Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Photo 16-05-14, 22 48 17.jpg

 

No ano passado foram 12. Este ano quase duplico e chego a 20 (na verdade 23) pratos de restaurantes portugueses que me marcaram no ano de 2014. Uns são apenas apontamentos, outros tomam  a forma tradicional de 'prato'. Uns são tradicionais, outros de cozinha contemporânea, como é o caso deste ceviche de José Avillez, do seu mais recente restaurante em Lisboa: o Mini Bar. Fui lá logo na primeira semana e voltei, três ou quatro vezes, durante o ano. Em todas pedi este ceviche que leva tudo o que deve ter: o pescado (gamba do Algarve, neste caso), o leche de tigre, a lima, a cebola e o milho. Abocanha-se (literalmente) o citrino com os ingredientes no topo. Depois... é um disparo de sabores de notas agudas, que nos faz querer chorar por mais. Impossível não repetir.

 

 

Photo 29-12-14, 16 02 30.jpg

 

Num restaurante moderno chamar-lhe-iam "chips de pataniscas". Na Tasquinha do Oliveira, em Évora, chamam-lhes aquilo que são: pataniscas. E que pataniscas! Bacalhau na medida certa e uma fritura exemplar a deixar um crocante fantástico. Uma delícia. Provavelmente as melhores que já comi. 

 

Photo 11-10-14, 20 10 06.jpg

 

Foi na Tasca da Esquina de Lisboa, de Vítor Sobral, que nasceu o conceito de tasca contemporânea, que por aí agora tanto prolifera. Considero a original (esta) a melhor e gosto particularmente do toque actual que dão à cozinha tradicional, como nesta sardinha marinada, com pimentos (molho) e batata (pastel), de Hugo Nascimento. 

 

Photo 05-12-14, 22 46 10.jpg 

Incluir um prato do receituário português da importância de um cozido à portuguesa num menu de degustação de um fine dining, com todos os seus elementos e apresentação cuidada, sem comprometer o sabor, não é para todos. O caldo deste prato do Belcanto de José Avillez é simplesmente maravilhoso e não necessita de ter a carne e os enchidos para percebermos que eles passaram por lá umas longas horas. 

 

Photo 04-08-14, 23 26 40.jpg

 

Há por aí muito wagyu ou kobe beef (como erradamente por vezes aparece escrito) em que se vende um nome, sem entregar a qualidade correspondente. Não foi o que se passou no Vila Joya com estes lollipops de carne bovina de sabor tão incrível como a sua textura sedosa. A ideia era passá-la pelo caldo de cogumelos, como um shabu shabu. Muuuuu, Irasshaimase!  

 

Photo 25-01-14, 22 16 17.jpg

 

Tudo ao molho e fé no Ljubomir, como numa fanfarra de Kusturica em pantufas (leia-se: comfort food), no Bistro 100 Maneiras, em Lisboa). Cogumelos, folhas verdes, ovo escalfado, pão torrado, legumes baby.. tudo e mais um queijo. Da ilha. 

 

Photo 07-04-14, 22 50 13.jpg

 

Se tivesse de eleger apenas um prato em 2014, seria este, do Feitoria: folhas cruas e cozinhadas com tutano, pão torrado e jus de veau. F-o-d-a - s-e ! (pardon my english).

 

Photo 28-11-14, 21 01 39.jpg

 

Búzios com sabores asiáticos. Tão bonito, como bom. Mais um prato dos mil e um diferentes que Toamoaki Kanazawa deve ter criado em apenas um mês. No Tomo, em Algés. 

 

photo.jpg

 

Ambiente cool e comida bem feita são dois conceitos nem sempre fáceis de conjugar numa mesma frase. Kiko Martins conseguiu (ou está a conseguir) desde que há pouco mais de um mês abriu A Cevicheria no Príncipe Real (Lisboa). O chef Kiko não é um purista e, embora este ceviche siga a tradição, ele dá-lhe um toque de prato de conforto, com o puré de batata doce, sem trair a tradição. Já era tempo do fenómeno latino americano contemporâneo (uma das tendências dos últimos anos na vizinha Espanha) dar o salto até terras lusas.  

 

Photo 29-12-14, 16 06 18.jpg

 

Muitas vezes de tanto querermos descobrir novos restaurantes, ou de nos fixarmos sempre nos mesmos, acabamos por não dar a devida atenção a quem vem trabalhando bem há muito tempo. É o que acontece com Ricardo Komori, do Bonsai (também no Príncipe Real) que num dia em que fui atrás do seu (bom) ramen arrasou-me com este usuzukuri de lírio - o fantástico peixe que nos chega dos Açores e que cada vez mais é utilizado pelos nossos (bons) restaurantes japoneses. 

 

Photo 29-12-14, 16 04 02.jpg

 

Pedro Lemos, o nosso mais recente estrela Michelin (no restaurante que leva o seu nome, no Porto) tem mão para ir buscar o sabor da cozinha das nossas mães e juntar-lhe a técnica da cozinha clássica francesa. Um bom exemplo é este salmonete com lulinha, legumes e molho do assado

 

Photo 30-11-14, 20 55 40.jpg

 

Leonardo Pereira está à frente do restaurante do Hotel Areias do Seixo (Santa Cruz,  próximo de Torres Vedras) e estou em crer que será um caso muito sério no nosso país, assim lhe dêem tempo e condições (mínimas). Os quase 5 anos que passou no Noma, em Copenhaga (o tal melhor restaurante do mundo) marcarão certamente a sua cozinha. Contudo, no óptimo jantar do projecto Origens / Sangue na Guelra, mostrou caminhos para fazer uma ligação com a cozinha portuguesa e os produtos locais. O melhor exemplo foi esta  a raia com molho de pitau, de comer à mão e lamber os dedos. 

 

Photo 16-08-14, 20 18 33.jpg

 

O jantar prometia ser um desastre. Agosto, restaurante cheio, serviço displicente, em praia alternativa da moda. Arrisquei pedir o pregado grelhado depois de ter visto os belos exemplares na montra. Deus meu... que até eu, agnóstico, me ajoelhei perante o sabor e a competência do mestre encarregue de lhe (e nos) tratar da saúde. Foi no Sitio do Rio, na Carrapateira (Costa Vicentina, Algarve).

 

Photo 04-12-14, 13 27 39.jpg

Achava que não era grande fã de bife tártaro, talvez porque nunca tinha comido nenhum especial. Este, de O Talho, foge ligeiramente aos cânones e é isso que me faz ir lá por ele. No essencial, a receita é respeitada mas o twist japa de o embrulhar numa alga nori (ainda que seja opcional) e de lhe acrescentar um apontamento de puré de rábano foi uma ideia fantástica. Quanto ao shot de vodka...na zdorovie!

Photo 10-10-14, 14 56 15.jpg

 

Adoro o Fortaleza do Guincho em qualquer estação, mas devo confessar que nos últimos dois anos tenho gostado particularmente dos menus de Outono, sobretudo, quando coincidem com a chegada de caça. Olhem para este prato de veado. Será preciso acrescentar algo? 

 

Photo 12-11-14, 14 18 48.jpg

Em Portugal valoriza-se a carne de vitela em detrimento da vaca velha, que acaba por ser exportada para Espanha. Contrariando um pouco o sistema, desde há 2 anos que o Vinum, em V.N. Gaia, lhe dedica uma semana especial. Este ano fui lá e sai estarrecido com a qualidade da carne e com o sabor limpo (percebe-se subtilmente a alimentação do animal, dado que a carne é maturada apenas o suficiente para que fique macia). Apreciei ainda a forma como é bem tratada no restaurante e o acompanhamento minimalista, com um tipo de pimento do País Basco. 

 

Photo 06-09-14, 22 35 24.jpg

 

Este bife de vaca dos Açores é macio, não pela maturação, mas pela necessidade. No Leopold (em Lisboa) não há fogão e, por isso, a maior parte dos produtos são cozinhados a vácuo, a baixa temperatura, numa "Roner". Há quem desconfie e insinue que é Marketing. Pois... mas se o resultado não fosse bom, não haveria estratégia de marketing que o sustentasse. Portanto, valorizo o engenho de Tiago Feio, sim, mas mais ainda a conjugação dos elementos neste prato: a carne fatiada, a pêra fermentada, a rúcula e a manteiga de ovelha Azeitão. 

Photo 08-12-14, 22 32 22.jpg

Nos últimos anos, sobretudo, não há restaurante estrelado no mundo que não tenha servido um prato de pombo. Não sou o seu maior apreciador e tenho levado com a dose com maior frequência do que gostaria. Contudo, dou o braço a torcer a este do L'And (Montemor o Novo), em que o chef Miguel Laffan nos atira à cara o sabor intenso próprio do bicho, equilibrando o conjunto com um risotto bem comfort, espicaçado por um toque vegetal de rábano.   

Photo 29-12-14, 16 03 06.jpg

Há muito que ouvia falar do cozido à portuguesa dominical do Nobre (Lisboa). Finalmente fui conhecer o fenómeno e sai a rebolar. O cozido é servido em buffet mas há o cuidado de ir repondo os elementos de forma a estarem sempre quentes (o que é diferente de serem apenas requentados no rechaud). O truque parece simples: usar ingredientes de qualidade e respeitar os tempos de cozedura. O problema é que a simplicidade nem sempre está ao alcance de todos.  

Aletria Inês.PNG

Leva imensos ovos, a aletria da Casa Inês (Porto). Abençoadas galinhas que os põem e mulheres que separam as gemas, juntam a massa, o leite e o açúcar e preparam o pecado para nosso deleite. Comê-la emparelhada com uma rabanada, foi como entrar num bordel de anjinhos da Victoria Secret, só que mais cheinhas e com glúten. 

 

Se chegou aqui já deve estar com fome e, por isso, a estes 20 pratos acrescento ainda 4 menções honrosas (que só não fazem parte da lista de cima porque há a mania de que os números têm de ser redondos): 

Photo 07-11-14, 14 41 02.jpg

 

Adorei o Bacalhau à Brás em versão "faça você mesmo à mesa", uma das entradas do menu de Outono/Inverno de João Rodrigues, no Feitoria. É diferente, divertido, saboroso e... resulta. Um chefe Michelin não deve nunca perder a capacidade de surpreender. 

 

Photo 03-08-14, 22 18 09.jpg

 

Fora do contexto parece estranho e por si só pouco valor teria. No entanto, esta alface de caule longo (que Hans Neuner planta numa horta, algures junto à N128, no Algarve), servida com um molho bérnaise (em jeito de 'dip'), no meio de um incrível menu de degustação do Ocean, em Porches (Algarve) acabou por se destacar. Pelo seu sabor amargo/doce e, ok, pela estranheza - Houve ainda um pão de sardinha, numa atitude de cozinha canalha num 2 estrelas Michelin, que podia estar aqui, mas não encontrei a foto.

  

Photo 27-06-14, 14 23 25.jpg

 

No Arola da Penha Longa, Milton Anes tem asas para voar dentro dos parâmetros do menu definidos com o chef star espanhol Sergi Arola. Eu gostei da sua liberdade na quase dezena de (pequenos) pratos do menu de degustação e, em particular, das asinhas de frango trufadas com sésamo  e molho de aves (à francesa). Se a Valenciana ou a Rio de Mel fechassem fazia do chef da Penha Longa o meu dealer em dias de bola.

 

Photo 22-05-14, 14 45 22.jpg

Deve a ser a sobremesa que mais vende em O Talho. Porquê? imaginem uma folha de arroz crocante (frita) polvilhada de açúcar em pó e lemon curd. Juntem-lhe uma colher de gelado de goiaba e parfaits de erva príncipe. É mesmo preciso escrever mais?  

 

 

Posts Relacionados: 

Doze pratos de 2013 (de chorar por eles em 2014)

 

Leia ainda:

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 08:56


5 comentários

Imagem de perfil

De Só entre nós - he a 31.12.2014 às 10:15

Destes maravilhosos pratos, experimentei dois deles: o cozido, no Belcanto, e o bife de vaca nos Açores, no Leopold. Estou totalmente de acordo quanto ao primeiro. O caldo é soberbo. Chega a ser incrível como consegue ter tanto sabor.

Quanto ao segundo... Eu gostei da carne, mas esteve longe de ser um dos meus pratos preferidos de 2014.

Já agora, os nossos pratos preferidos, divididos por entradas, pratos principais e sobremesas, também podem ser vistos no blog Só entre nós.
Imagem de perfil

De Artur Hermenegildo a 31.12.2014 às 11:45

Bela lista, Miguel. De fazer inveja. Daqui só comi o pombo do L'And.

O exercício é muito interessante, vou ver se me lembro de alguns pratos que me marcaram este ano para partilhar aqui.

No entanto, há um (que na realidade são três) que não posso deixar de referir aqui, até pelo facto de serem eventos únicos: os cozidos regionais do Nuno Diniz. Há três por ano, um do Norte, um do Centro e um do Sul e Ilhas. Todos imperdíveis. E em Janeiro é já o primeiro de 2015.
Imagem de perfil

De Miguel Pires a 02.01.2015 às 13:14

Obrigado, Artur. O cozido do Nuno Diniz já está minha wish list para 2015
Sem imagem de perfil

De João Faria a 10.01.2015 às 14:19

Da lista, tive oportunidade de experimentar a Sardinha Marinada (Tasca da Esquina); Bife Tártaro (O Talho) por sugestão do Miguel Pires, há uns tempos, numa troca de comentários; Bife de Vaca dos Açores (Leopold) e a famosa Aletria (Casa Inês).

Desses, o que mais me marcou foi o Bife dos Açores do Leopold. No geral, este foi o restaurante que mais me impressionou nos últimos anos, pela diferenciação e pºela qualidade surpreendente da comida (na altura experimentei todos os pratos disponíveis no menu, e todos me impressionaram, excepto o doce de feijão). Um restaurante a relembrar em 2015.

Aproveito para referir o The Yeatman, do chef Ricardo Costa. De tempos a tempos revisito este excelente restaurante, aproveitando o menu de almoço de elevada qualidade que permite experimentar 5 pratos (mais as oferendas do chef) por "apenas" 45€ (com copo de vinho incluído). Excelente qualidade preço, tendo em conta a soberba qualidade dos pratos. Relembro apenas a última sobremesa que provei por lá, ao almoço, na véspera de Natal - Arroz Doce com chocolate branco, mirtilos confitados, gelado de citrinos (na verdade não me recordo do nome que ouvi pela primeira vez do citrino em questão) e wasabi.

Cumprimentos!

Sem imagem de perfil

De Bacalhau a 10.02.2015 às 15:05

Obrigado por partilhar esta fantástica selecção .... muito bom ...

Comentar post



PUB


Os autores

Duarte Calvão (perfil)
Miguel Pires (perfil)

Porquê?

Três autores há vários anos ligados à gastronomia e vinhos criaram este espaço para partilhar com todos os interessados os seus pontos de vista sobre o tema (ver "carta de intenções").

Mesa Marcada apoia:


Siga-nos no facebook


Mesa Marcada no Twitter


Confira os premiados e as listas...



Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Pub





Calendário

Dezembro 2014

D S T Q Q S S
123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
28293031

Comentários recentes

  • Artur Hermenegildo

    Ao que diz o Bloomberg, o Gaggan, nº7, irá fechar ...

  • Duarte Calvão

    É curioso, não tinha noção de que o êxito do Henri...

  • Adriano

    Juntando os erros ortográficos que dou aos que o t...

  • Adriano

    Gosto bastante da comida do Sá Pessoa. Também é do...

  • Faz de Conta

    É bom "conhecer" quem admiramos pelo trabalho demo...