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Restaurante Arola - Penha Longa (Sintra)

por Miguel Pires, em 31.10.14

Dueto ibérico a acompanhar

  

Arola 7.jpg 

Entre os vários restaurantes presentes na última edição do Peixe em Lisboa fui surpreendido com as propostas do Arola – Penha Longa, sobretudo, com uma pescada assada com espinafres tépidos, caril alimonado e crumble de amêndoas. Nem sequer sou grande fã deste peixe, venerado em alguns zonas do país vizinho, ou até mesmo do norte de Portugal. Contudo, aquela pescada de anzol ficou-me no goto e, andando por Sintra, num destes dias de Verão, resolvi aparecer para almoçar.
 
 
O Arola é um dos 3 restaurantes do Penha Longa. Os outros são o Il Mercato, de cozinha italiana, e o Midori, um dos melhores japoneses em Portugal e onde o chefe Pedro Almeida tem vindo, igualmente, a fazer um bom trabalho. Já várias vezes elogiei o facto deste resort da cadeia Ritz-Carlton privilegiar, desde sempre, a vertente gastronómica, mesmo que lamente nunca terem apostado num bom restaurante de cozinha portuguesa – o que faria sentido tendo em conta que a maior parte da clientela do hotel é estrangeira.
 
 
Como é sabido, este restaurante é uma das várias casas do famoso  chef espanhol Sergi Arola – cujo o seu restaurante madrileno Sergi Arola Gastro tem 2 estrelas Michelin. Contudo, esta operação não é um mero franchise de qualquer outro modelo deste chefe. De facto, os pratos do Penha Longa são essencialmente tapas contemporâneas e existem mesmo algumas propostas que são imagem de marca de um modelo mais informal do chef catalão, como é o caso das ocas (a versão catalã da pizza), ou das batatas bravas. Porém, sempre foi dada uma certa liberdade ao chefe residente para criar e propor pratos locais desde que em coerência com a filosofia do seu mentor e com o conceito definido. Foi assim que sempre conheci o espaço e é assim que continua, com o português Milton Anes, como interlocutor de Arola no restaurante. Anes - que trabalhou no Bristol (Paris), no Eleven e no Tavares, com José Avillez (ambos em Lisboa) - é um chefe seguro, criativo e tecnicamente muito competente. Foi essa a ideia com que fiquei no Peixe em Lisboa - num espaço, que embora com boas condições, não tem todos os apetrechos de um restaurante – e que agora confirmei neste almoço.
 
 
Como referi no inicio deste texto, andava por Sintra quando decidi aparecer na Penha Longa, sem reserva ou aviso prévio. Ao chegar optei por um lugar na varanda, para poder desfrutar da magnifica vista para o campo de golfe e para a Serra de Sintra. Como calculava, a carta de almoço é mais simples do que a do jantar, dado que o restaurante funciona durante o dia como apoio a golfistas famintos. Todavia, perguntei se poderia fazer uma das degustações do jantar (o menu de 8 pratos, 45€) e, após consulta à cozinha, a resposta foi afirmativa.
Antes do desfile começar veio o habitual pan amb tomàquet, um simples prato da cozinha catalã, tão comum e apreciado por esses lados, que até costuma ser servido ao pequeno almoço. Numa taça vinha um cacho de tomates maduros, pequenos, e uns dentes de alho, que depois de ambos serem esfregados no pão e regados com um fio de azeite... hum, não é preciso explicar mais pois não?  Até com o pão torrado, um pouco ressequido, soube bem.
photo 1.JPG
 
Embora apresentado como um o amuse bouche, a primeira proposta a sério, era digna de fazer parte do menu. Refiro-me à gulosa, simples e bem pensada carbonara de cebola, com todos os elementos do popular prato italiano, mas com a cebola a fazer a vez da massa. Depois veio a sardinhada de polvo (na foto de cima). A sardinha, gorda e ligeiramente avinagrada (passou por um processo de cura), vinha muito bem acompanhada com uma salada de polvo cortado finamente e com o pimento vermelho, um elemento vegetal muito comum, quer na sardinha assada, quer numa salada de polvo.

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As asinhas de frango trufadas com sésamo (em cima, na foto) levou-nos para oriente, mas com um incrível molho de aves à francesa. Delicioso e mais uma vez, simples qb, criativo e bem executado. Aliás esta foi mesmo uma constante ao longo de toda a refeição. Não fosse o facto de alguns ingredientes principais serem bons, mas não de topo e teria sido mesmo um caso sério. Um exemplo do que acabo de referir foi o que aconteceu com os espargos em maionese lacto com “areia” de azeitona (abaixo, na foto). O conjunto funcionava bem, mas os espargos embora frescos não eram de grande sabor.
Antes vieram umas lascas de lombo ibérico com parmesão, maçã e pistáchio, uma boa ideia de que pode ser um interessante carpaccio ibérico.
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Continuámos a bom nível (e ritmo) com a beringela assada com cebola, pinhões e cebolinho (foto abaixo) - excelente o toque fumado que a beringela deu ao conjunto- e a fasquia só desceu uns furos com as gambas al ajillo, devido à qualidade das gambas, ligeiramente cruas, mas brandas no palato -  salvou o prato o molho tipo bisque feito com as cabeças das ditas (e mais qualquer coisa, certamente).
Menos conseguido, também,  o prato de vieiras com molho de citrinos. Pareceu-me um pouco ao lado num menu de Verão, sobretudo, porque talvez esperasse um tratamento a cru, ou próximo disso, dado que são ambos produtos que funcionam muito bem desta forma. Porém este foi apenas um pequeno desvio no padrão dado que o último dos pratos salgados, o ravioli com rabo de boi e foie gras, voltou a elevar a contenda.
Em termos de sobremesa registe-se uns curiosos merengues com morango e gelado de wasabi. Na altura julguei que fosse apenas um pré-dessert, mas, agora, pensando bem, até que a linha agradece.
 photo 4.JPG
 
A carta de vinhos do Arola vem num iPad, modernice dispensável a menos que se tenha umas mil referências na carta, o que não é o caso. Contudo, embora a carta não seja extensa está bem apetrechada, ainda que com preços excessivamente inflacionados, uma prática infelizmente comum em muitos hotéis – valha-nos a existência de uma ou outra opção de escapatória, nomeadamente nos vinhos a copo, com preços a partir de 5€. É claro que para acompanhar uma refeição com várias variações como esta o ideal é escolher um vinho com uma certa complexidade. Foi o caso do belíssimo Quinta Foz do Arouce 2010, um branco das Beiras ao estilo borgonhês. 
 
Por último,  em relação ao serviço, houve algumas oscilações e algum atendimento in english, mas sempre com cordialidade e eficácia.
 
 
O Hotel da Penha Longa continua a dar cartas com os seus restaurantes e estes merecem, sem dúvidas, uma maior atenção por parte do público. A começar por este Arola e pelo trabalho de Milton Anes. 
 
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 ravioli com rabo de boi e foie gras
 
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 merengues com morango e gelado de wasabi
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Contactos: Restaurante Arola, Resort Penha Longa, Estrada da Lagoa Azul Sintra - Linhó Portugal; T: +35 1 21 924 9011
 
Classificação:
 
Cozinha: 17,5 ; Sala: 17 ; vinhos: 17
 
 
Texto publicado originalmente na revista Wine - A Essência do Vinho nº86 (Julho/Agosto)
 
 
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publicado às 11:39


1 comentário

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De Só entre nós a 31.10.2014 às 13:46

No nosso caso optámos pelo menu de degustação de almoço e, no geral, foi uma refeição muito agradável com bons pratos.
Análise completa aqui:
http://soentrenos.blogs.sapo.pt/arola-sintra-6414

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