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O imbondeiro é uma árvore de grande porte, considerada uma árvore sagrada, inspirando poesias, ritos e lendas. A múcua é o fruto do imbondeiro, um fruto em que a parte comestível é seca, ou seja, não tem sumo. Desfaz-se na boca quase como se se estivesse a comer suspiros  e o sabor é adocicado com uma ligeira acidez.

Se se dissolver a múcua em água a ferver obtém-se uma bebida fresca com um sabor muito próprio e agradável. Foi uma das coisas que descobri no cocktail de apresentação da Semana Gastronómica de Angola (17 a 23 de Fevereiro) no Restaurante Terraço do Hotel Tivoli.
Ali tomei (mais uma vez) consciência do pouco (quase nada) que conheço de cozinha africana. E também de um facto que sempre me intrigou muito - porquê tão poucos restaurantes de cozinha africana em Portugal? É um tipo de cozinha que acredito que agrade muito aos portugueses. Temos uma ligação tão forte a África. Uma grande comunidade africana a viver em Portugal. Porquê tão poucos restaurantes? Não consigo encontrar uma explicação.

No cocktail, para além da Quisangua Mukua, a bebida que referi, havia pequena doses de algumas entradas, pratos e doces do extenso menu apresentado por Duda Camenha, cozinheira e estilista angolana, nesta acção integrada na Black Fashion Week Lisboa. Não deu para formar uma opinião, mas despertou-me (muito) a curiosidade e a vontade de aprender e experimentar mais, de modo a que Kitaba, Kiamza, Muamba de Ginguba, Fumbua, Mufete, Kissaca, Paracuca e outros termos passem a ter um significado concreto.

Uma leitura ao menu chamou-me a atenção para uma das entradas cujo ingrediente principal eram larvas. Passado alguns minutos ofereceram-me uma pequena dose. E lá me aventurei.

Engraçado, até agora todos os insectos, larvas ou afins que comi eram moles ou estaladiços. Estas larvas tinham uma textura bem diferente, eram carnudas, servidas fritas e muito condimentadas. Pareciam quase pedaços de carne frita.

Se quiserem descobrir o que é Menha'há'dungo ou comer uma Muamba de dendém é uma boa oportunidade.  Se resolverem experimentar o petisco que mostro em cima, acho que deve acompanhar muito bem a Caipirinha mukua.

 

Contactos:

Restaurante Terraço- Hotel Tivoli - Av. da Liberdade, 185 - 1269-050 Lisboa
T: 213 198 934



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publicado às 08:55


2 comentários

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De Pedro Schacht Pereira a 20.02.2014 às 15:47

Cara Paulina Mata,
Uma resposta minimamente séria à sua pergunta sobre o porquê da escassez de restaurantes de cozinha africana em Portugal teria de passar pela consideração do nunca assumido mas ubíquo e insidioso racismo português, que vota à quase total invisibilidade as culturas dos muitos africanos que habitam entre nós, muitos deles portugueses como todos os demais. Mas deixo essas considerações para outra oportunidade. Creio que no entanto levanta uma questão cuja consideração contribuiria para uma maior e mais efetiva projeção internacional de Lisboa como capital gastronómica, à qual eu adiciono mais algumas, à guisa de resposta indireta: porque razão as cozinhas das culturas que habitam o espaço lisboeta (e não são apenas africanas!) ainda não foram assimiladas e transformadas numa gramática gastronómica lisboeta? Porque razão a "cozinha lisboeta" é ainda a dos nossos avós e bisavós? Nada tenho contra essas magníficas e respeitáveis iguarias que hoje em dia são recuperadas pelas novas tascas e neo-cafés--são esforços que merecem o nosso reconhecimento. Mas porque razão os estabelecimentos de "fine dining" ainda não se debruçaram sobre o quase inesgotável potencial
oferecido pela diversidade gastronómica quotidianamente disponível na cidade de Lisboa? Não são apenas as alheiras e o magnífico peixe português que são ingredientes portugueses: os quiabos e a farinha de mandioca, para mencionar apenas dois exemplos, são igualmente portugueses, e são-no há séculos. Receio que os exercícios de fusão patentes nos restaurantes de topo reproduzam apenas tendências visíveis noutros países; no entanto, há toda uma paleta de cores e sabores disponível no património gastronómico de uma cidade como Lisboa, que permanece segregado das mesas de maior pedigree. Não tenho qualquer dúvida de que o salto em termos de reconhecimento internacional que todos achamos Lisboa (e o resto do país) ser capaz de dar só acontecerá quando essa segregação terminar: quando os alunos das escolas de hotelaria forem obrigados a calcorrear os restaurantes e mercados africanos, chineses, paquistaneses, etc. em busca de inspiração para a invenção de novos pratos. Porque razão a cozinha brasileira deu já esse salto: porque finalmente se entendeu no Brasil que não era imitando as tendências alheias que lá se chegaria. Porque razão é Lima, no Peru, uma das capitais gastronómicas mundiais? Porque há muito tempo a cozinha limenha é uma cozinha verdadeiramente crioula, que com garbo e mestria incorpora os ingredientes da sua herança pré-hispânica àqueles que lhe chegaram de África, de Espanha, do Japão, etc. É por isso uma cozinha inimitável, mas por isso mesmo exportável. Não falta criatividade em Portugal, mas parece-me que ela ainda anda muito espartilhada por um conceito muito paroquial de Portugalidade. O mesmo paroquialismo que permite que os afro-portugueses sejam ainda cidadãos de terceira (hoje em dia os demais somos cidadãos de segunda...), colados a estereótipos sociais e culturais que vêm de um tempo que todos nós julgamos morto e enterrado, mas que ainda matiza o quotidiano nacional.
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De Miguel Pires a 21.02.2014 às 01:37

Caro Pedro, gostei muito desta sua reflexão e das as questões que levanta. Irei aproveitar este seu comentário para um dos próximos posts. Muito obrigado.

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