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Um prémio sexista

por Duarte Calvão, em 27.03.14

Deve ser muito bom, e trazer grandes proveitos, ser considerado “o melhor do mundo” em qualquer coisa, mas não consigo compreender como é que as chefes de cozinha aceitam de bom grado um prémio que as discrimina como este que a brasileira Helena Rizzo agora recebeu da revista Restaurant. Porque é que uma chefe de cozinha deve ser distinguida de um chefe de cozinha num prémio? Dispensando os lirismos e as tiradas poéticas, e sem pôr em causa os méritos de Rizzo ou das que a antecederam neste prémio sexista (Anne-Sophie Pic, Elena Arzak e Nadia Santini), a cozinha delas deve ser considerada “feminina” ou com uma “sensibilidade” diferente da masculina? Daqui pouco, se os média mundiais continuarem a ecoar sem critério estes prémios onde se adivinha que quem manda é quem patrocina, ainda vamos ver uma edição do guia Michelin dedicada aos restaurantes chefiados por homens e outro aos chefiados por mulheres…

 

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publicado às 18:00


13 comentários

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De Nuno Vasto a 27.03.2014 às 23:03

Tem razão, mas um prémio "Melhor Chefe do Mundo" (ou "Melhor Restaurante do Mundo") já é uma ideia tão tonta que a discriminação de género é um mero detalhe.

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De Teresa a 28.03.2014 às 20:11

É uma pena não haver aqui um botão "Like".
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De Paulina Mata a 29.03.2014 às 00:54

Para começar, concordo completamente com o Nuno Vasto.

Mas continuando, o ideal era que as oportunidades fossem idênticas e o tratamento fosse idêntico. Mas não são. E não sendo, há que recorrer a ferramentas que facilitem atingir a situação ideal. Nalguns casos podem ser quotas (que não sendo o ideal, nem o desejável, são uma ferramenta necessária). Noutros casos este tipo de distinções, que chamam a atenção para o facto de haver mulheres neste mundo das cozinhas, e para o papel delas e para aquelas que se destacam. Para de certa forma criar role models que possam incentivar outras.
Ninguém disse que elas faziam uma cozinha diferente, não sei se fazem ou não, e cada caso é certamente um caso. Mas acho que não era nisso que este prémio se baseava. Mas em destacar mulheres cozinheiras que atingiram uma posição importante. E há prémios destes em muitas outras áreas. Na ciência também os há. Talvez não sejam necessários, ou talvez ainda sejam, quando há tanta história recente de prémios Nobel que foram atribuídos a homens por trabalho feito por mulheres nas suas equipas, em que eles tiveram um papel mais do que secundário....

O mundo não é o ideal (e infelizmente parece que estamos em época de grande retrocesso) e infelizmente estas ferramentas têm que ser usadas. É que sem elas mantinha-se ainda mais uma situação de desigualdade, em que os homens aceitam de bom grado prémios mantendo situações que as discriminam a elas. Mas isso não importa...

Pois é Duarte, o mundo não é o ideal, não há igualdade e desculpe lá, mas posts como os seus são uma boa prova disso. Mais do que isso, defender a existência de uma pretensa igualdade, é uma forma de perpetuar a desigualdade real.
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De Miguel Pires a 29.03.2014 às 12:15

É engraçado que ao querer incentivar o género feminino por supostamente não ter as mesmas oportunidades no mundo da cozinha o prémio deste ano atribuído à Helena Rizzo , descrimina quem com ela trabalha em dupla, ao mesmo nível, o Daniel Redondo. Como seria se fosse o Daniel a ganhar um prémio sozinho?

Curiosamente, de todos os países que conheço, o Brasil deve ser o que tem mais chefes mulheres de destaque: Helena Rizzo , Roberta Sudbrack , Ana Luiza Trajano , Mara Salles , Manu Buffara , Bel Coelho, Bella Masano , Andrea Kaufmann . Uma boa parte delas já ganhou, ou ganha regularmente pelo menos um prémio dos Guias da Veja (os mais importantes do Brasil) e nunca necessitaram de um prémio especial para elas. Do mesmo modo que Dilma Rousseff não necessitou de quotas para chegar a presidente do Brasil.

Antes que comecem a dizer que sou sexista deixem-me que vos diga que dos 20 anos que trabalhei em publicidade, 15 deles foram com duas chefes mulheres, que sempre preferi a chefes homens. Ah! e ambas com filhos: Uma com 2 filhas e outra 4 filhos.

Continua a haver discriminações sexistas? Sim. Como continua a haver racismo. Contudo, não vejo ser criado um prémio para o melhor chefe negro ou de outra minoria étnica (no ocidente).Aceitar este tipo de prémios não é lutar contra a desigualdade, mas sim aceitar essa desigualdade. Está é a leitura que eu faço.
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De Paulina Mata a 29.03.2014 às 13:51

Miguel é um destaque para uma chef mulher, não é um prémio para o restaurate. Não vejo problema por aí. TODOS os outros chefs que ganham prémios não fazem o trabalho sozinhos e por vezes pouco passam pela cozinha. Não pões a questão nessa situação? E os outros que lá estão no dura, os sub-chefes que por fezes fazem praticamente tudo?

Quanto aos exemplos concretos que dás é para quê para provar que elas são capazes? É verdade que são, tanto quanto eles. Agora isso não significa nada relativamente ao que se discute. São apenas casos. É sempre perigoso olhar para a árvore e não para a floresta. Pode levar a argumentos muito demagógicos.
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De Duarte Calvão a 29.03.2014 às 18:26

Paulina, como é que um prémio que se destina exclusivamente a mulheres pode contribuir para a "igualdade"? Chama a atenção para o trabalho delas, mas da maneira errada, ou seja, dá ideia de como não têm capacidade para ganhar prémios de "melhor do mundo" aos homens, teve que se criar um outro a que só elas podem concorrer. É uma "distinção" que só contribui para inferiorizar as mulheres na cozinha.
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De Paulina Mata a 29.03.2014 às 20:18

Duarte

Quando a diferença em termos de número e, ainda mais, de visibilidade é tão grande como a que existe, leva a que as listas, os convites para congressos e apresentações... sejam completamente preenchidos com os nomes mais habituais - os dos homens que existem numa percentagem muito mais elevada e a quem é dada habitualmente muito mais visibilidade.
Estes prémios só para mulheres dão visibilidade a algumas mulheres que, temos que concordar, não são piores cozinheiras do que os homens que normalmente aparecem. Dando-lhes visibilidade aumentam a possibilidade de serem lembradas e de surgirem em situações que não são exclusivamente para mulheres.

Mais do que isso, para as coisas progredirem, é preciso massa crítica. Não havendo é difícil a igualdade. Para isso é importante que existam role models, que mostrem que é possível, que incentivem... Não há role models para as jovens que estudam cozinha. Há todo um mundo muito masculino, com "estelas" exclusivamente masculinas. Não havendo é difícil que se atinja massa crítica, com ela qualidade e a possibilidade de competir com justiça e igualdade, sem distinguir homens e mulheres (a situação ideal para todos).

Conhece-me bem e sabe que não acho que mulheres sejam melhores, nem piores que os homens, nem vice-versa. Que defendo que o mérito deve ser o critério de selecção. Mas isto só é possível se as regras do jogo e as oportunidades forem iguais para todos. Mas não são, nem as oportunidades são iguais, nem o que se exige às mulheres em termos pessoais, familiares e profissionais é igual ao qie se exige aos homens. Se elas atingem o mesmo ponto, na grande maioria das situações a exigência, e a quantidade de trabalho são bem maiores para elas. Em todas as áreas de actividade.
Tenho imensa pena, porque acredito muito sinceramente que homens e mulheres eram todos mais felizes com mais justiça e mais igualdade de oportunidades e tratamento. Mas estamos longe (e receio mesmo que em época de retrocesso também neste aspecto) e assumir que há igualdade é não olhar para os problemas, é esconder a cabeça na areia, é perpetuar a situação.

Acredite que mais que tudo gostaria que estes prémios não fossem necessários, que não existissem. Mas, infelizmente, eles são necessários.

Aliás podemos analisar de igual forma uma situação que não envolve homens emulheres, mas os restaurantes e cozinheiros de dois países - Portugal e Espanha. A massa crítica em Espanha é bem mais elevada, por cada restaurante com um nível de qualidade X em Portugal, há pelo menos 10 ou 20 em Espanha com a mesma qualidade. O que acontece quando as estrela Michelin são atribuídas num guia conjunto? O que acontece quando são feitas as votações para of 50 Best? Todos sabemos. Nunca mais há visibilidade alguma, nunca mais há oportunidades e por cá vamos continuando sem ela. Se houvesse um guia separado se calhar a visibilidade era diferente, e com isso o incentivo para a progressão, a criação de massa crítica e a evolução estimulada, e o nível subiria.

Quando as situações não são idênticas, tratá-las em conjunto é injusto e perpétua a diferença. Em tudo. São precisas ferramentas para obrigar a mudar a situação, para estimular, para criar modelos.
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De Duarte Calvão a 30.03.2014 às 11:04

Bem, não vale a pena estar a repetir argumentos, só acrescentaria que as chefes de cozinha que receberam este prémio já se tinham afirmado no mundo da cozinha, nenhuma era propriamente uma desconhecida, e que já poderiam ser exemplos para as jovens chefes de cozinha. E, para se ter ideia do absurdo que é criar prémios destes, chamo a atenção para o comentário que o Miguel Pires aqui deixou. Acharia bem que se criasse um prémio para o Melhor Chefe Negro do Mundo? Daria certamente "visibilidade" ao vencedor (ou vencedora), mas será que serviria de "role model" para alguém ou era apenas uma manifestação inaceitável de racismo?
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De Paulina Mata a 30.03.2014 às 22:52

Qualquer coisa que dissesse mais era repetir argumentos. Aliás já apresentei todos estes argumentos aqui, noutras situações.

Relativamente às chefes já se terem destacado, é verdade. Mas o prémio não é, tanto quanto sei, um prémio revelação. É um prémio que consagra a carreira de uma mulher, que tem especificidades bem diferentes, embora muita coisa em comum, com a dos homens. Elas t~em um bom trabalho, mas importa dar-lhes visibilidade.

Quanto à pergunta que faz, sobre o prémio para o melhor chefe negro do mundo. Se houvesse discriminação e razões para o fazer, porque não? Racismo não é criar ferramentas para combater a desigualdade. Racismo é mais ignorar o problema. Que existe. Não sei se nas cozinhas se justifica, não sei o suficiente da situação.
Mas sei por exemplo que nalgumas universidades (fora de Portugal) com regras rigorosas para promover a igualdade e combater a discriminação, há regras sobre a composição de painéis, participação em congressos... de forma a promover a igualdade de oportunidades e justiça. E há "quotas" para mulheres, para negros ou de outras minorias. É que se não aparecem, até se pensa que não existem... e é sempre mais fácil lembramo-nos daqueles que fazem parte do nosso "clube". Pode até não ser discriminação, pode ser apenas o que vem à cabeça porque está mais perto. Mas isto não chega... Estas regras obrigam a pensar fora do nosso círculo, a descobrir outros trabalhos. a promover a igualdade.

Venha depressa o dia em que nada disto seja preciso! O mundo seria bem melhor. Infelizmente não está para breve.
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De teixeira a 30.03.2014 às 11:32

Embora o debate pareça circunscrito a três, ouso intervir e dizer que divirjo que os "Guias da Veja" sejam os mais importantes do Brasil. A afirmação é discutível, por razões que me reservo não comentar. Segundo, a premiada, participou efusivamente do Roda Viva com o Adriá. Chegou a ser advertida pelo mediador por conta da euforia bilingue que, gostosamente, fez questão de exibir para o cozinheiro estrangeiro. O blog tem cópia para quem quiser conferir. Seria, no entanto, reservada no trabalho, segundo um post do Mesa Marcada. Mas, Andy Warhol explica. Não frequento o Mani , primeiramente, por não concordar com os preços que lá praticam e porque considero a proposta gastronómica pedante. Idiossincrasias à parte, no que é substantivo, sugeriria, a quem interessar possa, despretensiosamente , a ida ao City Alvalade ver o filme, dirigido por uma mulher, árabe, "O Sonho de Wadja ". Quem sabe, esse bem desenvolvido debate sobre sexismo, melhor chefe feminima e afins, pudesse mudar o eixo e ficar subalterno a aspectos mais relevantes da situação da mulher no mundo actual .
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De Paulina Mata a 30.03.2014 às 22:37

Teixeira

Os debates aqui são abertos a quem quiser participar. Não há debates circunscritos.
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De teixeira a 31.03.2014 às 11:37

Paulina, com todo o respeito, informas o óbvio! Mas, obrigado pelo incentivo. Cumprimentos.
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De Paulina Mata a 10.05.2014 às 15:30

Encontrar este excelente texto de Carlos Alberto Dória fez-me voltar a este tema.

http://ebocalivre.blogspot.pt/2014/04/mulher-na-cozinha-sinho-nao-que.html#comment-form

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