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Quando em finais de Maio de 2015 visitei a Taberna do Mercado, de Nuno Mendes, em Londres, gostei muito de falar com António Galapito, o chefe executivo da casa. Foi uma refeição memorável, em que experimentámos quase a carta toda. No final, lá apareceu ele, com o seu ar de miúdo, bem disposto e meio desajeitado na forma de comunicar (com três gestos em cada duas palavras). Nos 15/20 minutos que falámos deu para perceber que adorava o que fazia e que lhe estava dar um grande gozo, tal como a Nuno Mendes, estar ali, naquela zona mais alternativa de Londres, a fazer uma cozinha portuguesa com um valente twist e completamente fora do padrão do restaurante very typical luso no estrangeiro.

 

Pelo diálogo e, mais tarde, por outras conversas que tive com Nuno Mendes, percebi que Galapito era um cozinheiro com personalidade a quem era permitido (diria mais, até, estimulado) que pensasse com ousadia, criasse e fizesse as suas propostas, isto sobre uma matriz definida por Mendes, claro.

 

Nunca cheguei a perceber o que era de um e o que era de outro, nem creio que isso fosse importante, mas obviamente que tendo trabalhado com o prestigiado chefe português desde os tempos do Bacchus, onde chegou com 17 anos (apenas com uma pausa pelo meio, com passagens por Portugal e pelo Lyle’s, de James Lowe, no regresso a Londres) seria normal que tivesse sido bastante influenciado por ele.

 

Achando que era a altura de matar simbolicamente o pai (a interpretação é minha), António Galapito decidiu aceitar a proposta de umas amigas da namorada, proprietárias do aparthotel-boutique The Lisboans, próximo da Sé, e regressar a Lisboa para comandar, agora sozinho, o seu primeiro restaurante.

 

Contudo, à primeira abordagem, Galapito respondeu com um não, pois não tinha grande vontade de abandonar Londres. Porém, em Dezembro último, ao visitar o espaço algo mudou. "Eh pá achei logo que nos identificávamos com aquilo”. O jovem chefe de 26 anos (faz 27 em Dezembro) diz que observou tudo muito calado mas em pulgas por dentro. “Cheguei a casa comecei a divagar com a Becas”, começa por contar, referindo-se à namorada, Inês Pereira, que será a responsável pela sala. “Este espaço parece que se encaixa no que queremos fazer. Comida muito maluca, que está sempre a mudar, vinhos naturais...muitas vezes vais a restaurantes e as coisas não encaixam e aqui encaixaram-se logo”.

 

Achei piada à expressão “comida muito maluca”. Galapito ainda hesitou quando utilizou o termo mas logo desistiu. O restaurante já tem nome, Prado, e a abertura está prevista para finais de Novembro. A sua ideia é adoptar o conceito “farm to table” (do produtor à mesa), com uma carta com poucos pratos (6), que serão servidos o dia inteiro, reforçada por um quadro de “especiais” ao almoço e ao jantar, que poderão somar, no total, umas 20 propostas. “Num dia pode ter 10, no dia seguinte pode ter 20”. Galapito explica a possível oscilação: “Num determinado dia recebes um produto especial e fazes um prato mesmo que a quantidade seja mínima. Quando acabar, acabou, risca-se do quadro”. Tudo isto tem muito a ver com o facto de não querer receber a papinha já pronta, como acontece em muitos restaurantes. “Vamos comprar uma carcaça porco preto de 120 kg. Ou uma carcaça de 200kg do Jacinto e trabalhar os vários cortes”, exemplifica, adiantando ainda que não pretende comprar carnes curadas. “Vou fazer porco e vaca maturada e enchidos menos curados”.

 

Ouvi-lo falar assim, de rompante, parece um pouco em delírio. Porém, ainda que com algum entusiasmo natural à mistura, fala de forma séria e com conhecimento. Não se trata de fazer experiências à toa. “São coisas que tinha na Taberna do Mercado mas vou querer aprofundar mais aqui”. A grande diferença, segundo Galapito, é que em Londres havia um conceito de fazer uma cozinha lusa e no Prado ele quer sentir-se livre e não ter que ir por esse caminho. “Não tenho que ficar no espartilho da cozinha portuguesa. O produto será nacional, mas a cozinha não necessariamente”. E dá como exemplo: “não haverá uma caldeirada, mas pode haver algo que lembre”.

 

À partida a ideia é trabalhar com ingredientes sazonais, locais e frescos e que a comida seja de “pouca intervenção”, com pratos no meio da mesa para partilhar, sem grandes distinções entre entradas e principais, e que quase tudo venha da grelha, onde pretende usar dois tipos de madeira: oliveira e cepas de vinhas. Esta última, segundo ele “dá um fumado mais leve e doce na boca”. Na cozinha, Galapito terá a companhia de outros colegas lusos vindos de Londres. “Dois deles, trabalharam comigo na Taberna”.

 

Outro aspecto interessante (e muito importante para ele) é a parte vínica. Apaixonado por vinhos naturais, Galapito, que terá como sommelier a espanhola Maria Rodriguez (que trabalhou com Leonardo Pereira no Areias do Seixo), quer ter uma carta essencialmente de vinhos portugueses de intervenção mínima, “bio, biodinâmicos e naturais”. Para isso andaram recentemente em trabalho de campo durante duas semanas (ele, a Inês a Maria) visitando produtores portugueses cujo trabalho apreciam e cujos vinhos já conheciam, em parte, de Londres - para quem ache que tu isto é só blah blah, pode dar uma espreitada no seu Instagram e confirmar.

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 O Prado, abrirá no piso térreo do The Lisboans, na Travessa das Pedras Negras, a dois passos da Sé.

  

Em termos de preços, Galapito aponta para 15/20 euros ao almoço (com um copo de vinho) e 20/30 euros, ao jantar. “Mas podes gastar muito mais”, refere. Por enquanto ainda não há um número de contacto mas para quem quiser comunicar com eles, deixa o email: info@pradorestaurante.com

 

Já estou a ver várias pessoas a torcerem o nariz a tanto entusiasmo e a fígado de tamboril. O tempo o dirá, mas não estarei sozinho ao dizer que é sempre bom sentir mais uma brisa de ar fresco a passar por Lisboa. Uma cidade com o seu estatuto tem de conseguir acolher restaurantes com características diferentes. Pelo menos assim o espero. Pumba!

 

 

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publicado às 12:56



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