Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




IMG_7629.JPG

O Esporão foi uma das primeiras empresas no Alentejo a explorar o filão do enoturismo. Este gesto pioneiro associado à notoriedade e prestigio dos seus vinhos faz com que a sua adega, em Reguengos de Monsaraz, seja uma das mais visitadas da região. Não será difícil adivinhar a principal razão de uma visita a este produtor. Porém... e se lhe disser que a deslocação já valeria a pena nem que fosse só para conhecer o trabalho do chefe Pedro Pena Bastos no restaurante da herdade?

 

 

Faz algum tempo que acompanho à distância o que este jovem chefe de 25 anos vem fazendo, desde que há um ano e meio se mudou para o Alentejo, junto com a sua mulher Teresa, também ela cozinheira (embora neste momento dedicada às tarefas de backoffice). Antes do Esporão, o Pedro passou por restaurantes de topo, como o Belcanto (Lisboa) ou o Ledbury (Londres) - ambos com 2 estrelas Michelin - e teve uma breve passagem pelo Grémio Literário (já como chefe) e por um projecto próprio, A Revolta do Palato, empresa tipo “chef ao domicilio” que formou com a Teresa.

 

Na verdade, mais do que o seu percurso chamou-me à atenção as imagens de pratos com um ar apelativo que o Pedro coloca com alguma regularidade no Instagram (ferramenta fundamental para acompanhar o que se passa no mundo gastronómico). É certo que por vezes o olhar engana e o que parece atraente desvanece na prova. Porém, quando há pouco mais de uma semana apontei a sul tinha um feeling de que não ia ao engano. Ainda assim procurei refrear os ânimos, afinal, como alguém disse um dia, a expectativa é a mãe da merda.

 

IMG_7682.JPG

 

IMG_7854.jpgpezinhos de porco com shiso e beignet de creme de cogumelos silvestres, creme de limão e sal de pinheiro 

 
 

FullSizeRender.jpg

 

Se receios houvesse logo a primeira sessão de snacks haveria de me tranquilizar já para não falar do pão e, sobretudo, da incrível manteiga envelhecida (ambos produzidos na casa) com um sabor “cheesy”, naquele ponto, a 5 minutos de entrar no campo do ranço (só que não). Pow! Outro “prato de pão” vitorioso - que incluía ainda, como não poderia deixar de ser, os azeites da casa, dos quais gostei bastante do Selecção, com notas de maçã verde, relva... enfim, bem ao meu estilo.

 

E se os primeiros indícios prometiam, o que se seguiu depois superou as expectativas e deixou-me muito bem impressionado. Não tivemos um momento aborrecido e, mesmo nas propostas aparentemente mais previsíveis, houve sempre um (valente) twist a fazer a diferença.

 

O Pedro é aquilo que habitualmente se chama um “chefe de produto” e não faz, nem reinterpreta, nem reinventa receitas tradicionais portuguesas. A natureza e os ingredientes que encontra à sua volta servem de inspiração e desafio ao que faz e, ainda que utilize, também produtos não autóctones, a sua abordagem aproxima-o mais dos movimentos nórdicos, ou, sobretudo, de Napa Valey - onde encontra algumas semelhanças com a envolvente do Esporão -, do que dos chefes com quem trabalhou.

 

Esta característica de distanciamento face aos restaurantes por onde passou, revela uma maturidade e uma segurança pouco comuns para um chefe de apenas 25 anos. A sua cozinha não é disruptiva, nem tem que ser – até porque o Esporão não é propriamente um produtor de vinhos underground. Contudo, os seus pratos revelam criatividade, audácia, sensibilidade e profundidade de sabor e, nas conjugações, reina uma harmonia quase sempre com um toque desafiante à espreita.

 

IMG_7562.JPG

 lagostim do rio, pickle de de maçã e aneto do campo, c granizado de bróculos e óleo de pinheiro. 

IMG_7600.JPG
 tártaro de robalo, copita e capuchinha (sumo de capuchinha feito com oleo de colza e molho de peixe).
 

IMG_7626.JPG  salmonete, espigos, musserons (cogumelos) e rebentos de videira

 

IMG_7571.JPG

estufado de cereais fermentados, ovo e trufa

 

IMG_7572.JPG

 Cordeiro de leite, ervilhas e mel. Cebolas acídulas 

 

IMG_7578.JPG

 veado, raízes e manteiga noisette 

 

IMG_7683.jpg

leite de ovelha, flores e trigo sarraceno ; morango, pevide e flor de larangeira. 

 

IMG_7681.JPG

  

Esta aposta do Esporão numa cozinha de autor pode parecer arriscada, uma vez que muitos visitantes, sobretudo, estrangeiros, possam estar à espera de uma cozinha portuguesa mais tradicional, como houve no inicio com Júlia Vinagre. Contudo, para mim, faz todo o sentido esta aposta num registo contemporâneo (que já tinha sido iniciado com o anterior chefe Miguel Vaz), até porque se identifica com os valores da marca, que procura estar sempre um passo à frente.

 

E depois há uma aposta inteligente na integração dos vinhos, que vão lindamente com a cozinha de Pena Bastos. Nas harmonizações, sobretudo, do menu mais extenso, encontram-se colheitas mais antigas (como as visíveis na foto de cima), além de experiências, ambas, dificeis de encontrar no mercado (ou porque não foram produzidos nesse sentido ou porque é provável que estejam esgotadas), mas existentes na loja. Ou seja: de uma cajadada só mostram o portfólio vínico, vinhos menos conhecidos da casa (que podem servir para demonstrar o comportamento de uma casta consoante o terroir, por exemplo) e, também, a sua capacidade de envelhecimento - a contrariar a ideia feita que surge, por vezes, de que os vinhos alentejanos não envelhecem bem.

Não é esta, também, a função do enoturismo de uma empresa do ramo? 

 

Se os vinhos do Esporão já eram uma boa razão para uma ida ao Alentejo, desconfio que se comece a ir cada vez mais, também, pela comida. Refiro-me inclusive àqueles senhores dos pneumáticos franceses. 

 

Informações úteis: o restaurante está aberto todos os dias ao almoço e funciona apenas com menus. O de três pratos custa 40€, o de cinco, 55€ (+20€ com vinhos) e o de sete, 70€ (+30€ com vinhos). Há ainda um menu vegetariano de 4 a 5 pratos por 45€. 

 

Contactos: Reguengos de Monsaraz (Distrito de Évora – Alentejo). Reservas - Telefone (entre as 10h e as 19h): (+351) 266 509 280
. Email: reservas@esporao.com // Horários -  Enoturismo: das 10h às 19h; Restaurante: das 12h às 16h; Esplanada: das 12h às 15h; Wine bar e loja: das 12h às 19h.

 

 

Leia ainda:

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:39


3 comentários

Imagem de perfil

De Só entre nós - he a 18.05.2016 às 13:49

Já lá fomos três vezes e saio sempre com a mesma pergunta na cabeça... Onde é que está a estrela? O trabalho do Chef Pedro Pena Bastos é fenomenal.
Sem imagem de perfil

De João Teixeira Gomes a 19.05.2016 às 01:38

Miguel,
Como se lembrará, encontrámo-nos em Março durante a semana em que lá fui. E comentei-lhe o impressionado que fiquei com a experiência.
O título do seu post reflecte a 100% o que senti quando acabou o meu almoço lá:
- Candidato a uma das minhas melhores refeições do ano e
- A segurança de que o Pedro vai ser muito importante.
Abraço.
Sem imagem de perfil

De Alexandre Silva a 19.05.2016 às 13:00

Parabéns Miguel pelo texto feito à Cozinha do Pedro Pena Bastos, ele merece o apoio de todos, e os Jornalistas têm um papel muito importante nisso, são vocês, mais do que ninguém que espalham a palavra e têm o dever de elevar a cozinha Portuguesa.
o Pedro está a fazer um trabalho notável, uma cozinha única, cheia de personalidade com um estilo muito vincado e consegue explorar na sua plenitude o produto Alentejano.
É sem sombra de dúvida um dos "cozinheiros" da sua geração.
Parabéns Pedro.

Alexandre Silva

Comentar post



Pub


Os autores

Duarte Calvão (perfil)
Miguel Pires (perfil)

Porquê?

Três autores há vários anos ligados à gastronomia e vinhos criaram este espaço para partilhar com todos os interessados os seus pontos de vista sobre o tema (ver "carta de intenções").

Pub


Siga-nos no facebook


Mesa Marcada no Twitter


Confira os premiados e as listas...



Pub


Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Pub





Calendário

Maio 2016

D S T Q Q S S
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
293031

Comentários recentes

  • Teixeira

    Ser vegetariano é uma tendência crescente. Sim, in...

  • Teixeira

    Errata: Paulina Mata. Professora de Mestrado em Ci...

  • Adriano

    Entendo. Não concordo que seja "irreversível". É u...

  • Manuel

    Qual é o critério que define um restaurante para o...

  • Teixeira

    Ser vegetariano é uma tendência crescente. Sim, in...