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DOP Portugal?

por Rui Falcão, em 08.12.12

 

Os nomes são importantes. Um nome tem sempre uma mensagem associada, seja ela positiva ou negativa, moderna ou antiquada, justa ou injusta. Como qualquer aspirante a estudante de marketing poderá afiançar de bom grado os nomes são decisivos para vender uma região, para vender um país, para vender uma mensagem, para vender um conceito, para vender um estilo de vinho.

Sem estratégia, sem uma boa mensagem e sem um nome proveitoso, a promoção transforma-se numa tarefa realmente penosa. Escolher um nome eficaz e conveniente, um nome que seja simultaneamente agradável e entusiasmante, um nome que se confunda facilmente com qualidade, originalidade, exclusividade e com uma origem, com um lugar de nascença, é a ambição de qualquer responsável de marketing e o objectivo de qualquer gestor de comunicação e relações públicas.

O mundo do vinho, um mundo onde muito para além do vinho em si mesmo ainda se vendem emoções e sensações, é especialmente sensível ao apelo de um nome sonante, seja ele uma casta, uma região, um país, um enólogo ou um produtor. Ainda antes de se provar um vinho a maioria já está condicionada pelo nome da região, pelo nome do produtor, pelo nome do rótulo, pelo nome da casta que aparece em destaque ou por um outro nome qualquer que chame a atenção. Quanto mais se sabe sobre vinho, quanto maior for a sapiência e a dedicação aos mistérios do vinho, maior será a dependência de um bom nome e maior será o destaque emocional dado a coisas tão estranhas como a origem da madeira das barricas ou o nome da tanoaria que construiu as barricas.

No vinho, tal como em qualquer outra actividade económica, existe um par de nomes especialmente felizes, nomes consagrados pelo tempo, pelas circunstâncias ou por uma estratégia de promoção especialmente brilhante que fazem prosperar os produtores que beneficiam pelo seu aproveitamento. Veja-se, se atentarmos somente no figurino português, o caso dos nomes Alentejo ou Douro, nomes que por si só são já potenciadores de vendas, nomes que pelo simples facto de constarem num rótulo ou contra-rótulo já ajudam a vender graças à imagem positiva e de confiança que proporcionam e transmitem.

No entanto poucos se podem orgulhar de possuir um nome tão positivo e condicionador como os produtores de Champagne, o nome mais feliz e indiscutível do mundo do vinho, o nome que faz soltar suspiros de alegria entre consumidores do mundo inteiro e suspiros de inveja em produtores de vinhos espumantes no resto do mundo. Um nome que transmite uma imagem perfeita e entretanto consagrada de prestígio, de pujança económica, alegria, fortuna e comemoração. Apesar de a região produzir muitos milhões de garrafas por ano, apesar de alguns dos produtores mais prestigiados produzirem perto de vinte milhões de garrafas anuais, os vinhos da região de Champagne e os seus produtores continuam a gozar de uma imagem de prestígio, exclusividade e luxo que só pode ser justificada pela criação de um nome que a promoção tornou perfeita.

Os vinhos de Champagne abafam os demais vinhos espumantes do mundo. Seja qual for o produtor, seja qual for a região, seja qual for o país, os restantes vinhos espumantes terão de se debater numa segunda liga, no campeonato da segunda divisão, incapazes de se esgueirar até aos postos cimeiros. Portugal, infelizmente, nem tem condições para combater nesta segunda liga mantendo-se tolhido na discussão da terceira liga, das distritais, incapaz de apresentar um nome alternativo que pudesse ajudar a ganhar consistência.

Cientes desta contrariedade outros países criaram há muito um nome seu, um nome próprio para os vinhos espumantes, um nome que identificasse os seus vinhos por um nome com personalidade. Se os italianos ganharam asas com o nome Prosecco, os espanhóis cedo brilharam com a denominação Cava, nome que rapidamente ganhou prestígio suficiente para o colocar entre os substantivos mais reconhecíveis dentro do mundo do vinho internacional. Cava transformou-se num dos trunfos mais saborosos e substanciais de Espanha, um nome universal que todos ligam instintivamente aos vinhos espumantes de Espanha. Uma vantagem comercial que durante muitos anos aprendemos a admirar e a cobiçar.

Talvez surpreenda por isso saber que um número crescente de produtores de vinhos espumantes espanhóis, sobretudo da denominação catalã de Penedes, alma, coração e berço dos vinhos espumantes espanhóis com cerca de 95% da produção total de vinhos espumantes, esteja a debandar do nome Cava, preferindo esconder o nome do rótulo refugiando-se na designação genérica de vinho espumante espanhol. Curiosamente, mas não estranhamente, têm sido os melhores produtores, os de maior reputação, quem deseja abandonar o nome Cava, um nome aparentemente castrador porque ter ficado associado internacionalmente a espumantes baratos e simples, vinhos vendidos a preços insignificantes que raramente conseguem ultrapassar a fasquia dos 5€ por garrafa.

Produtores reféns de um nome pouco recomendável, vítimas de uma regulação demasiado permissiva e vítimas da companhia de alguns agentes menos cumpridores e menos conscienciosos que transformaram o preço numa arma de assalto, permitindo descontos cada vez mais substanciais à procura de uma ilusória quota de mercado. Por outras palavras, a destruição progressiva de um nome que começou por ser um sinal de sucesso… para se transformar lentamente no pesadelo que é tão característico dos países mediterrânicos, a destruição de conceitos e o aproveitamento desbragado por parte de alguns que não se importam da desgraça colectiva.

Por isso seria tão preocupante a hipotética criação de uma denominação de origem Portugal, um nome que englobasse o país como um todo. Se no início e no conceito a ideia seria bondosa, rapidamente a prática seria desastrosa, com a desventura suprema de o nome envolver todo o país, todas as regiões, todos os produtores…

 

 

Texto publicado originalmente no suplemento Fugas do jornal Público em 17 de Novembro de 2012

 

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publicado às 17:02

Um Fugas a não perder

por Rui Falcão, em 27.05.11

 

É já amanhã, sábado, dia 28, que irá ser publicada mais uma edição especial do suplemento Fugas, do jornal Público, inteiramente dedicada ao vinho, numa parceria entre a Revista de Vinhos e os colaboradores do jornal Público.

Como seria de esperar numa edição especial a ser publicada no final do mês de Maio, o mote principal serão os vinhos de Verão, os vinhos para os dias de calor… onde se incluem algumas sugestões arrojadas para a estação que se aproxima.

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publicado às 08:00

O lado sombrio do vinho

por Rui Falcão, em 04.05.11

 

O vinho, retrato de paixões mas também espelho de vaidades, desprega notas soltas de festejo e de romance idílico, emprestando uma imagem complexa de serenidade e estatuto, de referência social e de elevação urbana. Ao vinho habituámo-nos a associar um encanto esotérico e repleto de mistério, uma sofisticação bem temperada que soa convenientemente nos círculos mais elegantes e pomposos da sociedade.

De todas as actividades agrícolas, das poucas que por ora ainda subsistem dinâmicas em Portugal, o vinho é a única que extravasa os limites pesados da lavoura, socialmente pouco sedutores, assegurando um estatuto social firmemente cobiçado, numa projecção poética e sonhadora da vida no campo, garantindo uma imagem lírica de uma vida em perfeita comunhão com a natureza… e demais considerações poéticas ou idealistas que a vivência num ambiente ferozmente urbano nos consegue fazer sonhar e acreditar.

Chega-se ao mundo do vinho pela tentativa de preservação e manutenção de um património, de uma tradição familiar, ou, ainda mais prosaicamente, motivados pelo desejo de afirmação pessoal, como remate de um sonho de infância, fundamentados pelo apego a uma vida saudável no campo, ou, mais invulgarmente, por genuína e despudorada paixão. Mas raros são os que chegam ao vinho atraídos e convencidos da racionalidade económica da decisão, imbuídos pela vontade sustentada de afirmação financeira, capacitados pelo desejo de desenvolver um negócio coerente e viável. Dizia-se em tempos, num tom perfeitamente espirituoso, que as fortunas feitas no campo… logo eram desbaratadas na cidade. Hoje o aforismo inverteu-se no princípio activo, servindo as recentes incursões campestres dos novos agrários… para desbaratar as fortunas antes realizadas nos sombrios corredores da cidade.

Porém, apesar das indisfarçáveis agruras económicas e das perspectivas pouco sólidas de retorno financeiro do investimento, o mundo do vinho tem conseguido manter uma capacidade de atracção notável, seduzindo incessantemente novos actores para a peça, empolgando novos agentes para a causa.

Um mundo que teria tudo para ser belo e primoroso, não fosse a pertinácia de um ténue mas determinante detalhe, a ocorrência de a vasta maioria dos intervenientes no sector do vinho se dedicar quase em exclusivo à produção de uvas, condicionados pelo risco e dependentes dos parcos rendimentos proporcionados pela viticultura, vivendo da venda de uvas para terceiros. Conforme a região ou denominação de origem, da vontade pessoal e da estratégia individual, a maioria destes viticultores, por regra pequenos proprietários, senhores de pequenas parcelas de vinha, entrega as uvas na adega cooperativa local… ou vende a sua produção agrícola a produtores próximos, com quem mantêm parcerias comerciais.

E é sobretudo a estes, aos viticultores, que a vida menos sorri e onde o requinte e o glamour inerente ao vinho menos se sente. Porque o tempo não está de feição para quem vive do rendimento da terra, para quem se limita a entregar uvas na adega ou à porta de produtores. Sobretudo quando, face aos alertas repisados de uma crise que já se sente, e face à falta de escrúpulos que os tempos difíceis sempre soltam, os preços propostos diminuem para valores indecorosos.

A miséria toca já tão fundo que, em inúmeras ocasiões desta campanha, da vindima de 2010, a uva chegou a ser paga a dezasseis e dezassete cêntimos por quilo nas regiões do Dão e Douro, valores escandalosos e manifestamente incompatíveis com qualquer concepção de viabilidade económica da actividade. Só a vindima, como acto agrícola per se, deverá custar ao viticultor mais de dez cêntimos por quilo, a que haverá que somar os custos inerentes a um ano inteiro de trabalho, os encargos dos tratamentos preventivos, das despesas com o pessoal, das expensas fiscais e restantes encargos fixos. Para dilatar a calamidade dos preços vergonhosos, acresce-se o remate final do protelamento no tempo dos pagamentos, por vezes com atrasos indecorosos de mais de um ano!

Se a viticultura fosse uma actividade económica racional, a única solução legítima seria o desamparo da actividade e o abandono das explorações, incrementando a desertificação do empobrecido interior rural. Felizmente, ou porventura infelizmente, o estranho mundo do vinho não se rege pelas mesmas regras que norteiam a sociedade civil. A vontade férrea de preservar o legado familiar das gerações passadas é um dos principais motores para a manutenção de milhares de pequenas parcelas de vinha, sem qualquer perspectiva de rentabilidade. É que só mesmo uma paixão arrebatada e uma incapacidade congénita para completar contas poderão conseguir explicar que tantos viticultores tenham confiado as suas uvas a cooperativas ou produtores, sem saber o preço a que estas irão ser valorizadas… e sem prazo ou limite temporal para que os pagamentos sejam satisfeitos!

A culpa até poderia ser da malfadada crise, ampliada e agravada pelos custos de uma vindima tão abundante como 2010. Desventuradamente, a dificuldade é estrutural e especulativa, aliando os problemas do emparcelamento excessivo da propriedade à fraca preparação e cuidado nas vinhas, agravadas pelo excesso de vinho acumulado nas adegas… associados à exploração e inevitável abuso a que se sujeitam os que não têm alternativas válidas para vender as suas uvas. Não, no vinho nem tudo são loas douradas…

 

Texto publicado originalmente no suplemento Fugas do jornal Público em 30 de Outubro de 2010

 

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publicado às 12:51

Um Premier Cru português

por Rui Falcão, em 06.04.11

 

A tradução ou adaptação do termo Premier Cru, ou First Growth, para a terminologia portuguesa não é fácil nem axiomática, assentando na ideia de um vinho clássico e de historial largo, cujo valor e qualidade se vaticinem absolutamente inquestionáveis, de reconhecimento garantido e universal, sem máculas, de consistência irrepreensível, com um percurso histórico facilmente fundamentado e amplamente documentado.

Por outras palavras, um conceito de difícil aplicação à realidade portuguesa, onde não transbordam os exemplos de vinhos com um passado histórico longo e habilitado, que ultrapasse decentemente metade de um século, com uma consistência qualitativa impecável e sem brechas, e onde subsistam um número de garrafas suficiente que autorize provas regulares que permitam aquilatar sobre os predicados do vinho em causa. Condições exigentes que impedem a atribuição do almejado título de Premier Cru à quase plenitude dos vinhos nacionais.

Porém, um vinho português assoma por entre a plebe, reclamando para si, com toda a propriedade, tão cobiçado brasão de nobreza. Que vinho é esse que poderá aspirar a tamanho estatuto de fidalguia? Um vinho discreto mas erudito, um clássico entre os clássicos, um vinho invulgar e desconforme com tudo o que possa representar a rotina e os padrões estabelecidos, o Vinho do Bussaco, o verdadeiro, e eventualmente único, Premier Cru português. Um vinho, infelizmente, pouco conhecido entre os lusitanos, sistematicamente esquecido e ignorado, sem o relevo institucional que o longo historial, e, sobretudo, a incrível qualidade, lhe deveriam proporcionar.

E no entanto, apesar de tão longos pergaminhos e de tão excelsa qualidade, o celeste Vinho do Bussaco não passa de um mero vinho de mesa, o degrau mais humilde da hierarquia vínica portuguesa, fruto da sua posição fronteiriça entre duas das grandes denominações portuguesas, a Bairrada e o Dão, desfrutando da sua localização física para agregar uvas das duas denominações, procurando justapor o melhor de cada uma das regiões vizinhas. Que o Premier Cru português seja um “vulgar” vinho de mesa é um dos maiores paradoxos e imprevistos em que o mundo do vinho pátrio é fértil…

Para o enorme desconhecimento sobre os vinhos do Bussaco, mas também para a sua inegável magia, concorre a circunstância de os vinhos serem exclusivamente vendidos nos hotéis do grupo Alexandre Almeida, integrados na carta dos restaurantes, com destaque mais que evidente para o belíssimo Palace Hotel do Bussaco, a sua casa, um dos hotéis históricos mais emblemáticos e encantadores da Europa, gizado em estilo neomanuelino como pavilhão de caça para o oceanógrafo rei D. Carlos, vítima do regicídio que viria a marcar o desfecho da monarquia em Portugal.

Os vinhos do Bussaco foram criados por Alexandre de Almeida no início do século passado. Com notável pioneirismo realizou inúmeras viagens de estudo aos hotéis mais emblemáticos da Europa e Estados Unidos, e, fruto da experiência de hotelaria entretanto conquistada, introduziu em Portugal alguns dos conceitos e práticas hoteleiras mais avançadas da época. Entre as suas múltiplas reformas insistiu que o Palace Hotel do Bussaco, enquanto grande hotel de luxo, deveria poder oferecer os seus próprios vinhos, a exemplo do que sucedia em casos idênticos pela Riviera Italiana e pela Côte d’Azur, ter a sua própria adega, constituída por vinhos locais com marca exclusiva da casa como factor de qualificação e distinção.

Numa quadra em que os vinhos de mesa engarrafados continuavam a ser a excepção, mantendo-se o vinho a granel como referência, Alexandre de Almeida projectou e materializou os vinhos do Bussaco, patrocinando o consórcio entre as vinhas da família, plantadas no sopé da Serra do Bussaco, e as uvas compradas a terceiros, escolhidas na Bairrada e Dão, transformando a cave do Palace Hotel do Bussaco na lendária adega da casa onde, continuam a repousar em sereno descanso os grandes vinhos do Bussaco.

Presentemente, apesar de persistir um eremítico exemplar de 1917, as garrafas mais antigas à disposição datam de 1923, conquanto não acessíveis ao público. Porém, se se dirigir ao restaurante do hotel, saiba que na carta poderá desfrutar ainda hoje de colheitas tão antigas como 1944 nos vinhos brancos e 1945, o ano do final da segunda guerra mundial, nos vinhos tintos, bem como de muitos outros vinhos, brancos e tintos, das décadas de 50, 60, 70, 80 e 90, até às colheitas mais recentes de 2007, nos brancos, e 2006 nos vinhos tintos.

Será fácil, e quase inevitável, recear sobre a valência dos vinhos mais antigos, sobre a qualidade e viabilidade das colheitas mais remotas, desconfiar sobre o potencial e patamar de envelhecimento de vinhos tão pouco conhecidos e divulgados… mormente dos vinhos brancos, aqueles que, por tradição, levantam maiores incertezas sobre a guarda. Curiosamente, e em muito recente prova vertical nas caves do Palace Hotel do Bussaco, foram precisamente os vinhos brancos que mais me emocionaram e sobressaltaram. Sem qualquer desprimor para os tintos do Bussaco, maravilhosos por si só, verdadeiramente assombrosos em colheitas como 1960 ou 1958, são os brancos que me assombraram de forma irreparável.

Raramente tenho ocasião de poder provar, em qualquer parte do mundo, vinhos tão jovens e vibrantes, tão austeros e dignos, tão precisos e rigorosos como os brancos do Bussaco. Entre dois belíssimos vinhos jovens das colheitas de 2001 e 2000, diferentes no estilo mas profundamente fenólicos, minerais e densos, gigantes na estrutura, e as colheitas muito mais anciãs, de 1956 e 1955, impressionantes na frescura e dimensão, no final explosivo e incisivo, ainda jovens, duros e secos, percebe-se uma constância e continuidade no estilo, uma consistência e regularidade a que raramente os vinhos portugueses podem almejar.

Um ícone dos vinhos portugueses que poderia, e deveria, ser mais utilizado na promoção dos vinhos nacionais.

 

Texto publicado originalmente no suplemento Fugas do jornal Público em 26 de Março de 2011

 

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publicado às 12:16

Uma visão crua da realidade

por Rui Falcão, em 31.01.11

Muito mais que uma simples bebida, mais que um mero produto alimentar, que também o é, o vinho tende a ser entendido de forma romântica e arrebatada, numa partilha entre uma aproximação visivelmente hedonista e de prazer intelectual, numa visão mais filosófica que racional ou pragmática. Ao vinho continuamos a associar o lazer e o prazer que não defendemos nem associamos a nenhuma outra forma de produção agrícola, apartando-o do mundo mundano da terra para o elevar a um espírito simultaneamente etéreo e intelectual, quase divino no vínculo intimo com a natureza.

Se para alguns o vinho não representa mais que um vulgar apêndice da refeição, um instrumento de conforto material para acompanhar uma refeição, ou mesmo, nos piores casos, um modo directo e económico para a intoxicação, para outros o vinho e a sua fruição anunciam-se como tema central de discussão, esteio suficiente para alimentar conversas intermináveis, para sustentar debates apaixonados, para adubar conversas entusiasmadas. Em redor de uma mesa o vinho incita à tertúlia, propiciando, para quem não perfilha o entusiasmo pelo tema, discussões tão surpreendentes como esotéricas, abraçando teses tão peculiares como diferenças entre diferentes anos de colheita, características de cada variedade, estilos e um sem fim de outras particularidades que nenhuma outra bebida suscita.

Porém, para além de um romantismo latente, o universo do vinho acolhe igualmente, ou deveria acolher, uma vertente mais racional e cerebral, numa visão pragmática e ponderada da actividade, consonante com a razoabilidade financeira de uma gestão rigorosa. Mau grado a imagem idílica e inspiradora do vinho, não nos podemos esquecer que ele é também um negócio… que se exige saudável e rentável para perdurar no tempo. E é aqui, no brutal confronto com a realidade, que muitas das asserções mais poéticas do vinho sofrem o primeiro embate face á crueza das dificuldades das decisões do dia-a-dia.

Infelizmente, são poucos os que conseguem edificar um vinho de forma perfeitamente melodiosa, seguindo os imperativos da natureza, acertando o relógio pelo compasso de cada ano agrícola. São poucos os que têm os recursos e o conhecimento para soltar o vinho de forma genuína e natural. Apesar de vivermos sob a crença de que o vinho segue os caprichos da natureza, que as intervenções são sempre minimalistas, que o timing de cada operação, na vinha e na adega, são determinados por factores naturais, pelo terroir e pelos humores da mãe natureza… raramente assim acontece.

A agilidade financeira, a disponibilidade material, a organização, a experiência… e os imponderáveis, o simples acaso, determinam de forma dramática a qualidade e a viabilidade dos grandes vinhos. Entre a visão poética, mas fantasista, de realizar todas as operações no tempo certo, esperando pelo momento perfeito para cada faina, e a realidade, vai uma monumental distância.

Atente-se, por exemplo, na data de marcação da vindima, momento crucial para o sucesso da campanha, instante preciso e precioso que determina a qualidade da matéria-prima, conjuntura decisiva para a elaboração de qualquer vinho. Sem boas uvas, sem uvas excelentes, não é exequível conceber um grande vinho. Um ou dois dias a mais, ou a menos, e as consequências serão substancialmente diferentes, prejudicando ou enaltecendo o potencial de cada variedade. Porém, na vida real, nem sempre se consegue vindimar a tempo, na altura perfeita para cada casta. Os imprevistos e as dificuldades podem surgir de todos os lados, desde a dificuldade em encontrar a roga para os dias em causa, em encontrar trabalhadores para vindimar naquelas datas, à dificuldade, para quem vindima à máquina, de encontrar uma máquina vindimadora disponível para aquele instante. Mas também, nos anos mais peculiares, a operação pode tornar-se impossível quando todas as variedades parecem querer madurar em simultâneo, redundando no entupimento da adega, na incapacidade estrutural de acomodar tantas uvas no mesmo curto espaço de tempo.

Outras putativas dificuldades poderão advir de dificuldades de tesouraria, drama que, de forma inquietante, afecta tantos e tantos produtores nacionais, sujeitando muitos a uma gestão muito apertada dos activos. Contrariedades financeiras que resultam de dramas transitórios de liquidez de tesouraria ou, nos casos mais trágicos, de dívidas acumuladas que impedem a compra de matérias indispensáveis e corriqueiras para o vinho, produtos como garrafas, rolhas… ou análises químicas periódicas. Para não falar dos encargos realmente pesados como a compra de barricas e demais facturas cíclicas do vinho. Tantos e tantos engarrafamentos são sucessivamente adiados, comprometendo a saúde e grandeza dos vinhos, por simples falta de capacidade financeira para suster o custo de engarrafamento. Quantos vinhos de excelência se têm perdido por falta de capital para comprar vidro e rolhas?

Finalmente, a desorganização, a endémica incapacidade lusitana para o planeamento, para programar datas futuras, para traçar um plano de actividades… que se sabem ser cíclicas, fatais e indispensáveis em determinados momentos do ano. Por evidente desmazelo e desordem o aprovisionamento de rolhas não é garantido, os rótulos não são pensados, as datas de engarrafamento não são acauteladas, obrigando a atrasos sucessivos, a urgências e precipitações, a custos suplementares por imposição de horas extra, condicionando a feição dos vinhos por simples inércia.

Que mesmo assim germinem todos os anos em Portugal tantos vinhos superlativos, é extraordinário. Mas quantos mais poderiam nascer, e melhores, se as condicionantes da epidémica falta de liquidez e, sobretudo, da desorganização tão lusitana, se pudessem eliminar?

 

Texto publicado originalmente no suplemento Fugas do jornal Público em 22 de Janeiro de 2011

 

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publicado às 09:23

Vinhos de celebridades

por Rui Falcão, em 01.12.10

 

O vinho desperta paixões, amores súbitos e impetuosos, desejos e entusiasmo, calor e arrebatamento, ocasionalmente desvirtuando conceitos tão elementares como a razão ou a simples racionalidade, inebriando e elevando o espírito para considerações que a sensatez nem sempre perfilha. Ao vinho, para além da celebração dos elementos e dos valores da terra, insistimos em querer associar uma imagem de sofisticação e prestígio, impregnando-o de apontamentos de esplendor e fascinação, assumindo-o como uma das metáforas modernas dos conceitos de aristocracia e dignidade.

Talvez por isso o vinho se tenha transformado num enorme terreiro de atracção, num íman forte e seguro que seduz e empolga tantas personagens aparentemente alheias e distantes do universo do vinho. Porque se algumas das celebridades se envolvem por pura paixão, por entusiasmo impetuoso, muitos outras arribam a este universo impelidos pela simples vontade de realizar mais um negócio, de conquistar uma nova audiência, de aproveitar o prestígio social associado à envolvência do vinho.

São muitas as celebridades que se têm deixado enfeitiçar pelos prazeres do vinho, de cantores a futebolistas, de actores a pilotos de automóveis, de cineastas a golfistas. Alguns, poucos, muito poucos, quase renunciaram a carreiras com maior ou menor sucesso, motivados por uma paixão genuína pelo vinho, convertendo-se em viticultores dedicados, em produtores a tempo inteiro. Outros, a larguíssima maioria, limitaram-se a aproveitar o espaço oferecido pelo vinho para vender um nome, para promover os seus interesses pessoais, para se associarem a um produto que consideram de luxo. Outros ainda, determinados por razões filantrópicas, decidiram oferecer o seu nome para causas humanitárias, por beneficência, para o conforto dos que mais necessitam.

Uma das ocorrências mais afamadas instituiu-se em Portugal, no Algarve, sob o nome de Adega do Cantor, nome que evoca a carreira de Cliff Richard, ainda hoje um dos nomes mais queridos da canção popular inglesa… em Inglaterra. Quem não conhecer os vinhos do cantor, vendidos sob os rótulos Vida Nova e Onda Nova, terá tendência para prontamente esboçar um sorriso trocista, antecipando um qualquer vinho sem alma nem substância. Não é seguramente o caso! Os vinhos algarvios de Cliff Richard afirmam-se entre os melhores da região, consagrando e promovendo a denominação Algarve de forma radiante… tendo mesmo sido determinantes para a revitalização da produção de vinho no Algarve.

Mas ninguém assume um caso de entusiasmo mais evidente pelo vinho que Gerard Depardieu e Sam Neill, dois actores consagrados, dois actores que abdicaram de uma carreira cinéfila mais prolongada para se dedicar por inteiro ao vinho, convertidos em homens do vinho, afastados das lides do cinema para se dedicar à terra. Sam Neill, especialmente celebrizado pelo seu protagonismo nos êxitos “Parque Jurássico” e “O Piano”, regressou à sua Nova Zelândia natal para edificar a adega Two Paddocks, especializando-se na produção de vinhos com a casta Pinot Noir, alcançando algum expressão nacional e internacional com os seus vinhos. Gerard Depardieu, por seu lado, passou a viver para o vinho e para as vinhas, assumindo a governação directa do seu Château de Tigné, em Anjou, onde se entretém em múltiplas experiências e infinitos ensaios, oferecendo alguns resultados encorajadores e merecedores de aplauso generalizado. Depois, em colaboração directa com o famosíssimo enólogo consultor Michel Rolland, bem como com a benesse de Bernard Magrez, financeiro apaixonado pelo vinho, mantém ainda interesses em mais de uma dezena de outros pequenos projectos vinícolas espalhados pelo mundo.

Igualmente presentes, embora menos envolvidos no dia-a-dia, surgem os nomes do cantor Sting, exilado na Toscânia, onde produz o vinho Chianti Il Serrestori, e de Mick Hucknall, vocalista da banda Simply Red, produtor de vinho na Sicília, nas encostas vulcânicas do Monte Etna, onde dá corpo ao vinho Il Cantante, elaborado com a casta tinta Nero d’Avola. A completar o ramalhete surge ainda o nome do célebre cineasta Francis Ford Coppola, um clássico entusiasta do vinho, presente em Geyserville, em Alexander Valley, na Califórnia, desde o final dos anos setenta do século passado.

Seguem-se uma mão cheia de nomes, mais ou menos famosos, mais ou menos interessados, por vezes através de autorizações de herdeiros, capazes de apadrinhar rótulos em retorno de direitos de autor ou, nos casos mais notáveis, de contribuições para obras de beneficência ou de suporte para fundações. Entre eles contam-se nomes tão díspares como Bob Dylan, Elvis Presley, Marilyn Monroe, Barry Manilow, Rolling Stones, Mariah Carey, Barbara Streisand, Kiss, Celine Dion ou Olivia Newton John.

Mas existe ainda uma lista de nomes mais ou menos empenhados na celebração do vinho, nomes que incluem personalidades tão diversas como o actor Dan Akroyd, a cantora Madonna, o ex-piloto de automóveis Mario Andretti, o golfista Greg Norman, o actor Antonio Banderas, o estilista Salvatore Ferragamo, o mais famoso quarter-back de futebol americano de todos os tempos, Joe Montana, ou mesmo Wayne Gretzky, o mais aclamado jogador de hóquei no gelo de sempre.

Uma lista que continua a aumentar, mesmo em tempo de crise. Os últimos a anunciar os seus planos para estabelecer uma adega foram o futebolista espanhol Iniesta, logo após a conquista do Mundial de futebol de 2010, pela selecção espanhola, e o actor norte-americano Johnny Depp, desejoso de começar a produzir os seus vinhos numa das muitas casas que possui no sul de França.

 

Texto publicado originalmente no suplemento Fugas do jornal Público em 20 de Novembro de 2010

 

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publicado às 13:04

Um Fugas a não perder

por Rui Falcão, em 24.11.10

 

É já no próximo sábado que irá ser publicada mais uma edição especial do suplemento Fugas do jornal Público, inteiramente dedicada ao vinho, numa parceria entre a Revista de Vinhos e os colaboradores do jornal Público.

Como não poderia deixar de ser nesta época do ano, a edição especial será dedicada aos vinhos do tempo frio, aos vinhos de Inverno, aguardentes, espumantes e a toda a gastronomia que a estação sugere. Vão ser mais de 100 páginas sobre o tema, numa edição imperdível.

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publicado às 08:32

Uma contradição admirável

por Rui Falcão, em 07.11.10

 

A velha Europa porfia em manter um debate sem fim sobre as hipotéticas vantagens dos vinhos de lote em prejuízo dos vinhos estremes, numa discussão que se arrasta há décadas… sem qualquer fim conclusivo possível. Essa controvérsia, cuja materialização é ainda mais explícita em Portugal, confina uma das batalhas mais acaloradas entre os principais actores do vinho, dividindo o terreiro entre os que defendem a arte do lote e os que preferem a expressão de uma só variedade, juntando na mesa da controvérsia enófilos, enólogos e produtores. As posições tendem a radicalizar-se, nos dois lados, deixando pouco espaço para um debate sereno e proveitoso.

A visão tradicional, portuguesa e europeia, insiste fervorosamente nas virtudes do lote, no préstimo evidente da junção das diferentes variedades, na divisão mais ou menos equitativa das tarefas… e dos riscos. Aproveitar o que cada casta pode oferecer, combinar as virtudes e minorar as imperfeições, são as vantagens intuitivas da arte do lote. Porque a lógica e a prática indiciam que, se conseguirmos captar e combinar a estrutura singular de cada variedade, numa combinação judiciosa de castas, todas diferentes, todas únicas e todas particulares, o resultado final será sempre maior e melhor que a mera soma aritmética das partes. Como princípio teórico, a afirmação é elementar e de fácil reconhecimento. E sempre, ou quase sempre, tem sido essa a lógica europeia. Em Portugal, o conceito foi mesmo norteado à sua condicionante mais extrema e radical. Por isso, sempre se plantaram vinhas misturadas, de variedades mescladas e entremeadas, associando, por vezes, castas brancas e tintas no mesmo talhão, segundo as tradições intemporais. Com esta prática, aparentemente insana, preenchiam-se e diluíam-se os vícios privados de cada casta, numa agremiação proveitosa para o conjunto.

O raciocínio, apesar de aparentemente inquestionável na argumentação, é incerto nos paradigmas… porque a prática se encarrega de desmentir a sustentabilidade do discurso. Em Portugal, como no mundo! Os exemplos saltam à vista e expressam-se de forma eloquente no modelo dos elegantes vinhos estremes de Chardonnay e Pinot Noir da Borgonha, nos extraordinários e complexos Riesling da Alemanha, Áustria e Alsácia, nos seguros e voluptuosos Grüner Veltliner da Áustria, nos exóticos Sauvignon Blanc do Loire e Nova Zelândia, nos tensos e ríspidos Assyrtiko da Grécia, nos eléctricos Chenin Blanc do Loire, nos terrosos e complexos Nebbiolo do Piemonte. Exemplos mais que perfeitos de vinhos estremes, de uma só casta, conotados com a excelência, com o melhor que se faz no mundo.

Porém, nem todas as castas têm capacidade para trabalhar sozinhas, nem todas são suficientemente completas para poder brilhar a solo. Tal como numa orquestra, há quem tenha talento, quem consiga sobressair e notabilizar-se de forma autónoma… e quem não tenha. Numa orquestra todos os músicos são indispensáveis, todos são necessários, mas nem todos têm competência e subtileza para ser solistas. São poucas as castas no mundo, e em Portugal, com capacidade para vingar isoladas, com vocação para serem solistas, com capital para serem divas.

Por isso a maioria expressiva dos vinhos nacionais resulta de lotes, de combinações de castas, de associações que, em alguns casos, podem chegar ao número incrível de mais de uma vintena de castas agremiadas. Mesmo procurando com afinco, dificilmente encontraremos exemplos francos e fartos de vinhos tintos portugueses excelsos de uma só casta… se nos abstrairmos do modelo clássico da Bairrada, com a casta Baga, muitas vezes discretamente temperada com um pouco do sal e pimenta que outras variedades acrescentam.

Porém, e numa aparente contradição com a lógica reinante nos vinhos tintos nacionais, nos brancos portugueses são os vinhos estremes que melhor se expressam e que melhor traduzem o terroir. Assumindo um raciocínio inverso, nos vinhos brancos será mais fácil e intuitivo recorrer a vinhos estremes que a vinhos de lote para ilustrar a magnificência nacional. O exemplo clássico assenta, invariavelmente, nos extraordinários Alvarinho, na única casta portuguesa que é pedida e identificada pelo nome, naquela que é uma das melhores variedades brancas internacionais. Mas os exemplos não se estreitam no Alvarinho, alargando-se ao conjunto das melhores castas brancas nacionais.

Veja-se o paradigma do Encruzado, casta branca soberana do Dão, capaz de condensar vinhos notáveis e excepcionalmente longevos, como o atestam tão bem os imponentes brancos do Centro de Estudos de Nelas ou os sólidos Quinta dos Roques Encruzado. Mas contemplem-se igualmente os exóticos Loureiro da região do Vinho Verde, vinhos leves e perfumados, tão apaixonantes como os frondosos Quinta do Ameal ou Afros Loureiro. Ou os austeros e graves Bical da Bairrada, tão bem representados na envergadura no Quinta Formal, de Luis Pato. Ou ainda nos tensos e volumosos Avesso e nos citrinos e frescos Arinto.

Uma incongruência espantosa, especialmente quando, numa autoflagelação de difícil compreensão, se desaproveitaram anos a fio, sustentando uma alegada menoridade das castas brancas portuguesas!

 

Texto publicado originalmente no suplemento Fugas do jornal Público em 23 de Outubro de 2010

 

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publicado às 10:27

Vindimas 2010

por Rui Falcão, em 23.10.10

 

Este é o tempo por que todos esperam, o momento das grandes decisões, o epílogo de um ciclo frenético que teve início na primavera, depois do longo período de dormência que o Inverno induziu na vinha. Chegou a quadra das vindimas, o instante que marca o zénite do ano agrícola, a conclusão do ciclo normal do desenvolvimento da videira, a data em que a fruta tão desejada é finalmente colhida. Há meses que milhares de pequenos e grandes produtores, espalhados por todo o território nacional, anseiam por estes dias. Há meses que o dia-a-dia de milhares de produtores transcorre na expectativa desta estação, antecipando estratégias e esperança, numa espera nervosa face aos possíveis humores e desamores da natureza. Afinal, um ano de trabalho duro e de investimento pesado pode agora, na recta final, ser comprometido pelo acaso de uma simples chuvada fora do tempo, por uma granizada inoportuna, por uma onda de calor extemporânea, por uma praga ou acidente qualquer. Sofrer até ao último instante é o fado que os produtores repisam todos os anos.

Depois de uma série de três anos atípicos, anos bons mas excêntricos, depois de uma sucessão de vindimas desconformes com os padrões regulares das diferentes regiões nacionais, segue-se agora uma vindima arredia, extremada e inesperada. Por ora ainda é cedo, demasiado cedo para poder avançar com prognósticos definitivos sobre a qualidade dos vinhos resultantes. Como sempre há quem confesse ter os melhores vinhos de sempre a fermentar ou a descansar na adega, quem se lastime por prever ou experimentar um ano miserável… e quem se abstenha de avançar antecipadamente com prognósticos precipitados. Do que todos se carpem, sem excepção e de forma homogénea por todo o território continental, é da estranheza do ano, dos sucessivos avanços e recuos, da dificuldade em gerir uma vindima capaz de deixar muitos produtores e enólogos à beira de um ataque de nervos.

Na memória de muitos vão permanecer os ardis ininterruptos em que esta vindima se enredou e continua a enredar. Sem razão aparente para os acontecimentos, apesar das muitas teorias vigentes, algumas variedades adiantaram-se de forma inoportuna, apresentando graus alcoólicos prováveis intimidantes no final do mês de Agosto, indiciando estarmos perante mais uma vindima apressada e antecipada. Muitos produtores e enólogos tiverem de regressar tumultuosamente de férias, quase a meio de Agosto, face à iminência de uma vindima premente. E assim foi até que se percebeu que muitas outras variedades, algumas delas temporãs, se apresentavam estranhamente atrasadas, muito longe da maturação ideal, impossíveis de ser cortadas tão cedo. Num ápice a maioria parou de vindimar, por todo o país, dando tempo ao tempo, esperando que entretanto a chuva não medrasse. Desde o início de Setembro a vindima tem progredido aos soluços, com interrupções constantes, adiamentos recorrentes, alterações súbitas de reinício de vindima, mesmo em cima do acontecimento, obrigando a uma gestão de adega complicada e dolorosa. Sempre com a secreta esperança de que o calor persista e de que a chuva não arribe de vez para ferrar uma desagradável partida.

Para algumas castas o ano assevera-se assaz complicado, muito longe dos parâmetros desejados de maturação. Imagina-se que algumas nem sequer terão já condições para medrar, face ao arrastar do desenvolvimento neste mês de Outubro. Em contraponto, outras variedades evidenciaram-se nesta vindima, oferecendo resultados e promessas muito além do que regularmente lhes é exigido. Uma evidência mais, para além do que o bom senso já alvitrava, do proveito e necessidade de trabalhar com diversas castas, dos benefícios da arte do lote, da conveniência de se apoiar na imensa diversidade morfológica e genética das castas portuguesas. Quem pôde contar com uma colecção alargada de castas conseguiu obter este ano um salvo-conduto para transformar um ano difícil num conjunto de oportunidades. Quem se auto limitou a três ou quatro variedades, as mais badaladas, sentirá este ano maiores dificuldades para consagrar vinhos memoráveis. Uma lição de vida que os nossos antepassados dominavam como poucos…

Tem sido pois uma vindima desesperante, incrivelmente distendida no tempo, extenuante e desafiante. Uma vindima verdadeiramente capaz de separar o trigo do joio. Porque, depois de numerosos anos de bonança, de anos consecutivos excepcionais pela consistência e qualidade, sem desafios de monta, onde todos beneficiaram de condições sem paralelo para apresentar vinhos admiráveis, segue-se agora uma vindima de gestão arrevesada, onde o timing, a sensibilidade e a capacidade técnica vêm à tona. Porquanto se nos anos amigáveis todos têm capacidade e potencial para compor grandes vinhos, nos anos problemáticos só os melhores o conseguirão. Não será pois difícil perceber que 2010 será uma daquelas vindimas onde a mestria de enólogos e produtores será verdadeiramente posta à prova, capaz de consagrar o melhor e o pior, consoante a arte e o engenho de cada um. Um ano para os enólogos mas também para as melhores vinhas, para os verdadeiros terroir diferenciados, paras as vinhas de excepção que não precisam de maquilhagem na adega para mostrarem o que valem.

Um ano incomparável para fundamentar referências, um ano potencialmente desastroso para alguns fogos-fátuos…

 

Texto publicado originalmente no suplemento Fugas do jornal Público em 9 de Outubro de 2010

 

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publicado às 12:13

Autenticidade

por Rui Falcão, em 09.10.10

 

A peculiar dicotomia modernidade versus tradição presume ser uma das questiúnculas mais antigas da humanidade, reflexo de conflitos geracionais e filosóficos que abalam e alimentam controvérsias desde os primórdios da civilização. Os argumentos brotam profusamente pelos dois campos, sem conclusão possível, numa contenda eterna entre crenças e mentalidades discordantes. E se o sentimento se assevera transversal a toda a sociedade, no mundo do vinho os seus efeitos são exacerbados pelo peso da palavra tradição, pela relação quase espiritual entre o homem e o vinho, perceptível na função religiosa que os cristãos lhe associaram. Porém, nunca a disputa se mostrou tão acesa quanto hoje, num período de globalização de gostos e costumes, numa época de dúvidas e incertezas, numa era de recessão profunda e de crise existencial de valores.

O vinho, que se enuncia como um sinal dos tempos, consegue retratar de forma fiel os paradigmas de cada época. Nos distantes anos oitenta, o mundo experimentou, pela primeira vez, um período decisivo de globalização e renovação tecnológica, durante o primeiro grande ciclo de expansão mundial do consumo de vinho, até aí praticamente confinado ao conforto dos lares mediterrânicos. Uma época marcada pela explosão e posterior triunfo de uma cultura claramente consumista que premiava a gratificação instantânea, a vitória do individualismo sobre o colectivo. Foi o tempo da afirmação ecuménica dos países do novo mundo, uma internacionalização de gostos e práticas sem precedentes no mundo do vinho. Foi também a hora do abraço decidido às novas tecnologias, à revolução no equipamento das adegas, à descoberta e implementação de muitos dos postulados actuais da enologia moderna. Foi, tal-qualmente, o momento em que os países europeus, mesmo nas regiões mais conservadoras, sentiram os primeiros sintomas de pressão para alterar e suavizar o perfil dos seus vinhos, oferecendo vinhos mais evidentes e directos, mais frutados e prazenteiros que o costumeiro.

Foi a oportunidade da explosão das micro produções, dos vinhos de garagem, dos vinhos de alta expressão, a etapa do exagero de extracção, peso e volume. E também, conformemente, a época de ouro para a afirmação social do vinho, elevando a posse de uma vinha ao estatuto supremo de elevação social.

Hoje, os tempos são substancialmente diferentes! Estaremos, no rescaldo de mais uma recessão global, a entrar numa nova era de expectativas e comportamentos. Para além de uma crescente preocupação com a optimização da relação qualidade/preço, a autenticidade e genuinidade, são alguns dos novos valores capitais do vinho. Vinhos com histórias para contar, feitos por pessoas que têm um rosto, que se empenham e que sujam as mãos. Vinhos autênticos, elaborados com castas locais, com variedades indígenas, que espelhem a diversidade de cada local. Capitaneados por um sentimento de rejeição aos excessos do passado, potenciados pela crise provocada por esses destemperos, o pêndulo começa a oscilar para um estilo de vinhos que tem sido categorizado como “tradicional”.

O desejo de mudança, tal como a resistência à mesma, não são inauditos no longo percurso da humanidade. Muitos dos vinhos que hoje qualificamos como tradicionais já foram em tempos profundamente subversivos e revolucionários. Mas não escondo o meu prazer pessoal neste regresso a vinhos que descrevem de forma mais fidedigna o local de nascença, exsudando frescura e autenticidade, em contraponto aos vinhos mais inflamados e heróicos, mas a quem faltam referências geográficas e culturais.

Os tempos modernos apresentam-se pois de feição para muitos dos vinhos nacionais, súmulas quase perfeitas do estilo por que esta nova era suspira. Vinhos como o Quinta das Bágeiras Garrafeira branco 2008, procedente da Bairrada, nascido de vinhas velhas, mostra exemplar da terra onde nasceu. Vasto de horizontes, com uma boca épica, desafogada e quase mastigável, gigante na dimensão… mas equilibrada e serena, sem fogos-de-artifício inconsequentes. Um branco sério e sem artifícios barrocos, puro e cristalino, capaz de envelhecer em garrafa durante mais de duas décadas. Ou vinhos como o Terrenus branco 2009, nado no Alentejo, arrancado às vinhas velhas da Serra de São Mamede, em Portalegre, imolando um nariz desconcertante pela exuberância faustosa das ervas aromáticas, com um tsunami de coentros, salsa e manjericão a invadir os sentidos, numa onda imparável e avassaladora. Depois, a boca surge fresca e untuosa, levemente mineral, cheia e estruturada, canonizando um branco profundamente original e capaz de arrebatar o coração.

Igualmente único surge o Quinta dos Termos Selecção 2007, um vinho da Beira Interior, de Belmonte, natural das faldas da Serra da Estrela, longe de todas as regiões consagradas, longe de quase tudo. O que não impediu o produtor de sancionar este tinto carregado de personalidade, rude nos taninos, mas vigoroso e cheio de alma, exemplo seguro de uma região sóbria e alterosa. Um tinto puro que gere um lote de castas tão díspares como a Trincadeira, Rufete, Touriga Nacional, Tinta Roriz e Tinto Cão, num estilo alternativo que se saúda. Ou mesmo o Doda 2008, acrónimo que personifica a junção de vinhos provindos do Douro e Dão, numa irmandade entre dois dos nomes mais sonantes dos vinhos nacionais, Dirk Niepoort e Álvaro de Castro. Austero e rígido, inflexível e carrancudo, consegue juntar no mesmo copo um lado sensível e suave com uma faceta despótica. Difícil e autoritário, ainda precisa de tempo em garrafa, com a certeza de o poder guardar durante décadas. Um vinho de carácter vincado para os amantes dos grandes vinhos clássicos.

 

 

Texto publicado originalmente no suplemento Fugas do jornal Público em 2 de Outubro de 2010

  

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publicado às 12:36


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