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Quem quer almoçar com John Malkovich?

por Duarte Calvão, em 15.11.14

20141112_LF_DSC_0345.jpgNão é todos os dias que se recebe um convite para almoçar com uma estrela de cinema como John Malkovich, ainda que saibamos que vamos partilhar a mesa com uns 20 jornalistas e bloggers. Mas mesmo assim pensei duas vezes quando o recebi. Não pelo local do almoço, a Bica do Sapato, restaurante com que muito simpatizo, tanto mais que tem lá Alexandre Silva a chefiar a cozinha, nem pelo “pretexto” do convite, a apresentação dos vinhos que o actor norte-americano produz na sua propriedade na Provença, mas sim porque normalmente não me dou bem com gente que tem uma imagem pública muito exposta nos meios audiovisuais e que parece por vezes não perceber a diferença entre fama e importância.

 

Pois bem, em boa hora tomei a decisão de ir. John Malkovich e a sua encantadora mulher Nicole foram uma companhia extremamente agradável, óptimos conversadores, sem uma sombra de vedetismo. E finalmente, pela boca do próprio, fiquei a saber como ele se tinha tornado sócio do restaurante lisboeta. No final dos anos 90, pela mão do produtor Paulo Branco e do realizador Manoel de Oliveira (de quem, aliás, tem divertidas histórias para contar), Malkovich começou a vir a Lisboa e rapidamente o Pap’Açorda se tornou no seu restaurante de eleição. Uma vez, enquanto esperava pelo músico Pedro Ayres Magalhães, que ia compor a banda sonora de um filme que ele ia dirigir, ouviu José Miranda, um dos sócios do Pap’Açorda, falar com um cliente francês sobre o novo projecto que iam abrir junto ao rio…Entusiasmado com a comida e com a cidade, o actor norte-americano não resistiu e foi oferecer-se para investir no novo restaurante. Ao que parece, houve um certo espanto e incredulidade, mas, passados uns tempos, recebeu um telefonema a perguntar se sempre estava interessado, etc, etc. E o resto é conhecido.

 

Por falar em Pap’Açorda, uma má notícia, embora compreensível. O célebre restaurante vai fechar no Bairro Alto e mudar para o andar superior do Mercado da Ribeira, ainda em obras. A mudança de hábitos e de frequência nocturna do bairro que o restaurante, há mais de 30 anos, tanto ajudou a ser conhecido por novas gerações (inclusive a minha) foi fatal e os sócios decidiram que era hora de partir. Esperemos que a mudança, que está prevista para o início do próximo ano (embora se saiba como é isto de obras…), não afecte a qualidade da oferta e que o Pap’ Açorda continue a ser uma referência quando falamos de cozinha regional portuguesa bem feita e bem apresentada.

 

20141112_LF_DSC_0811.jpg

Mas vamos finalmente à principal razão do convite - a outra eram novos pratos de Alexandre Silva - os vinhos de Malkovich. Dão pelo nome de LQLC, sendo que as duas primeiras letras são as iniciais da quinta, Les Quelles, adquirida pelo casal Malkovich há cerca de 20 anos, e as duas últimas referem-se à aldeia provençal onde se situa, Lacoste. Foram apresentados dois tintos que recorrem a castas pouco usadas na região, onde predomina a Syrah, mas que são muito do gosto do actor norte-americano: Pinot Noir e Cabernet Sauvignon. 

 

Os dois são das primeiras colheitas das novas vinhas que Malkovich plantou, datadas de 2011, um ano que, tal como em Portugal, foi muito bom na região (segundo o “produtor”, 2014 não foi grande coisa), e se o Pinot Noir, apesar de mostrar a tradicional elegância da casta, parece ainda não estar pronto a ser bebido (“viaja mal”, considera Malkovich), o Cabernet Sauvignon já está bem agradável, sobretudo sendo um vinho novo e mais exuberante. Os dois vão estar em exclusivo na Bica do Sapato, a 25 euros e 30 euros, respectivamente, sendo os únicos vinhos estrangeiros a figurar na carta do restaurante.


Há ainda um rosé de Cabernet Sauvignon, de 2012, mas não está disponível em Portugal. Actualmente, produzem na quinta um total de 10 mil garrafas e o objectivo é chegar às 20 mil, em parte devido às novas vinhas de Carménère, outra casta muito apreciada por Malkovich e a ideia é exportá-las, principalmente para os EUA e Grã-Bretanha. Um projecto já com alguma dimensão, que se deve em grande parte à vontade de Nicole Malkovich, italiana de Turim, de família francesa.

 

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 Quanto aos pratos de Alexandre Silva, este tipo de ocasiões não é a ideal para os apreciar, com mais de 30 pessoas à mesa, mas cumpriram bem a sua função, uns melhores que outros. Nos aperitivos, uma terrina de salada de polvo sem grande história, um tártaro de atum que valia pela companhia de uma fatia em meia-lua de tangerina com um tratamento culinário que não identifiquei, que lhe dava casca negra e óptimo sabor, e uma bela tempura de cheróvia com molho aioli de caril, bem frita e original. A canja de pato com tortellini do mesmo e vegetais (incluindo cogumelos) estava bastante equilibrada de sabores e texturas, apesar de ser o tipo de pratos que deverá ter sofrido mais com o número de comensais, sobretudo no ponto de cozedura da massa, algo dura. Seguiram-se dois pratos de arroz, um de lavagante, num óptimo ponto, e outro com salpicão da Beira, um pouco salgado e agressivo, que acompanhava paleta de borrego (na foto) que também não me entusiasmou, apesar do belo efeito na mesa. Por fim, destaco um excelente sorbet de goiaba, com tiras de casca de laranja, que surgiu na altura ideal, com a sobremesa principal, mousse de castanha com nata azeda e chocolate (vinha anunciado como “molho quente” mas veio sólido e frio), a mostrar-se bastante pesada para final de refeição.


Olhando para o novo menu da Bica do Sapato, fico a pensar que Alexandre Silva pode mais, mas também sei que é preciso contentar uma clientela bastante vasta e nem sempre com abertura para grandes experiências culinárias. Creio que, também por experiências que lá tive como cliente “normal”, está a fazer um trabalho digno e positivo num restaurante que continua a ser dos mais bem frequentados da cidade, por nacionais e estrangeiros. E isso é muito válido.

 

Fotografias: Luísa Ferreira

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publicado às 11:30


3 comentários

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De Rutilene M Silva a 18.11.2014 às 12:54

O John Malkovich é um dos meus atores preferidos.
Ele fez algum comentário que o surpreendeu?
No meio de tanta gente, conseguiram falar?
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De Duarte Calvão a 18.11.2014 às 14:03

Tive a sorte de calhar à direita de Nicole Malkovich e ele estava sentado em frente a ela. O que mais me surpreendeu foi a naturalidade como ele falou sobre diversos temas, sempre numa perspectiva interessante, ouvindo os outros e deixando que as conversas fluíssem agradavelmente. Achei interessante saber que ele e a mulher já quase não vão ao cinema porque gostam pouco da grande maioria dos filmes que se fazem actualmente. Mas está bastante a par do trabalho dos realizadores mais independentes e originais (como eu não estou, perdi essa parte da conversa). Também que o seu nome é de origem croata (afinal, o gosto pelo vinho mediterrâneo talvez esteja no sangue...), que deve ter parentes na Croácia, mas não se corresponde com nenhum, e que nunca ninguém lhe pediu para mudar o nome para algo mais "americano, como antes se fazia em Hollywood. Aliás, segundo diz, quase todos os actores actuais apresentam os seus nomes verdadeiros. Pareceu-me que ele se interessa verdadeiramente por Portugal, fez várias perguntas sobre restaurantes, sobre vinho e sobre moda, por exemplo, já que também havia jornalistas dessa área ao seu lado. Gosta muito de vinhos da casta Alvarinho, até já pensou em plantá-la na sua quinta na Provença e, contou-me Nicole, fizeram uma viagem de automóvel desde a Galiza até Lisboa, com uma paragem em Ponte de Lima, local de que guardam óptimas recordações. Não deixa de ser curioso pensar qual terá sido a reacção dos limianos ao verem uma "estrela" desta dimensão a passear entre eles com todo o à vontade. Aliás, parece que o fazem frequentemente, sobretudo na Europa. Enfim, estas "revelações" já vão longas e espero que, não tendo nada de sensacional, a façam gostar mais de um dos seus actores preferidos. Eu, depois deste almoço, fiquei.
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De Rutilene M Silva a 05.12.2014 às 11:35

Belas "revelações".

O John Malkovich pareceu-me uma pessoa simples, com uma mente aberta às outras culturas, o que é bonito de se ver.

Obrigada por partilhar.

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