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A comparação parece idiota, mas como é feita pelo insuspeito Guardian, neste artigo, dá sempre para passar a bola. Parece que a moda começou em São Francisco, num café frequentado pela malta das empresas tecnológicas da região, que aos 20 anos já não sabem o que fazer ao dinheiro. Dali alastrou-se a outros cafés da cidade e, já se sabe, como são as modas: propagam-se como um vírus. O jornalista do Guardian leva o assunto dos Estados Unidos para Inglaterra onde encontra, também, alguns exemplos que testemunham que o assunto - servir uma torrada feitas de bom pão artesanal - não é virgem por ali.

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Aqui há uns 10 anos, eu e a namorada da altura, íamos todos os sábados a uma pastelaria diferente, em Lisboa, tomar um pequeno almoço de galão e torrada. A ideia era para ter dado um livro, precisamente com esse nome: "Um Galão e uma Torrada". Eu escrevia sobre a parte organoléptica e ela fazia o retrato sociológico do local. Cheguei mesmo definir alguns critérios. Por exemplo: a qualidade do pão, do ponto da tosta, da espessura, da consistência, da qualidade e quantidade da manteiga (o palito do meio nunca pode tombar pela quantidade de manteiga); e, em relação ao galão: a qualidade do leite, o café, a cor, a espuma, copo & colher e a temperatura (um galão deve escaldar ligeiramente a mão, nunca queimá-la). Bom, vários ataques de azia e caixas de kompensan depois, chegámos à conclusão que a relação não duraria os sábados suficientes para reunir um número considerável de pastelarias que desse um livro. E a coisa acabou. O galão, a torrada e o namoro. 
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Recorrendo ao caderninho de apontamentos, que fui desenterrar de uma gaveta, leio que a melhor pontuação que dei, na época, foi à Pastelaria Restelo (mais conhecida pelo Chico Careca), seguida da Nova Lisboa (em Alvalade). Já a pior experiência, terá sido a da Suiça. 
Continuo um adepto do galão e da torrada. O problema é que é raro a conjugação não me dar azia, dada a má qualidade do pão branco de forma que há por aí. Por isso, hoje ainda pratico o desporto, mas sobretudo em casa, recorrendo a um ou outro bom pão de Mafra, do Alentejo ou do Meco, que de vez em quando ainda consigo encontrar, ou às bolas de água da Quinoa, ou ainda, aos belíssimos pães de mistura da Miolo, de longe o melhor projecto de todos os que apareceram, nos últimos anos, a tratar do assunto. 
 
Caros amigos empreendedores atentos às modas, que leram este post até aqui: dêem uma olhada no artigo do Guardian, entrem em contacto com a Miolo e tragam a moda para cá. Praga por praga mais vale uma feita de boa farinha de espelta e/ou centeio, bio, artesanal e confecionada com fermentos naturais, do que um hamburger entre duas fatias de pão entre o sofrível e o miserável. 
 
Nota: não conheço ninguém na Miolo, nem tenho interesses lá. Só no seu pão, que sempre paguei, sem nunca receber uma migalha de borla. É claro que se a Paulina Mata deixasse todos os dias à minha porta um dos seus, o caso mudava de figura. (De vez em quando também faço, mas não fica tão bom).
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Nota2: na primeira foto, o pão que é servido no Viajante, em Londres. Não é uma torrada mas é tão bom, que se o vendessem à porta a fila daria a volta ao quarteirão. A segunda foto é de um pão da Miolo de centeio e espelta com 3 dias. Mnham
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Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 09:40


15 comentários

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De joão Isidro a 16.01.2014 às 10:45

Bom dia,

terei todo o gosto em oferecer-lhe um pão alentejano da padaria da minha família no alentejo.
Padaria que já existe desde 1954 e em que o pão é feito exactamente da mesma maneira, tradicional. O fermento é o chamado isco e o pão é cozido em fornos de alvenaria, a lenha claro.
Infelizmente ainda não se chega a Lisboa, embora já se tenha tentado.

Querendo é combinar e oferece-lho uns pães de lá com todo o gosto,

jisa1974@gmail.com
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De Sr. Salgado a 25.03.2014 às 11:01

Bom dia João Isidro!
Visto ser do Alentejo e ter um padaria familiar, quer sugerir-me um "roteiro" de fim de semana nessa bela terra, incluindo a passagem na padaria? Será a minha primeira de muitas visitas, espero.
Obrigada,

Sofia
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De João Isidro a 25.03.2014 às 15:12

Boa tarde Sofia.

Agradecer o seu convite e a amabilidade dos Administradores deste espaço, em permitir-nos este diálogo.

Não querendo ser deselegante e sendo preciosista, eu não sou Alentejano de registo, sou Lisboeta, no entanto, todas as minhas raízes familiares, gastronómicas, paisagísticas, etc, remontam ao Alentejo, por isso, sim, com orgulho e gosto me assumo alentejano :)

Quanto ao roteiro, parece-me imprescindível passar pela barragem de Odivelas com uma vista e um sossego de cortar a respiração; uma passagem por alcáçovas onde pode apreciar boa doçaria e o museu dos chocalhos; perto de Montemor as grutas de Escoural do sal onde tem o Manuel Azinherinha como paragem obrigatória para refeição; na vila do Torrão tem vestígios romanos que pode visitar, uma igreja manuelina, um museu etnográfico na vila e a paisagem e as gentes. A padaria claro, um ponto obrigatório. A visitar a padaria recomendo-lhe a partir das 19 horas, já pode ver a laboração e eventualmente a alguém que a acompanhe a ver a padaria por dentro, onde, repito, é tudo feito de modo manual. Não há silos que transportem farinha nem máquinas que arrefeçam a água e a transportem para as batedeiras. O pão é mesmo metido no forno e tirado com as famosas pás de madeira. Se quiser ver esse espectáculo sugiro-lho a partir das 19 horas num sábado. Se quiser encomendar algum bolo sugiro que o faça com alguns dias de antecedência, visto que nem todos são feitos todos os dias. Recomendo-lhe as queijadas (feitas mesmo com requeijão fresco e não soro de leite em pó), a torta de laranja e o bolo de coco ou raiva. Não deve perder as costas, seja na versa estendida ou dobrada. O pão, o clássico pão de cabeça, mas se pedir um pão de forma vai ter uma surpresa, já que este é feito com receita antiga e artesanal, ou seja, leite em pó e não preparados químicos disponíveis no mercado. Uma tradicional carcaça ou papo-seco, como lhe queira chamar, também é, certamente, diferente do que se come nas grandes cidades. É tudo feito sempre sem químicos. O creme de pasteleiro é mesmo feito com ovos, não daquele que vem em baldes de 5 kg já preparado.
Se estiver pela vila no fim de semana, recomendo a passagem pelo mercado da vila onde ainda pode ter o raro privilégio de comprar legumes da horta do senhor "Manel"(nome ao acaso), semeados no seu terreno.
Quanto a restaurantes, na vila do Torrão em si, sugiro-lhe o Excelentíssimo, como uma vista ao nível de um Eleven e onde a comida é boa. Mais tradicional e igualmente generoso nas doses, frescura e primor na preparação tem o "Marinho", nome como é conhecido o espaço, mas cujo nome na porta é café boa-vista (senão erro). Não deixe de lá ir provar uma bifana. Na vila nova da baronia tem o restaurante Camões, muitíssimo bom.
Também tem uma pastelaria, da família Carapinha onde pode adquirir boa doçaria regional.

Tem um bar muito engraçado na vila, o "4" onde pode à noite ir beber um copo num espaço muito rústico e tradicional.
tem também na vila do torrão o café Merendinha onde os doces também são fabricados pela proprietária e recebe um sorriso enorme ao lá entrar.

tem depois ali a meia hora Évora.

Espero ter ajudado.
Qualquer questão disponha. Disponibilizo-lhe o meu mail se achar pertinente.
Cumprimentos
João Isidro.
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De Sr. Salgado a 26.03.2014 às 13:05

Caro João,
Não contava com uma resposta tão cedo e por isso mesmo quero agradecer as várias sugestões que fez e sua simpatia também! Ainda não decidi quando farei a viagem mas vai ser em breve, graças às suas dicas preciosas para me orientar! Já tendo os destinos apontados só falta planear a deslocação e estadia se for o caso.
Muito obrigada pela sua disponibilidade.

Sofia
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De Sr. Salgado a 02.04.2014 às 13:45

Boa tarde João,
Vou aceitar o seu email para esclarecer alguns detalhes da minha visita a terras alentejanas, pode ser?

Com os melhores cumprimentos,

Sofia
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De João Isidro a 04.04.2014 às 18:17

Boa tarde,

o meu email é: jisa1974@gmail.com

Cumprimentos
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De Anónimo a 16.01.2014 às 10:45

De facto o pão da Miolo é delicioso e ainda não encontrei melhor, mesmo em padarias ditas artesanais.

Quanto às torradas, já se vão encontrando em pão alentejano em algumas pastelarias de Lisboa, mas que uma loja de torradas de pão artesanal seria uma tentação, isso seria.
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De Miguel Pires a 16.01.2014 às 13:52

Ficaria muito satisfeito que este post servisse para que se debatesse o assunto; que os nossos leitores nos revelassem locais onde se come um bom pão ou uma boa torrada de pão artesanal (ou semi industrial) e, também, para nos indicarem padarias como a da familia do João Isidro que ainda fazem e cozem o pão de forma artesanal.

p.s. Caro João Isidro, vou enviar-lhe um email a lançar-lhe um desafio
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De Luis Santos a 16.01.2014 às 17:38

Tão bom como o pão do Viajante são as manteigas que o acompanham. Uma brown butter e um manteiga com cinza.
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De Anónimo a 22.01.2014 às 12:21

No café Xangai, em Freixo de Espada à Cinta, pequena vila do distrito de Bragança, há mais de duas décadas que torradas e tostas são feitas com pão de aldeia.
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De Ângela Silva a 27.01.2014 às 09:58


Concordamos que o nosso pão dá umas belas torradas :-) Em nome da equipa da Miolo agradeço o destaque que nos encheu de orgulho. Continuaremos a trabalhar!
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De teixeira a 25.03.2014 às 23:56

Senhora Ângela Silva. Prometo ir a Cascais conhecer a padaria. Mas, enquanto não posso, onde encontrar em Lisboa os pães de vossa fabricação? Agradeço a gentileza da resposta.
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De Ângela Silva a 31.03.2014 às 10:36

Bom dia Sr Teixeira, já não nos encontramos em Cascais e de momento não temos loja própria. Em Lisboa pode encontrar os pães da Miolo nos Supermercados Brio, Miosótis, Lojas Celeiro, Terrapura e Delidelux.
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De Susana a 15.10.2014 às 17:52

Confesso que não sou muito destas coisas dos blogs, para ser sincera esta é a primeira vez que faço um comentário desta natureza mas achei que me identificava tanto com o texto que não podia deixar de comentar. Lá em casa também somos fã da torradinha e do galão, bem escuro para mim :). Temos o ritual de tomar o pequeno almoço fora aos Sábados mas as desilusões são já muitas. Ou o pão não é bom ou vem demasiado torrado. Por isso eu e o meu marido decidimos todos os Sábados passar a ir a uma pastelaria diferente, à procura de experiencias novas, e quem sabe encontrar aquela "torradinha" quase perfeita :)! Assim sendo, peço ao Miguel, se não se importar, de me sugerir algumas para visitar. Fiquei surpreendia com a da Nova Lisboa, passo lá todos os dias e nunca me ocorreu que as torradas fossem boas. Gosto do pão consistente e massudo, nada daquelas torradas servidas na maioria dos cafés de Lisboa de pão de forma branco. Estive a fazer algumas pesquisas e aparecem muitas agora em Lisboa. Encontrei a Ratton, a Quinoa, a Tartine, a Choupana.. Vou começar a minha tour este fim de semana. Obrigado
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De Miguel Pires a 16.10.2014 às 11:43

Susana
Obrigado pelo seu comentário e por partilhar conosco a sua experiência. Confesso-lhe que não tenho praticado este desporto, até porque sou um perigo de mau humor se saio de casa sem comer. Assim, de repente, volto a recomendar o Chico Careca, no Restelo, que falo neste post. E se for lá não se esqueça de trazer meia dúzia de palmiers :) . Depois dê notícias

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