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Um vintage do ano da seca

por Duarte Calvão, em 08.06.14

É nestas ocasiões que ponho à prova a minha capacidade de reconhecer bons vinhos. Não de os descrever “organolepticamente” ou de explicar de forma aprofundada porque gosto deles, mas tão simplesmente perceber se os vinhos são maus, banais, razoáveis, bons, muito bons, extraordinários…Se, para mim, valem o preço que se pede por eles. Estávamos na sala do restaurante Feitoria, no hotel Altis Belém, onde depois iríamos almoçar, mas antes a família Symington deu-nos a provar seis vintages da lendária Quinta do Vesúvio (na foto, de divulgação), das décadas de 1990 e 2000, que culminaria com a apresentação do mais recente, de 2012, e de outro vintage do mesmo ano, mas da Dow’s Quinta da Senhora da Ribeira. A sala estava repleta de craques da prova de vinhos e, após escrever num papel o ano daquele que, de entre os seis iniciais, mais tinha gostado, desafiei dois peritos sentados na minha vizinhança a dizerem-me qual o que tinham gostado menos. Tal como esperava, o que tinha sido mais ao meu gosto era aquele que mais lhes desagradara…


O vinho em questão tinha sido o primeiro a ser provado, de 1994, e achei-o rico de aromas, complexo e elegante, sem aquela doçura esmagadora que encontramos em tantos vintages menores de idade. Pronto a ser bebido, como diria o enólogo Charles Symington, que capitaneava a prova, o primeiro lote que ele tinha feito para a casa. Seguiram-se os de 1995, que estranhamente (na minha modestíssima opinião) ainda precisa de uns anos, apesar da pouca diferença que fazia do meu preferido, o de 2000, claramente “jovem” de mais para ser bebido, um 2004 muito mais equilibrado e subtil, um 2007, o primeiro que recebeu a designação de “Capela do Vesúvio”, e um 2009, ambos para mim impossíveis de avaliar provavelmente pela sua juventude.


Charles Symington explicaria que estes seis tinham sido seleccionados por serem de anos secos ou muito secos, tal como o que seria apresentado, de 2012, que recordamos bem por ter sido um Inverno literalmente sem chuva. A ponto de várias videiras morrerem. Quando a chuva chegou, já na Primavera, o solos, segundo o enólogo, estavam tão secos como se estivéssemos no pino do Verão de um ano normal. Pois bem, perante a minha pouca predilecção por vintages novos, tendo em conta o que tinha achado dos que tinha provado de anos mais recentes, estava preparado para o pior quando o 2012 foi finalmente servido. Qual nada, gostei imenso, tanto do Vesúvio quanto do Senhora da Ribeira, jovens sim, mas elegantes, e já se bebem com muito agrado, embora mantenha a minha perspectiva de que este tipo de vinho precisa de umas décadas em cima até estar pronto. A má notícia é que para o mercado português há apenas cerca de 600 garrafas de cada, ficando as 2.400 restantes (de cada) para os mercados externos, sobretudo Inglaterra, EUA, França e Bélgica, para onde os Symington exportam mais. Os preços previstos em Portugal são de 65 euros (Vesúvio) e 75 euros (Senhora da Ribeira) e valem bem o que se pede por eles, sobretudo para quem tem condições de os guardar em boas condições.


Terminada a prova, fomos para a mesa, para um almoço preparado pelo chefe João Rodrigues, de uma simplicidade sofisticada a que ele nos está a habituar, sempre com grande solidez nas harmonias de ingredientes e pontos de cozedura. Constava de um carabineiro do Algarve com suave salada de pepino e o seu tártaro, que foi acompanhado pelo branco Altano 2013, muito interessante e de preço extremamente acessível, e por um borrego (estranhamente, no menu estava escrito cabrito…) de leite alentejano, puré de cenoura, laranja e gengibre, legumes da Quinta do Poial, com tintos Pombal do Vesúvio e Quinta do Vesúvio, ambos de 2009, que não me deixaram grande memória, mais uma vez talvez devido à juventude. À sobremesa, um dos casamentos mais felizes da gastronomia mundial, queijo Stilton com porto vintage, este da Quinta dos Malvedos 1965, espectacular na sua potência e concentração, a mostrar o bem que faz a passagem do tempo a estes vinhos. Ah, e também consultei mais três peritos que estavam na minha mesa, escrevendo de novo o meu ano favorito entre os vintages provados. Bem, a verdade é que ninguém disse que 1994 era o melhor, mas também ninguém disse que era o pior. Já serve de consolo. Ver www.symington.com

 

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publicado às 20:09



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