Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Restaurante Palco (Hotel Teatro - Porto)

por Miguel Pires, em 23.06.14
 Uma encenação de bom nível

 

 

O empregado aproxima-se da nossa mesa e, sob uma luz que lhe deixa parte do rosto na penumbra, dá as boas noites e inicia a explicação do menu. Estando num restaurante de nome “Palco”, que por sua vez, faz parte de um hotel de nome “Teatro”, fico na dúvida se o monólogo é encenado. Talvez não. O empregado é simpático, embora um pouco tímido até, e lá continua, com a sua voz pausada e ligeiramente colocada. Ficamos a saber que o menu Palco (65€) comporta 7 pratos e que o pairing com vinhos tem um extra de 25€. Já o menu “Almeida Garret” (44€) inclui menos dois pratos e, acompanhá-lo com vinho, acresce em 17€. Todos estes pratos podem ser pedidos individualmente, à carta (com preços entre 13€ e 25€), tal como as sobremesas (entre 6€ e 9€).
 
Ficamos ainda a saber que, além do anunciado, existe, ao almoço, uma carta mais económica composta por “pequenos cenários”. Em ambos os casos a matriz de base é portuguesa, com influências internacionais, sendo que à noite é mas visível a criatividade do jovem chefe Arnaldo Azevedo. Por sua vez a carta de almoço segue uma vertente mais petisqueira, ainda que com um toque autoral.
 
A casa está composta e reina um ambiente descontraído, muito diferente da frieza que muitas vezes associamos a restaurantes em unidades hoteleiras. É verdade que o Hotel Teatro tem uma atmosfera muito própria e a decoração contemporânea da sala é quente e particularmente feliz. Resumindo: o Palco é um restaurante onde apetece ir e ficar. Mas será só pelo ambiente?
 
Aspecto da sala principal do Palco 
Era a segunda vez que ali estava. A primeira aconteceu um ano antes num jantar harmonizado com vinhos da Madeira (de mesa e generosos). Na altura fiquei agradavelmente surpreendido com as respostas do chefe a uma panóplia de vinhos nem sempre fáceis - uns porque eram bons de mais, outros porque nem tanto.
 
Arnaldo Azevedo ainda não chegou aos 30 anos mas revela uma grande segurança ao nível da execução, para a qual deve ter contribuído, certamente, a sua passagem pelo extinto restaurante Amadeus (do chefe austríaco Siegfried Danler Heinemann), em Almancil, na altura com uma estrela Michelin. Notei essa solidez na altura, no jantar com vinhos da Madeira, e, também agora, nesta refeição mais recente. Em termos criativos nota-se que Azevedo está atento ao que se passa no mundo da cozinha contemporânea e faz bem a síntese, no prato, com os conhecimentos que adquiriu e com as vivências e a cultura onde se insere. Contudo fica a sensação que possui qualidades para ir mais longe, assim tenha condições para o fazer. Há propostas nos menus, nomeadamente no que escolhemos, o “Almeida Garret”, que estão lá como os ‘hits’ nos álbuns de músicos interessantes. Servem para o prazer imediato, sem ter de se pensar muito. Outras, como o pato das Landes, por exemplo, são de um refinamento e de um apuro técnico admirável.
O jantar começou com uns amuse bouche muito valorizados não só pelo sabor, mas igualmente pelos recipientes de aço e madeira em que foram servidos. O primeiro era um cannoli de creme de queijo e camarão, com um toque de caril; o segundo, um cone de salmão fumado com espuma funcho. Para finalizar, dois croquetes envolvidos em panko, um de alheira e queijo da serra (com um toque de aipo) e o outro, de morcela da beira.
photo 1.JPG
vieira com puré de couve flor
tamboril, risotto de lavagante e espargos brancos
Palato entretido, beliscadela no pão (demasiado banal para estar ali) e chegou o primeiro prato: vieira com puré de couve flor (e que vem habitualmente com barriga de atum rabilho, mas que nesse dia não havia). A vieira estimula a gula de qualquer um. Bem corada, ligeiramente crua no meio e conjugada com couve flor, até uma criança de apetite difícil pede por mais – mesmo que deixe de lado o coração de tomate, o toque de mestre que aporta a acidez certa ao conjunto. É um dos ‘hits’ que falava. Outro, ainda que em parte, veio logo de seguida. Refiro-me ao “tamboril, risotto de lavagante e espargos brancos”, servidos numa cataplana: o tamboril e os espargos de um lado, o risotto do outro. Ambos muito bem feitos e saborosos. Porém, para dizer a verdade, não encontrei uma ligação evidente entre os dois, nem sinais de terem sido confeccionados na cataplana, ou pelo o seu método. O risotto (o ‘hit’) parece estar lá para dar substância, mas, na realidade, mais parece um outro prato. O que, para ser concreto, acaba por ser um bónus - dir-me-ão alguns, mais adeptos da substância do que do conceito.
photo 3.JPG
 terrina de rabo de vitela e de foie gras com cantarelos
peito de pato, cenoura com especiarias, gnocchis e beterraba
Belíssima, a proposta seguinte, uma espécie de terrina de rabo de vitela e de foie gras com cantarelos (cogumelos) e pão torrado no topo. Impressiona mesmo, o paladar do rabo de boi, com o foie a dar um toque distinto e uma maior extensão de sabores. Contudo, o prato da noite foi mesmo “peito de pato, cenoura com especiarias, gnocchis e beterraba”. Primeiro, pela qualidade dos produtos: do peito de pato das “Landes” e dos legumes. Depois, pela execução irrepreensível: o pato no ponto rosado e pele bem tostada, como mandam as regras; o gnocchi  guloso (mas não gorduroso) e os legumes entre o cru laminado e o cozido ‘al dente’. Tudo conjugado por sobreposição, com uma ou outra nota contrastante. Sem dúvidas um prato de primeiríssima água - mais um ‘gnocchi’ e ia buscar um inspector da Michelin por uma orelha.
photo 5.JPG
“a janela do meu quarto”
A entrada no capítulo doceiro fez-se com um elegante conjunto de frutos vermelhos e yuzu, com uma infusão fria de notas cítricas. Quem liga aos detalhes vai gostar muito desta passagem. Talvez mais até do que da própria sobremesa prosaicamente descrita como, um semi-fio de queijo fresco com manga e maracujá e frutos secos em vinagre balsâmico.
 
Em relação aos vinhos, a carta não é extensa mas entre as cinquenta referências de vinhos de mesa, das quais metade disponibilizadas a copo, há um pouco de tudo e – eis a boa notícia – a preços muito convidativos. Só para dar o exemplo, refira-se o caso dos espumosos: uma flute de champanhe Taittinger brut custa 6.50€ e, no caso dos espumantes nacionais disponíveis, fica em 4.5€. A refeição descrita foi acompanhada pelo alvarinho da região dos Vinhos Verdes, Soalheiro 2012, que mostrou a sua versatilidade com os pratos mais ligados ao mar. Com o rabo de boi e com o pato escolhemos o clássico Vinha Grande 2010, um tinto duriense da Sogrape que tão bem tem resistido a modas e tendências.
Por último, o serviço foi amável e competente, ainda que com alguma demora entre pratos. O monólogo do inicio não se repetiu no final, pelo que saímos de cena logo que cerrou a cortina (leia-se: assim que pagámos). E saímos satisfeitos com a nossa refeição em vários actos, com o ambiente e, não menos importante, por ficarmos com a noção que embora seja bem vinda um pouco mais de ousadia, temos chefe. Que o espectáculo continue neste Palco, portanto. 
 
Preço médio (entrada, prato, sobremesa e vinho): 20€ (almoço); 40€ (jantar). Pela refeição descrita, com água e café pagou-se 60 euros.
 
Contactos: Morada: R. de Sá da Bandeira 84, Porto, Telef: (+351) 220 409 620
Horário: Segunda a domingo, das 12:30 às 15:00 e das 19:30 às 22:30.
 
Classificação:
Cozinha: 17,5 ; Sala: 17; vinhos: 17

 

Texto publicado originalmente na revista Wine nº84 (Maio 14)

Leia ainda:

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:10


1 comentário

Imagem de perfil

De Só entre nós a 25.06.2014 às 15:02

A visitar numa próxima ida ao Porto.
Obrigado pela dica e boa review.

Comentar post



PUB


Os autores

Duarte Calvão (perfil)
Miguel Pires (perfil)

Porquê?

Três autores há vários anos ligados à gastronomia e vinhos criaram este espaço para partilhar com todos os interessados os seus pontos de vista sobre o tema (ver "carta de intenções").

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Siga-nos no facebook


Mesa Marcada no Twitter


Confira os premiados e as listas...



Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Pub





Calendário

Junho 2014

D S T Q Q S S
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
2930

Comentários recentes

  • PR

    "Porém, e ao contrário do que muitas vezes se escr...

  • PR

    Tão grande foi o choque da perda da terceira estre...

  • Paulo

    Não se aborreça Miguel. As redes sociais são impla...

  • Paulo

    Não conhecendo os motivos do encerramento, se calh...

  • joana

    sardinhanalfabeto!