tipo de carne de vaca, por vezes até com Denominação de Origem, mas não percebem que assim só conseguem sabores demasiado lineares e monótonos”.


Mas não são apenas os pratos mais na moda que aborrecem os nossos entrevistados. Também nos chamados “tradicionais” constam diversos itens. Luís Antunes, por exemplo, já não tem paciência para peixe grelhado, Fortunato da Câmara para ovos mexidos com farinheira, Edgardo Pacheco para puré de nabos, de ervilhas, de espargos, de tudo e mais alguma coisa. Hugo Campos impacienta-se com os polvos à lagareiro (“são todos congelados, de mesmo tamanho, sem graça nenhuma”, diz) ou com saladas mistas, provenientes quase sempre de embalagens que se encontram nos supermercado, “temperadas com um vinagrete qualquer”.


Nos “aborrecimentos” mais na moda, Hugo Campos inclui os crème brûlée de sabores variados, mas que todos apresentam, Fortunato da Câmara os muitos foie gras (“até percebo, porque é uma maneira de pedirem mais dinheiro pelos pratos”, explica), Edgardo Pacheco as pizzas de tudo e mais alguma coisa, Luís Antunes já não suporta vieiras e pratos com coentros a despropósito. E ainda acrescenta a mania dos “à Bràs” com todo o género de ingredientes. “Já só falta fazerem tripas à Brás”, ironiza.


Porém, no meio de tantos lugares comuns, de tantas repetições, será que a cozinha mais criativa começa a provocar rejeição entre os nossos críticos, com os paladares fechados a inovações? Para responder e terminar, damos a palavra a Fortunato da Câmara. “Procuro manter-me aberto ao que me apresentam e, mesmo que considere muito visto determinado prato, se ele é uma especialidade do restaurante que estou a visitar, tenho que o experimentar com a maior imparcialidade possível”, salienta. Para ilustrar essa abertura de espírito mesmo perante “criações” que à primeira vista lhe causam má impressão conta o caso de um prato que provou no restaurante do Clube Vilafranquense, em Vila Franca de Xira, então chefiado por Henrique Mouro. “Nos ingredientes vinham sardinha, queijo chèvre e morango e achei impossível aquilo ser bom. No entanto, depois de provar, vi que era óptimo e que tudo fazia sentido. Ou seja, não devemos à partida rejeitar o que não conhecemos”, conclui.

 

 

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publicado às 10:45


31 comentários

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De Carlos Alexandre a 16.08.2015 às 13:43

Este texto vai 100% ao encontro do que sinto atualmente em Lisboa, Porto e, infelizmente, também pelo resto do país, como já comentei algumas vezes.
Criatividade? Nem no Belcanto, Vila Joya e afins. Posso lá fazer boas refeições, mas é sempre mais do mesmo, sempre pratos revisitados, que por serem excelentes não justificam a designação "criativo".
A carreira na cozinha faz-me lembrar a carreira de artistas plásticos em Portugal: depois de encontrar uma receita que funciona, será sempre a mesma, com variantes até ao fim.

A treta dos termos "gourmets" só me afasta de lá. Se aparece a designação "gourmet", sugere-me logo a falta de imaginação e o recurso à banalidade para aumentar preços.

Os petiscos atuais são o fast food português, filho do casamento polígamo entre o fast food americano e a comida popular portuguesa com as tapas, tradicionalmente barata. O petisco deverá sempre ser caro, porque é chique. E é designado "especial" se vier de um cozinheiro conhecido, só porque é dele.

Os pratos de lombinhos de peixe ou carne sobre puré ou legumes, sabem bem, feitos em casa, à pressa, quando há falta de imaginação. Mas ir comer isso fora de casa em restaurantes conceituados? Nop!

Os últimos 8 meses vieram confirmar o que já suspeitava: há que comer fora umas 20 vezes para encontrar uma pequena joía. E no meu caso, raramente é de cozinheiros afamados.

Que bocejo!
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De JorgeOchef a 16.08.2015 às 14:34

Eu concordo a 100% com tudo isto, mas acrescento mais:

Todos os actores da nossa gastronomia são aborrecidos, sobre os pratos e os chefs, já está tudo dito, passemos agora para os criticos e pseudo-criticos que nascem diariamente como cogumelos em qualquer revistazeca online e que ajudam no brainstorming aos azeiteiros dos comensais, aqueles que enchem a praça da restauração da Ribeira e pagam 30 euros para comer de pé com tabuleiro na mão, mas com sorte aparecem numa das páginas da próxima time-out.

Os criticos, são maus e preocupam-se mais com a decoração e com quem frequenta o espaço do que com a gastronomia em si e isso também ajuda à miséria que sem vem assistido.

O publico não quer saber, simplesmente não quer saber.. haja Gin Tónico de uma marca qualquer trendy e qualquer porcaria para fotografar e por no facebook e já está bom...

Ainda há os tripadvisors desta vida...sobre esses nem digo nada..

Os chefs estão tesos, e quem investe em restaurantes (os betos do princepe real e de campo de ourique) quer é paletes trendy, gin tónico, morritos e porra qualquer para entreter o gosto entre riscos de pó branco.

É triste... mas é assim...
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De Rui a 17.08.2015 às 01:59

Mais um bocado e estão aborrecidos com tudo. Algumas situações são compreensíveis, mas num mundo que se tornou tão pequeno, é difícil não haver imitações/repetições/parecenças. E já agora perguntem aos chefs que orçamentos e condições têm para implementar aquilo que realmente pretendem.
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De Artur Hermenegildo a 17.08.2015 às 10:53

Enfim. Se só houvesse restaurantes criativos, havia para aí 100 restaurantes no mundo todo.

Às vezes a criatividade manifesta-se não na invenção total mas no pequeno pormenor. Não há muitos Adriàs pelo mundo fora.

Encontrar o ingrediente perfeito, ou um ponto de cozedura diferente, num prato tradicional, é criativo? não é? não sei.

Em Portugal, recentemente, fui a a três novos restaurantes que considero realmente criativos.

Acima de todos, o Areias do Seixo; e ainda o Leopold e o Boi Cavalo.

E ainda o Ferrugem, que conheço já há anos.

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De Artur Hermenegildo a 17.08.2015 às 10:55

De qualquer forma, o artigo não era sobre criatividade ou falta dela, mas sobre "pratos aborrecidos".

É uma discussão diferente.

Para mim, um prato muito bem executado e com ingredientes de alto nível, mesmo que seja uma receita tradicional mil vezes repetida, nunca é aborrecido.

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De Carlos Alexandre a 17.08.2015 às 14:26

Não é bem assim. Cito:

"São aqueles pratos que já não se aguentam de tanto se repetirem de restaurante em restaurante. Podem ser bons, não é isso que está em causa, mas já aborrecem por mostrarem a falta de imaginação de quem os cozinha, por vezes num “seguidismo” cego daquilo que se julga estar na moda"

Como pode constatar, não se coloca a questão da qualidade, mas sim da falta de imaginação.

Temos de comer todos os dias. Por isso, é normal que haja certa rotina. Não se pede criatividade todos os dias, nem se paga para isso. O problema é que deixou de existir alternativa à rotina.

Por outro lado, não me venham com o argumento de que é preciso ser um génio para ter imaginação. Basta querer, ter uma boa formação e não ser medíocre.
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De Álvaro santos a 17.08.2015 às 18:48

A verdade é que como está descrito parece que pratos iguais e muitas das vezes se repetem porque há quem lance a moda deles(críticos gastronómicos essencialmente) se tornam aborrecidos e "Já não há paciência para tascas e tabernas sempre com o mesmo..." então e as velhas tabernas e tascas e casas de pasto não serviam sempre as mesmas coisas? confesso-me por vezes baralhado com o que o cliente realmente quer... se por um lado fazemos o prato da moda é aborrecido porque todos têm...se por outro fazemos o tradicional é aborrecido porque é mais do mesmo... afinal querem mesmo o quê? conceitos e formas de cozinhar todos os meses diferentes? isso não é possível e nem todos os espaços podem ser o Fat Duck ou o de la roca, acho sinceramente que por vezes os críticos se esquecem que o que é aborrecido para quem em 7 dias da semana almoça e janta fora 8 não o é para o cliente normal que janta fora uma ou duas vezes por semana, para mim que cozinho todos os dias a comida de restaurante é enjoativa, mais do mesmo e a minha então já estou fartíssimo, mas não posso servir de bitola,
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De Carlos Alexandre a 17.08.2015 às 20:00

As tabernas, tascas, e casas de pasto não tinham pretensões, nem "chefs".

Sabemos que a comfort food vai sempre existir, felizmente e esta deverá ser servida em restaurantes de raiz mais popular ou então em restaurantes sem pretensões. Mas tem de haver qualquer coisa que me leve a sair de casa para comer com preços mais elevados. E certamente não será um hambúrguer ou tostas com salmão fumado ou ovos com alheira. Estes, posso comê-los em casa ou em restaurantes de baixo custo.
A imaginação deveria ser um fator diferenciador. Para além do serviço, da qualidade da matéria prima, da decoração, do ambiente e dos adereços de mesa.

Cada coisa em seu lugar.
E se não podemos pedir a uma cozinheira de uma tasca, que tem 60 anos, e sempre cozinhou da mesma maneira, para ter imaginação (=criatividade), então deveremos pedir outros. Quem? Aos cozinheiros de uma nova geração, em restaurantes que pululam por aí.

Só um aparte: acredito que a falta de imaginação se deve ao pouco tempo de experiência que muitos cozinheiros têm antes de começar a comandar uma cozinha, por mais pequena que seja. Deveriam passar muitos anos a aprender, como discípulos, o que os mestres têm para lhes ensinar. Com muitos mestres. E depois, fazer a síntese disso tudo e desenvolverem o seu estilo.
E quando digo muitos anos, não são 3 ou 4!

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De JorgeOchef a 17.08.2015 às 23:13

Carlos Alexandre,

Concordo sempre com as suas visões e têm o quê de verdade... Mas é preciso ver o que o cliente quer, e o cliente quer ovos com farinheira, croquetes de alheira e hambúrgueres Gourmet.. É a realidade e dou 2exwmplos: O Avillez tem 3 ou 4 restaurantes de "mais do mesmo" para sustentar o belcanto.. O Luís Baena que deve ser dos tipos que mais inovou e arriscou em Portugal nunca conseguiu ter um projecto sólido.. Catralvos, terraço e manifesto.. Nenhum deu para aguentar... Agora quando voltar não se ponha a fazer ovos com farinheira e a vender gin tônico e em 1\2 anos fecha a porta..
Destes navegadores só se aguentam malta em hotéis e bem patrocinados por uma lavandaria qualquer ao bom estilo macaense .
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De Carlos Alexandre a 18.08.2015 às 09:47

Bom dia Jorge.

Agradeço o seu comentário.

Quando faço um comentário, não sendo eu do ramo da restauração, falo por mim e só por mim, dando a minha opinião do que sinto em relação ao tema do tópico. Sendo uma opinião subjetiva não pretendo retratar de modo algum a realidade coletiva.

Pegando nos dois exemplos que me deu.
1- Avillez:
Não acredito na versão propagandista, que anda no ar há uns anos,
da existência dos outros restaurantes para sustentar o Belcanto. Basta ver que a casa anda para o cheio, os preços dos menus/cartas são ultra-inflacionados e os vinhos têm fatores assustadores. Se este restaurante não der muito lucro, nenhum restaurante no mundo dará. E ainda bem que assim é e a quando posso, faço uma visita.

2- Luís Baena:
Nos primeiros tempos do Manifesto, foi um sucesso. Casa cheia. Satisfação durante a refeição e na ponderação pós-refeição. Depois...
O problema não foi do público, foi do Luís. Começar a servir cada vez menos quantidade, acabar com pratos e menus degustação e enveredar pelos micro-petiscos a preços de platina. Fui um dos lesados dos seus últimos meses, em que a arte de mal servir atingiu o seu apogeu. O vinho era servido apenas na prova. A água desaparecia da mesa e nunca mais voltava. Mas era cobrada. Os micro-pratos eram ridículos na qualidade, quantidade e preços.
Foi um hara-kiri que demonstrou uma enorme falta de respeito para com os clientes que o sustentavam. Mas esse comportamento deixou marcas. Porque tenho muito boa memória, ao invés do público em geral. Sei que quando abrir qualquer coisa, mesmo que seja muito má, irá ter casa cheia. Mas eu não colocarei mais os pés nos seus restaurantes, a não ser que os motivos para voltar sejam superiores à revolta que sinto pelo passado fresco.


Indo à questão daquilo que o cliente quer. O cliente pede o que está na carta. Esta deve ser equilibrada e incluir pratos mais ou menos imaginativos. Entendo que a maior parte das pessoas irá para o que lhe dá mais conforto. E se a sobrevivência passa por aí, claro que que o clássico deve ser proposto. Foco-me sim, na ausência de imaginação para quem quer ir um pouco mais longe na sua refeição.
E a ausência de propostas na carta, quanto a mim, deve-se à falta de imaginação e não à falta de lugar na carta ou no frigorífico.
Claro que eu sou UMA pessoa. E se calhar não vale a pena investir em pessoas como eu.

Tudo o que disse neste comentário e nos outros, não deve ser lido como crítica, mas sim como constatação de fatos espelhados no que sinto. Porque não tenho competência para fazer críticas, mas sim para observar e constatar.




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De JorgeOchef a 18.08.2015 às 14:44

O seu comentário é sensato, e é ver as coisas por esse prisma.
Nós profissionais ás vezes estamos tão fechados no paradigma ego vs. "O que o a maioria dos clientes quer", que só conseguimos ver estes 2 pontos de vista.

Faltam-nos tantas bases... Não remos referencias, quem em Portugal deveria ser não é.. Luís Baena, Fausto Airoldi entre outros são grandes cozinheiros mas péssimos gestores, centrados demasiado no ego e a esquecerem do principal: o cliente.

Depois à um caso à parte, Avillez é um predestinado, além do imenso talento nasceu num berço de ouro.. Contra factos não há argumentos.. Ter dinheiro ajuda..

Depois há os outros, os dos hotéis e grandes grupos que lhes pagam para fazer o que quizerem e gastar dinheiro à vontade... Esse também não podem ser referência..

Sobra Vítor Sobral.. Secalhar o único bom cozinheiro/gestor que conheço.. Não é propriamente criativo, e é o pai destas tascas todas ..

Nós chega que temos pouco dinheiro, que temos pouco acesso ao crédito, quando abrimos algo temos não podemos dar-nos ao luxo de estar 6/7 meses à espera que alguém descubra a nossa cozinha.. Temos de ir pelo que é óbvio porque é a única forma de ter retorno imediato...

Depois é preciso ver que isto é muito pequeno, e quem tem amigos nas agências de comunicação, na TV ou nas redações das revistas tem artigos de borla semana sim, semana não.. Quem não tem, nem dinheiro para pagar fica com a vida mais difícil...

Enfim... Por aqui me fico, antes que me venham dizer que só nos sabmos queixar e não fazemos nada pela vida... O clássico de quem tem o cu bem sentado..

Bem haja
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De Carlos Alexandre a 18.08.2015 às 16:21

Aprecio a forma simples e sincera como expõe a forma como sente pessoalmente a vivência da restauração, revelando até um voluntarismo em mudar qualquer coisa, mas não sabendo como.

Se eu fosse do ramo da restauração, se calhar, faria o mesmo que andam por aí a fazer. Só falo na ótica de cliente.

Alguns pensamentos soltos:

- Na minha ótica muito pessoal, a fase criativa do Avillez já passou.
Ter-lhe-ia feito bem passar mais uns anos com mestres. Já provou que tem muito valor, mas a inspiração esgotou. Mas seja como for, os simples programas que apresenta na TV seriam já uma inspiração para muitos restaurantes saírem dos pratos enfadonhos e aborrecidos. Não seria preciso muito mais.

- deixar de ser aborrecido tem uma solução que é apresentar o que os outros não andam todos a apresentar.
Por um lado é recorrer à imaginação. Mas há outra via: ir buscar à história pratos esquecidos, ou mais ofuscados pelos designados pratos tradicionais clássicos. Um trabalho de investigação que ninguém, com contacto direto com o cliente, faz verdadeiramente.
Finge-se que se foi buscar umas receitas perdidas ou apenas da avozinha, mas é tudo imagem de marketing. Um trabalho muito sério neste campo pode vir a ser um bom campo a seguir na restauração portuguesa que vai buscar muita inspiração a outras, mas não se conhece a si mesma.






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De Artur Hermenegildo a 18.08.2015 às 14:45

Não acho nada que o Mini Bar seja um restaurante "mais do mesmo". Nada mesmo. Estou em completo desacordo.

E mesmo o Cantinho não se pode arrumar liminarmente nessa definição.
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De Carlos Alexandre a 18.08.2015 às 16:29

Tem os seus critérios, e eu terei os meus. E não coloco em questão os seus critérios que, certamente, serão bem ponderados.

Eu costumo dizer que o Mini Bar serve as sobras do Belcanto. Ironia, claro.

Mas não se esqueça que associar cada prato a certa pessoa elimina toda e qualquer imparcialidade de juízo.

Nunca no Cantinho ou Mini Bar tive qualquer sensação de bem estar gastronómico, para além da satisfação de estômago aconchegado.
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De JorgeOchef a 18.08.2015 às 22:48

Carlos Alexandre,

Irei certamente reflectir sobre as suas palavras, que me parecem bastante úteis.

Faz falta um meio onde discutir ideias, principalmente na nossa classe há uma desunião brutal, fingi-se que há união, mas é mentira.. Assim que se vira as costas é uns a dizer mal dos outroa.. Na frente é só "yesmans" a quererem ficar bem na fotografia de um qualquer chef mais conhecido.. Ninguém tem opinião própria..

Pronto... E é isto...

Gostei muito deste bocadinho ..
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De teixeira a 19.08.2015 às 10:43

Carlos Alexandre, acompanhei com grande interesse os teus comentários e alinho com a tua linha de raciocínio. Por uma única e decisiva razão: és independente.
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De Artur Hermenegildo a 19.08.2015 às 11:32

Como se pode constatar até pela escolha das palavras no meu comentário anterior ("acho", "desacordo"), nem tenho pretensões a ter "critérios ponderados" nem a ser "imparcial".

Apenas emito a minha opinião, absoluta e assumidamente pessoal e parcial, baseada na minha vivência e no prazer que as experiências gastronómicas me causam.
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De Álvaro santos a 19.08.2015 às 10:46

Caro Carlos Alexandre,
Respeito obviamente a sua opinião e nalguns pontos até posso concordar mas... Porque raio têm de haver essa divisão de tascas, restaurantes sem pretensões, restaurantes de chefs consagrados, cozinha com ou sem criatividade?
Uma tasca destas modernas (com ou sem Chef) não pode servir pratos ou petiscos com pretensões ou com toques de fusão desde que sejam de bom gosto?
e que mal têm um restaurante cheio de pretensões servir um prato de moelas? ou seja eu não tenho certeza que essa etiquetagem ou rotulação das casas seja benéficos seja para quem quer que seja, gosto pouco e sinto-me preso quando tenho rótulos...
Gosto de fazer a minha cozinha, mas acima de tudo gosto de servir o cliente e ao faze-lo é com ementas dirigidas para o gosto e tendências atuais que é o que o cliente procura, dou o exemplo da barriga de porco, quando servida em fatias finas e grelhadas é comida de tasca e barata, servida em nacos no forno é gourmet e todos agora temos de ter...
Saudações
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De Carlos Alexandre a 19.08.2015 às 15:43

Caro Álvaro, creio haver aí alguma confusão.
Não me parece ter escrito algum texto que separasse "tascas, restaurantes sem pretensões" de "restaurantes de chefs consagrados" pela sua caraterização enquanto cozinha criativa (que aqui estou a usar como sinónimo usual de "com imaginação", e não noutro sentido mais elevado que se lhe possa atribuir).

Falei de todos os restaurantes, porque eles existem. Falei da falta de imaginação em muitos deles, indistintamente da sua qualificação. E, a existir imaginação, esta é democrática.

Quanto à sua afirmação:
"... dou o exemplo da barriga de porco, quando servida em fatias finas e grelhadas é comida de tasca e barata, servida em nacos no forno é gourmet e todos agora temos de ter..."
só posso dizer uma coisa: tenho pena que exista esta perspetiva, mas cada um pensa o que pensa.

Saudações.





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De Jorge Guitian a 17.08.2015 às 12:16

En España pasamos de la moda de las vieiras, las carrilleras y el foie a la de las hamburguesas gourmet, ceviches y tiraditos. Ahora estamos en plena marea de influencias mexicanas, de tacos "hispanizados" y de nems de influencia asiática. Y de guarniciones con encurtidos. La única diferencia entre España y Portugal en eso es qué cosa nos proponen hasta el aburrimiento.
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De Duarte Calvão a 17.08.2015 às 14:03

Olá, Jorge. Ainda bem que apareces. É verdade que estás com um programa na TV Galicia? Diz em que dia e a que horas é, para podermos ver. Creio que todos os operadores por cabo em Portugal têm esse canal.
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De Jorge Guitian a 17.08.2015 às 14:09

Efectivamente, Duarte.

Es un programa en la televisión autonómica gallega, Gastrópodos: Cociña en Ruta. Un recorrido por 12 productos gastronómicos gallegos relacionados con 12 localidades. Se emite los sábados a las 15:30, hora local, pero puede verse online aquí. Por ahora se emitieron los programas dedicados a las truchas, al mejillón y al queso de San Simón da Costa. El próximo sábado tocan longueiróns y el siguiente la lamprea del Minho, con una fugaz incursión en tierras de Monçao.

La protagonista es Beatriz Sotelo, que tiene una estrella Michelin en su restaurante A Estación, en Cambre (junto a A Coruña) y fue Cocinera del Año en España en 2009. Mi papel es más secundario y consiste en hablar un poco del producto, de sus características, de su producción... (y si me preguntas, creo que el montaje del programa podría ser un poco más ágil. Pero bueno, así hay cosas que mejorar para la segunda temporada) y hacer de juez en el reto culinario entre Beatriz y un cocinero local en cada capítulo.
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De Jorge Guitian a 17.08.2015 às 14:14

Creo que en el anterior comentario no salió el link para acceder online al programa: http://www.crtvg.es/tvg/programas/gastropodos
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De Duarte Calvão a 17.08.2015 às 14:22

Óptimo, não vou perder. Acho que vai interessar a muitos portugueses.
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De Miguel Pires a 18.08.2015 às 01:33

A mim não me chateiam as modas ou tendências, mas sim o seguidismo até à náusea.

Achei curioso que ninguém tenha referido aquela que me parece ser uma das maiores pragas dos últimos 10/15 anos: os risquinhos/efeitos com redução de vinagre “tipo” balsâmico que aparecem por todo lado.

O pior é que podia ser apenas em lugares de curiosos a brincar ao masterchef , mas não. É impressionante como se espalharam por restaurantes honestos de bairro e até por alguns tradicionais de respeito. Aquele adocicado falsamente ácido em cima de alface e tomate… nhec
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De Manuel a 18.08.2015 às 15:12

E os pratos de ardósia?

A quantidade de pratos que já me foram servidos em ardósia dava para pavimentar a casa.
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De Álvaro santos a 19.08.2015 às 10:35

Boas,
é sempre com muito interesse que leio as vossas criticas/desabafos/opiniões, sou cozinheiro e dependendo do sitio onde trabalho sou Chef ou não(embora tenha constatado que o titulo de Chef é uma espécie de promoção que recebemos espero pelo nosso trabalho...Com respeito ao "Vamos todos fazer igual..." seja nas ardosias, seja no balsâmico ou mesmo na rúcula acho que todos têm um pouco de razão, isto porque todos nós acabamos por fazer isso e servir muitas das coisas que resultam e estão na moda, fazemo-lo pelas razões acima referidas(temos de ter clientes e é isso que eles pedem), para os mais tradicionais é uma espécie de upgrade da ementa e para outros acredito que seja por ser mais fácil decorar uma ardosia ou colocar balsâmico num prato do que comprar pratos bonitos e caros, eu como trabalho em Setúbal e não na Capital as coisas são muito diferentes até porque sofremos do síndroma de estarmos demasiado longe para umas coisas e demasiado perto para outras da Capital, por exemplo os críticos, jornalistas e mesmo clientes em geral da Capital quando nos visitam(Setúbal) é só para comer peixe assado e choco e os Setubalenses quando querem comer "mais fino" o que para a maioria das pessoas representa mais caro menos quantidade e combinações fora do comum vão para Lisboa, então o nosso trabalho é mais complicado, porque não podemos fugir do obvio das ementas, correndo o risco de não termos clientes, quanto ao facto que todos nós deveríamos fazer estágios com os grandes mestres(claro que ajudava muito) mas não é exequível é o mesmo que pedir que todos os arquitetos deveriam estagiar com o Siza Vieira antes de desenhar prédios.
Neste momento trabalho num espaço diferente que não é restaurante mas sim um bar que durante a tarde e até ás 22h30 servimos tapas, entradas, petiscos e alguns pratos e tento como em todas as ementas que faço, que seja equilibrada e abrangente, ou seja alguns pratos tradicionais sejam Portugueses ou tapas Espanholas e outros de fusão, fujo do sushi porque temos um restaurante do grupo japonês, mas tenho Ceviche por exemplo, mas pelos vossos comentário cada vez penso que trabalhar em LX é realmente outra coisa e com um publico mais aberto á gastronomia, só gostaria de deixar aqui uma pergunta a respeito ao titulo do artigo : Então e peixe assado não é um prato aborrecido para virem comer todos os Fins de semana a Setúbal?
bem haja a todos
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De Ideias e Baleias a 25.08.2015 às 12:33

Em primeiro lugar, estes 3 críticos - por trabalharem na área - conseguem detectar estes incómodos, coisa que muitos não detectarão pelas poucas vezes que comem fora. Como fazer disto vida, é normal que estejam fartos daquilo que vêem repetitivo.

Em segundo lugar, reconheço que muitos pratos considerados básicos - como as batatas fritas com bife e arroz - já não satisfazem o cliente. Porque são mais do mesmo e sem o tal toque especial.

Em terceiro lugar, para os críticos os vários pratos podem ser monótonos, mas representam uma opção de oferta para que os clientes tenham um vasto leque de escolhas. O que propõem os críticos, retirar os pratos das ementas? Reformulá-los e depois concluir que acabaram por se tornar todos noutra "fórmula" qualquer?

Em quarto lugar, a maioria da população não vai a restaurantes finos nem tem cultura para apreciar coisas gourmet e afins. Querem é um prato bem composto e saboroso. Quem vive em Lisboa e Porto e tem acesso aos restaurantes da moda esquece-se que existe mais Portugal.

Em quinto lugar, a criatividade na cozinha é algo "difícil". No início existiam os pratos simples. Depois para contrariar o simplismo de sabores,cores e texturas, introduziram-se níveis de complexidade. Depois, ficou tudo tão complexo que se lembraram de voltar às origens e reinventar os pratos simples com um "twist". Tudo isso proliferou e agora queixam-se de falta de criatividade. É que após muitos anos após fazer "diferente" e "diferente do diferente anterior", chega-se ao "igual". Tal como na moda, música, arquitectura clássica e outras artes, a cozinha tem um limite para a criatividade e inovação, pois a partir desse limite apenas existe lugar à criação baseada na inspiração de algo que já foi feito.

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